notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

terça-feira, 22 de julho de 2014

Bolacha Piedade um símbolo da doçaria tradicional portuguesa

Corria o ano de 1855, Setúbal ainda não tinha sido elevada à categoria de cidade, quando nesta vila de pescadores nascia aquela que se tornaria a famosa e muito apreciada Bolacha Piedade.

Calcorreando o chão de terra batida do recinto da Feira de Santiago, então com mais de quatro séculos de existência, realizada junto ao Convento de Jesus, apareceriam uns jovens vendedores, com tabuleiros pendurados ao pescoço que apregoavam bem alto um novo e delicioso produto: a Bolacha Piedade.

Este novo tipo de bolacha, que os setubalenses se habituaram a identificar com a Feira de Santiago, estaria presente desde 1855 até aos nossos dias em todas as edições da mesma, realizada em diversos pontos da cidade, desde a zona nascente da Rua da Praia (Av. Luísa Todi) à zona poente da dita avenida e finalmente ao Parque Santiago, nas Manteigadas.

As bolachas, um produto artesanal, são bastante rijas, umas mais tostadas que outras, são muito agradáveis ao paladar e têm um sabor a anis e a erva-doce o que as torna únicas e inimitáveis.

Esta delícia não se deve comer dando-lhe dentadas, se assim o fizermos estamos sujeitos a partir um dente, mas sim, partindo-a em pequenos pedaços que se vão saboreando devagar e calmamente.

Há pessoas que compram as bolachas na feira em quantidade suficiente para consumir ao longo do período que medeia entre este certame e o próximo.

Pelas suas características elas não se irão deteriorar com o passar do tempo.

A Bolacha Piedade é um dos símbolos centenários da doçaria tradicional portuguesa, galardoada com a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal, com produção que tem vindo a ser mantida ao longo de muitas décadas e cuja tradição manda que seja produto indispensável na Feira de Santiago.

Mais que não, seja só para adquirir tão saboroso produto sugiro que vá à Feira de Santiago, embora também ao longo do ano o possa adquirir no estabelecimento próprio que a Bolacha Piedade dispõe na Avenida Luísa Todi, perto da Casa da Baía.



Rui Canas Gaspar
2014-julho-22


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os Dez Mandamentos regressam ao Luísa Todi


Poucos dias antes de  24 de julho de 1960 pelas ruas da cidade de Setúbal foram distribuídos panfletos anunciando a inauguração do Cine-Teatro Luísa Todi, uma das mais modernas salas de espetáculos de Portugal.

O evento revestiu-se de tal importância que teve a honra de ser presidido pelo Presidente da República, Almirante Américo Tomás tendo estado também presente no importante evento o Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira.

O novo espaço, de traça modernista, construído no local onde outrora teria funcionado outro emblemático edifício, o Teatro D. Amélia, tem projeto assinado pelo arquiteto Fernando Silva, autor de obras revelantes como o Hotel Sheraton e Cinema São Jorge, em Lisboa.

Em 1989 a Câmara Municipal de Setúbal adquiriu este espaço e mais tarde levou a cabo profundas obras de melhoramentos e ampliação que culminou com a reabertura deste magnífico espaço em 15 de setembro de 2012.

O filme que inaugurou em 1960 a nova sala de cinema era o que de melhor se tinha feito até então e ainda hoje continua a ser uma obra ímpar da sétima arte: Os Dez Mandamentos, da autoria de Cecil B. DeMille, que contou com os maiores intérpretes da época como Charlton Heston, no papel de Moisés.

O filme foi dos mais dispendiosos até então realizados e os meios empregues foram colossais, desde os 15.000 animais necessários, até aos milhares de figurantes passando pelos meios técnicos inovadores a que não faltou uma máquina especial emprestada pela Força Aérea Egípcia destinada a criar ventanias.

E é precisamente este filme que será rodado na segunda-feira, dia 28 de julho deste ano de 2014, como forma de comemorar o 54º aniversário da inauguração deste emblemático espaço sadino.

Pelas 21,00 horas o Fórum Municipal Luísa Todi espera por si e oferece-lhe a possibilidade única de assistir gratuitamente a este clássico da sétima arte, que há mais de meio século estava em destaque em todo o mundo e que também fazia notícia na nossa cidade.

