notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Finura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Finura. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de abril de 2016

Finalmente ele vai ver o seu nome numa artéria de Setúbal

Foi graças a ele que bem perto de uma centena de pessoas se livraram de encontrar a morte por afogamento. Porém, nem todos estes salvamentos foram do conhecimento público, mas apenas pouco mais de três dezenas, o que não deixa de ser muita gente.

Uma medalha do Instituto de Socorros a Náufragos atesta o valor deste homem bem conhecido em Setúbal pela sua postura perante a vida e o mundo que considerava demasiado pequeno para a sua estatura.

De porte atlético, podíamos vê-lo montado na sua bicicleta de carreto preso, para poder rolar para a frente ou para trás, com o travão sob o selim, buzina de ar. O guiador alto faziam com que ciclista pedalasse com o tronco direito e fizesse toda a sorte de malabarismos em cima daquela máquina ímpar.

Homem que não era dos sete ofícios, mas sim de uma infinidade deles, levando-o a ser conhecido como um operário especializado em trabalhos não especializados.

Foi de grande valia aos homens do mar pelos seus excelentes dotes de mergulhador e como ator de cinema ao ter de levar uns socos e cair ao Sado.

Quando algum cabo se prendia na hélice dos barcos era a ele que recorriam para resolver o problema. Embora não seja de solução simples, ele resolveu outros problemas bem mais complicados, desde a recuperação de um barco até automóveis caídos ao rio que tratou de trazer à tona.

Foi fabricante de conservas, inventor, soldador de precisão e a sua vida daria certamente um volumoso livro e, porque não, uma excelente telenovela.

A sua oficina/fábrica guarda uma boa parte do seu espólio há algumas dezenas de anos.

Seu filho pretende ali fazer um museu com características de sala de convívio, mas aquele largo, sem nome, em plena cidade de Setúbal, no Bairro Alves da Silva, encontrava-se frequentemente a precisar de uma boa barrela.

Finalmente, e para satisfação de inúmeros setubalenses, aquele espaço já foi alvo de uma limpeza em profundidade e ali irá ser instalado algum equipamento urbano, nomeadamente bancos de jardim e floreiras.

A frente e portão da fábrica oficina já foi pintada pelo filho do homenageado e para um grande muro que lá existe estão em curso diligencias para que um artista possa reproduzir a fotografia de Maurício de Abreu que nos mostra este homem e a sua invulgar bicicleta.

Finalmente, junto à porta da oficina/fábrica uma lápide assinalará o local informando que era ali que este popular setubalense trabalhava.

À entrada do largo sem nome, passará a figurar o nome de FRANCISCO FINURA, um setubalense ímpar a quem a cidade em devido tempo atribuiu a medalha de mérito e agora vai perpetuar a sua memória a partir deste mês de abril de 2016.

Rui Canas Gaspar
2016-abril-03

www.troineiro.blogspot.com

sábado, 9 de janeiro de 2016

Não há fome que não dê em fartura!

Num destes dias falando com um amigo que está ou esteve ligado à Comissão de Toponímia do Concelho de Setúbal e questionando-lhe sobre o porquê de ainda não ter sido atribuído o nome de um bem conhecido setubalense a uma rua da nossa cidade dizia-me ele que existiria uma lista com muitos nomes para atribuir e poucas ruas sem designação.

Curiosamente fui dar uma olhadela ao Roteiro do Concelho de Setúbal e constatei que tendo eu nascido na Rua das Oliveiras, em Setúbal, deveria passar a explicar muito bem qual delas, pois que por incrível que pareça existem duas artérias com esse mesmo nome na cidade sadina conforme se pode constatar.

OLIVEIRAS (Rua das) – Começa na Rua Manuel Gonçalves Branco e finda em beco (Quinta da Amizade), Freguesia de Gâmbia, Pontes e Alto da Guerra.

OLIVEIRAS (Rua das) – Começa junto ao nº 60 da Rua José Carlos da Maia e finda na Rua da Brasileira (Bairro Troino/Fonte Nova), União das Freguesias de Setúbal (São Julião, Nossa Senhora da Anunciada e Santa Maria da Graça), anterior Freguesia de Nossa Senhora da Anunciada.

