notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Fui detido pela P.S.P. no Parque do Bonfim

Despertou-me a atenção o estado deplorável em que se encontra o edifício junto ao lago do Parque do Bonfim, pelo que coloquei uma pequena nota no grupo do facebook Coisas de Setúbal e as reações não se fizeram esperar inclusive com as mais diversas sugestões de aproveitamento daquele belo espaço.

Veio-me então à mente aquele 19 de junho de 1979 quando cerca da meia-noite por ali passei e acabei detido pela P.S.P., e lá fui então levado dentro da “ramona” para o edifício do comando distrital da Polícia de Segurança Pública.

Acontece que naquele dia tinha havido um roubo de alguns milhares de escudos do edifício da Câmara Municipal e pelos vistos os polícias andaram a fazer rusgas durante a noite pelos cafés da cidade com o objetivo de apanhar o ou os gatunos a tomar alguma bica como forma de comemorar tal façanha.

Nessa noite eu tinha ido levar minha esposa ao Hospital de São Bernardo onde na manhã seguinte daria à luz o nosso segundo filho. Depois de lá a deixar passei frente à Escola Industrial e Comercial de Setúbal e porque visse mais movimento que o usual, junto ao café do parque, estacionei o carro e fui saber o que ali se passava.

Havia bastante polícia a cercar o local e de dentro do café saiam várias pessoas que entravam nas carrinhas policiais e, como eu me aproximasse, um dos polícias indicou-me a carrinha onde deveria entrar.

De pouco me valeu dizer ao polícia que tinha o carro estacionado ali junto à escola e que estava a chegar naquele momento. O homem argumentou que era só e apenas uma questão de identificação que não levaria muito tempo.

Mais curioso que amedrontado, dado que se tratava de uma situação nova, lá entrei e, juntamente com os outros detidos, levaram-me para o Comando Distrital. E foi com surpresa que verifiquei que eram largas dezenas, ou centenas, as pessoas que ali se encontravam, boa parte deles tinham sido “capturados” no Café Esperança (McDonnald’s da Avenida Todi).

Bem, acabei por ali estar até que fui chamado e submetido a interrogatório e só me deixaram sair já perto das duas horas da manhã ilibado tal como todos os detidos, alvo das buscas do tal assalto à Câmara Municipal, que segundo julgo saber nunca se descobriu o ou os autores.

Umas horas depois na velhinha maternidade do Hospital de São Bernardo ouvia-se o choro de um forte rapaz e pela segunda vez eu era pai, estava em liberdade, mas poderia não ser essa a minha condição devido ao enraizado hábito de querer saber tudo o que se passa na minha terra.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-19

domingo, 16 de agosto de 2015

A nossa “Fonte da Charoca” ainda pode vir a ser recuperada com outra função

Os setubalenses que nasceram há mais de meio século no popular  e típico Bairro de Troino certamente que terão gratas lembranças de uma fonte que tanta sede saciou e muita água serviu às casas da Rua das Oliveiras e artérias circundantes, estou a falar da “Fonte da Charoca”.

Não sei de onde provinha a água que jorrava entre as duas pedras paralelas que a imaginação popular aliava aos lábios vaginais e daí o ter sido batizada por “charoca”. Suponho que a nascente se situava algures na “manteiga fina” ou seja, na parte superior do outeiro que ombreia com a Rua das Oliveiras.

Esta é provavelmente a rua que mais cara ficou, por metro linear, aos cofres da autarquia sadina se atentarmos no possante muro de contenção travando as terras do outeiro, uma obra artisticamente trabalhada em brecha da arrábida.

E é precisamente incrustado no muro que vamos encontrar um nicho de onde por entre duas lajes, com cerca de meio metro cada, entre as quais jorrava a água para abastecimento público.

Com o precioso líquido a chegar a todos os domicílios a fonte deixou de ter utilização prática e acabaria desativada. Do seu nicho desapareceram as duas pequenas lajes por entre as quais corria a água e a harmonia do espaço viria a ser beliscada com a colocação de uma bataria de contentores para recolha de lixo.
Nos últimos tempos temos vindo a assistir em Setúbal à recuperação de alguns espaços históricos e a “fonte da charoca” tem vindo a ficar no esquecimento, pelo que penso estar na hora de se fazer a recuperação daquele espaço.

Os contentores poderão ser eliminados, instalando-se um ou dois molock, na zona frente aos mesmos, a exemplo do que já se fez, e bem, no “Largo da Fonte Nova” e em diversos outros locais da cidade.

