notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Não devem vir aí tempos de bonança

De facto o dia está anormalmente quente para o mês de outubro e, perto da hora de almoço, o sol aquecia muito mais, fazendo transpirar quem se aventurasse ao ar livre ali no parque de estacionamento do Lidl do Bairro do Liceu, em Setúbal.

E foi provavelmente devido ao calor que se fazia sentir no exterior que aquele automobilista ao volante de um moderno automóvel BMW encostou o carro ao alçado lateral do supermercado e, sem sair de dentro da viatura, abriu a bagageira da mesma.

Saindo do supermercado um casal idoso, ela empurrando o carrinho de compras e ele tentando ajudar, embora apoiado por uma bengala, achegaram-se à potente viatura e a muito custo lá estiveram procedendo ao transbordo das compras, com alguma dificuldade, para o interior do potente automóvel.

Pelo espelho retrovisor o condutor a tudo assistia. Tratava-se de um homem jovem, provavelmente filho do casal, que não se dignou sair do seu confortável ambiente.

Acabado o transbordo das compras do supermercado, o senhor a muito custo abriu a porta do automóvel e lá se conseguiu sentar, enquanto a senhora depois de ir arrumar o carrinho de compras fez o mesmo.

A tudo assistiu impávido e sereno o condutor, sem se dignar mexer uma palha para ajudar aquele idoso casal, provavelmente seus pais e, quem sabe, se até não teriam sido eles que entraram com os necessários euritos para a compra da potente e comoda viatura.

É assim! É a este tipo de gente, mal formada e mal-educada que estamos entregues. Como é que queremos que os governantes possam legislar de forma a proteger os mais idosos, quando eles são feitos desta mesma massa?

Claro que não vou generalizar, mas que cenas como estas se vão tornando correntes lá isso vão. Reparem só quantas pessoas mais novas ajudam a segurar a porta de entrada para deixar passar uma senhora ou um idoso?

“Quem semeia ventos colhe tempestades” e infelizmente devido em grande parte à falta de educação que grassa no nosso país não almejo que venham por ai tempos de bonança.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-20

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sábado, 18 de outubro de 2014

Até quando teremos travessia fluvial para Troia?

A atual conjuntura económica, o assoreamento da margem norte do Sado, aumentando o volume de areia do lado de cá, as melhorias introduzidas na zona ribeirinha de Setúbal, os ventos de norte e nordeste que tornam a margem sul menos abrigada, são fatores que influenciam a população setubalense a não atravessar o rio.

A aquisição dos novos quatro barcos da Atlantic Ferries representaram um investimento substancial que, naturalmente, seria amortizado e rentabilizado se o país estivesse numa situação estável economicamente, o que não tem acontecido nos últimos anos.

O fator económico, aliado aos outros focados acima, levaram a um decréscimo acentuado no volume de viaturas e passageiros transportados, logo a uma diminuição das receitas, que naturalmente se transformaram em prejuízo para a empresa detentora da exploração da travessia do Sado.

Ora como sabemos todas as empresas são criadas para dar lucro e não prejuízo e se isso acontecer sistematicamente apenas lhes resta uma solução, aquela que passa pelo seu encerramento.

Antes dessa solução drástica acontecer certamente que os gestores tomarão todo o tipo de medidas, por vezes nem sempre as mais acertadas, porém serão aquelas que lhes parecem melhor.

E foi assim que, porque as receitas eram insuficientes, se aumentou o preço dos bilhetes, o que levou muitos automobilistas a optar por dar a volta por Alcácer do Sal, diminuindo ainda mais o volume de viaturas transportadas.

Quanto aos veraneantes, porque o dinheiro não abunda e porque as zonas balneares do lado norte estão agora mais amplas indo na maré baixa desde o cais nº1 até à Comenda, também deixaram de ir para Troia.

Porque há menos movimento na época baixa então encosta-se metade da frota e aumenta-se o espaço dos horários, com a consequente perca de qualidade. É assim como a pescadinha de rabo na boca…

Se a tudo isto juntarmos os maiores custos de combustível inerentes a uma viagem mais longa do ferrie, que viu o seu cais de atracação na margem sul ser deslocado para montante para permitir maior qualidade ambiental à desertificada zona de moradias da marina de Troia, então temos todos os ingredientes para que a coisa não dê certa.

Sendo assim, e pensando um pouco sobre o assunto, acho eu, enquanto leigo na matéria, que mais cedo ou mais tarde, apenas um ferrie estará a prestar serviços mínimos, atravessando o Sado e atracando no antigo cais, levando pessoas e viaturas, com menores custos de combustível. Isto enquanto a empresa não encerrar por falta de rentabilidade económica.