Rui Canas Gaspar
2014 – Julho – 21


domingo, 20 de julho de 2014

A GÁVEA

Aquela que foi uma conhecida discoteca setubalense, localizada num lugar de excelência, a pouco mais de uns três quilómetros da saída poente da cidade de Setúbal, em pleno Parque Natural da Arrábida, só não está irreconhecível devido à sua privilegiada localização geográfica.

Embora não devamos dar grandes pormenores de localização destes espaços, aqui não há qualquer problema dessa natureza, porquanto diariamente passam pela frente desta construção milhares de pessoas que se dirigem para a praia da Figueirinha.

Depois, já nada há para vandalizar, porque todo o espaço já o foi e também nada mais há para furtar porquanto o que havia de valor já sumiu há muito.

Aqui temos mais um exemplar do nosso património construído, votado ao abandono, um local de gratas lembranças para muitos setubalenses e onde até na praia, a seus pés, foram filmadas algumas cenas de um dos filmes de James Bond. Não o “ordem para matar”, mas provavelmente o “ordem para deixar estar até cair”.








Rui Canas Gaspar
2014-julho-20


quarta-feira, 16 de julho de 2014

A Pedra Furada está agora mais visível

Já está quase tudo no chão transformado em entulho aquilo que sobrava de uma das muitas fábricas de conserva de peixe existentes a nascente da cidade, na Estrada da Graça lá para os lados da Pedra Furada.

A demolição deu-se após a Câmara Municipal de Setúbal ter tomado posse administrativa do espaço, sem que tenha conseguido identificar e notificar os proprietários daquelas amplas ruínas.

Os militares do Regimento de Engenharia nº 1, com as suas potentes máquinas trataram de executar o trabalho, numa ação de colaboração com a autarquia setubalense, com a qual tem estabelecido um protocolo que já os levaram a atuar este ano em diversas zonas do Parque Natural da Arrábida e em anos anteriores noutros espaços que vão do Forte de S. Filipe até aos canaviais da Várzea.

Esta demolição não só vai deixar aquele espaço mais limpo, livre e menos perigoso, devido ao estado fragilizado de algumas paredes, como também veio libertar visualmente a Pedra Furada, o geomonumento ao qual se encontravam encostados os escritórios da fábrica agora demolida.



Rui Canas Gaspar
2014-julho-16


Na Arrábida há uma pequena fortuna ao ar livre

Com a criação do Parque Natural da Arrábida, em 1976, foram encerradas algumas explorações da belíssima e rara Brecha da Arrábida, também conhecida vulgarmente por “Brecha de Portugal” ou “Mármore da Arrábida”.

Este pedra de rara beleza foi outrora empregue nas mais diversas obras de arte, destacando-se o convento de Jesus em Setúbal, com as suas colunas torcidas, tal como a sua pia batismal. Igualmente poderemos observar esta brecha, em toda a sua beleza, aplicada artisticamente no salão nobre da Câmara Municipal de Setúbal, de entre outros locais.

Com a cessão da sua exploração, este raro material tornou-se ainda mais caro, sendo utilizado normalmente pela autarquia sadina em placas alusivas,  normalmente relacionadas com inauguração de obras.

Há quase 40 anos que a Pedreira do Jaspe deixou de laborar no alto do monte do mesmo nome, onde se pode apreciar uma panorâmica deslumbrante focando-se a nossa atenção particularmente no imenso Oceano Atlântico e sobre a Serra do Risco, qual onda petrificada sobre o vasto mar a seus pés.

E é precisamente aqui, ao lado da desativada pedreira, que vamos encontrar vários blocos de pedra já cortada, que estimamos possam ter na ordem dos 150 M3 e que não foi retirada atempadamente deste local.

Valem de facto uma pequena fortuna estes blocos de pedra cortada de excelente qualidade, prontos a carregar para a serração que os transformará em chapas e os polirá de forma a ressaltar toda a ímpar beleza deste material que poderá vir a ter as mais diversas utilizações.

Não sei a quem poderá pertencer este património, presumindo que o mesmo seja propriedade do Estado Português, na pessoa do Parque Natural da Arrábida.

O que sei é que o mesmo ali se encontra há cerca de 40 anos pronto a utilizar, podendo ser comercializado e o dinheiro reverter para a criação ou manutenção de espaços públicos, nomeadamente caminhos e miradouros desta Serra da Arrábida, uma das belezas deste nosso Portugal, tão rico e tão parcamente aproveitado.