Desimpedido o espaço, seria então altura de fazer o  mesmo que também se fez com o fontanário existente naquele largo, ou seja, pôr a água a correr em circuito fechado, criando assim mais um polo de atração e beleza para um local onde tanta gente passa.

Com esta pequena obra ganharíamos todos, ou seja: Os moradores locais com um melhor ambiente dado que se retirariam os contentores de lixo; os setubalenses em geral que teriam oportunidade de apreciar mais um espaço histórico com vida ligado às suas raízes e os turistas que cada vez mais nos visitam ao poderem admirar mais um novo polo de atração num espaço agradável e limpo.

Fica a sugestão à particular atenção do meu homónimo, presidente da União de Freguesias e à sua camarada a nossa presidente da Câmara Municipal, pessoas a quem compete decidir da mais ou menos valia desta ideia de um troineiro que alguma água ainda bebeu na “Fonte da Charoca”.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-16

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sexta-feira, 14 de agosto de 2015


A dança dos monumentos setubalenses

A propósito da deslocalização da estátua de Jacinto João do estádio do Vitória Futebol Clube para a nova rotunda com o mesmo nome, veio-me à mente a dança a que têm estado submetidas uma boa parte das obras de arte setubalenses.

Em minha opinião a generalidade destas mudanças vieram beneficiar os respetivos monumentos, dando-lhes maior visibilidade, valorizando também os espaços onde foram colocados.

Assim, conversando com um amigo bem conhecedor das coisas de Setúbal, conseguimos identificar algumas mudanças de local, ocorridas ao longo de vários anos, com diversas das nossas obras de arte.

Vejamos então:

- Vinda do Convento do Carmo seria colocada naquele que hoje designamos por Largo José Afonso a fonte decorativa que se encontra no centro do lago, lamentavelmente relegado para segundo plano por uma outra enorme construção difícil de deslocalizar.

- Rumando para nascente, acabaria por ficar encostado ao alçado lateral da capela do Senhor do Bonfim, o cruzeiro (calvário) que ali ainda hoje podemos apreciar.

- Já o outro cruzeiro que podemos também apreciar no Largo de Jesus é uma obra bem viajada, dado que já vai no seu terceiro poiso.

- O pelourinho deslocou-se do Largo da Ribeira Velha para a Praça Marquês de Pombal e na década de 50 esteve quase a ir parar à Praça do Bocage.

- A bonita Fonte do Sapal, depois de desmontada peça por peça acabaria de ser transferida da Praça do Bocage para a Praça Teófilo Braga e porque na moderna Setúbal já não há assim tantos burros para dar de beber na sua nova localização não foi contemplado o tanque que se encontrava no alçado posterior.

- Ela cantou e encantou, por isso, foi-lhe construída uma glorieta que seria montada inicialmente no Largo José Afonso e posteriormente transferida para a avenida que ostenta o seu nome, Luísa Todi.

- O busto do poeta brasileiro Olavo Bilac também mudou de poiso na Praça do Brasil, rumando do vértice sudoeste para o local onde hoje se encontra.

- Ainda naquela zona da cidade a imagem de “Nossa Senhora de Setúbal” viu o seu nicho mudado, deslocando-se mais para sul, após as obras levadas a efeito na estação dos caminhos-de-ferro.

- Será bom não esquecer os célebres golfinhos que se encontravam na rotunda da Avenida Luísa Todi e nadaram mais para poente, embora os coitados frequentemente se lamentem com a falta de água no seu novo local.

- A propósito de fontes. A do centenário (fonte luminosa) esteve vai-não -vai para ser deslocalizada uns metros mais para poente aquando das modificações introduzidas pelo POLIS.

- O mesmo aconteceu com a “Fonte Nova” que também esteve para ser mudada de poiso aquando da construção do “mamarracho” que se lhe veio encostar ao traseiro (alçado, pois claro).  

A vida é feita de mudanças e as cidades também tem vida, por isso, não nos deveremos admirar com estas alterações, só que elas devem ser bem pensadas, ponderados os prós e os contras e  depois de amadurecida a ideia ser então decidido se é ou não de executar. É que a cidade é dos cidadãos e não de quem governa neste ou naquele momento.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-14

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Dois monumentos: Um brilha na escuridão o outro afunda-se nas trevas

Está agendado para sábado, dia 15 de agosto de 2015, o momento em que a  Câmara Municipal de Palmela inaugurará um novo sistema de iluminação que irá dar uma visibilidade completamente diferente e ímpar ao seu vetusto castelo, tornando-o assim num marco referencial da nossa região.

