notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

domingo, 29 de janeiro de 2017

Passamos de cavalo para burro 

Esta é uma expressão que me habituei a ouvir desde os meus tempos de criança quando qualquer coisa em vez de progredir passa a regredir e de que é exemplo a inclusão do porto de Setúbal na alçada de Lisboa.

Já lá vai quase um ano que isso aconteceu e desde então as excelentes relações de colaboração que tinham sido estabelecidas entre a Administração da APSS e a Câmara Municipal de Setúbal praticamente esfumaram-se, tal como sumiram os projetos anunciados para Setúbal por aquela entidade portuária.

Parece que voltamos aos antigos tempos em que a APSS e a CMS estavam de costas voltadas, ou pior ainda, porque mesmo de costas voltadas poderiam fazer alguma coisa, agora o que parece é que o porto pouco ou nada está a fazer por Setúbal desde que comandado a partir da capital.

Sendo assim, é para esquecer os tais cruzeiros de média dimensão que estavam preconizados para Setúbal, tal como ficará para um futuro muito longínquo a recuperação do histórico edifício do cais nº 3, dado que o concurso público foi anulado continuando aquele enorme edifício para ali semiabandonado.

A ferrovia melhorada com relativamente pouco dinheiro ficou no esquecimento e os poluentes camiões continuam a ser a solução para as cargas e descargas do nosso porto.

Os pontões flutuantes para a náutica não avançam, com algumas peças parqueadas em cima da estacada nº 1, tal como não avançam as necessárias defensas nos restantes cais de atracação, colocando em perigo embarcações que ali possam acostar, sobretudo em tempos de marés vivas. 

O programa de melhoramento dos cafés no jardim da beira-mar e asa do avião para ali ficou parado no tempo à espera que a administração alfacinha dê luz verde.

Reforço de areias para as praias setubalenses é para esquecer, tal como é para esquecer os tempos recentes em que vimos a cidade avançar junto ao nosso rio azul numa união de esforços aplaudida por todos aqueles que amam esta terra, independente da cor política de cada um.

Administrar Setúbal a partir de Lisboa é o que dá e, bem pior ainda virá por aí, se os setubalenses e seus líderes políticos não souberem defender convenientemente esta terra com identidade própria e que sempre soube ser livre e independente.

Rui Canas Gaspar
2017-janeiro-29

www.troineiro.blogspot.com

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Casa Girão, quem te viu e quem te vê!... 

Talvez muitos não saibam, mas, as ruas da baixa de Setúbal eram bem mais movimentadas do que agora podemos observar. O coração da cidade era ponto de encontro, local onde as montras das lojas eram apreciadas, o sítio certo para fazer as compras de quem queria andar na moda.

Daí a quantidade de sapatarias e de lojas de fazendas que abriram portas em meados do século passado e se mantiveram durante longos anos até que novas realidades surgiram, nomeadamente os pronto-a-vestir e os centros comerciais.

No dia 26 de junho de 1953 uma moderna casa de comércio a retalho de texteis abria as suas portas na Rua Antão Girão, quando o reduzido trânsito automóvel ainda por lá se processava. A nova e elegante loja tomou o nome da própria artéria e foi então designada por “Casa Girão”.

As casas comerciais são como os seres vivos, nascem, crescem e morrem. E foi isso mesmo que aconteceu a esta loja de referência do comércio setubalense, já lá vão alguns anos.

O curioso é que a loja fechou, mas o que restava dos artigos para venda, nomeadamente as peças de tecido, por lá ficaram e até a decoração da montra não foi desfeita.

Até hoje assim se encontra, como podemos observar espreitando pelas vidraças quase opacas do pó acumulado ao longo de vários anos de encerramento.

Os porcalhões que não gostam desta terra trataram de rabiscar tudo o que podiam junto à antiga casa comercial, onde tantas senhoras e meninas setubalenses compraram os tecidos com que se apresentaram elegantemente vestidas com modelos de sugestivos figurinos de moda.

E é no estado em que a imagem documenta que infelizmente se encontra este espaço que foi uma casa de referência, em pleno coração de Setúbal, um coração que sangra de tanta injustificada e impune agressão perpetrada por gente que de gente só tem o nome.

