notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

segunda-feira, 30 de março de 2020



O polícia Sinaleiro que ficou na memória

O açoreano que se veio radicar em Setúbal e aqui criou a sua família, ficou na memória de muitos setubalenses como um homem elegante, simpático, íntegro, cujo profissionalismo impressionava os pequenos e graúdos.

Porte atlético, tronco muito direito, na sua atividade de polícia sinaleiro os movimentos eram bem vincados e precisos, por isso não é de admirar que fossem muitos os setubalenses, crianças, jovens ou adultos, que ficavam alguns minutos no passeio para admirar a forma impecável como este polícia sinaleiro dirigia o trânsito, normalmente na Avenida 22 de Dezembro.

O Sr. Jacinto era pessoa de uma delicadeza extrema e quantas vezes não mandou ele parar o trânsito para dar o braço a uma senhora idosa ajudando-a a atravessar a rua. Mas o seu profissionalismo era de tal ordem que muitas vezes mesmo sem estar de serviço e notando que havia qualquer problema na fluidez automóvel ia para o meio da via e desbloqueava a situação.

A revolução de 25 de abril de 1974 estava no auge quando as maiores manifestações de jubilo que alguma vez ocorreram em Portugal foram vividas em Setúbal.

Naquele 1º dia de Maio de 1974 uma mulher setubalense foi junto do Sr. Jacinto, que como sempre cumpria a sua atividade ao serviço do trânsito na cidade e colocou-lhe um cravo vermelho na lapela, símbolo da revolução de abril.

No dia seguinte o Sr. Jacinto apresentou-se ao serviço, dirigindo o trânsito, impecavelmente fardado e de sapato a brilhar, mas com dito cravo na lapela.

Rui Canas Gaspar
2020-março-30

sexta-feira, 20 de março de 2020


A história de uma velha imagem

O Moscatel de Setúbal foi colocado na mesa improvisada, forrada com uma tela de sinalização para aeronaves, onde fez companhia ao vinho do Porto e outras bebidas, algumas conservas e poucas iguarias que os familiares tinham feito chegar a Bijene, na Guiné, fronteira norte com o Senegal. 

Na ausência de pinheiro de Natal um ramo de mangueira, enfeitado com estrelas recortadas dos revestimentos dos maços de tabaco tentavam dar um ar natalício àquela noite onde um grupo de militares confraternizavam longe das suas famílias e de olhar atento para o escuro de onde poderia surgir um ataque dos guerrilheiros do PAIGC. 

Não por beber demais, mas pelas misturas feitas, o que comi e bebi acabou por sair e no dia seguinte estava de ressaca. Porém a fémea do mosquito anophellis já me tinha dado uma beijoca e o organismo mais fraco não resistiu ao paludismo (ou malária) que atacou em força. 

Uma semana depois, naquela zona inóspita não havia condições para tratar o doente e foi solicitado que uma avioneta militar me transportasse para o Hospital Principal em Bissau. 

A velha DO Dornier 27 do tempo da 2ª Guerra Mundial estava a fazer-se à pista de aterragem quando os guerrilheiros começaram a atacar, os camaradas pediam que eu corresse e me enfiasse no abrigo, mas mal podia com as botas e estava tão magro que era difícil acertarem neste alvo móvel. 

A avioneta não chegou a aterrar e só pouco depois retornou pousando o tempo suficiente para atirar para o solo umas sacas com correio e para eu entrar, levantando de imediato. 

Já no hospital a coisa ia de mal a pior e, quase sem forças e mais parecendo um esqueleto vaidoso perguntei ao enfermeiro se isto era para morrer ou não.  

Resposta pronta do rapaz: -Olha! estamos à espera de uma injeção que vem da metrópole. Se ela chegar a tempo safas-te, se não lerpas. 

Bem a injeção pelos vistos chegou a tempo, nem sei onde a espetaram porque era só pele e osso… 

Alguns dias depois tentei colocar um ar mais agradável e com um visual mais tipo chinês que português fotografaram-me vestido com o pijama do hospital e enviei a imagem para a minha mãe para que ela pensasse que estava numa qualquer colónia de férias. 

Hoje fui encontrar a fotografia que partilho aqui com os amigos, com a certeza de que como não “lerpei” vão continuar a ler as mais diferentes histórias contadas por quem já muito viveu e provavelmente ainda por cá ficará o tempo suficiente para contar mais e vocês para me aturar. 

Abreijos e fiquem em casa se puderem. 

Rui Canas Gaspar 

Troineiro.blogspot.com

domingo, 15 de março de 2020


Já comeu xarém? 



No início do século XX muitos pescadores oriundos do Algarve, sobretudo da região de Olhão, Fuzeta e Tavira, vieram radicar-se em Setúbal, assentando arraiais na zona do Bairro de Troino.

Com eles vieram naturalmente usos e costumes algarvios que os tinham absorvido em boa parte dos mouros que durante muitos anos ocuparam aquela região do Sul de Portugal.

O xarém (ou xerém) é um prato típico tradicional da cidade de Olhão e que em Setúbal teve muito consumo entre as famílias dos descendentes algarvios, sobretudo nos invernosos meses aquando do defeso da pesca da sardinha, período em que a fome grassava por toda esta terra de pescadores e conserveiras.

Por ser muito saboroso e barato era consumido com alguma frequência tendo até sido “exportado” para o Brasil e Cabo Verde.  

Trata-se de uma papa de farinha de milho a que se poderão juntar mais alguns condimentos, dependendo da bolsa e da criatividade do cozinheiro.

Ao olhanenses juntam-lhes conquilhas, as deliciosas ameijoas que dão ao prato um delicioso paladar que poderá também ser preparado com toucinho, presunto e chouriço.

Se nunca o degustou e tem os ingredientes necessários aproveite para cozinhar e fique a conhecer mais um pitéu que foi um dos 7 candidatos finalistas às Maravilhas da Gastronomia portuguesa.

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com