Enquanto isso, o nosso “castelo” de Setúbal, o Forte de São Filipe, permanece envolto em trevas profundas, tão profundas quanto as suas antigas galerias subterrâneas que escondem o escoramento de parte da laje que podemos ver à superfície. Uma obra com dezenas de anos e que não chegou a ser concluída.

No início de maio deste ano, dirigi-me ao nosso forte, que se encontrava encerrado, sem qualquer tipo de aviso sobre o porquê de tal suceder e mesmo ali fui informado por alguém que vindo do interior me disse que o mesmo se encontrava com obras de escoramento nas galerias subterrâneas e que a pousada se encontrava também com intervenção, tendo encerrado em 1 de novembro de 2014  e reabrindo no dia 1 de maio.

Enquanto isso, um relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) dava conta da necessidade de se proceder a obras urgentes de estabilização da encosta, dado o perigo de derrocada da fortaleza.

O facto é que chegamos ao mês de agosto e nem a pousada reabriu e parece que não voltará a fazê-lo, nem sequer os portões do forte deixaram de estar fechados a cadeado não permitindo que alguém tenha acesso àquele privilegiado miradouro sadino.

Julgo que o mais elementar direito de qualquer cidadão numa sociedade democrática, é de facto o direito à informação e, como tal, considero incompreensível que não seja colocado pela Autarquia um aviso no início da estrada de acesso ao forte com a informação de que o mesmo está encerrado, seja porque motivo for.

Captarmos turistas que venham até cá para fazer mais alguma coisa do que comer peixe assado e choco frito é capaz de ser complicado e nem sequer vale a pena estarmos a pensar em cais para navios de cruzeiro, marinas, ou construção de novos hotéis, enquanto não se cuidar devidamente do pouco que temos para presentear os visitantes.

Já com o Parque Natural da Arrábida é o que é, sem as mínimas condições e com ausência de manutenção de espaços, agora o forte de São Filipe com os turistas a baterem com o nariz na porta todos os dias…

Afinal os nossos “espertos” estão a pensar que basta criar a marca “Arrábida” e transformar um posto de turismo numa outra qualquer coisa para desenvolvermos convenientemente esta indústria da paz?

Assim não dá!

Se não fosse as belezas ímpares com que natureza dotou este cantinho de Portugal estávamos feitos… Até parece que estamos a brincar aos operadores turísticos. Digo eu que até nem sou nem “expert” nem “esperto”.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-12

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

E que tal uma rotunda decorada com troféus do Vitória Futebol Clube?

Um membro do grupo do facebook COISAS DE SETÚBAL, a propósito da deslocalização da estátua do popular JJ do Estádio do Vitória para a nova rotunda em construção na praça com o nome deste clube, tem vindo a questionar a decisão pelo facto dos sócios do Vitória não terem sido ouvidos sobre esta mudança.

Tenho vindo a pensar no assunto e de facto, quanto a mim, faz todo o sentido esta preocupação do amigo José Joaquim Wergy dado que ao que julgo saber o monumento é uma peça patrimonial do Vitória Futebol Clube, tal como o é, por exemplo, a Taça de Portugal, conquistada pelo clube em 2005 e tantos outros troféus e diversos materiais e equipamentos históricos ou não.

A estátua, propriedade do clube, encontrava-se no Estádio do Bonfim, propriedade do Vitória Futebol Clube e agora passa para a via publica a título de quê?

De empréstimo?

De oferta à cidade?

De dação em pagamento por qualquer eventual dívida das que o clube tem?
Ou a que título?...

Por outro lado, se o assunto, que me parece ser suficientemente importante, não foi discutido com os sócios, quem autorizou a saída do clube daquela peça patrimonial? O seu presidente? Certamente que sim. Mas terá ele competência para o fazer? E quanto a quem aceitou por parte da Câmara Municipal de Setúbal, será que o poderia/deveria?...

Tendo como legais e corretas as medidas tomadas com a transferência de local da estátua do JJ, poderemos pensar que será igualmente lícito usar outras peças patrimoniais do clube para decorar a outra rotunda frente ao estádio.