Rui Canas Gaspar

2017-janeiro-23


www.troineiro.blogspot.com

sábado, 21 de janeiro de 2017

Uma vida foi salva hoje na Doca dos Pescadores em Setúbal
O dia apresentava-se cinzento e frio, a maré estava vazia e olhando para as águas da Doca dos Pescadores pareceu-me que ele estava morto, com fio em volta do pescoço.
Era hora de almoço e os pescadores dos botes já não estavam por ali, apenas um apareceu alguns minutos depois, enquanto eu seguia com o olhar aquele corpo que pouco depois se mexeu, dando-me a certeza que estaria com vida.
Chamei pelo pescador que acabava de chegar e pedi-lhe que desse a volta com o seu bote de forma a salvar aquele condenado que não tinha hipótese de sair dali com vida.
O pescador apanhou-o, puxou pelo canivete e cortou as redes de nylon que se enrolavam numa ponta do pescoço enquanto a outra extremidade estava presa a um pedaço de esferovite.
Solto daquela situação, voltou a atirá-lo à água e logo ele alegremente deu um mergulho de tal ordem que só veio a reaparecer no meio da doca.
Estava salvo! O pescador com um grande sorriso, olhou para a muralha onde me encontrava e disse: “já fizemos hoje a nossa boa ação” e de imediato o bote seguiu doca fora para a pesca dos chocos e eu, com as mãos geladas pelo frio cortante vim à procura do almoço.
O mergulhão lá ficou no seu ambiente, nadando, voando e mergulhando alegremente, neste dia que lhe deve ter ficado gravado na memória, por ter encontrado alguém que certamente leu a mesma cartilha a avaliar pela frase: “já fizemos hoje a nossa boa ação”.
Rui Canas Gaspar
2017-janeiro-20
O abandonado Porto de Rei 

Presentemente chamam-me Sado e pelas minhas águas já proporcionei agradáveis viagens, até 70 quilómetros para montante de barcos que transportavam mercadorias ou pessoas umas mais importantes e outras nem por isso. Porém, olhava para todas elas de igual maneira.

Para as receber no meu cais designado por Porto de Rei, cinco léguas acima de Alcácer do Sal, os homens construíram umas escadarias adossadas ao mesmo bem como uma casa apalaçada de dois pisos onde não faltava sequer um amplo pátio com portal brasonado e cantaria habilmente aparelhada.

Outras casas foram igualmente construídas de forma que aquele lugar, a julgar pelo que podemos ainda observar, deveria ter tido muito movimento de pessoas e mercadorias.

Certo dia apareceu por estas bandas o fumegante e mal cheiroso caminho-de-ferro e as pessoas deixaram de utilizar as minhas águas que funcionavam como uma estrada fluvial, trocando os meus serviços por aquela malfadada novidade.

Foi o princípio do fim! As casas deixaram de ter manutenção, as pessoas foram embora, as silvas e canaviais atacaram-me em força e neste bonito dia de sábado quando recebi a visita de um amigo senti-me envergonhado, por já estar tão afastado daquele cais onde outrora desembarcaram até nobres damas e cavalheiros que dali seguiam para o Palácio de Vila Viçosa.

Já há muito tempo que não recebia a visita de um amigo e o que resta de mim, agora quase sem forças, ainda deu para fazer adeus lá de longe, enquanto ele observava curioso as decrépitas construções que um dia também foram jovens e belas como eu.

É assim a vida, quando somos jovens todos se servem de nós, quando atingimos o Inverno da vida, abandonam-nos à nossa sorte. Valham-nos os verdadeiros amigos que de vez em quando nos visitam e se lembram de nós, partilhando com outros os nossos momentos de pujança.

Rui Canas Gaspar

2017-janeiro-21


www.troineiro.blogspot.com 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Olha se a moda pega?!...

Nestes tempos friorentos de Inverno, uma temperatura relativamente agradável como aquela que se fez sentir neste dia de domingo em Setúbal, com o brilhante céu azul naturalmente convidou os setubalenses a sair de casa.

Não foi pois de admirar que pudéssemos constatar que toda a zona ribeirinha estivesse repleta, não só de setubalenses mas de muitos forasteiros que nos visitam, daí os parques de estacionamento estarem praticamente lotados.

Na Figueirinha, em pleno Parque Natural da Arrábida, parecia que estávamos num dia de Verão, com o parqueamento quase lotado e muita gente a passear usufruindo da bela e solarenga tarde.

Ali podia-se apreciar de tudo um pouco, e os cheiros do assador de castanhas misturavam-se com o das deliciosas farturas, perfumando o ar e fazendo crescer água na boca.

Para dar mais colorido àquele belo espaço, podiam-se observar um conjunto de possantes motas estacionadas frente ao restaurante que também se encontrava cheio de gente.

Alguns cãezinhos também por lá andavam presos pela trela, ou não, e como sempre acontece se a maioria dos seus  donos apanhavam os dejetos, outros faziam que não viam…

O que achei curioso foi ver um casal a passear levando pela trela o seu animal de estimação e desta vez não se tratava de um cão pequeno ou grande, mas sim, imaginem! um porco preto vietnamita, despertando a natural curiosidade de quem por ali passeava.


Olha se a moda pega?!...