É claro que isto é o que eu acho, e de achismos está o mundo cheio, vamos ver pois até quando teremos travessia fluvial para Troia.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-18

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O palácio Feu Guião já está com melhor apresentação

Gosto sempre de ver um pedreiro a rebocar uma parede. Vamos lá saber porquê? Não há dúvida que cada um tem a sua “pancada” e eu desta não me livre…

Ao passar há pouco pelo Largo da Fonte Nova vi um pedreiro a rebocar uma velha e bastante degradada parede exterior, o que muito me alegrou. Trata-se do Palácio Feu Guião, que ostenta a placa publicitária de “vende-se ou permuta-se”.

Se até o Lelo (conhecido cigano) tratava de dar graxa no pelo da mula para o animal brilhar e dava-lhe uns copinhos de bagaço para o espevitar e desta forma parecer que o bicho estava cheio de genica, como tal mais fácil de vender, porque é que o proprietário (que até nem é cigano) não deu à mais tempo uma rebocadela e uma pintura exterior tornando mais atrativo comercialmente o seu produto?

Bem, cada um é que sabe do seu negócio e esta não é seguramente a minha praia!

Mas, como setubalense, o que mais me agrada é verificar que um dos mais importantes e também o mais degradado edifício da Fonte Nova e Bairro de Troino se encontra a levar uma “lavagem de cara” que irá certamente dar outro aspeto ao imóvel.

Quem nos dera que alguém, nem que fosse um alguém daqueles que querem vir para a Europa, entrando por Portugal com um visto gold, pudesse comprar esta histórica peça imobiliária e a transformasse de acordo com o projeto existente ou outro qualquer que viabilizasse o seu investimento.

Como estava é que não era nada, nem dignificava o proprietário nem a cidade beneficiava com esta chaga no coração de uma das mais emblemáticas zonas sadinas.

Pelo que hoje vi, daqui endereço os parabéns a quem teve a iniciativa de mandar executar este simples mas tão importante trabalho.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-17

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Preservemos o pouco que temos para mostrar


Este Verão esteve em Setúbal, durante alguns dias, alojado numa unidade hoteleira local, um casal amigo de nacionalidade norte-americana.

Durante a sua estadia em Portugal, este casal teve oportunidade de conhecer um pouco de todo o nosso país, mostrando-se maravilhado com o que aqui viu. Mas, foi particularmente  a Região de Setúbal que mais rasgados elogios mereceu.

O casal percorreu as Avenidas, ruas e vielas da nossa cidade, visitou alguns monumentos religiosos e percorreu a zona envolvente da cidade do rio azul, tendo saboreado, como não podia deixar de ser, a nossa saborosa gastronomia.

Conheciam vários países europeus mas, sem favor, não tiveram pejo em afirmar que país como este e região como a de Setúbal merecia a sua preferência, pelo que recomendavam.

Hoje, na Avenida Luísa Todi, junto às Águas do Sado, um casal que se deslocava numa viatura de matricula portuguesa, chamou-me para pedir orientação. Tratava-se de um casal de turistas brasileiros que desejavam saber qual o trajeto para Évora.

Como era manhã cedo, claro que aproveitei, para elucidar os turistas ao mesmo tempo que lhes questionava se já conheciam Setúbal. A simpática senhora respondeu que esta era uma cidade moderna, ao que eu respondi que se tratava de uma localidade com mais de mil anos. O automobilista franziu a testa e respondeu: - Não parece! O que vimos aqui parece-nos construção recente…  

Na curta conversa que encetamos o casal partilhou que tinha visto um pouco das ruas estreitas e bonitas (apontando para o Largo da Palmeira/Fonte Nova) graças a um senhor que encontraram e que por acaso era funcionário da Câmara Municipal.

Depois das despedidas, dei comigo a pensar na diferença que existe entre Évora, uma cidade com um património histórico bem preservado e Setúbal, uma cidade milenar que pouco de histórico tem para mostrar a quem nos visita.

Mais uma vez me veio à mente o muito discutido miradouro da Estrada dos Ciprestes e a necessidade de o preservar.

Que o pouco que temos e que mostra alguma coisa da evolução desta cidade ao longo dos séculos possa ser resguardado e destacado de modo a que possamos apresentar aos nossos vindouros e aos que nos visitam alguns marcos daqueles outros setubalenses que nos precederam nesta antiga terra cada vez mais envolta de vestes modernistas.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-17

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Eu tive parte do tesouro de Troino

Em Setúbal, no dia 20 de maio de 1957, os trabalhadores esforçavam-se manipulando enxadas, pás e picaretas abrindo a vala ao longo da Rua Fran Pacheco, antiga Rua Direita de Troino, para ali colocarem as manilhas que iria permitir àquela antiga artéria da cidade dotar-se do necessário saneamento básico.

Conjuntamente com a terra que retiravam da vala vinha um pouco de tudo, sobretudo pedaços de cerâmica e até ossadas humanas, atendendo a que as escavações decorriam relativamente perto da antiga Igreja da Anunciada, na Praça Teófilo Braga.

Não é de admirar que se encontrassem muitos vestígios de épocas passadas, até porque a cidade teria sofrido três fortes terramotos em 1531, 1755 e 1858 que a teriam afetado profundamente, destruindo muitas das suas edificações.