Então, porque não pensar num ENORME arranjo composto pelos muitos troféus do Vitória que se encontram guardados nalgum lugar menos apropriado das instalações vitorianas. Assim sempre seriam, mais apreciados pelo público…

Pode parecer uma ideia absurda, mas bem possível, porque quem pode ceder uma peça pode ceder uma centena, ou como dizem alguns advogados: “Quem leva a vaca, leva o bezerro”.

As interrogações que partilhei, não passam disso mesmo de interrogações que de facto me vieram à mente em função da preocupação daquele nosso amigo sócio (também ele dono de parte da estátua) do nosso Vitória. 

Quanto à decoração da rotunda com os troféus do ENORME que se encontram algures, esqueçam lá isso. Ou será que já não se pode brincar com a decoração das rotundas da cidade do rio azul?

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-11

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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Olavo Bilac vai comemorar as bodas de ouro, em Setúbal, no próximo mês de setembro

Olhar calmo e sereno, cabelo penteado de risco ao meio e farto bigode bem aparado eis como é apresentado aos setubalenses este brasileiro conhecido entre os mortais por Olavo Bilac, um grande poeta admirador, estudioso e divulgador da obra de outro não menos grande nome da poesia, o nosso Bocage.

Olavo Bilac, que para além de poeta era jornalista e cronista, nasceu sessenta anos depois de ter falecido Bocage, ou seja, em 1865 e viria a falecer em 1918 no Rio de Janeiro, cidade onde vira pela primeira vez a luz do dia.

Em 1907 a revista Fon-Fon elege-o como Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Setúbal, terra de nascimento de Manuel Maria Barbosa du Bocage haveria de homenagear este grande poeta do país irmão, colocando o seu busto na Praça do Brasil, uma importante artéria da cidade sadina, que teve honras de inauguração pelo Presidente da República, Almirante Américo Thomás, em 16 de setembro de 1965, quando foram dadas por concluídas as obras de urbanização daquele espaço.

O busto de Olavo Bilac inaugurado em Setúbal há precisamente 50 anos foi custeado por António Tacla, irmão do jornalista Paulo Tacla e foi oferecido à cidade pela Comissão Brasileira das Comemorações do II Centenário do nascimento de Elmano Sadino.

A obra fundida em bronze pelo escultor paulista Luís Morrone foi inicialmente colocada noutro local da Praça do Brasil e só passou para a atual localização depois daquele espaço ter sofrido obras de transformação arquitetónica na década de 1980.

No próximo mês de setembro deste ano de 2015, quando se celebrarem as bodas de ouro desta obra certamente que os setubalenses gostariam de ver o monumento, bem raspado e melhor pintado, bem como as taças ajardinadas e as plantas daquele espaço de eleição devidamente tratadas a par de uma limpeza em profundidade que se impõe.

Certamente que o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Setúbal estará atento a esta efeméride e não deixará de tomar as medidas que achar por convenientes a fim de honrar o nome de quem tão bem soube tratar o nosso mais alto vulto da poesia.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-10

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sábado, 8 de agosto de 2015

Memórias da “escola do barracão”

Deveria eu ter uns seis aninhos ou coisa que o valha quando naquele dia de inverno estreei umas novas botas de água, ou galochas como hoje se designam, pretas, envernizadas e com pelo por dentro de forma a torna-las mais quentinhas.

Tratou-se de um significativo esforço financeiro que minha mãe fez para as comprar de modo a que fosse mais agasalhado para a “escola do barracão”.

Certo dia, depois da que a escola acabou, subi algumas dezenas de metros pela Rua das Oliveiras até casa, com a sacola de serapilheira a tiracolo, (onde se destacava um bonequinho bordado por minha talentosa mãe) dentro da qual vinha a lousa e a “pena”.

Naquele dia eu caminhava um pouco desengonçado e de pernas um pouco mais abertas que o normal.

À entrada de casa minha mãe percebeu que algo não estava bem e pelo cheiro logo percebeu que as botas para além dos meus pés traziam algo menos bem cheiroso.

- Porque é que não pediste às senhoras para ir à retrete?

- Tive vergonha!...

- Ai sim? Pois então toca a despir para te lavar a ti e às botas novas.

A tarde estava fria, casa de banho não havia no nº 53 da Rua das Oliveiras e daquela vez não tive direito a ser lavado dentro do alguidar na cozinha com água aquecida numa cafeteira.

De pouco me valeu chorar e reclamar do frio. O banho foi dentro do alguidar sim, mas com água fria e tomado ao ar livre, naquele final de dia de Inverno, no pequeno quintal.