Rui Canas Gaspar

www.troineiro.blogspot.com

2017 - Janeiro - 15

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

SETÚBAL NÃO PÁRA 

Apetece-me cantarolar aquela popular marcha setubalense:

Vejam Setúbal, tirem a prova
Das Fontainhas,  do Castelo à Fonte Nova

Porque a minha vida me obriga a deslocações um pouco por toda a cidade, hoje reparei que mais um edifício foi estupendamente recuperado no degradado Bairro de S. Domingos, frente à ponte que dali dá acesso à Avenida Luísa Todi, parecendo-me ter como destino um hostel.

Em frente, os muros de acesso ao miradouro estavam a ser rebocados e as paredes pintadas dando um aspeto bem mais agradável àquela muito apreciada e visitada zona do Miradouro de S. Sebastião.

Um pouco mais acima à entrada da autoestrada reparei que a decoração alusiva à cidade europeia do desporto já estava retirada e a obra de arte com o nome da cidade estava devidamente colocada, agora com mais visibilidade que antes.

No Monte Belo equipas de trabalhadores avançam em força com as obras do Burger King e até no enorme muro das antigas instalações da Junta Autónoma das Estradas, uma equipa de pessoal da autarquia pintava aquele inestético espaço completamente grafitado.

Já cá em baixo, à entrada da Av. Luísa Todi, frente ao Leo, os separadores  plásticos foram finalmente substituídos por pinos definitivos tendo o espaço interior sido decorado com floreiras.

De facto ainda há muito por fazer, a cidade também não é nenhuma aldeola  e, como tal, como diz o nosso povo “quanto maior é a nau, maior é a tormenta”.

 Muita coisa foi sendo protelada ao longo de vários anos, mas é indiscutível que se assiste a uma recuperação patrimonial quer por parte da autarquia, quer por parte de particulares e a um esforço de embelezamento como não me lembro de alguma vez ter assistido em Setúbal.

Vamos continuar neste caminho, se queremos atrair mais turistas e, como tal, criar mais postos de trabalho para se produzir mais riqueza e consequentemente diminuir impostos que tanto nos afligem.

Rui Canas Gaspar

2017-janeiro-06

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Eu gosto da mudança de “SETÚBAL” 

O Município de Setúbal permutou no ano passado os terrenos no Monte Belo onde estavam as antigas bombas de gasolina, com um armazém junto à Doca dos Pescadores, onde irá erigir o Centro Municipal para a Promoção e Desenvolvimento das Artes.

O novo proprietário dos terrenos no Monte Belo irá ali erigir um restaurante Burguer King, uma bomba de gasolina, comprometendo-se ainda a fazer um jardim devidamente equipado, bem como  algumas obras no espaço público municipal limítrofe à Praça da Independência, bem como um troço de passeio e ciclovia entre o Novohotel e a nova construção.

No âmbito deste acordo a fonte decorativa com a palavra “SETÚBAL” foi deslocalizada do terreno publico que agora passou a particular, para um outro espaço recentemente relvado a norte das instalações prisionais de Setúbal, junto à rotunda terminal da autoestrada. Ficando bem visível para quem por ali chega à cidade.

Não é virgem, antes pelo contrário, é até comum a “dança de monumentos” em Setúbal, uns que mudaram de local  para melhor, outros nem por isso.

Neste caso em concreto e independentemente do facto do terreno onde estava colocada a fonte passar a privado, entendo que ambos os espaços ficarão valorizados, um com a construção de mais um espaço de restauração com o correspondente arranjo urbanístico envolvente e o outro, junto à rotunda mais atraente.

Para complementar o enquadramento do equipamento deslocalizado o mesmo é enquadrado por grandes palmeiras tornando ainda mais agradável aquele espaço que dentro em breve irá sofrer nova alteração porquanto deverá ser substituída a decoração da rotunda alusiva à cidade europeia do desporto 2016.

Gostei da solução e aplaudo a mudança, embora outros setubalenses a critiquem como é natural em democracia sendo sabido que nunca se pode agradar a todos.