A determinado momento dos trabalhos a picareta de um operário bateu num objeto de barro, destruindo-o e, do seu interior verteu uma torrente de pequenas moedas de bronze. Tratava-se de uma ânfora romana contendo milhares de moedas.

O insólito achado causou natural burburinho com toda a gente a querer apossar-se de moedas. Eram miúdos e graúdos a tentar deitar a mão a tantas quantas pudessem levar. Houve até quem emprestasse uma alcofa a um conhecido colecionador que residia ali perto para transportar uma enorme quantidade.

A notícia chegou às autoridades e da primeira esquadra saiu correndo um polícia que soprando o seu apito mandava sair daquele local todos que não fossem trabalhadores.

Uma segunda ânfora seria então descoberta contendo 7.090 moedas, enquanto da primeira foram oficialmente contabilizadas 11.091. As moedas seriam então recolhidas e encontram-se em exposição no Museu da Cidade de Setúbal.

O tesouro é composto por moedas de bronze, cunhadas entre 253 e 363 d.C. à exceção de uma moeda republicana cunhada entre 187 e 155 a.C.

Alguns outros milhares de moedas foram levadas pelos populares antes da chegada das autoridades, pelo que o tesouro romano encontrado na Rua Direita de Troino continha muito mais peças do que aquelas que são oficialmente mencionadas.

Eu tinha nove aninhos, também lá estive com outras crianças de Troino e também trouxe uma parte do tesouro romano. A mim calhou-me, imagine-se, uma moeda.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-13

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Não deve ser fácil ser jardineiro em Setúbal

Tenho observado o empenho com que um “batalhão” de jardineiros têm vindo a cuidar daquela que provavelmente será a maior zona ajardinada da cidade de Setúbal, a nossa Avenida Luísa Todi.

No entanto, estes profissionais enfrentam também os seus problemas que passam frequentemente pelo furto de algumas plantas recém-colocadas, provavelmente por parte de pessoas que desejam enfeitar as suas varandas com bonitas floreiras.

São também os vândalos que passam por cima dos canteiros floridos destruindo as plantas, sem se darem ao trabalho de atravessar nas zonas próprias para o efeito.

Mas, talvez o maior inimigo dos jardineiros sejam os pombos, aquelas aves que muitos de nós gostamos e que não dão tréguas a quem quer manter a cidade bonita.

Mal os jardineiros acabam de colocar as sementes de relva e aí estão eles logo a debicar, tratando de fazer desaparecer boa parte da sementeira e, quando encontram uma pequena abertura na relva, aqueles bicos parecem escavadoras em ação.

Estive a observar no Parque Urbano de Albarquel uma destas “brigadas” em plena ação e nunca tinha reparado na velocidade com que dão cabo de um enorme pedaço de relvado, deixando à sua passagem um conjunto de pequenas crateras.

Parece que os jardineiros se quiserem ver o seu trabalho progredir terão de tomar medidas urgentes, como seja a cobertura das sementeiras com rede, por exemplo, no caso dos pombos.

Quanto aos apreciadores das suas plantas, bem o melhor mesmo é a Autarquia pensar em ofertar umas floreiras e colocar à disposição algumas plantas para que os apreciadores possam decorar as suas janelas ou varandas.

Em relação aos vândalos a esses pouco ou nada há a fazer a não ser que voltem a ser instituídas as brigadas dos homens do varapau que em tempos idos punham ordem nas nossas antigas localidades, dado que policiamento é coisa difícil de alguém dar conta nesta cidade, exceção feita, para o trânsito, não para ajudar na fluidez do mesmo mas sim para atuar em assuntos mais  importantes especialmente aqueles que tenham a ver com o setor financeiro…

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-15

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Setúbal tem um cadáver imobiliário à espera que seja ressuscitado

Ao passar frente às enormes e tão mal tratadas instalações do que foi o único polo universitário setubalense lembrei-me daquele triste dia de Verão.

Passavam alguns minutos das 19 horas, era 30 de julho de 2008 quando a TSF anunciava o seguinte:

“O Ministério da Ciência e do Ensino Superior notificou, esta quarta-feira, a Universidade Moderna e a empresa proprietária, a Dimensino, da decisão de encerrar compulsivamente a instituição por falta de viabilidade económica e grave degradação pedagógica.”

Com este despacho do Ministro Mariano Gago finava-se para muitos jovens setubalenses o sonho de concluir um curso superior na sua própria cidade.

Curiosamente e, por incrível que pareça, embora fossem muitas largas centenas os jovens estudantes que durante anos frequentaram o polo da UM, quer em Setúbal, quer em Beja, a Inspeção-Geral do ensino superior concluiria que aqueles polos universitários não estariam legalmente constituídos como estabelecimentos de ensino.

As amplas instalações da Universidade, construídas de raiz, fechariam as suas portas e a Incentiveste, empresa proprietária do imóvel procederia, um ano depois, à selagem das instalações.