Acho que foi a partir desse momento que comecei a perder a vergonha de falar o que quer que fosse, por mais desagradável e por menos bem cheiroso que igualmente fosse. Porque mesmo assim sempre era preferível pedir para ir à retrete do que depois ter de tomar o banho no quintal com água fria.

Esta é uma memória que me ficou gravada da “escola do barracão”, uma escola particular que muitas crianças do nosso Bairro de Troino frequentaram e onde aprenderam as primeiras letras e onde eu indiretamente aprendi uma lição que jamais esquecerei por muitos anos que ainda viva.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-08

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O edifício do Clube Setubalense vai ser vendido?

É desta forma que o livro “SETÚBAL – Gente do Rio Homens do Mar” começa a narrativa quando se refere ao decano dos clubes sadinos:

“ O Club Setubalense é a mais antiga instituição social da cidade, fundada no ano de 1855 com o propósito de promover “a honesta convivência dos sócios”, no mesmo ano que em Paris era inaugurada a célebre Exposição Universal, ainda sem a Torre Eiffel.

Em 1 de junho nasceria na vila o jornal O Setubalense e poucos meses depois, numa sala dos Paços do Duque, no outonal dia 12 de novembro fundava-se o Club Setubalense “ao qual trataram logo de concorrer a associar-se grande número de cavalheiros”, conforme o novo periódico tinha oportunidade de noticiar.

Dois dias depois, em 14 de novembro, seriam aprovados os Estatutos do Club, documento que fora enviado em devido tempo para aprovação do Governo do Reino.

O clube instalou-se então numas dependências do palácio dos Paços do Duque, edifício localizado na Rua da Praia, atual Avenida Luísa Todi, onde posteriormente funcionou o Governo Civil de Setúbal.

Os Estatutos foram aprovados pelo rei quando Setúbal ainda era uma vila portuguesa e numa época em que aqui começavam a soprar os ventos da Regeneração, ou seja, os alvores do Capitalismo, com o surgimento de uma classe de novos industriais, comerciantes e proprietários, considerados como os pequenos, médios e altos membros da classe burguesa local.

D. Pedro V deferiu em 9 de julho de 1856, por Carta Régia, a petição do documento que definia as regras orientadoras do novo clube, quatro anos antes de Setúbal ser elevada à categoria de cidade e quando ainda o jovem monarca contava 18 anos de idade.

Ao longo de décadas o Club Setubalense foi considerado como um clube de elite, onde apenas um restrito e selecionado punhado de setubalenses pertencentes às classes sociais mais elevadas tinham acesso.

Curiosamente foi em 30 de janeiro de 1926, quando passava por graves dificuldades financeiras, tendo de vender vários objetos de que já não necessitava, incluindo um velho piano, a sua sede passou a funcionar num dos mais belos edifícios de Setúbal localizado no lado sul da Avenida Luísa Todi, onde hoje ainda se encontra.”

E é nesse mesmo edifício que fomos encontrar afixada a faixa informativa que dá conta de que a Escola de Dança do Clube Setubalense está a levar a cabo uma campanha de angariação de verbas para a aquisição do histórico edifício.


Rui Canas Gaspar
2015-agosto-07

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domingo, 2 de agosto de 2015

Chegou uma nova aquisição ao Vitória

Quem foi que disse que o ENORME Vitória Futebol Clube era menos que o Benfica, Sporting ou Porto?

Por acaso não iremos todos a disputar o principal campeonato português em pé de igualdade, com o mesmo número de jogadores e a mesma quantidade de pontos?

Por acaso não temos todos  um animal como totem, destinado a intimidar os nossos adversários?

Bem, temos todos, não será bem assim, eles têm, o ENORME não tinha, até que hoje recebeu esse importante reforço.

O Benfica tem uma águia que dá a volta ao seu estádio, o Sporting o desenho de um leão que nesta época se propõe rugir mais alto, o Porto um mítico dragão que já deixou de cuspir fogo e ao Vitória faltava-lhe o animal que daria força à equipa e poderia fazer tremer os adversários.

Ora bem, saibam os amigos que chegou hoje, domingo, 2 de agosto de 2015 esse reforço de peso ao nosso Vitória, não um elefante ou um rinoceronte, mas sim uma simpática, barulhenta e rápida caturra.