Rui Canas Gaspar
2014-julho-16


segunda-feira, 14 de julho de 2014

A vida de Bocage não foi feita apenas de poesia e anedotas

Bocage era filho de gente importante. Seu pai José Luís Soares de Barbosa, Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, foi juiz de fora, o magistrado nomeado pelo rei de Portugal para atuar em concelhos onde era necessária a presença de um juiz imparcial e que ali habitualmente não residisse.

A mãe, D. Mariana Joaquina Xavier L´Hedois Lustoff du Bocage era filha do Almirante francês Gil Hedois du Bocage que em 1704 chegara a Lisboa com o objetivo de reorganizar a Marinha de Guerra Portuguesa.

Embora nascido de boa família Bocage não teve uma vida nada fácil, pode-se até considerar que teve infância infeliz.

Quando era uma criança de apenas seis anos de idade, seu pai foi preso tendo estado encarcerado no Limoeiro por igual período de tempo. Pouco tempo passado, quando contava 10 anos e o pai ainda se encontrava na prisão, a tragédia abater-se-ia de novo sobre este menino devido ao falecimento de sua mãe.

Mal acabou de fazer os 16 anos alistou-se como voluntário no Exército tendo servido no antigo regimento de Setúbal, onde permaneceu por dois anos até 15 de setembro de 1783. Nessa altura este jovem setubalense tornou-se um homem do mar ao ser admitido na Academia Real dos Guardas-Marinha, antecessora da Escola Naval, onde fez estudos para guarda-marinha.

O rapaz deve ter tido pouca paciência para assimilar a teoria náutica e ainda antes de finalizar o curso veio embora. Mesmo assim, acabou por ser nomeado para esse posto pela rainha D. Maria I.

Em plena juventude, quando contava apenas 18 anos, já a sua fama como poeta e versejador corria por Lisboa.

A vida de Bocage não foi feita só de poesia e anedotas, foi trabalhosa e bem difícil como podemos constatar se nos debruçarmos um pouco sobre este tema.
Rui Canas Gaspar
2014-julho-14


domingo, 13 de julho de 2014

Uma história para a História ocorrida com o barco EVORA

O Barreiro e região envolvente era uma zona da margem sul do Tejo onde laboravam corticeiros, salineiros, pescadores, metalúrgicos, operários químicos e têxteis de entre outros, que labutavam afincadamente por uma vida melhor. Politicamente era uma comunidade também conhecida em Portugal pela luta de resistência que mantinha contra o regime ditatorial vigente no país.

Por esse facto, a PVDE (Policia de Vigilância e de Defesa do Estado) formada em 1933, seguia de perto os movimentos operários particularmente ativos nesta região. As forças policiais faziam sentir a sua presença por intermédio de um forte e omnipresente contingente da Guarda Nacional Republicana, uma força militarizada que naqueles tempos funcionava como uma espécie de guarda pretoriana do Estado Novo.

Em 1945, a PVDE muda de nome e passa a apresentar-se como PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) a temível polícia política portuguesa, organizada segundo os moldes da GESTAPO, a polícia secreta, de má memória em toda a Europa ocupada pela Alemanha nazi.

Naqueles tempos de ditadura, a 23 de maio de 1936, pelas 11 horas da manhã a polícia política invadiu as Oficinas Gerais dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste, com o propósito de prender o serralheiro José Francisco.

Devida a desta ação da polícia o pessoal operário decidiu solidarizar-se com o seu colega e logo após o toque das 13 horas partiu em perseguição da polícia que se dirigia para o cais de embarque onde eu me encontrava atracado.

Os operários arremessavam pedras aos agentes que se refugiavam a bordo e estes respondiam a tiro, o que ocasionou 4 feridos. Este evento ficou conhecido para a história como o “caso do vapor EVORA”.

Se o Barco EVORA falasse poderia resumir assim este episódio:

- Eu tremia, não sei se por causa da ligeira ondulação, ou das pedradas que me acertavam cada vez com mais força. Claro que como podem constatar nada tinha a ver com o assunto, apenas cumpria a minha missão de transportador entre as pacíficas margens do Tejo. Mas, tal como reza o velho ditado português: “quando o mar bate na rocha, quem sofre é o mexilhão…”

Rui Canas Gaspar
2014-julho-13


sábado, 12 de julho de 2014

O miserável estado do berço do Parque Natural da Arrábida

Isto é o que resta de um antigo forno de cal.