Primeiramente foram as ervas daninhas que começam a aparecer por tudo quanto era sítio, seguidamente são observados os primeiros grafites nas paredes exteriores, depois acontece o furto generalizado de tudo o que era metal, dos fios de cobre aos caixilhos de alumínio, passando pelos corrimões das escadas.

E quando pouco mais havia para furtar de um amplo e abandonado edifício, eis que as portas e janelas mais baixas são emparedadas enquanto os grafiteiros continuam a sua incansável atividade enquanto dispuserem de um pouco de parede disponível.

Com este encerramento Setúbal perdeu a única Universidade que tinha e ganhou mais um cadáver imobiliário que para ali se encontra solitário à espera que algum iluminado cientista descubra a forma de lhe voltar a dar vida.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-14

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Alguns setubalenses bem poderiam ter um comportamento mais cívico

Bem sabemos que as grandes obras que estão a ser levadas a efeito na cidade de Setúbal causam transtornos, particularmente aos habitantes e comerciantes das zonas que estão a ser intervencionadas.

Também temos constatado e alertado para o facto do pouco cuidado e atenção que os empreiteiros e dono da obra têm dado à população utente dessas zonas, sobretudo no que se refere à segurança rodoviária.

Hoje, 13 de outubro de 2014 reparei que no início da Rua de Damão, um conjunto de sacos de lixo estavam depositados no chão, precisamente no lugar onde habitualmente estão uns contentores de recolha, agora retirados porquanto os mesmos não se encontram temporariamente acessíveis às viaturas de recolha.

Avisos colocados na zona pela Divisão de Higiene Urbana da C.M.S. dão indicação onde o lixo deve ser depositado. A algumas dezenas de metros deste local, em três diferentes pontos de recolha.

No topo da Rua de Damão, entrando na Amílcar Cabral, podia observar-se uma dupla composta por um operário manobrando um soprador enquanto uma varredoura mecânica limpava e aspirava aquela zona da cidade.

A Câmara Municipal deverá fazer a sua parte, e bem, pela higiene e limpeza da cidade, mas nós, os comuns cidadãos também temos o dever de ser respeitadores e cumpridores das boas normas de higiene, caso contrário e, em última análise, seremos nós os principais prejudicados.

Só pode ser atribuído à má formação cívica de alguns poucos cidadãos o facto de ao invés de se deslocarem mais uns metros para colocar o lixo nos outros pontos de recolha o terem ali colocado no chão, onde os cães, gatos e talvez os ratos o possam espalhar com as nefastas consequências para a sua própria saúde.

Se esta ação se deve a “vingançazinha” pelos transtornos causados pelas obras, poderemos classifica-la como pura estupidez, falta de civismo e desrespeito pelos vizinhos.

Neste, como em outros caso será bom lembrar Maatha Gandhi quando um dia afirmou a propósito de semelhante situação de intolerância: “Olho por olho e o mundo acabará cego”.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-13

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sábado, 11 de outubro de 2014

Dona Ribeira do Livramento está desejosa de nova vida

Dona Ribeira do Livramento é palmelense, nasce algures entre as Serras de S. Luís e do Louro e vem correndo por essas serras abaixo, desde que se apaixonou pelo seu maravilhoso marido, o senhor Sado, sempre desejosa por o abraçar e beijar apaixonadamente.

Em tempos, quando ela era mais jovem, corria mais apressada.  Atravessava a várzea, perfumava-se com o agradável cheiro campestre e no Inverno até fazia questão de trazer consigo muitas e boas laranjas para oferecer aos setubalenses que acorriam até ao local da sua chegada, ali junto à doca de recreio, onde o Clube Naval Setubalense tem as suas instalações.

Os anos passaram e, como as forças já não são as mesmas, hoje já não corre célere pelas férteis terras onde muitas quintas produziam as mais variadas frutas e vegetais que alimentavam boa parte da população setubalense.

Ela que corria livre e despida de qualquer veste, viu os homens  primeiramente cobrirem-lhe desde a sua foz até ao Largo de Jesus, como que vestindo-lhe uma saia, neutralizando assim as simpáticas pontes por onde os habitantes de Troino e da Fonte Nova atravessavam para virem até à zona nascente.

Mais tarde, outros homens haveriam de cobri-la, desta vez até um pouco para norte do Parque do Bonfim, como se desta vez lhe envergassem uma camisa e, por cima dessa cobertura, construiriam avenidas a que deram o nome de 22 de Dezembro e de Independência das Colónias.

Com a construção da variante da Várzea, posteriormente batizada como Avenida da Europa, mais uma pequena cobertura foi feita, complementando o vestuário como se fosse um lenço a cobrir a cabeça da velha senhora. 

Agora é vê-la debilitada, sem forças para correr e sem o perfume de outrora. Coitada da pobre e velha senhora, que continua a passar ao lado daquelas casas em ruinas e dos campos onde já quase não são vistas as laranjeiras e muito menos as viçosas couves, alfaces e demais produtos hortícolas.