Rui Canas Gaspar
2017-janeiro-04

www.troineiro.blogspot.com

domingo, 1 de janeiro de 2017

COISAS DE SETÚBAL

Não passaram ainda muitos anos desde que encerrou portas a Papelaria Rubi, com instalações na Rua Arronches Junqueiro, quase a chegar ao Largo da Misericórdia, local onde poderíamos encontrar o seu proprietário João Francisco Envia.
Este homem, nascido em 1919 e falecido em 2010, comerciante, escritor e dirigente associativo faz parte dos setubalenses de mérito a quem a história local não esquece tendo atribuído o seu nome a uma artéria da cidade.
Seu tio, Manuel José Envia, nasceu em 1871 e faleceu em 1963. Tinha 15 anos quando escreveu o seu primeiro artigo literário publicado no jornal Semana Setubalense e a partir daí nunca mais parou. Uma paixão que ao longo de várias décadas o levaria sobretudo a desenvolver atividades de publicista e escritor teatral.
Foi este distinto setubalense, também ele com honras de figurar na toponímia da cidade, que para além de muitos outros trabalhos publicados escreveu e editou em 1948 o livro Coisas de Setúbal, um trabalho com 360 páginas ilustradas com retratos de setubalenses ilustres, a que juntou as correspondentes biografias.
Em janeiro de 2017 quando estamos a comemorar o 3º aniversário do grupo faceboquiano “Coisas de Setúbal” é bom recordar este destacado setubalense que viveu num tempo em que a internet era palavra inexistente.
Se Manuel Envia fosse vivo teria aqui neste grupo um manancial de informação que lhe permitiria escrever um segundo volume do seu Coisas de Setúbal agora muito mais enriquecido graças à participação de muitos setubalenses de nascimento ou de coração que desempenham as mais díspares atividades ao serviço desta linda terra do rio azul.
Rui Canas Gaspar
2017-janeiro-01
www.troineiro.blogspot.com

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Cuidado com a cabeça na passagem do ano

Desde que estive ao serviço das empresas por onde passei que costumo dedicar boa parte do tempo deste dia do ano à arrumação e eliminação de material e documentação de forma a entrar no ano seguinte com a casa em ordem e apta para nova jornada.

Hoje não foi exceção e logo pela madrugada foi a vez do E Fatura, o prático e moderno serviço da Administração Tributária mas que eu não consigo gostar, e vamos lá nós saber porquê…

A manhã prosseguiu com outro tipo de eliminação de artigos cá em casa e depois deste intervalo para descontrair com a escrita seguir-se-á o escritório outra área, para a qual já me vai faltando a paciência.

Nesta altura lembro-me sempre, e é esse o tema que gostava de partilhar convosco, de que este hábito já vem do berço. É que me recordo que desde menino ter ver minha mãe guardar um prato, ou tacho de barro, que estivesse danificado para dele se desfazer no último dia do ano.

Naquele tempo, há mais de meio século, os setubalenses não passavam o ano em alegres e dispendiosos reveillons, muito menos ficavam a olhar o céu deslumbrando-se com o inexistente fogo de artifício.

Chegada a meia-noite e ouvia-se a sirene dos bombeiros e logo os janelas das casas se abriam de par em par e ouvia-se um tremendo chinfrim de tampas de tachos a bater uns contra os outros.

Das mesmas janelas voavam para a rua os tais pratos falhados, ou tachos partidos que se viriam a desfazer em cacos contra as pedras da calçada, ou perto da cabeça de algum setubalense que por ali deambulasse ao sabor dos vapores do álcool.

Era assim que a generalidade do pessoal de então se divertia na passagem do ano e esta é uma das memórias que me ficou retida bem como o hábito não de atirar coisas pela janela, mas na versão atual de ir colocar uns sacos cheios de tralha ao molock aqui do bairro.

Com tachos, ou sem eles, com fogo de artifício ou sem ele, desejo-vos um ano de 2017 um pouco melhor do que este 2016 que se despede rapidamente.

 Rui Canas Gaspar



2016-dezembro-30

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A primeira visita aos Paços do Concelho setubalense
Esta manhã depois de uma série de assuntos tratados tendo por companheiro de andanças o meu neto acabamos por passar frente aos Paços do Concelho.
Perguntei-lhe se já ali tinha entrado ao que a criança respondeu que não. - Pois então vamos entrar nesta que é a casa de todos os setubalenses, disse-lhe eu.
Antes de entrar notei-lhe que na placa afixada estava escrito concelho com C e aproveitamos para notar a diferença do conselho com S utilizado quando queremos aconselhar.
O menino falou-me no presidente da câmara e eu informei-o que era uma senhora a nossa presidente, a primeira senhora à frente da Autarquia desde que ela foi formada.
Entramos no edifício e logo as simpáticas senhoras da receção entabularam conversa com a criança de resposta fácil e tal como o avô sempre disposta a uma boa conversa.
Porque o tempo já não era muito, estava a pensar ficar-me só pela escadaria de acesso ao primeiro andar e quando estava a explicar ao menino alguns pormenores, chega a presidente Dores Meira.
Apresento um ao outro e faço reparar que entre os dois existe algo em comum, pelo que a presidente ficou curiosa por saber, sobre este menino praticamente da idade da sua netinha.
Foi com um rasgado sorriso que o Salvador disse o dia do seu nascimento que muito alegrou o seu avô por dois motivos, é que nesse dia enquanto Dores Meira batia palmas na inauguração do nosso belo Parque Urbano de Albarquel, no Hospital de São Bernardo as dores da mãe deste menino eram outras dado que ele via pela primeira vez a luz do dia.
A presidente achou curiosa esta coincidência e ficamos por ali, porque ela já tinha alguns “clientes” à espera não a deixando sequer entrar no gabinete, mesmo assim, ainda pediu a uma colaboradora que abrisse as portas do Salão Nobre para que o menino pudesse apreciar aquele belo espaço.
Uma outra simpática senhora não só abriu como acendeu as luzes do salão e a criança mais uma vez surpreendeu não só o avô mas a cicerone ao identificar duas das figuras constantes no Tríptico dos Setubalenses Ilustres.
Foi uma visita rápida, ficando de fazer outra com mais tempo para que o menino fique a conhecer esta que é a principal casa coletiva dos setubalenses, um povo a que ele pertence e que o seu avô fará tudo o que puder para que ele fique a conhecer o melhor possível as suas raízes, isto porque ninguém pode amar o que desconhece.
Rui Canas Gaspar
2016-dezembro-28