Foi por causa dele que o poeta Sebastião da Gama lançou o seu grito de alerta para a destruição que em tempos estava a ser alvo a famosa e antiga Mata do Solitário.

Nos anos 40 do século passado um proprietário rico aqui da zona, de nome José Júlio Costa era dono de muitas terras na Arrábida. Ele possuía também um forno de cal, cujas ruínas é suposto serem as que aqui vemos.

Para alimentar o forno o proprietário mandava cortar árvores da sua propriedade, para transformar em lenha a fim de alimentar o mesmo. Neste caso as existentes na Mata do Solitário.

Ora é sabido do alto valor daquele espaço natural, com vegetação quase única no mundo e hoje classificado como Reserva Integral.

Sebastião da Gama, o poeta, grande amante e defensor da Arrábida, a que ele chamava de “Serra Mãe” ao dar conta deste crime ecológico escreveu pelo seu próprio punho uma célebre carta, em 1947, em papel timbrado da Pousada do Portinho da Arrábida, estabelecimento hoteleiro explorado pela sua família.
Naquela missiva, pedia ajuda ao Engenheiro Miguel Neves, entomólogo da Direção-Geral dos Serviços Agrícolas:

“Senhor Engenheiro
Socorro! Socorro! Socorro! O José Júlio da Costa começou (e vai já adiantada) a destruição da metade da Mata do Solitário que lhe pertence. Peço-lhe que trate imediatamente. Se for necessário restaure-se a pena de morte. SOCORRO!”

O corte de lenha acabou, o forno de cal seria desativado, o mato tomaria conta de todo este espaço e aquele que poderemos considerar como o berço do Parque Natural da Arrábida, encontra-se neste miserável estado.

Rui Canas Gaspar
2014-julho-07


Obras necessárias não devem conduzir a alterações desnecessárias

Sempre gostei muito e aprendi alguma coisa com as chamadas frases célebres ou inspiradoras. Uma delas, atribuída a Montesquieu não me canso de repetir, porque a acho por demais importante especialmente para quem exerce cargos governativos ou para quem desempenha funções de direção ou chefia. Disse certo dia este grande homem: “Para se fazerem grandes coisas não é necessário estar-se acima dos homens, mas sim entre eles”.

Se Maria das Dores Meira, presidente da Câmara Municipal de Setúbal, outro mérito não tem, este, por aquilo que tenho observado não lhe nego e exemplo do que acabo de dizer é o facto de na quinta-feira, dia 10, ao final da tarde envergar as calças do fato de treino e as sapatilhas, juntando-se às centenas de setubalenses e com eles conviver, fazendo a caminhada entre a Praça do Bocage e o Forte de São Filipe.

O mesmo se tem passado em grandes e pequenas ações onde a vimos entre o povo e não no “poleiro” onde muitos governantes, alguns bem incompetentes, por sinal, teimam em não descer, esquecendo-se que só são “importantes” enquanto lhes dermos essa importância.

É claro que todos também sabemos que não se coloca ou retira um prego nesta cidade sem que a presidente saiba e autorize, como tal, o que se faz de bem ou de mal facilmente a ela é atribuída a responsabilidade ou o mérito.

Considero que muito de bom esta senhora tem feito pela minha cidade, enquanto presidente da Autarquia, é claro que algumas outras coisas dispensaria pela certa.

Aquela que agora me aflige, tal como a muitos setubalenses, é de facto as alterações preconizadas para as vias rodoviárias existentes entre a Avenida da Guiné  Bissau e a Alexandre Herculano, que considero, tal como  muitos utentes e moradores desta zona uma autentica aberração.

Não sou do tipo de criticar por criticar, muito menos tenho a pretensão de ser senhor da razão, mas enquanto utente frequente destas vias não posso de forma nenhuma concordar com uma obra que a ser concretizada vai prejudicar em vez de beneficiar, reduzindo as atuais vias de circulação automóvel de 4 para 2, quando o trânsito automóvel está cada vez menos fluído.

Tudo o mais anunciado para ser concretizado naquelas artérias pode muito bem ser feito sem ser à custa da redução das faixas rodoviárias porque ali existe espaço suficiente para o fazer.