Dizem os homens que lhe irão dar um final de vida bem mais agradável. Que irão construir uma Estação de Tratamento de Águas Residuais, de forma a que o cheiro nauseabundo possa desaparecer. Dizem que irão reter algumas das suas águas tratadas e construir bonitos lagos e anunciam que naqueles abandonados campos por onde um dia correu livremente, crianças correrão também por amplos relvados repletos de frondosas árvores.

A velha e cansada senhora, aguarda agora esperançosa que os setubalenses, que tudo isto prometeram, o façam no mais curto espaço de tempo, dentro das suas possibilidades financeiras. Pois claro! porque os tempos não vão de feição…

Gostaria a dona Livramento que ao correr pela Várzea pudesse também ver estas obras bonitas mas também gostaria de olhar para algumas outras construídas por diversos homens que por ali labutaram há muitos anos, como por exemplo aquele bonito miradouro que dizem ter sido uma das primeiras obras em betão armado construído em Portugal e aquele pombal, que ainda serve de abrigo aos descendentes dos primeiros habitantes.

De facto, a asseada senhora agora não exala o melhor cheiro e está desejosa de tomar um bom banho e de se vestir de novo com a graça e cor de outrora, embora sabendo que as suas forças já não lhe permitem correr como então, antevendo, no entanto, que vai ter enorme prazer ao ver as crianças e seus pais virem deliciar-se com a sua simples presença.

Rui Canas Gaspar
2014-novembro-11

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sentir a Arrábida na Avenida Luísa Todi

A cidade de Setúbal é comparada a uma bela pintura que foi cuidadosamente emoldurada pelo azul do seu Rio Sado e pelo verde da Serra da Arrábida.

Naturalmente a cidade sofre a influência da serra, com a qual confina e, por isso mesmo, é natural que, de quando em vez, os seus habitantes desçam à urbe para visitar quem cá reside.

Daí que das cobras rateiras, às raposas, passando pelos javalis estes nossos vizinhos já tenham sido avistados passeando pelas ruas e avenidas sadinas.

Mas, a cidade não recebe apenas a visita da fauna, também a flora da Arrábida está presente um pouco por todo o lado e foi assim que no passado mês de outubro, ao deslocar-me ao cemitério para me despedir de um velho amigo reparei que naquele local existiam bons medronhos já vermelhos, pelo que me deliciei com os saborosos frutos selvagens da nossa Arrábida.

Hoje, ao passar pela Avenida Luísa Todi, onde de entre variadas plantas podemos encontrar os bonitos folhados da Arrábida e amplas moitas de bem cheiroso alecrim reparei nuns arbustos com bagas azul-escuro e outros de bagas brancas.

Retirei uma baga e provei, comprovando aquilo que pensava, trata-se de martunhos, aquelas bagas silvestres com que os frades arrábidos fabricavam o delicioso licor, que a “Vida & Fortuna”, da Quinta do Anjo, diz ter a fórmula secreta para fabricar o “Arrábidine” o típico licor da Arrábida.

Avancei pela avenida e entrei na galeria do antigo Quartel do Onze, onde uma exposição de pintura mostra um pouco de 50 anos de trabalho daquele que é o pintor de Setúbal, Rogério Chora.

Depois de apreciar os trabalhos deste artista dei dois dedos de conversa com ele e depois aproveitamos para registar o encontro com uma foto junto a belos quadros da Arrábida.

Acabei a manhã, com cheiros, gostos e vistas da Arrábida mesmo sem sair da baixa da cidade.

Que maravilha, poder sentir a Arrábida andando apenas pela Avenida Luísa Todi!...

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-10

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Setúbal podia fazer mais pelos turistas que nos visitam

Tenho vindo a constatar que existe um cada vez maior movimento de autocaravanas que demandam a nossa cidade e, por isso mesmo, já abordei este assunto mais do que uma vez por o julgar de grande importância para a nossa terra.

Segundo informação de um industrial de restauração a operar na zona da Doca dos Pescadores continuam a chegar e partir dos estacionamentos junto aos cacifos dos pescadores mais de uma dezena de autocaravanas diariamente.

Os turistas que assim se deslocam são oriundos sobretudo de Portugal, Espanha e França, mas podemos verificar a existência de matrículas de outros países nas suas viaturas.

Grosso modo isto significa um autocarro de turistas a visitar diariamente Setúbal, ou seja, na ordem de 1.200 pessoas por mês qualquer coisa como 14.400 turistas por ano.

Pode não ser muito, mas o facto é que são alguns destes turistas que tem “salvado o dia” a vários restaurantes da zona nestes tempos de crise, atendendo a que não estamos a falar do chamado “turismo de pé descalço” mas sim de pessoas com algum poder de compra.