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Conhece os Guerreiros de Xian ? 

São grandes figuras em tamanho natural de antigos guerreiros chineses e cavalos, cujas réplicas se encontram expostas logo junto à vedação da entrada da Quinta da Bassaqueira e por isso mesmo são visíveis a partir do exterior para todos os que passam na movimentada Estrada Nacional 10, em Vila Nogueira de Azeitão.

Até há poucos anos as figuras estavam pintadas de forma mais realista. Presentemente estão pintadas de forma uniforme tendo-se utilizado a cor azul forte.

Estas não são figuras originais, mas sim cópias, porém sem elas não teríamos o privilégio de ter uma noção tão real e palpável desta maravilhosa descoberta arqueológica chinesa.

O primeiro imperador Qin Shihuang, antes de morrer, duzentos anos antes de Cristo ter vindo à terra, mandou fazer uma autêntica réplica de guerreiros, cavalos e carros do seu exército que deveriam ser enterrados com ele junto ao mausoléu para si mandado construir.

Em março de 1974 agricultores que procediam à abertura de um poço, a leste de Lishan, depararam-se com as primeiras figuras. Era o início de uma das maiores descobertas arqueológicas da História. Até ao momento já foram encontradas mais de 8.100 estátuas, cada figura portando armas reais, como, lanças, arcos ou espadas de bronze.

Para além destas figuras foram também encontrados grandes tesouros e objetos artísticos no mesmo local o que atesta o poder e importância daquele imperador.

Os estudiosos pensam que na construção do mausoléu deste governante chinês tenham trabalhado mais de 700.000 artesãos que levaram 38 anos até terem dado a obra por concluída. Por aqui se pode imaginar a sua grandiosidade!

Várias décadas depois deste achado os arqueólogos continuam a escavar e é bem provável que venham a ter novas surpresas. É que o exército de terracota foi encontrado em apenas três diferentes trincheiras.

Aquelas figuras de barro tão bem elaboradas, depois de cozidas, eram cobertas com laca e pintadas o que lhes conferia maior resistência.

O comendador José Berardo adquiriu estas réplicas que disponibiliza para apreciação do público neste espaço e de forma gratuita. Assim, na impossibilidade de irmos à China ver os originais que anualmente são visitados por mais de dois milhões de pessoas, temos a possibilidade de ver aqui, em pequena escala, uma réplica de grande qualidade.

Rui Canas Gaspar



2016-dezembro-26

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Quinhões e Tecas 

Durante muitos anos os pescadores setubalenses da pesca da sardinha não tinham um vencimento fixo, ainda que pequeno, mas somente recebiam em função do peixe que conseguiam capturar.

Uma traineira tinha uma companha de cerca de 18 homens e estes recebiam conforme a sua categoria. Assim sendo, os ganhos eram repartidos em partes percentuais.

O mestre da embarcação poderia auferir entre 4 e 7 partes.

O contramestre, ou mestre de leme ganhava duas a duas partes e meia. 

O motorista era o único que auferia um salário fixo e recebia ainda duas partes e meia do valor pescado.

Já o pedreiro, aquele homem que conhecia os fundos marinhos e o local onde se encontravam as rochas que podiam partir as redes, ganhava duas partes e meia.

Os dois tripulantes da chata, pequeno barco que operava no interior  do cerco das redes, ganhavam uma parte e mais uma teca de peixe ao critério do mestre.

O escrivão, homem que tinha a responsabilidade pela escrita a bordo, auferia uma parte e meia.

Já o mestre de terra, aquele profissional que não ia ao mar para ficar a tratar das redes em terra, ganhava uma parte e meia.