E porque a senhora presidente é uma mulher que gosta, e bem, de governar entre o povo, sugiro que veja com seus próprios olhos o que se está a fazer nestas artérias da cidade, que podem até ficar mais bonitas, mas que não deixam de ficar muito menos funcionais e potenciadoras de caos automobilístico, com o consequente buzinão diário e um ainda maior numero de acidentes que aqueles que acontecem semanalmente na rotunda do Vitória.

Enquanto é tempo é que temos de arrepiar caminho, porque depois, para corrigir o disparate as despesas serão maiores e provavelmente a carteira dos contribuintes estará bem mais leve, quando é sabido que obras necessárias não devem conduzir a alterações desnecessárias.

Rui Canas Gaspar
2014-julho-12

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Agremiações centenárias da cidade de  Setúbal

Setúbal é uma terra que teve um crescimento populacional significativo nos  últimos anos, pelo que não deixa de ser curioso apreciar que nesta terra de gentes do rio e homens do mar tivessem sido criados tantos clubes recreativos, culturais  e desportivos, tendo chegado até aos nossos dias alguns deles com mais de um século de vida.

- O Club Setubalense é o decano dos clubes setubalenses, porquanto nasceu em 12 novembro 1855 e estava vocacionado para o convívio e a cultura da elite setubalense.

- A Capricho Setubalense, fundada em 22 novembro 1867 direcionou a sua ação sobretudo para a área da música e nasceu a partir da fusão de duas outras agremiações os “amarelos” e os “vermelhos”.

- A Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense seria fundada oficialmente em 22 março 1899 teve por base uma outra agremiação designada por “Operária”.

- Já aquele que os setubalenses gostam de apelidar de “O ENORME”, o Vitória Futebol  Clube foi fundado em 20 novembro 1910. Foi o primeiro a nascer após a implantação da República, sendo designado inicialmente como Sport Victória.

- O Ateneu Setubalense  é o mais jovem clube centenário sadino, foi fundado em 19 de maio 1914 e tinha como finalidade a educação e cultura, tendo entrado já este ano, de forma muito discreta, para o clube das centenárias agremiações.

A próxima coletividade a entrar no restrito grupo das coletividades centenárias setubalenses são os conhecidos alvinegros, o popular clube União Futebol Comércio e Indústria, fundado em 24 de junho de 1917 por empregados da indústria conserveira e do comércio que dela sobrevivia.

O próximo membro será o Clube Naval Setubalense que terá de esperar mais meia dúzia de anos para se juntar aos clubes centenários, porquanto só viu a luz do dia em 6 de maio de 1920, graças ao entusiasmo do Comandante Afonso O’Neill.

E para ilustrar este pequeno apontamento nada melhor que um grupo de atletas do Naval, em “fato de trabalho” num tempo não muito longínquo em que as senhoras iam a banhos um pouco mais compostas do que algumas das suas conterrâneas que hoje mais encaloradas vão a banhos usando apenas uma pequena tanga, aqui bem às portas da nossa cidade.

Rui Canas Gaspar
2017-julho-09


terça-feira, 8 de julho de 2014



Que diria o Cantador de Setúbal?

Neste quente dia de Verão, se António Maria Eusébio passasse pelo seu local de trabalho, nos estaleiros da Praia da Saúde, certamente que não deixaria de fazer de imediato um dos seus repentinos poemas que o deixaram imortalizado entre as nossas gentes como o Cantador de Setúbal.

Ele a quem muitos apelidavam de “calafate”, pelo orgulho que tinha da sua atividade profissional, veria não o areal repleto de barcos em reparação ou em construção, mas sim aquele lugar cheio de gente gozando as delícias do sol da sua terra.

Ouviria ainda o martelo bater no escopo introduzindo a estopa no único e último barco que ali se encontra a ser reparado, provavelmente por um dos raros operários que ainda sabem alguma coisa da velha arte de calafetar.

O “Ponta do Verde” está em fase de calafetagem,  última etapa antes de ser pintado e de ser dada a reparação do casco como concluída.

O alto e rijo “cantador de Setúbal” de olhar vesgo, que entrava nas tabernas e mesmo sem beber era por todos admirados, o que pensaria deste novo cenário à beira Sado com que se depararia?