Para além dos restaurantes podemos ver também muitos destes turistas a abastecer-se no nosso Mercado do Livramento e a percorrer as ruas da baixa da nossa cidade, à procura sabe-se lá de quê…

Com tão significativo número de visitantes, que muito poderá crescer se criarmos condições para tal, é de fundamental importância que se crie um espaço adequado e com condições para os receber.

Sugiro que o velho edifício localizado na Avenida José Mourinho, propriedade da Câmara Municipal de Setúbal e onde em tempos foi guardado equipamento de higiene e limpeza, seja demolido, o pavimento asfaltado e ali colocado um posto de recolha de dejetos, pontos de abastecimento de eletricidade e de água a exemplo do que já se faz noutras localidades do nosso país.

No local, devidamente delimitado, poderá ser instalado um pequeno quiosque não só para receber o pagamento do parqueamento (há situações em Portugal que no Inverno é gratuito) como o mesmo funcionaria como ponto de informação turística com distribuição de mapas e demais informação publicitária sobre a cidade e região do rio azul.

As vantagens desta iniciativa são por demais evidentes, potenciando-se o número de turistas que nos visitam a troco de um pequeno investimento que rapidamente será reembolsado com o pagamento do parqueamento e o aumento de receitas indiretas.

Por outro lado, ao instalar este equipamento aquela avenida ribeirinha ganhará melhor aspeto atendendo a que o velho edifício degrada-se a olhos vistos nada dignificando esta bonita e recuperada artéria.

Um dia, quando a C.M.S. chegar a acordo com algum potencial interessado para a compra do espaço, pois então que o venda se assim entender e trate de arranjar outro condigno para substituir o equipamento entretanto criado.

Agora como as coisas têm vindo a desenvolver-se é que não é nada, com a perca de um fluxo turístico nada desprezível e com a possibilidade de mais uma fonte de receitas para a Autarquia completamente desaproveitada.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-10
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Há setubalenses e “setubalenses”

Quando no início dos anos setenta do passado século XX a população sadina começou a ter um maior poder de compra, fruto de um conjunto de indústrias que se vieram implantar na península de Setúbal, começou a ser comum as grávidas da classe média irem dar à luz em clinicas da capital.

Não é pois de admirar que muitos homens e mulheres, ditos setubalenses e filhos de gente nascida em terras sadinas, tenham como naturalidade Lisboa.

Tal como minha esposa, lembro-me bem dos reparos que nos foram feitos por alguns amigos, sendo eu então um técnico de construção civil e minha esposa uma professora do ensino público pelo facto dos nossos filhos irem ser dados à luz em Setúbal, no Hospital de São Bernardo, quando poderiam nascer numa qualquer clinica da capital, a que muitos “novos ricos” atribuíam melhores condições.

Vem isto a propósito de uma recente troca de opiniões com alguns amigos sobre a nossa terra que embora tivesse crescido em número de habitantes, tivesse perdido importância no quadro nas cidades portuguesas por ter vindo a ser governada por gente que não é de cá.

Refletindo um pouco sobre o assunto, dá para questionar sobre se é mais setubalense aquele que nasceu aqui e pouco ou nada fez pela sua terra ou se aquele que não tendo nascido em Setúbal se notabilizou e, com a sua ação, ajudou os setubalenses a progredirem e a terem melhor qualidade de vida.

De direito é setubalense aquele que nasceu em Setúbal, embora no dia seguinte daqui tivesse partido e nunca mais cá voltasse. De facto, quanto a mim, é setubalense todo aquele que embora não tivesse aqui nascido optou por se radicar nesta terra, trabalhando e dando o seu contributo para o desenvolvimento da mesma fosse no campo profissional, desportivo, religioso, social ou outro qualquer.

Quando dou por mim a refletir sobre este assunto vem-me sempre à mente uma curiosa saudação de um antigo chefe escuteiro. Dizia ele: “ Há chefes que são chefes e que não deviam ser chefes e há chefes que não são chefes e que deviam ser chefes” É claro que se eu substituir os “chefes” por “setubalenses” talvez a saudação se pudesse adaptar na perfeição a muitos ditos setubalenses que se julgam mais do que os outros que por cá não nasceram.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-09

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sábado, 4 de outubro de 2014

Olhando para as gaivotas sabe de que lado sopra a brisa?

Depois de nos termos deliciado com o saboroso peixe fresco da nossa costa, comido ali bem perto da Doca dos Pescadores, meu pai, meu irmão e eu fomos dar uma pequena volta por aquele local de tantas lembranças para o nosso pai, um velho pescador nascido e criado no velho bairro de Troino.

A zona do antigo cais do carvão, onde o EVORA se encontra atracado, está agora mais atraente e funcional depois das obras de melhoramento levadas a cabo pela APSS e foi até ali ao cais nº 1 que nos deslocamos para ver a entrada dos barcos na sua doca.

Meu pai olhando para o “cisne branco do Sado” comentou: “- O EVORA não está de nível, tem a proa mais levantada…” o olho clínico do velho homem do mar reparou naquele pormenor que passava despercebido à generalidade daqueles que por ali andam diariamente.