Falta de imaginação ou descuido? Não sou capaz de responder, apenas sei que nasci na Rua das Oliveiras quando a outra homónima ainda não passava de uma zona rural bem afastada do meu Bairro de Troino.

Também verifiquei que, por exemplo, o nome do Dr. Garcia Peres está atribuído a uma, Rua, um Beco e um Largo, claro que nada tenho contra o notável senhor, mas lá que acho que são artérias a mais com o nome da mesma pessoa, na mesma cidade, lá isso acho…

Mas, voltando à Rua das Oliveiras, então se não faz mal termos duas ruas na mesma cidade com o mesmo nome sugiro que se atribua a um largo (sem qualquer denominação) situado algures na Quinta Alves da Silva a designação de Largo de Bocage porque mais um, ou menos um, não tem importância, ou será que tem?

Já agora, é bom saber que no largo a que me refiro e que não tem qualquer designação existe aquela que foi a oficina/fábrica (com um vasto espólio oficinal e documental) de um bem conhecido setubalense, Francisco Augusto Finura, cujo nome por acaso não consegui vislumbrar no Roteiro do Concelho de Setúbal. Porque será?

Já me disseram que esta questão da toponímia é algo complicado e que a dita comissão funciona de uma maneira algo estranha. Pelos vistos a coisa não está fácil e deve ser mesmo muito difícil conseguirem-se nomes de ilustres setubalenses que se destacaram nas mais diversas atividades?

Se Francisco Finura fosse vivo ele trataria de arranjar uma rápida solução para este problema, tal como arranjou para tantos outros que se colocaram a inúmeros setubalenses a quem ele talentosamente prestou os seus serviços, mas como já faleceu resta-nos a sua memória que curiosamente ainda não consta no roteiro toponímico do concelho do seu nascimento.

Rui Canas Gaspar

09-janeiro-2016

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Francisco Finura o operário especializado em trabalhos não especializados

No ano em que os Estados Unidos foram confrontados com o crash da Bolsa de Nova Iorque, dando início à grande depressão económica, que tão nefastas consequências originaram em praticamente todo o mundo, era comum as crianças portuguesas começarem bem cedo a familiarizar-se com o mundo do trabalho e, um rapazinho setubalense, com os seus nove anos de idade, não foi exceção.

Foi numa oficina de bicicletas que ele iniciou a atividade laboral e, foi aí também, que viria a tornar-se um afinador dessas populares máquinas. Esta seria a primeira profissão de entre muitas outras que desempenharia ao longo da sua vida.

Francisco Augusto da Silva Finura nascera no bairro de Troino, em Setúbal, no primaveril dia 13 de abril de 1929 e, devido à sua persistência, à sua postura perante a vida e aos seus invulgares e multifacetados talentos havia de ficar conhecido por boa parte dos seus conterrâneos que com ele se cruzaram no decurso do século XX e primeira década do XXI.

Durante dezenas de anos os setubalenses, particularmente os residentes nos Bairros de Troino e Fonte Nova, habituaram-se a conviver com este invulgar conterrâneo conhecido por “Finuras”, entre o povo da sua terra.

De cachimbo preso ao canto da boca e barba à “Popeye”, vestido com o fato-macaco azul, donde sobressaía do bolso superior um vistoso e impecável lenço branco era assim que geralmente se apresentava em público.

Não é pois de admirar que a sua pose e popularidade tivesse despertado a atenção de famosos e talentosos fotógrafos e pintores setubalenses, nomeadamente Américo Ribeiro, Baptista, Maurício de Abreu e Rogério Chora, que tão bem captaram a sua imagem, a qual ficaria gravada para a posteridade graças a estes artistas.

Francisco Finura, geralmente fazia-se transportar pelas ruas de Setúbal numa singular bicicleta, fabricada por si, afirmando ser este o modelo mais adequado, porquanto considerava que “o bom ciclista deve pedalar com a perna esticada”. 