Este homem que sem saber ler nem escrever deixou uma obra ímpar viria a ser imortalizado pelas gentes da sua terra que atribuiu a uma das ruas da cidade de Setúbal o seu nome de batismo, António Maria Eusébio, que esteve entre os vivos de dezembro de 1820 e dezembro de 1911.

Em 29 de dezembro de 1968, o Rotary Clube de Setúbal, homenageou esta figura poética, mandando implantar um pequeno busto no Parque do Bonfim, uma escultura da autoria de Castro Lobo.

É de sua autoria este belo poema que mostra bem o carácter deste grande homem do nosso povo:

Nunca fui mal procedido.
Nunca fiz mal a ninguém.
Se acaso fiz algum bem
Não estou disso arrependido.
Se mau pago tenho tido,
São defeitos pessoais.
Todos seremos iguais
No reino da eternidade,
Na balança da igualdade
Deus sabe quem pesa mais.”

Rui Canas Gaspar
2014-julho-07


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Poço das Fontainhas

Das muitas nascentes, poços e fontanários que existiam em Setúbal, pouco ou nada resta que nos possa contar como é que os nossos antepassados tinham acesso ao precioso e indispensável líquido, fonte de vida.

Dos grandes fontanários existentes apenas chegaram aos nossos dias as fontes do Sapal, do Quebedo e a Fonte Nova. Quanto aos poços comunitários apenas resta a réplica do Poço do Concelho e o Poço das Fontainhas, o único original existente em terras sadinas.

E era aqui à sombra do seu amplo arco que há meio século ainda se podiam observar os varinos a tratar dos seus apetrechos de pesca e, quem sabe, alguns deles a deitarem o olho às bonitas jovens que ali vinham encher as suas bilhas de água pura e fresca.

O tempo passou, a fonte secou e há pouco tempo esta rara peça do nosso património histórico, localizado nas Fontainhas, encontrava-se  praticamente ao abandono e, pela sua localização e estrutura construtiva, era comum vermos ser utilizada como instalação sanitária.

Foi graças ao esforço de um empresário local, com estabelecimento de restauração junto ao poço que aquela peça histórica começou a apresentar um aspeto mais decente, apresentando-se ultimamente pintado e limpo.

Tempos mais tarde, o restaurante ao ter de construir a cobertura para a sua esplanada teve a aprovação camarária para integrar no seu interior o histórico poço, sendo que a cobertura deixa de fora a parte superior da construção, mantendo no seu interior o fontanário propriamente dito.

Alguns setubalenses têm-se insurgido com esta aberração que é ter dentro de um estabelecimento privado uma peça histórica do património público.

A questão que se põe, quanto a mim, é o de saber o que é que foi feito pelo poder público para salvaguardar a fonte prestes a ficar destruída?

O interesse autárquico por esta peça única deveria ser pouco ou nenhum a ponto de autorizar a inserção dentro do espaço concessionado.

Como se isso não bastasse e, para além de nada ter feito para preservar o fontanário, a Autarquia ainda recebe agora algum dinheiro à sua conta, porquanto o industrial de restauração ao pagar pelo espaço da esplanada coberta está a pagar a área abrangida pela fonte.

Sendo assim, será lícito, enquanto cidadão eu me poder vir a insurgir contra uma pessoa que para além de recuperar uma peça patrimonial coletiva ainda tem de pagar à Autarquia pelo espaço ocupado pela mesma?

Dá que pensar nesta aberração, não dá?

Rui Canas Gaspar
2014-julho-07


sábado, 5 de julho de 2014

A Águas do Sado não é “fomica” não senhor…


Era o primeiro sábado de julho de 2014 e o calor do meio dia secava as gargantas de muitos dos utentes que àquela hora já enchiam o Parque Urbano de Albarquel, embora naquele espaço possamos encontrar dois ou três pontos de água para nos podermos dessedentar.

No espaço polivalente, um grande grupo de atletas demonstrava as suas habilidades, transpirando profusamente.

Fiquei surpreendido quando junto ao golfinho fabricado com o material reciclado me deparo com um amplo painel a promover a empresa Águas do Sado ligado a um hidrante. Do painel saíam cinco torneiras.

Nada mal pensei eu, aqui está uma forma de promoção de uma empresa feita  com a “prata da casa”  e servindo a população deste frequentadíssimo espaço.