A vaidosa ave andou hoje pela manhã às voltas pelo estádio vazio piando bem alto, como se estivesse a treinar e depois de algumas voltas veio pousar na janela do meu “camarote privativo” sem parar de piar até que lhe fosse tirar a fotografia.

Sendo assim, que fique descansado o XVIII Exército porque se não fizer barulho suficiente para animar e incentivar os nossos jogadores agora já sabe que conta com este ENORME reforço recém-chegado ao Bonfim.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-02

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sábado, 1 de agosto de 2015

A velha porta da Rua das Oliveiras

Por esta velha e cansada porta, entraram rijos e honestos pescadores, operárias conserveiras, gente humilde, gente boa que souberam criar os seus filhos como pessoas de bem e dar-lhes o melhor que podiam naqueles tempos difíceis sobretudo na época de defeso da pesca da sardinha.

Em pleno Bairro de Troino, ela ainda lá se mantém, com a sua mãozinha onde outras pequenas mãozinhas seguraram para a encostar, no tempo em que não era necessário fechar e onde as portas das casas estavam igualmente encostadas.

Era um tempo em que os vizinhos funcionavam como se de uma grande família se tratasse, em que os rapazes vinham jogar à bola para a rua, que parecia bem mais larga e onde nas noites quentes de Verão se sentavam à porta conversando e convivendo.

Tempos felizes, tempos diferentes em que as pessoas se contentavam com pouco, naturalmente porque não conheciam o muito. Porém, se os bens materiais eram escassos, a solidariedade era por demais abundante.

Num daqueles cinzentos dias de Inverno parte da muralha que circundava a cidade abateu-se sobre o prédio a que pertence esta velha porta e logo a vizinha da frente, D. Dora, ofereceu os seus préstimos e as instalações de sua própria casa para ali guardar os parcos haveres enquanto não se arranjasse nova habitação.

Que maravilhosos pensamentos, que gratas recordações guardo desta velha porta, da sua vetusta mãozinha de ferro que ainda lá está e onde a minha pequena mãozinha tantas vezes segurou já lá vão algumas dezenas de anos.

Num destes dias fiz questão de ir mostrar ao meu pequeno neto o Bairro de Troino onde nasci, a Rua das Oliveiras onde pela primeira vez vi a luz do dia e contar-lhe as estórias do seu avô e dos seus antigos amigos e vizinhos quando tinha a sua idade e entrava por esta velha porta que tantas boas memórias me fez vir à mente.

São coisas de Setúbal, que nos marcam para toda a vida e que vamos partilhando com os amigos naturais e virtuais, agora que temos à nossa disposição esta poderosa ferramenta que há alguns anos era para nós impensável, a internet.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-01

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Porquê Carlos Relvas como nome da praça de toiros setubalense?
Os espetáculos tauromáquicos em Setúbal têm longa tradição, pelo que aqui foi construído e inaugurado no dia 15 de setembro de 1889 um edifício próprio destinado a este tipo de evento.
À praça de touros, construída de forma octogonal, como era uso corrente na época, dispondo de mais de 4.000 lugares, devido à sua volumetria e importância social seria atribuída o nome do monarca português D. Carlos.
Após a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, o importante edifício viu ser substituída a sua régia identificação pela plebeia denominação de “Praça de Touros Carlos Relvas”.
Os republicanos mudaram o nome ao espaço, porém, ou por se terem esquecido, não terem reparado no pormenor, ou seja lá por que motivo fosse o facto é que a designação inicial ainda hoje ali se mantém num artístico trabalho em ferro que encima a sua entrada principal.
Mas afinal quem foi Carlos Relvas o homem que veio dar nome a este espaço inicialmente batizado como Praça D. Carlos?
Carlos Augusto Mascarenhas Relvas de Campos foi um abastado lavrador, desportista e fotógrafo português nascido na Golegã em 13 de novembro de 1838 e que viria a falecer em 23 de janeiro de 1894.
Embora ficasse mais conhecido no país e no estrangeiro devido às suas atividades como fotógrafo amador, Carlos Relvas, foi também um exímio cavaleiro e toureiro amador, jogador de pau e atirador de carabina e pistola.
Membro da Sociedade Francesa de Fotografia teve trabalhos publicados nas revistas “O Ocidente”, “Branco e Negro” e “Boletim Fotográfico”.
Foi casado em primeiras núpcias com D. Margarida Amália Mendes de Azevedo e Vasconcelos senhora que lhe daria quatro filhos, entre os quais se destacou como figura pública o político republicano José Relvas.
Este político, nascido na Golegã, foi aquele que foi escolhido para proclamar a implantação da República, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, atendendo a que era um dos elementos mais antigos do Diretório do Partido Republicano.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” já dizia o grande poeta Luís Vaz de Camões. O que nunca poderei perceber é o porquê de ter sido mudada uma designação inicial mais condizente com a vontade dos seus promotores e o espírito da época em que a praça foi edificada, por um nome que nada tem a ver com os setubalenses, nem sequer ser figura de destaque no mundo tauromáquico, sem desprimor para os seus dotes artísticos.
“Cheira-me” que aqui houve o dedo político do seu famoso filho que assim viu perpetuada numa obra para a qual não se consta que ele ou sua família tenham contribuído. Uma ardilosa forma de honrar o nome do seu abastado pai. Ao menos se fosse o seu nome, ainda poderia ser compreensível, atendendo ao seu destaque na implantação da Republica, agora o nome do pai!?...
Mal por mal, ainda bem que lá ficou gravado na entrada principal esquecido, ou não, a primitiva designação da praça de toiros setubalense, o nome de Praça D. Carlos.
Rui Canas Gaspar
2015-agosto-01