Os quinhões de peixe eram normalmente divididos recorrendo-se a sorteio e eram feitos lotes de valor idêntico. Depois um pescador virava-se de costas para o peixe, enquanto outro apontando para um lote pergunta: - Para quem é este? Ao que aquele que estava de costas dizia o nome de um seu camarada e assim continuaria até ao último lote.

Quando algum camarada ficava doente o mestre mandava também fazer um quinhão para entregar, ou vender, levando o dinheiro para aquele que estava impossibilitado de acompanhar a companha nas lides da pesca.

Era assim que funcionavam os pescadores setubalenses e provavelmente muitos outros de outras regiões. Homens valentes que sabiam o valor da camaradagem melhor do que ninguém e viviam-nano seu dia-a-dia.

São coisas da nossa terra. Coisas de Setúbal!

Rui Canas Gaspar

2016-dezembro-07

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Vamos às beatas à Ti Prudência? 

Hoje é praticamente impossível escutarmos algo parecido com isto, vindo da boca de rapazes dos seus 11 ou 12 anos, porém, em Setúbal há cerca de 70/80 anos era de certo modo comum junto da rapaziada do Bairro de Troino.

A Ti Prudência, senhora então muito conhecida, tinha vindo do Algarve, de onde era também oriunda boa parte da população da zona poente da cidade e, em Setúbal, ter-se-ia estabelecido com uma taberna na Avenida Luísa Todi, perto da Travessa do Seixal, artéria que teria ido beber a sua designação a uma praia que ficava ali em frente, no outro lado da avenida.

Embora houvesse inúmeras tabernas na zona, era ali na Ti Prudência que os mestres dos barcos costumavam parar, conversar, beber um copo de vinho tinto e fumar um cigarro.

Esta categoria de pescadores era bem mais abastada, dado que ganhavam muito mais que ou outros homens do mar. Por haver mais fartura de dinheiro também se davam ao luxo de desperdiçar e, os seus cigarros não eram fumados até quase queimar as pontas dos dedos como a maioria dos outros pescadores o faziam.

Quando chegava a pouco mais de meio, atiravam-no para o chão e por ali ficavam à porta da adega da Ti Prudência muitas das pontas dos cigarros dos mestres.

Os rapazes de Troino, que mal tinham onze anos começavam a embarcar na vida do mar, muito pouco ganhavam e aquilo que auferiam não chegava para comprar os cigarros “mata-ratos” que quase todos fumavam.

Daí que eram aos magotes aqueles pequenos pescadores que diariamente iam às beatas, para com essas pontas fazerem novos cigarros.

E era à porta da taberna da Ti Prudência, taberna que passados tantos anos ainda lá está, hoje sem este tipo de fumadores e transformada num típico e conhecido restaurante setubalense que a colheita era maior porquanto os mestres de então eram nesse aspeto os que mais desperdiçavam.

Rui Canas Gaspar
2016-dezembro-05

www.troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A última viagem dos bois do “campo do careca”

As redes da pesca de cerco, fabricadas em fio de algodão, de algumas traineiras setubalenses chegavam ao “campo do careca”, em carroças puxadas por mulas, para serem tingidas, ou seja para ficarem impermeabilizadas depois de uma passagem por alcatrão.

Num antigo tanque de rega eram despejados alguns bidons de alcatrão e as redes iam passando por dentro dele, puxadas à frente por dois pescadores e ajudados por outros dois que, cada um com um remo, iam empurrando as redes para o fundo a fim de que nada ficasse por tingir.

Depois desta passagem as redes eram postas a secar ao sol e posteriormente de novo carregadas para a doca onde seriam embarcadas nas traineiras.

E foi numa destas idas desde o tal “campo do careca” que uma carreta carregada de redes, puxada por uma junta de bois, chegou à Doca dos Pescadores, junto ao “cais do carvão” ou seja à estacada nº 1.

Mas, porque a manobra com a carreta não tivesse sido bem feita, ou porque o responsável pela mesma a quis colocar o mais junto possível da embarcação, o facto é que o acidente aconteceu.

A carreta resvalou para dentro da doca, arrastando consigo a junta de bois, para surpresa de todos aqueles homens do mar que incrédulos assistiram à cena, enquanto as redes iam para o fundo da doca.

O atrapalhado homem da carreta começou então a chamar os atordoados bois pelos seus nomes e os animais seguindo a voz do dono foram nadando até ao plano inclinado. Logo que sentiram solo firme sob as suas possantes patas trataram de abanar as orelhas sacudindo a água e começando a subir.

Já cá em cima o responsável pela carreta desatrelou os animais e levou-os de volta para a sua quinta no “campo do careca” e nunca mais aqueles animais voltaram a fazer este trabalho, sendo então substituídos por mulas.

