notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

INADMISSÍVEL!!!

Há muitos, muitos anos, quando o nosso Portugal vivia sob regime totalitário, pobre e orgulhosamente só, neste mês de dezembro, tempo de defeso da pesca da sardinha, de quando em vez vinha alguém bater à nossa porta a pedir uma esmola. Era assim que se dizia naquele tempo.

Minha mãe, nunca me falou sobre solidariedade, caridade ou fosse lá o que fosse, mas do pouco que tínhamos partilhávamos com quem vinha bater à porta da nossa pequena habitação, no típico Bairro de Troino, maioritariamente habitado por gente que retirava o seu sustento das frias águas do mar.

Foi nessa altura que aprendi a diferenciar a mão direita da esquerda. Quando minha mãe me mandava entregar a moeda de um tostão ou dois tostões à “pobrezinha” que aguardava pela esmola junto à soleira da porta de entrada de nossa casa.  Dizia minha mãe: “entrega com a mão do lado de cá” ou seja, a que ficava na direção da cozinha onde nos encontrávamos.
De facto nesse período eram duras as condições de vida das pessoas que viviam ou sobreviviam com parcos recursos e praticamente sem qualquer tipo de assistência social pública ou privada.
Os tempos passaram, a ditadura caiu naquela agradável manhã da primavera, no dia 25 de Abril de 1974. Como país deixamos de estar “orgulhosamente sós” para passar a estar agradavelmente acompanhados de várias nações europeias, não numa federação, mas numa união.
Deixamos também de ter defeso da pesca da sardinha, porque esta partiu para outras paragens e porque os barcos com que os setubalenses pescavam, tal como todos os outros pescadores foram abatidos, segundo diretivas da tal União.

Por outro lado quase que por magia, num curto espaço de tempo deixamos de ser pobres e começamos a pensar que éramos ricos. Mas… o mesmo mago que nos transformou de pobres em ricos a determinado momento resolveu de novo brincar e, vai daí, voltou a transformar-nos de ricos em pobres.

Mas esta coisa de passar de “cavalo para burro” é mais complicado… e os novos pobres, a grande maioria que nem sequer sabia o que isso era encontra-se  agora confrontada com sérios problemas, não só de adaptação à nova condição, mas sobretudo ao verem-se a braços com endividamentos para que foram empurrados pelas banca, sociedades financeiras e outras empresas do mesmo tipo.

Muitos de nós falamos, opinamos, porém desconhecemos muito da cruel e triste realidade que se vive paredes meias connosco. E, é assim que com a maior tristeza, constato que passados tantos anos, hoje sou confrontado com novos “pobrezinhos” que mais do que uma vez por semana vem bater-me à porta de casa, tal como acontecia à perto de sessenta anos.

Mas a minha maior tristeza reside no facto de numa das típicas ruas do meu querido Bairro de Troino, à noite, quando muitos de nós escutam as notícias, jantam, ou se ocupam das mais diversas atividades na internet, dezenas, ou centenas de pessoas fazerem fila para recolher uma refeição que caridosas mãos solidariamente amigas preparam voluntariamente para os nossos conterrâneos.

Ao ver este triste cenário na minha pobre terra, veio-me à mente a tal “pobrezinha” no tempo do “orgulhosamente sós” em contraponto com todos estes novos  “pobrezinhos” agora que estamos tão bem acompanhados.


Apenas uma palavra para definir esta situação: INADMISSÍVEL!!!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Foi hoje apresentado o livro da Arquiteta Inês Gato de Pinho

Foi hoje, terça-feira 3 de dezembro de 2013, apresentado publicamente, nos claustros do Palácio Fryxell, o livro de Inês Gato de Pinho, intitulado De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell.

A autora é uma jovem arquiteta, formada em Setúbal pela Universidade Moderna, onde se licenciou em 2004. Em 2006 concluiu uma pós graduação em Reabilitação Urbana e Arquitetonica no ISCTE com vista à obtenção do grau de Mestre. O livro é pois o resultado dos seus estudos tendentes à obtenção do seu mestrado.

A Inês dedica este seu livro ao avô materno, o conhecido Sr. Jacinto, agente da P.S.P. que ficou na memória dos setubalenses pelo seu porte e postura ímpar como polícia sinaleiro.  Seus pais são dois antigos escuteiros setubalenses. O Carlos pertenceu ao Corpo Nacional de Escutas, Ag. 59 e a Rosa foi membro da 1ª Companhia das Guias de Portugal, sedeada igualmente em S. Sebastião, na nossa cidade.