O velocípede tinha um guiador alto, carreto preso, travão sob o assento, permitindo por isso fazer demonstrações de perícia sobre as duas rodas.

E ela era de tal forma cobiçada que, certo dia, alguém furtou a bicicleta e nunca mais a mesma apareceu. Francisco Finura tratou de resolver o problema com a celeridade que o assunto merecia e, colocando mãos ao trabalho, tratou de a substituiu por outra idêntica, devidamente equipada com a característica buzina e a roda traseira maior que a frontal.

De tronco direito, peito saliente, compleição atlética, com pronuncia onde o erre era bem vincado, a forma de falar característica dos setubalenses da zona de Troino, “Finuras” não passava despercebido onde quer que estivesse e, entre a rapaziada dos bairros de Troino e Fonte Nova, a sua figura exercia particular atração e admiração não só devido à distinta pose mas sobretudo às suas diversas habilidades, ficando conhecido como o operário especializado em trabalhos não especializados, como ele próprio se autointitulou.

Rui Canas Gaspar
2015-julho-22

www.troineiro.blogspot.com

domingo, 17 de maio de 2015

O quadro que não pode ser retirado

A moldura encontra-se dependurada sobressaindo o desenho que um talentoso artista setubalense um dia rabiscou, gravando ali a imagem do dono daquele espaço, uma outra não menos talentosa e bem conhecida figura da nossa terra.

Muitos dos mais antigos setubalenses reconhecerão aqui a imagem de Francisco Finura, o operário especializado em trabalhos não especializados. Provavelmente não serão assim tantos que reconhecerão o traço do pintor Rogério Chora, ele próprio o autor deste trabalho, embora não o tivesse assinado.

Se por acaso desejar comprar este quadro não o poderá fazer é que ao contrário do que possa imaginar não terá força suficiente para o carregar.

O desenho foi feito diretamente na parede da oficina/fábrica de Francisco Finura e a moldura destina-se a isso mesmo, a circunscrever o espaço onde Rogério Chora gravou a imagem daquele popular setubalense. Um homem que já não se encontra entre nós e ainda sem direito a ver o seu nome numa qualquer artéria da cidade que o viu nascer.

Francisco Finura não foi um homem qualquer, foi um setubalense ímpar, independentemente dos seus muitos ofícios, dos seus mais variados talentos, tão usados e abusados, foi uma figura emblemática desta cidade.

Mas, mais do que isso, ele foi um herói, um homem que salvou algumas dezenas de vidas resgatando-as das águas, o que lhe valeu ser condecorado pelo Instituto de Socorros a Náufragos e, só por esse facto, já merecia ser lembrado pelos seus conterrâneos.

Sendo assim, e porque o quadro não pode sair da sua oficina, localizada num largo ainda sem nome, algures na Quinta Alves da Silva, que a Autarquia dele se possa lembrar, atribuindo àquele espaço o nome de um homem que serviu a cidade de uma forma como poucos o fizeram.

Rui Canas Gaspar
2015-maio-17

www.troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Vai-lhe ser ofertado “patê” made in Setúbal

É no sábado dia 8 de novembro, pelas 17,00 horas que apresentarei na Casa da Baía, em Setúbal, para os meus amigos e amigos dos meus amigos o livro que provavelmente muitos setubalenses gostarão de ler e até ofertar como prenda de natal a um familiar ou amigo.

Trata-se do SETÚBAL – Gente do Rio Homens do Mar um conjunto de meia centena de temas sobre as gentes, coisas e lugares da nossa terra contados de forma simples, porém rigorosa.

Para todos aqueles que se dignarem honrar-me com a sua presença  fiquem desde já a saber que lhes reservei uma recordação deste evento. Por isso, decidi escrever e mandar imprimir uma pequena biografia do grande setubalense que foi Francisco Finura a qual será ofertada a todos os que tenham a paciência para escutar três setubalenses na Casa da Baía, o Leonel Dias, a Paula Borrego e eu próprio.