Uma criança dirigiu-se à torneira para poder beber uns golos de água, mas como não conseguiu abrir, voluntariei-me para o fazer. Em vão, nenhuma delas deitava pinga, embora o sistema estivesse ligado à “boca-de- incêndio”.

Ainda esta semana tinha comentado a propósito desta empresa fornecedora exclusiva das águas em Setúbal não disponibilizar aos seus clientes no interior das suas instalações um copo de água. Poucos dias depois deparo-me com a oferta do precioso líquido por intermédio de um equipamento publicitário dotado de cinco torneiras, todavia sem debitar pinga do precioso líquido…

Acho que andamos mesmo com azar e que afinal não deve haver motivo para se pensar que esta é uma empresa “fomica”.


2014-julho-05


quinta-feira, 3 de julho de 2014

A Águas do Sado é “fomica” ?

Nestes dias de Verão, as pessoas que entram naquele local de atendimento público ao invés de sentirem a agradável  frescura, notam exatamente o contrário, ali está mais quente do que no pátio exterior.

Olha-se em volta procurando um ponto de água, fresca ou não, e tal não existe.

Os empregados desta empresa ou têm uma garrafa de água, de uma qualquer marca, ou vão beber ao interior, provavelmente à casa de banho. Para estes trabalhadores não é fácil trabalhar no difícil atendimento público nestes dias, com o calor natural potenciado com o que debitam os computadores agravado com o proveniente da iluminação.

Pergunto a um dos trabalhadores sobre o porquê de não disponibilizarem um ponto de água para dessedentar os clientes desta empresa sem concorrência no mercado setubalense e que gasta milhares de euros na promoção da marca.

Responde-me que em tempos tiveram uma máquina de distribuição de água, sim senhor, mas que o gestor mandou retirar com o argumento de que não se justificava estar a distribuir água de outra empresa, quando esse produto é o seu próprio negócio.

Se assim foi, é mesmo de ficar sem palavras. Então com tantos canalizadores que esta empresa tem não haverá quem possa passar um tubinho cá para fora e fornecer aos seus utentes a mesma água que sai nas nossas torneiras?

Porque carga de água é que teriam de ir comprar água à concorrência?

Será assim tão caro um ponto de água e serão assim tantos metros cúbicos aqueles que os clientes beberão enquanto cheios de calor esperam para ser atendidos?

Faz-me confusão este tipo de gestão miserabilista e de gente à frente de empresas e serviços com tanta falta de visão que só conseguem ter lucros à conta de subida dos preços daquilo que vendem, sem qualquer concorrência.

Quando saía deste local, uma setubalense de gema que tinha escutado parte da conversa, vira-se para mim e desabafa: “Estes gajos das Águas do Sado  são uns fomicas”.

“Fomica” é um regionalismo setubalense que significa de entre outras coisas, avarento e egoísta.

Mas como eu não quero ser “fomica”, ofereço de bandeja a sugestão a esta empresa: Coloquem uma máquina de fornecimento de água para uso dos vossos empregados e utentes e aproveitem-na para publicitar o vosso produto, com algo do tipo, afixado no próprio local: “Beba água canalizada, garantidamente mais barata”.

Passem uma imagem positiva da empresa Aguas do Sado e deixem de uma vez por todas que os setubalenses considerem os seus gestores como “fomicas”, sabendo nós que o vosso produto não é para dar, mas sim para vender.

Cá por mim, que até nem sou “fomica”, quando lá voltar aos serviços, garanto que estou na disposição de pagar por um copo de água. Assim sempre ajudo a empresa a não ir à falência e mais uns trabalhadores, incluindo competentes gestores a irem engrossar as fileiras dos desempregados ou emigrantes.

Rui Canas Gaspar
2014-julho-03

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terça-feira, 1 de julho de 2014