Pelo seu interesse histórico e porque o trabalho visa uma peça patrimonial, propriedade do Instituto Politécnico de Setúbal, esta Instituição propôs-se editar o presente trabalho de que ressaltamos o excelente aspeto gráfico e de grande qualidade a par de um invulgar formato de 0,30x0,30 o que permite apresentar reproduções que noutro formato não resultariam tão bem.

Mais do que debruçar-se sobre aquele imóvel, o livro abarca a própria cidade de Setúbal da qual podemos observar uma quantidade apreciável de excelentes reproduções fotográficas.


O custo do livro é de 20 € e desta obra foram editados um milhar de exemplares do qual eu já tenho o meu e recomento, sobretudo aos amigos setubalenses  que possam adquirir também esta peça de grande qualidade e interesse histórico.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ela vai apresentar o “Movidos pela Fé”

Cristina Paulino é formada em engenharia civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, com o mestrado em Gestão em Políticas Ambientais pela Universidade de Évora e para além de ser um antigo membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, foi também responsável pelas construções de diversas capelas em Portugal e Cabo Verde.

Esta senhora que serviu como co-responsável nacional pelas Relações Publicas da Igreja, em Portugal, “devora livros” e agora encontra-se às voltas com o original do MOVIDOS PELA FÉ o livro que conta a história da Igreja em terras Lusas desde o seu nascimento até à atualidade, abordando as mais diversas vertentes, sociais, geográficas, históricas e naturalmente religiosas e de serviço voluntário, contada de forma ligeira, porém rigorosa.


Embora Cristina Paulina seja uma destemida mergulhadora, adepta de grandes aventuras levadas a efeito nas profundezas dos mares, por montanhas ou desertos a apresentação publica do novo livro, na Casa da Baía, no sábado, dia 14 de dezembro pelas 17,30 deve ser menos complicada do que pisar as terras do deserto norte-americano onde a fotografamos, numa zona onde abundam cobras e lagartos.

Se não tiver oportunidade de a ir escutar, aproveite e faça já a reserva do seu exemplar do MOVIDOS PELA FÉ antes que o mesmo se esgote.
Perca de tempo

A internet tem destas coisas, tem a particularidade de não só aproximar as pessoas como também avivar algumas memórias que quase já se encontravam esquecidas, ou pelo menos esfumadas, como foi o caso daquela que agora aqui partilho.

João Teles é um nortenho, bom amigo, que serviu comigo no Centro Criptográfico do Exército, no Quartel-General, em Bissau, como militares recrutados para o serviço obrigatório que então vigorava em Portugal.

Eu pertenço à incorporação de 1969 e servi durante 27 meses na Guiné, numa altura em que se dizia que não deveríamos ali servir por mais de 18 meses, atendendo à insalubridade e tipo de guerra que se travava no território.

Acontece que tendo eu ido em rendição individual, era suposto só ser dispensado depois da chegada do meu substituto. Porém o tempo passava e nem o substituto chegava nem eu saía daquela colónia, oficialmente província ultramarina, quando o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) levava as suas ações de combate cada vez mais perto da capital.

Falava com o tenente, oficial de carreira que chefiava o Centro Cripto, no entanto o homem, com o seu jeito um pouco esquisito, tipo efeminado, insistia que eu só sairia da Guiné quando chegasse mesmo o meu substituto, ao que eu contrapunha com a argumentação de que se o mesmo nunca mais chegasse nunca mais eu sairia de lá. Porém, tudo não passava de conversa fiada, terminando sempre com a ameaça de levar um castigo pela minha “língua comprida” segundo ele…

Foi então que a oportunidade surgiu, e quando fui entregar algumas mensagens classificadas ao Chefe do Estado Maior, Tenente Coronel Salazar Braga, aproveitei para lhe ofertar o BALAFOM, uma revista policopiada que dinamizava conjuntamente com alguns escuteiros que se encontravam mobilizados nas diversas Províncias Ultramarinas.

Disse então àquele oficial que seria o ultimo BALAFOM, porquanto deveria estar de abalada, atendendo a que já tinha 27 meses de Guiné sem que o meu substituto aparecesse e sem que o chefe do Centro Cripto algo fizesse para resolver a situação. O oficial superior ouviu atentamente não disse nada a não ser desejar-me felicidades.