Para completar esta recordação todos os presentes levarão também uma genuína e histórica lata de conserva do célebre patê de sardinha e cavala fabricado por Francisco Finura.

Mas se já está a salivar com o desejo de saborear o excelente patê, bem pode tirar o cavalinho da chuva, porque a latinha foi fechada a pensar em si, só que, em vez de patê tem um produto ainda mais valioso, a areia do nosso Rio Sado, e assim este raro artigo poderá ser utilizado como um invulgar pisa papeis.

Gente sadina, com produtos de Setúbal, naquele que é provavelmente o mais simpático espaço existente na bela cidade do rio azul, motivada por um sentimento comum, o amor pelas coisas de Setúbal.

Até lá, abreijos
Rui Canas Gaspar
2014-outubro-29

www.troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Francisco Finura um setubalense inesquecível

Era eu um pequeno rapaz quando me habituei a ver pelo largo da Fonte Nova um homem vestido com fato-macaco azul, de impecável lenço branco sobressaindo do bolso de cima, cachimbo no canto da boca e fazendo-se transportar numa bicicleta de carreto preso, o que lhe permitia parar, andar para a frente e para trás ou seja tudo aquilo que as outras o não conseguiam fazer.

A sua figura despertava a natural curiosidade entre os pequenos troineiros que nutriam natural simpatia por aquele seu conterrâneo que sabiam ser senhor de múltiplas habilidades. Em casa ouviam os seus pais por vezes comentar que um cabo ou um pedaço de rede tinha ficado preso na hélice do barco e tiveram de chamar o “Finuras” para mergulhar e resolver o assunto.

Quando foram descobertas na Rua Direita de Troino, duas ânforas romanas repletas com centenas de moedas, Francisco Finura foi dos primeiros a ir até lá e conseguiu algumas peças. Eu e outros rapazes também as viríamos a conseguir, até que as autoridades chegaram e recolheram o achado que hoje se encontra no museu da cidade.
Este homem engenhoso, com os mais diversificados interesses, era senhor de múltiplos ofícios e por isso mesmo  conhecido como um “especialista em trabalhos não especializados”.

Quando eu contava os meus 17 aninhos e me encontrava empregado na Casa dos Pescadores era ao senhor Francisco Finura que a D. Maria Virginia, responsável por aquela casa, recorria quando algo por ali deixava de funcionar.
Nessa época o nosso homem estava convencido que seria um talentoso hipnotizador e, como sempre gostei de rir e brincar, quando ele era chamado, uma colega abria a janela para dar conta da sua chegada e mal o via entrar no edifício, ao aproximar-se da secretaria olhava para ele e caía no chão “hipnotizado”.

O primeiro trabalho que Francisco Finura tinha que ali fazer era acordar-me do profundo sono. As colegas tratavam de dar ênfase ao assunto mostrando-se altamente preocupadas, ao que o grande hipnotizador respondia calmamente “o rapaz é faco, o rapaz é fraco” porém depois de passados alguns minutos lá eu acordava, todo alegre e bem disposto.

Em 1968 participamos num dos famosos carnavais de Setúbal. Francisco Finura, como rei do carnaval, enquanto eu, qual centurião romano, comandava uma “centúria” de algumas dezenas de legionários romanos.

Na década seguinte, em 1973, voltamos a representar a nossa cidade, desta vez foi na televisão. Francisco Finura contou muitas das suas façanhas, não só como homem de muito mais que “ dos sete ofícios” mas também como nadador salvador, a quem quase três dezenas de pessoas devem a vida. Eu encontrava-me integrado no Coral Luisa Todi que ali se apresentou naquele programa intitulado: “25 milhões de portugueses”.

Francisco Augusto da Silva Finura, o “finuras” nasceu em 1929 galardoado com a medalha de Honra da cidade de Setúbal já não se encontra entre nós, tendo falecido em 4 de setembro de 2012, mas a sua memória é guardada no coração de muitos setubalenses que com ele tiveram o privilégio de conviver ou de simplesmente o conhecer, como foi o meu caso.

Rui Canas Gaspar
2014-setembro-24

www.troineiro.blogspot.com