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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Já comeu este ano a Bolacha Piedade?

Recebi a incumbência de comprar uma quantidade substancial de bolacha para enviar para a Irlanda, de modo a que um setubalense que ali se encontra a trabalhar a possa dar a provar a colegas de mais de meia dúzia de diferentes nacionalidades.

Como nem todos sabem a história desta especialidade, aqui vos conto um pouco do seu percurso.

“Corria o ano de 1855, Setúbal ainda não tinha sido elevada à categoria de cidade, quando nesta vila de pescadores nascia aquela que se tornaria a famosa e muito apreciada Bolacha Piedade.

De facto, aquele foi um ano de ouro para Setúbal. As suas conservas de sardinha alcançaram uma menção honrosa na Exposição de Paris, o jornal O SETUBALENSE começou a informar a população sadina do que por aqui acontecia e o Club Setubalense foi constituído como espaço de encontro da classe dominante da vila.

Acontecimentos que só por si são motivo para considerarmos como notável este ano, sem falar no facto de que foi por Decreto de 24 de outubro de 1855 que aconteceria a extinção dos concelhos de Palmela e de Azeitão passando os mesmos a ser anexados a Setúbal.

Calcorreando o chão de terra batida do recinto da Feira de Santiago, então com mais de quatro séculos de existência, realizada junto ao Convento de Jesus, apareceriam uns jovens vendedores, com tabuleiros pendurados ao pescoço que apregoavam bem alto um novo e delicioso produto: a Bolacha Piedade.

Este novo tipo de bolacha, que os setubalenses se habituaram a identificar com a Feira de Santiago, estaria presente desde 1855 até aos nossos dias em todas as edições da mesma, realizada em diversos pontos da cidade, desde a zona nascente da Rua da Praia (Av. Luísa Todi) à zona poente da dita avenida e finalmente ao Parque Santiago, nas Manteigadas.

Mas o que torna esta bolacha ímpar é a sua receita que se mantém como segredo de família, passado de geração em geração. É esta mesma família Piedade que se junta uns dias antes do início da feira para a confecionar, de forma a estar pronta para comercialização naquele que é o mais antigo certame do seu género a sul do Tejo.

As bolachas, um produto artesanal, são bastante rijas, umas mais tostadas que outras, são muito agradáveis ao paladar e têm um sabor a anis e a erva-doce o que as torna únicas e inimitáveis.

Esta delícia não se deve comer dando-lhe dentadas, se assim o fizermos estamos sujeitos a partir um dente, mas sim, partindo-a em pequenos pedaços que se vão saboreando devagar e calmamente.

Há pessoas que compram as bolachas na feira em quantidade suficiente para consumir ao longo do período que medeia entre este certame e o próximo. Pelas suas características elas não se irão deteriorar com o passar do tempo.

A Bolacha Piedade é um dos símbolos centenários da doçaria tradicional portuguesa, agraciada em 1982 com a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal, com produção que tem vindo a ser mantida ao longo de muitas décadas e cuja tradição manda que seja produto indispensável na Feira de Santiago.”

Texto do livro: “Setúbal – Gente do Rio Homens do Mar”

Rui Canas Gaspar
2015-07-30

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Faz hoje 45 anos!...