Passavam poucos minutos quando cheguei ao Centro Cripto, que distava alguns metros apenas do gabinete do CEM, já o tenente me esperava e de faces vermelhas ameaçava-me com uma “porrada” por ter ido fazer queixa dele. Lá lhe esclareci que não tinha feito queixa nenhuma e apenas partilhado o meu desagrado por ainda ali estar passados tantos meses sem data anunciada sequer para retornar a Portugal.

O que aconteceu não sei, o que foi falado desconheço mas o certo é que poucos dias depois, embarcava num boeing dos TAM (Transportes Aéreos Militares) e chegava a Lisboa onde fui desmobilizado depois de ter servido Portugal, durante 39 longos meses, incorporado no serviço militar obrigatório como o foram tantos milhares de jovens da minha geração.

O Estado Português soube ser generoso para com estes militares que arriscaram as suas jovens vidas e por isso mesmo, depois dos mesmos se reformarem, anualmente envia-lhes um cheque de 150 euros, brutos, a que serão deduzidos os naturais e inevitáveis impostos…

Estas memórias vieram-me à mente graças à internet, é que hoje logo pela manhã recebi uma mensagem do Teles que acompanhando a foto daquele distinto militar que foi Salazar Braga escrevia esta curta nota perguntando-me se me lembrava do oficial cuja foto anexava.

Obrigado Teles, velho amigo, que tão boas memórias guardo dos tempos em que servimos naquela insalubre terra tornada independente mas que passados tantos anos, pouco ou nada progrediu, para não dizer que regrediu.


Que tempo nós e os guerrilheiros do PAIGC perdemos…

domingo, 1 de dezembro de 2013

Se não sabem beber cerveja bebem água do Mondego

Cinco atletas passaram três dias a limpar lixo no leito do Rio Mondego, em Coimbra de onde retiraram os mais diversos objetos, nomeadamente facas, bicicletas eletrodomésticos e 64 carrinhos de compras daqueles utilizados nos hipermercados locais.

Pelos vistos devem estar depositados no leito daquele rio muito mais carrinhos a fazer fé nas informações disponibilizadas que apontam até para “concursos” entre os estudantes da Universidade local para ver quem atira mais carrinhos para o rio, imagine-se!!!...

A quantidade de objetos atirados `para as águas preocupa aqueles desportistas que desenvolvem a sua atividade no rio e que se afirmam cansados com tanta sujidade.

Os carrinhos de compras são atirados à água depois dos cortejos da “queima das fitas” ou da “latada” os quais são usados para transportar bebidas durante os desfiles e no final ao invés de serem devolvidos aos hipermercados muitos deles têm como destino o fundo do rio. Não é pois de admirar que os hipermercados em dias de cortejos reforcem a vigilância para evitar os roubos dos carrinhos. Um hipermercado conseguiu recuperar 150 carrinhos no último desfile da Latada, pelo menos esses salvaram-se de parquear no fundo do Mondego.

Os atletas pedem que seja proibido o uso de carrinhos de supermercado nos cortejos académicos a fim de evitar situações anómalas como esta.

Sendo muitos destes anormais, que “estudam” graças ao dinheiro dos nossos pesados impostos e que se divertem a prejudicar aquilo que é dos outros, o mínimo que se lhes deveria exigir é que fossem eles próprios a limpar o fundo do rio. Se não soubessem nadar que aprendessem e já que não sabem beber cerveja, pois então que bebam água, nem que seja a do conspurcado Mondego.

Uma foto-reportagem sobre este assunto publicada pelo DN poderá ser vista nesta ligação: http://www.jn.pt/multimedia/galeria.aspx?content_id=3563258




sábado, 30 de novembro de 2013

Parece que vem aí mais obra…

Agora que a obra do McDonalds no topo da Avenida da Europa, junto ao Rio da Figueira, em Setúbal, onde estiveram sedeadas as instalações da Rádio Azul está concluída e o conhecido restaurante vai começar a funcionar, fala-se que nova obra irá ter início.

Ao que consta, no seguimento do espaço abrangido pelo MacDonalds os edifícios velhos serão demolidos, o terreno terraplanado, a cota subirá para o nível da nova construção e naquele espaço nascerá um Supermercado Aldi.

Assim sendo, todo aquele espaço ficará mais alindado, menos suscetível de inundações devido ao aumento da cota e mais agradável, agora com o desaparecimento dos edifícios degradados que se encontravam no local.