Meu irmão olhou para mim, num olhar cúmplice e afagou a cabeça do nosso pai, dando-lhe razão. De facto o EVORA tem os depósitos de água na proa e estes de momento ainda não foram abastecidos com os cerca de 22 mil litros o equivalente a cerca de 22 toneladas, o peso suficiente para o nosso pai notar a diferença de nível.

Uma ligeira brisa sobrava de noroeste e o velho pescador virando-se para os filhos comentou: “-sabem que as gaivotas indicam-nos de que lado sopra o vento?” Olhamos um para o outro e embora saibamos alguma coisa sobre esta matéria, aprendida ao longo de muitos anos de técnica escutista o facto é que saber a direção do vento pelas gaivotas nunca tínhamos sequer ouvido falar.

“- Olhem para elas! Vejam para onde apontam a proa!”

Em cima de cada um de todos os novos candeeiros lá estava uma ou duas gaivotas empoleiradas e, curiosamente, nunca tínhamos reparado que todas as aves estavam viradas na mesma direção, precisamente apontando o bico para noroeste.

“- Assim podem fazer cócó à vontade cá para baixo porque nunca sujam as penas, se estivessem ao contrário sujavam-se!”

Se é por causa dos hábitos de higiene das gaivotas ou não, nem sequer comento, o facto é que reparei que todas aquelas aves estavam de bico apontado para o lado de onde soprava a brisa.

São histórias e ensinamentos simples como este que semanalmente são partilhadas pelo nosso velho pai, depois do nosso almoço semanal de bom peixe fresco capturado na nossa costa, deixando-nos bem felizes por podermos partilhar da companhia e dos ensinamentos do nosso querido progenitor.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-04

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Vivemos num mundo de fantasia e embuste

Estive de visita ao que foi o espaço onde funcionou a fábrica de conservas de pasta de peixe de Francisco Finura, local com um rico espólio daquele que se autointitulou “operário especializado em trabalhos não especializados”.

É bom lembrar que a este homem devem a vida três dezenas de pessoas que salvou de morrer afogadas.

Seu filho, Francisco Finura, tem vindo a preparar parte do material utilizado por seu pai, bem como diversas fotos e recortes de jornal, material destinado a presentear a população em geral com uma exposição que terá lugar no Museu do Trabalho, em Setúbal.

Numa das máquinas que teria sido utilizada pelo engenhoso “Finuras”, seu filho, cravou uma lata, agora vazia, daqueles que eram utilizadas por seu pai com o delicioso patê de sardinha e de cavala, os primeiros a serem fabricados em Portugal.

Com esta curiosa oferta na mão e porque tinha de ir para os lados da Doca dos Pescadores, aproveitei para a fotografar naquele local magnífico que não me canso de admirar.

Curiosamente, ao olhar para a imagem captada dei comigo a pensar como vivemos no mundo da fantasia e do engano. 

A traineira que aparece na fotografia é a Jonas David, a mesma que passou a entrar em casa de largos milhares de portugueses, pela mão da telenovela “Mar Salgado”  como sendo a “Rainha Celestial”.  A “Fábrica de Conservas Sado” é nem mais nem menos que parte das instalações que aqui vemos e pertencentes à Docapesca, finalmente a lata de pasta de sardinha, embora fechada nada tem. Está tão vazia como algumas cabecinhas que todos os dias igualmente nos entram casa dentro pelo pequeno ecrã…

Mas, nem tudo é fantasia e embuste. De facto, Francisco Finura (filho) prepara a exposição que em novembro nos vai deliciar com a memória do seu pai, a telenovela portuguesa “Mar Salgado” conquistou a minha atenção quando só tinha visto a brasileira “Gabriela” produzida pela Globo em 1975 e a Jonas David, continua a ir ao mar pescar outras espécies que não sardinha, que se encontra em período de defeso.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-04

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Se calhar estou a ser um velho de Troino…

Foi anunciado que a Câmara Municipal de Setúbal quer criar um campus da justiça em Setúbal, o qual tem já local escolhido, perto dos  Quatro Caminhos, na Avenida do Alentejo, nas antigas instalações das Estradas de Portugal.

Nesse campus, cuja proposta a Câmara já apresentou ao Governo, pretende-se juntar  os Comandos Distritais da P.S.P., da G.N.R., a Polícia Judiciária e até o Palácio da Justiça.

Se é um facto que ao juntar todos estes serviços num único local poderão ser feitas economias, não deixo de estranhar, no caso concreto do Palácio da Justiça, um edifício de construção recente feito propositadamente para a função já estar a sofrer profundas obras de reconversão, no valor de largos milhares de euros.

Mas mais apreensivo fico quando o Juiz Presidente do Tribunal da Comarca de Setúbal, afirma que mesmo depois das obras concluídas aquele espaço não irá servir melhor os interesses da Justiça.