A meio da manhã de hoje o meu telemóvel tocou e do outro lado o meu amigo Ricardo Soromenho, de forma direta pergunta com ar de riso: “Sabes que dia é hoje?” (de vez em quando ele vem com o mesmo tipo de pergunta, referente a uma qualquer efeméride).

Segunda feira, dia 26 ou 27, sei lá?!... 27 confirma o Ricardo que logo acrescenta: “Faz hoje 45 anos que morreu o Salazar”.

Áh! Já percebi, queres tu dizer que faz hoje 45 anos que embarquei para a guerra de África, para a Guiné!...

Isso mesmo! Confirma o Ricardo.

De facto naquele dia 27 de julho de 1970 o navio de carga e passageiros “Ana Mafalda” estava acostado ao cais da Rocha do Conde de Óbidos e os meus pais que tinham ouvido no rádio a notícia da morte do ditador português, mantinham a secreta esperança que o navio não partisse de Lisboa.

Mas não, para desencanto dos meus pais o barco ia mesmo partir levando o seu filho mais velho para terras longínquas que se encontravam em guerra e de onde muitos jovens não regressariam.

Na minha memória guardo a imagem do meu pai, com metade da idade que hoje tem, olhando fixamente aquele barco, sem dizer palavra mas adivinhando-se que se lhe fosse possível dar um valente murro e afundá-lo de vez, certamente fá-lo-ia.

A ditadura manteve-se mesmo após a morte de Salazar e lá longe nas matas de Angola, Moçambique e Guiné os combates entre o Exército Português e os Movimentos Independentistas continuaram tal como continuaram a morrer milhares de jovens de ambos os lados.

No primaveril dia 25 de abril de 1974, um punhado de militares, onde predominavam aqueles com patente de capitão, levaram de vencida uma revolução que acabaria por colocar fim à Guerra Colonial e instaurar o regime democrático em Portugal.

Alguns meses antes eu tinha chegado a Portugal, depois de 26 meses de Guiné, sem ter disparado um tiro, sem ter recebido um tiro, mas quase, quase, a juntar as botas devido a um terrível ataque de paludismo que me deixou às portas da morte.

Outros jovens, alguns setubalenses, vieram daquela guerra com estilhaços no corpo, outros não viriam de lá vivos, como foi o caso do meu amigo Fernando, troineiro, morador na Fonte Nova, que deu a sua vida numa guerra estúpida e sem sentido, como aliás o são todas as guerras.

Rui Canas Gaspar
2015-julho-27

www.troineiro.blogspot.com

domingo, 26 de julho de 2015


A “ASTÓRIA” e a “Casa da Mariquinhas”

Há poucas dezenas de anos numa qualquer noite de domingo podíamos ver a azáfama ali para os lados das docas dos pescadores e das Fontainhas, com as traineiras, os “gasolinos” e as “enviadas” a largarem amarras e a fazerem-se ao mar onde iriam pescar a farta e saborosa sardinha.

Muito desse peixe pescado ao largo da nossa costa era destinado às fábricas de conservas que laboravam em Setúbal.

A par dessas fábricas outras indústrias ocupavam muitos setubalenses, nomeadamente no fabrico de caixotes e na confeção das próprias latas de conserva.

Uma dessas unidades fabris encontrava-se localizada no topo poente da Avenida Luísa Todi e dedicava-se ao fabrico de latas e impressão das mesmas. Era a ASTÓRIA que tinha a seu cargo a estampagem e a litografia.

Hoje, domingo ao início da noite, pude observar que apenas duas traineiras saiam do nosso porto para ir pescar, elas são quase tudo o que resta da nossa outrora pujante frota de pesca do cerco.

Também não vale a pena haver mais barcos deste tipo, dado que também não há peixe para eles pescarem e assim também acabaram por desaparecer as fábricas para o conservar.

Até o edifício onde funcionou a outrora dinâmica ASTÓRIA está agora ocupado com outros trabalhadores de uma indústria bem mais produtiva, a dos impostos.

A despeito da sua volumetria o prédio foi recuperado interiormente e o seu aspeto exterior é muito agradável, conforme a imagem documenta, servindo agora como local de trabalho aos trabalhadores do Ministério das Finanças.

Curiosamente depois de fotografar este bonito imóvel e pensar neste assunto veio-me à mente o fado cantado pela nossa Amália Rodrigues, intitulado a Casa da Mariquinhas.

Porque será?...

Rui Canas Gaspar
2015-julho-27

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