A história é verídica e  passou-se em Setúbal há cerca de seis dezenas de anos, tendo sido  contada por Francisco Gaspar, um antigo pescador de 91 anos que assistiu à ocorrência.

O “campo do careca” ficava na Quinta da Saboaria, que começa no final poente da Avenida Luísa Todi e prolongava-se pelo espaço onde hoje estão erigidos os novos edifícios na estada que vai para as praias da Arrábida.

São “coisas de Setúbal”, são histórias da nossa terra de gente do mar.

Rui Canas Gaspar

2016-novembro-30

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Cabos e cabinhos a decorar as paredes setubalenses 

Seguramente o que mais custa a qualquer proprietário é depois de recuperar uma peça do seu património imobiliário ver que passado pouco tempo o mesmo está amplamente decorado com cabos e cabinhos das mais diversas empresas que por aí vão atuando impunemente, dando um aspeto terceiro mundista às novas artérias ou às zonas históricas.

E a pouca vergonha e impunidade é de tal ordem que nem sequer usam a calha técnica para passar os cabos pelo interior, minimizando desta forma o desagradável impacto visual.

Estes artistas colocam os cabos como lhes dá mais jeito e tanto lhes faz que eles vão por cima de placas toponímicas, por cantarias ou sobre painéis de valor histórico e, se houver cabos de antenas coletivas tratam de colocar o alicate em ação e zás! corta-se e pronto…

Ao que parece finalmente em Setúbal, na zona da baixa, os cabos vão começar a ser enterrados, a fazer fé nos trabalhos que foram iniciados na  Rua Augusto Cardoso, onde uma equipa de trabalhadores da União de Freguesias de Setúbal por lá começou a escavar.

Seria feio, muito feio mesmo que depois de mais um edifício recuperado, na Antiga Rua de São Sebastião, precisamente em frente àquele onde foi a sede do jornal O Setubalense e agora funciona um hostel, o mesmo ficasse com um arraial de cabos e cabinhos pendurados conforme a imagem demonstra.

Mesmo que os cabos fiquem  devidamente presos ao edifício não deixam de desvirtuar todo o trabalho de recuperação do imóvel, pelo que é de esperar que o enterramento dos cabos das operadoras se processe por toda a baixa.

Rui Canas Gaspar
2016-novembro-29

www.troineiro.blogspot.com

domingo, 27 de novembro de 2016

Obrigado setubalenses 

Esta cidade está imparável com muitos e diversificados eventos a acontecer para todos os gostos, daí que muitas pessoas ao optarem por um não possam ir a outro, o que é absolutamente natural. O que não  é natural é que continue a haver pessoas que afirmam que nada acontece nesta cidade. Pura ignorância!

Ontem, sábado 27 de novembro para a apresentação do TROIA – Um Tesouro por Descobrir, apareceram pessoas antes da apresentação que só vieram cumprimentar o autor, adquirir um livro, recolher o autógrafo e sair porque tinham outro evento.

Depois da apresentação e quando a “tralha” já estava toda arrumada outras pessoas chegaram, vindas de outro evento mas que não quiseram perder a oportunidade de vir cumprimentar e “parabenizar” pelo facto de a partir de agora termos um novo livro sobre a nossa região e que tanto diz aos setubalenses.

Mas o curioso foi ver na plateia amigos que vieram de outros convívios, alguns tendo-se deslocado a Setúbal de propósito e que também quiseram estar presentes.

Mas o mais interessante foi ver o rasgado sorriso de uma senhora que mal ali chegou, tratou logo de me dizer: “Acabamos de chegar de Troia, andamos a pé lá pelas ruínas”. Esta senhora com o seu marido foram certamente dos poucos setubalenses que teriam estado para aquelas bandas da arenosa península, neste dia chuvoso e pouco agradável.

De facto estou a falar de um casal, que tendo nascido em terras germânicas e por lá tendo vivido se apaixonou por Setúbal e já fez mais por esta cidade, de forma discreta, do que muitos “papagaios” que se arvoram de setubalenses e mais não fazem que falar mal desta terra de nascimento ou adoção.

Goste-se ou não das obras de arte que adornam a nossa terra, até há poucos anos despida de elementos escultóricos, alguém as pagou e garanto-vos que boa parte desse dinheiro não veio dos nossos impostos, mas sim daquele casal que formaram a Fundação Buehler-Brockhaus entidade que tem apoiado com muitos largos milhares de euros a arte na nossa terra. 
  
São eles que estão também a apoiar financeiramente os trabalhos de recuperação das pinturas da basílica romana de Troia.