Goste-se ou não, no meu entender estes equipamentos não só virão valorizar o espaço como também dar nova vida a velhos locais, como é o caso do degradado edifício que se encontra situado em frente às novas construções.
“Grandes descontos” produzem grandes otários e disso é prova o Black Friday onde muitos comerciantes aproveitam para escoar os seus produtos praticamente com as mesmas margens de lucro.

A ganância de muitos consumidores leva-os a atropelarem-se nas lojas dos mais diversos países do mundo na ânsia de conseguirem adquirir os produtos a baixo preço, quando em muitas situações eles são vendidos praticamente ao mesmo valor por que se encontravam no mercado pouco tempo antes, ou na melhor das hipóteses com uma pequena percentagem a menos.

No comércio como em tantas outras atividades ninguém faz milagres e para uns ganharem outros terão de perder e esses não serão certamente os comerciantes, caso contrário não o seriam.


Já lá dizia a minha velha avozinha: “Quem não sabe ser caixeiro que feche a loja”.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013


Olha que giro…

Gente Gira da Região é uma iniciativa de Quim Gouveia que consta de um  programa de entrevistas às mais diversas pessoas da Região de Setúbal.

As perguntas são iguais para toda a gente e são já algumas largas dezenas aqueles que foram entrevistados, entre eles o autor do TROINEIRO .

Para que possam conhecer um pouco mais sobre o que pensa este vosso amigo, natural ou virtual, aqui vai a ligação à página da entrevista:


Mãe,  eu juro de pés juntos que não fui eu. A expressão surgiu através das  torturas executadas pela Santa Inquisição, nas quais o acusado de heresias  tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado para dizer nada  além da verdade. Até hoje o termo é usado para expressar a veracidade de  algo que uma pessoa diz.
Uma marina no centro da cidade, só mesmo na terra do Bocage

A ser verdade, e alguns indicadores apontam nesse sentido, será uma verdadeira revolução urbanística em Setúbal, quanto a mim superior mesmo a tudo o que por cá se tem feito nos últimos anos.

Imagine-se a doca do Clube Naval Setubalense transformada numa moderna marina,  a entrar terra a dentro até às traseiras do recuperado e bonito Mercado do Livramento. Pois é, e parece que isto não é utopia é uma operação que estará em curso e com desfecho para muito breve.

Quase me apetece comparar esta situação com o ovo de Colombo, a ser levada avante (e tudo indica que sim) trata-se de uma obra relativamente barata, porquanto não exigirá grandes trabalhos de engenharia, bastando escavar e retirar a terra no prolongamento da doca já existente e proceder ao trabalho de contenção dos espaços envolventes.

Ao que consta nos “mentideiros” nem será necessário recorrer a financiamentos, porquanto a C.M.S. e a A.P.S.S. detentores da maior parte dos espaços, terão um investidor particular, oriundo de um país irmão que assegurará o capital necessário.


Curiosamente e, coincidência ou não, vamos vendo cada vez menos cartazes afixados nos prédios circunvizinhos com a indicação de “Vende-se”. Vamos lá nós saber porquê?...
Câmara de Setúbal cede instalações

Numa conversa informal disseram-me esta semana que a Câmara Municipal de Setúbal, entidade proprietária do imóvel que vemos na foto e que se encontra sedeado na Avenida General Daniel de Sousa, por baixo das instalações ocupadas pelas irmãs de Calcutá, no Palácio Moniz, teria cedido aquele imóvel ao Rotary Clube de Setúbal para ali funcionar a sua sede.

Não sei como funciona o clube, embora tal como muitos outros ignorantes como eu,  fosse levado a supor que os rotários não necessitavam de um espaço físico para funcionar como sede e se reunissem num qualquer restaurante, como por exemplo o Beco, em Setúbal, onde durante muitos anos isso aconteceu.

Mas se aquele seleto clube de serviço, companheirismo e que defende a paz e cooperação entre as nações, entende que deve ter um espaço físico, tudo bem! Mas o que mais  sinceramente me agrada constatar é que a Autarquia consegue neste caso matar dois coelhos numa só cajadada.

Por um lado ao entregar aquela peça do seu património ao Clube não tem de se preocupar com a sua manutenção, e segundo se consta o Clube já lá gastou qualquer coisa como quinze mil euros, por outro lado, certamente conseguiu arranjar mais um grupo de amigos, ou seja aqueles a quem disponibilizou as instalações.