Se a G.N.R. tem instalações velhinhas, se o Comando Distrital passou a funcionar nas antigas instalações do que foi o Governo Civil (que ainda ostenta a placa indicativa deste extinto organismo) se a P.J. ocupa as instalações de um antigo convento, julgava eu que o Tribunal estaria bem servido de instalações, mas pelos vistos não está, nem ficará depois das obras.

Se calhar não é então má ideia fazer-se o tal campus para acolher todos aqueles serviços, mas as questões que se nos podem colocar são simples:

Que fazer então com as instalações que ficarão devolutas, principalmente com o enorme edifício do Palácio da Justiça?

De onde virão os muitos milhões para o tal campus?

E já agora, teremos nós gente habilitada a planear o que quer que seja, quando um edifício recente, com obras de adaptação em curso, mesmo depois de concluídas não servem os fins em vista?

Esta ideia faz-me lembrar os malfadados edifícios construídos para a Casa Pia de Lisboa e que ainda não foram inaugurados e ali estão reluzentes à luz do sol nascente quais elefantes brancos, comilões de muitos dos nossos parcos euros.

Mas, se calhar sou eu que não estou a ver bem esta questão ou então estou a ser um velho de Troino, porque do Restelo não sou de certeza.

Rui Canas Gaspar
2014 – outubro – 01

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Quem quer comprar as instalações da ex-PIDE/DGS de Setúbal?

Ao passar por uma das ruas do Bairro Salgado, em Setúbal, reparei numa moradia com a placa de uma agência imobiliária dando conta que a mesma estaria para venda. Nada de especial, não fosse uma outra pequena placa que ainda por lá ostenta dando conta de que ali teriam funcionado os serviços da Autoridade Florestal Nacional do Ministério do Agricultura e do Mar.

Porém, até à revolução de 25 de abril de 1974 uma outra placa, mais sinistra, podia ver-se afixada naquelas instalações, a da PIDE/DGS a temida polícia política do Estado Novo.

Ao olhar para aquele edifício o meu pensamento rapidamente recuou no tempo e veio-me à mente aquele dia, quando cumpria serviço militar em Leiria, antes de concluir a especialidade que me permitia aceder a informação privilegiada, ter sido obrigado, tal como todos os camaradas de curso, a preencher a própria ficha com informações pessoais destinada à tal polícia política, de má memória.

Cerca de três anos depois de ter preenchido essa ficha para a PIDE/DGS e já depois de ter cumprido o serviço militar, primeiro no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, na Trafaria e, depois do Quartel-General em Bissau, regressei à vida civil e retomei o meu antigo posto de trabalho na secção de vendas da Setubauto, antigo concessionário Ford em Setúbal.

E, foi aí, no final de 1972 ou início de 1973, numa, conversa casual sobre a atualidade, a propósito de umas bombas que teriam deflagrado por aqueles dias, que partilhei com os colegas presentes a informação de que teria sido determinado movimento revolucionário que as teria colocado.

Esta informação ter-me-ia chegado à mão por intermédio de um panfleto informativo enviado para a minha residência, por um anónimo, que a fez chegar por correio, em envelope timbrado do jornal EXPRESSO.

No dia seguinte a ter havido esta conversa entre colegas da mesma empresa, o telefone interno tocou e um colega pedia-me que me dirigisse ao salão de exposição automóvel onde dois senhores queriam falar comigo.

E, foi nessa altura, que pela primeira vez tomei contacto direto com dois agentes da PIDE/DGS os quais sem perderem muito tempo logo ali me interrogaram sobre a conversa que tinha tido no dia anterior e sobre os tais impressos que teria recebido, tentando que lhes indicasse a proveniência. Coisa que eu não sabia, como então declarei.

O assunto aparentemente morreu por ali, e antes daqueles agentes se irem embora não deixaram de fazer a recomendação de eu deveria ter cuidado com as companhias e, caso recebesse mais alguns daqueles panfletos informativos que lhos entregasse.

Bem, a partir daquele dia e até ao restante tempo que estive empregado na Setubauto tive o máximo de cuidado com o tipo de conversas com os colegas e, embora continuando a receber alguma informação revolucionária, nunca mais falei no assunto com eles.

Faltaria pouco tempo para que na primaveril manhã de 25 de abril de 1974 um punhado de jovens militares proporcionasse a oportunidade ao povo português de se exprimir livremente, sem receio de algum dos seus “amigos” fazer passar para a polícia política o teor de qualquer casual conversa.

Para os que não viveram esses anos de ditadura, gostaria de acrescentar que um inofensivo texto como este seria o suficiente para causar problemas ao seu autor, para além de ser censurado pelo Regime vigente.

Passados tantos anos, este episódio continua gravado na minha memória, pelo que não deixo de ter para mim, que mal, por mal, mais vale uma má democracia do que uma boa ditadura. Pelo menos agora exprimimo-nos livremente, às vezes até para dizer asneiras.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-01

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