Pessoas simples e simpáticas Marion e seu esposo Hans-Peter Buehler são de facto daquelas pessoas que considero como bons setubalenses, de quem eu gosto, que não dispensam a ida ao meu bairro de Troino almoçar o delicioso peixe assado da nossa terra.

São assim os amigos, são assim os setubalenses de nascimento ou de coração, para eles um forte abraço e o meu muito obrigado.

Rui Canas Gaspar
2016-novembro-27

www.troineiro.blogspot.com

sábado, 19 de novembro de 2016

Agradando aos gregos e troianos de Setúbal 

Há sempre quem não goste muito de determinados assuntos que são discutidos no grupo faceboquiano “Coisas de Setubal”, por vezes, entrando-se em infindáveis discussões, vindo logo alguém dizer que se está a “lavar roupa suja”, pelo facto de nem sempre haver concordância. Coisa  que por acaso até é salutar em democracia...

Pois em homenagem a estes personagens a Autarquia Sadina decidiu erigir-lhe um monumento e, vai daí, tratou de o colocar nesta linda manhã de sábado no Parque do Bonfim, aparecendo assim mais um pasmadinho, a famosa e emblemática “lavadeira de Azeitão”.

Mas, para que a moça não se sentisse só, embora por vezes seja preferível só que mal acompanhada, bem junto a esta foi também colocado um observador de aves daqueles que aparecem lá pelo moinho de maré da Mourisca. Isto não só em homenagem ao nosso amigo Zé, mas também a todos aqueles e aquelas que para ali vão observar a lua, as estrelas e outras coisas mais.

É claro que este pasmadinho observador deslocou-se desta vez não para a Mourisca mas para o Parque do Bonfim para ver se chegam os patos que dali sumiram e deram lugar aos repuxos.

E então não é que o rapaz acertou na mosca?!...  Bem, de facto os primeiros patos, comandados pelo general ganso já se deliciam com as águas do lago e logo que os outros reais patos saibam que há companhia e comida não deixarão de também voltar para a sua anterior residência.

E para que não se possam enganar no local saibam os patos setubalenses que agora o bonito e vetusto parque está dignamente assinalado com mais um artístico motivo, alvo de atração para os de cá e para aqueles que nos visitam.

Com repuxos e com patos bravos e dos outros a nossa Câmara Municipal conseguiu ( a ver vamos!...) agradar aos gregos e troianos setubalenses.

Rui Canas Gaspar

2016-novembro-19

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Aconteceu em Setúbal
Efeméride esquecida

Naquele outonal dia 15 de novembro de 1943, quando raras viaturas por ali se viam, um automóvel rolava a alta velocidade pela Estrada Nacional Nº 4, bem perto no lugar de Cova do Lagarto, entre Montemor-o-Novo e Vendas Novas.

A bordo vinha um dinâmico engenheiro, responsável por várias obras que estavam a mudar a face do país. Ele tinha-se deslocado logo pela manhã a Vila Viçosa para se inteirar dos trabalhos de construção da estátua de D. João IV e agora regressava a Lisboa cheio de pressa para estar a horas no Conselho de Ministros que se realizaria nessa tarde.

Um despiste fez com que o veículo fosse embater com o lado direito num dos sobreiros que bordejava a estrada e logo ali um dos acompanhantes encontrou a morte enquanto os restantes companheiros sofriam ferimentos ligeiros. Porém o de Duarte Pacheco, Ministro das Obras Publicas e Comunicações  foi bem mais grave.

As vítimas do acidente foram trazidas para Setúbal onde deram entrada no Hospital da Misericórdia, com instalações anexas à Igreja de Jesus, onde foram prontamente socorridas.

Mal foi informado da ocorrência Salazar reuniu uma equipa de reputados médicos e rapidamente dirigiu-se para Setúbal onde nada puderam fazer a não ser confirmar o óbito do dinâmico ministro, na madrugada de 16 de novembro de 1943.

Uma hemorragia interna ditou o fim daquele algarvio nascido em Loulé no dia 19 de abril de 1900, data em que se comemora a elevação de Setúbal à categoria de cidade.

Desaparecido do mundo dos vivos com apenas 43 anos este grande engenheiro e estadista deixou o seu nome ligado a Setúbal, no nascimento e na morte, sendo de assinalar as numerosas obras que promoveu um pouco por todo o nosso país, desde pontes a edifícios, sendo de salientar a sua responsabilidade na construção dos edifícios do Instituto Superior Técnico, em Lisboa.


E assim se comemora uma esquecida efeméride de um grande português que curiosamente ficou ligado a Setúbal, no nascimento e na morte, provavelmente nunca pensando que tal lhe viesse a acontecer.

Rui Canas Gaspar
2016-novembro-14

www.troineiro.blogspot.com