Já agora, na mesma linha de atuação parece que também o LIONS e o EVOX foram igualmente contemplados com espaços autárquicos, tal como tem vindo a acontecer com outros clubes, coletividades e organizações sedeadas neste conselho.


Esta situação não deixa de ser engraçada, faz-me lembrar aquela história da lavradora que consegue fazer com que todas as suas avezinhas lhe venham comer à mão…
Milagres chineses

Nas antigas instalações da SETUBAUTO, localizadas na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, tornejando para a Avenida General Daniel de Sousa, em Setúbal, um espaço com largas centenas de metros quadrados de área útil foi agora inaugurado um híper mercado chinês.

No amplo espaço agora aberto ao público, era suposto vermos nesta época festiva uma casa cheia de gente comprando de tudo um pouco atendendo à diversidade de artigos e o baixo preço que este tipo de estabelecimentos praticam. Nada disso, entrei, percorri todos os amplos corredores e na maior parte deles apenas eu me encontrava.

São diversos os colaboradores de origem chinesa que ali prestam os seus serviço com os custos inerentes ao desempenho das suas funções. Quanto à eletricidade, embora saibamos que a EDP foi comprada pelos chineses, não deve ser fornecida gratuitamente. Impostos? Suponho que também pagarão alguns…

Perdido num daqueles corredores encontrei um velho amigo e, naturalmente, o tema de conversa não poderia ser outro senão o local onde nos encontrávamos. Foi então que ele me disse que o espaço teria sido arrendado aos chineses pela bonita soma de ONZE MIL euros/mês e que o arrendatário teria pago à cabeça seis meses de renda.

Se as instalações em si efetivamente poderão valer aquele preço, atendendo à sua área e localização, o que me dá voltas à cabeça é como é que se consegue retirar dali o dinheiro suficiente para pagar a renda, mais empregados, mais encargos fixos, mesmo excluindo os eventuais impostos e o natural lucro.

Embora não tenha nada a ver com o assunto, como setubalense nascido para aqueles lados da cidade e porque algo me liga àquela casa, onde trabalhei durante alguns anos e onde recebi, em 1973 a visita de dois “simpáticos” agentes da PIDE/DGS despertou-me a natural curiosidade.


Mas, pese embora o facto de num dos corredores do estabelecimento possamos encontrar à venda imagens tão diversas de Buda, Yemanjá ou Nossa Senhora de Fátima, há uma que os chineses lá não colocaram de certeza, é aquela que consegue fazer o milagre de naquele vasto espaço conseguirem ter uma atividade lucrativa nesta altura do campeonato. É claro que como estou a ficar pitosga, se calhar fui eu que não vi a imagem milagreira dos chineses…
Setúbal tem de tudo e para todos os gostos

Mas que azáfama aquela que o “Rio da Figueira” presenciava neste fria manhã de 29 de novembro de 2013. Eles eram calceteiros, pintores, eletricistas, canalizadores eu sei lá quantas atividades profissionais ali estariam representadas.

Carrinhas de catering, dos serviços de eletricidade, das Águas do Sado, da Junta de Freguesia da Anunciada e tantas outras juntavam-se ao imenso trânsito, pouco fluido, devido aos trabalhos de última hora. Tentava salvar a situação um agente da PSP que procurava regular o trânsito no local das obras.

Já se viam por ali alguns grupos de jovens estudantes, uns provavelmente curiosos e outros talvez daqueles que virão trabalhar no novo espaço, prestes a abrir as suas portas ao público.
Impávida e serena a taberna “Vendaval” ali mesmo em frente não dava por ora sinal de fumo branco, ainda não eram horam de colocar no fogareiro as sardinhas, os carapaus, os massacotes ou outros deliciosos peixes frescos da nossa costa.

O espaço outrora ocupado pelas instalações da Rádio Azul ficou muito mais agradável e atraente agora com a nova construção do McDonalds, que com os seus arranjos exteriores e a cota do terreno mais elevada, a par da limpeza daquele degradada zona dão maior beleza a esta ponta da variante da Várzea, ou seja, a Avenida da Europa.

Setúbal vai modificando os seus hábitos e costumes, a urbe vai paulatinamente alterando o seu visual e quer se goste ou não dos bigmac ou mesmo dos mcfish eles aí estão. Cá por mim, embora não me recuse a comer um deles, mesmo assim ainda prefiro um delicioso peixe da nossa costa, bem assado como a taberna “Vendaval” o sabe fazer tão bem.