Não sei se deva rir ou chorar
Quando era menino contaram-me algumas histórias da História de Portugal que guardei na memória até aos dias de hoje e que dão conta do engenho e arte de ludibriar do nosso povo.
Lembro-me daquela que estando uma das nossas fortificações sitiada pelos castelhanos, que assim condenavam os portugueses a morrer pela fome ou se renderiam, uma águia-pesqueira ao sobrevoar o castelo deixou cair o peixe que trazia presos nas garras.
Logo o comandante mandou recolher o peixe e embora todos estivessem esfomeados, mandou servi-lo ao comandante castelhano. Este surpreendido julgou que os portugueses tinham alguma fonte de abastecimento secreta mandando levantar o cerco e partiu.
Outra história é aquela que conta que um dos nossos monarcas, em altura de crise, serviu um grande banquete no Tejo, a bordo de uma nau, aos seus aliados ingleses.
Os copos em prata e em ouro, depois de servidos eram atirados pela borda fora, numa ostensiva manifestação de poder e riqueza, para espanto dos ingleses.
Quando o banquete acabou e os ingleses foram embora as redes que debaixo de água cercavam a nau foram recolhidas e toda a louça recuperada, como não podia deixar de ser.
Mais recentemente, nos anos 70 do século passado quando os “patos bravos” como eram alcunhados alguns construtores civis, se encontravam em dificuldades económicas, compravam um Mercedes e um fato novo e só depois assim vestidos e bem montados iam ao banco onde regra geral conseguiam os empréstimos que pretendiam…
Parece que sempre fomos um povo de “chicos espertos” e por isso não sei se devia chorar ou rir quando hoje, terça-feira dia 1 de julho de 2014 verifiquei que no areal do Parque Urbano de Albarquel estavam centenas de crianças, das escolas pré-primárias usufruindo das águas límpidas e do clima agradável.
O que me levou a este sentimento misto foi o verificar que os avisos de “Zona Perigosa” se encontravam cobertos com papel e presos com fita-cola conforme tinham sido colocados para o fim de semana aquando da realização do campeonato do mundo de águas abertas.
É claro que aquele local não deixa de ser perigoso pelo facto de se ter uma flotilha de caiaques a apoiar nadadores que têm também a vigiá-los barcos salva-vidas e equipas da C.V.P. em terra.
Ou é perigoso, ou não é perigoso. O que pode é haver mais ou menos vigilância ou vigilância nenhuma.
Não deixa de ser engraçado o engenho e a arte de dissimulação dos nossos governantes locais, que com um pedaço de papel e alguma fita-cola rapidamente “viram o bico ao prego”. E o que era perigoso, deixa de o ser em questão de minutos.
Não gostaria de ter de voltar a focar este assunto, mas de facto não resisti à tentação depois de ver mais esta ação demonstrativa da capacidade de “resolução” de problemas por parte de alguns dos nossos governantes.
Para finalizar, gostaria de dizer que acho muito bem que se continuem a fazer provas de caráter mundial no nosso belo Sado. Também acho muito bem que se coloquem todos os meios de emergência e socorro ao serviço dos nadadores de craveira mundial.
Mas quero que saibam que para mim, esses nadadores não serão nunca mais importantes do que os milhares de crianças da minha terra que vão usufruir diariamente deste NOSSO belo espaço. Um local que não dispõe de um único nadador salvador. Por isso, não sei se deva rir ou chorar com tanta esperteza saloia e ao mesmo tempo tanta falta de visão.


2014-julho-01
Setúbal tem muito para descobrir e para nos contar

No início dos anos 60 do passado século XX era comum os escuteiros do Grupo 110, atualmente designado por  Agrupamento 59 do Corpo Nacional de Escutas, sedeado nas instalações anexas à Igreja de São Sebastião em Setúbal, acamparem em diversas zonas circundantes da cidade.

Entre esses diferentes locais o Grupo acampou por varias vezes nos campos da Bela Vista, onde hoje se localiza o bairro com o mesmo nome.

Aí costumavam abastecer-se da água proveniente de uma “mina”, que distava algumas centenas de metros das então famosas águas da Bela Vista, sendo comum ouvir-se dizer que as águas dessa nascente eram tão boas como as outras.

A água da Bela Vista, a única que se explorou comercialmente em Setúbal de forma engarrafada, era captada a nascente da cidade, na quinta que tem o seu nome e onde hoje se localiza o supermercado Lidl.

A sua exploração oficial começou em 1944 sendo esse o ano em que foi concedido o alvará que permitia aos seus proprietários a exploração do poço aberto duas décadas antes, em 1920.

A água, classificada como “água de mesa” era leve e ligeiramente mineralizada e a sua exploração terminou, por motivos que desconheço, em finais dos anos sessenta ou princípios de setenta, antes da revolução de 25 de abril.

Setúbal é uma terra cheia de tradições de histórias de curiosidades e onde muita coisa está ainda por descobrir e por contar.

Rui Canas Gaspar
2014-julho-01
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