Haja diversidade, haja movimento, e haja algum dinheiro para podermos saborear estes pequenos prazeres que a nossa terra nos oferece. É que Setúbal tem de tudo e para todos os gostos.
O segredo dos pescadores de Sesimbra

Naqueles invernosos dias no início dos anos cinquenta do século XX, a fraca pescaria capturada na Costa da Galé impeliam a tripulação do “Pérola de Setúbal” para outros mares um pouco mais afastados das habituais zonas de pesca, junto a Setúbal, onde costumavam labutar.

As agitadas águas oceânicas de Sesimbra eram agora o novo destino de pouco mais do que uma dezena de pescadores daquele gasolina, matriculado em Setúbal, que ali, junto às íngremes falésias, tentavam a sua sorte ao lançarem à água os seus “vãos” de cinquenta braças de fio de algodão, impermeabilizado com alfarroba verde, com que esfregavam com as suas calejadas mãos aquelas longas linhas.

Cada um desses “vãos” continha cerca de uma centena de anzóis, dependurados na longa linha, presos a outros fios mais pequenos. Os “vãos” eram transportados no barco devidamente acondicionados em caixas de madeira de formato retangular.

Mas… se havia coisa que aborrecia os pescadores setubalenses era constatarem que aqueles “caga-lête” faziam grandes pescarias precisamente na mesma zona de pesca onde o “Pérola de Setúbal” tão pouco peixe conseguia capturar.

Armando Canas, um dos membros de uma família de pescadores residentes no Bairro de Troino, oriundo das terras algarvias da Fuzeta, matutava sobre o assunto e decidiu observar mais de perto o que se passava. Algo de anormal deveria haver para que os pescadores sesimbrense conseguissem capturar tanto peixe e os seus colegas setubalenses nem sequer conseguissem algo que parecido fosse. Qual seria então o seu segredo?

Quando os barcos fundearam frente à vila de Sesimbra e o peixe foi descarregado para ser vendido na praia, onde se juntava uma pequena multidão de pescadores, vendedores, compradores, homens, mulheres e as crianças corriam alegremente brincando com os seus carrinhos feitos com duas boias de cortiça, das utilizadas nas redes de pesca, empurradas por uma pequena vara, Armando Canas, discretamente, foi ver mais de perto que tipo de apetrechos de pesca estavam a ser utilizados pelos pescadores locais.

E foi ao olhar, com “olhos de ver”,  o trabalho que estava a ser desenvolvido ao longo da praia, onde os pescadores esticavam as linhas de pesca que depois colocavam organizadamente nas grandes bacias redondas, feitas de madeira, que algo lhe despertou a atenção. 

O arguto Armando reparou que as linhas que aqueles pescadores usavam eram de nylon, um novo material, ao invés das tradicionais linhas de fio de algodão que os de Setúbal ainda usavam, talvez fosse esse mesmo o segredo para as pescarias que os setubalenses não conseguiam fazer.

Assim que o “Pérola de Setúbal” chegou ao seu porto de origem, Armando foi ter com o seu irmão Francisco, um homem de negócios, comprador e vendedor de peixe na Lota de Setúbal e que era nem mais nem menos que o proprietário do “Pérola de Setúbal”, colocando-o ao corrente do que tinha constatado em Sesimbra.

Chico Canas ouviu atentamente o irmão e não perdeu muito tempo com reflexões ou indecisões, tratou de mandar comprar de imediato uma porção de fio de nylon e uma centena de anzóis com os quais foi feito em Setúbal o primeiro “vão” utilizando o novo material.

O “Pérola de Setúbal” naquele inverno voltou a fazer-se ao mar, desta vez com alguns dos seus tradicionais apetrechos de pesca e com mais esta, moderna pesca feita com o novo material, o nylon.

As pescas foram lançadas ao mar e para agradável surpresa dos tripulantes da embarcação setubalense, quando puxaram para bordo os antigos “vãos” estes traziam um ou outro peixe. Porém, quando foi a vez de içarem o novo “vão” viram-se aflitos para meter a bordo uma centena de gordas chaputas, é que em cada anzol havia um peixe fisgado.

Estava assim descoberto o segredo dos pescadores de Sesimbra e introduzido um novo aparelho de pesca entre os pescadores de Setúbal, graças à aguçada observação do Armando e ao espírito empreendedor do Francisco, os irmãos Canas, homens habituados a retirar do mar o sustento para as suas famílias.

Rui Canas Gaspar

Relatado por Francisco Alexandre Gaspar em 28 de Novembro de 2013