notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Viva Setúbal 

Depois de um assoberbado dia de trabalho, nada melhor para descontrair um pouco que um passeio à beira-mar, de preferência pelo Parque Urbano de Albarquel, provavelmente a melhor obra feita em Setúbal nas últimas décadas. 

E foi isso mesmo que acabei de fazer com a noite a cair e uma temperatura agradável debaixo de um céu azul-escuro que dava uma cobertura perfeita ao nosso calmo rio azul. 

Quando cheguei àquele espaço deparei-me com um agradável e suave aroma vindo do lugar  onde se estão a desenrolar as iniciativas da semana do mar e do pescador. 

E, foi de nariz no ar, que cheguei ao balcão e identifiquei os bivalves por aqui conhecidos por navalhas, já grelhados e prontos a comer. Não resisti e pedi uma doze que degustei ali sentado naquela improvisada e agradável esplanada. 

O palco estava montado e pouco depois o grupo estava a atuar, hoje deveria ter sido os “Amigos do Xico da cana” mas trocaram com o outro grupo típico setubalense “Os Alcorrazes”. 

Muita animação, muita festa, excelente ambiente foi o que nos proporcionou aquele grupo musical que no próximo dia 8 de julho irá apresentar no Fórum Municipal Luísa Todi o seu novo cd duplo, num evento, cheio de boas surpresas, que qualquer setubalense gostará de assistir. 

Setúbal é um mundo por descobrir e só quem se fecha na casca como o lingueirão não descobrirá o seu verdadeiro sabor, pela minha parte gosto mais assim bem aberto e com aquele aroma delicioso que me atraiu nesta noite que chega ao fim. 

E tal como cantaram os Alcorazes: “Vejam Setúbal, tirem a prova, das Fontainhas do Castelo à Fonte Nova”. Se calhar é por isso que eu prefiro ver Setúbal ao natural em vez de me contentar com a virtual. 

Boa noite, bom dia, ou boa tarde dependendo do local do mundo onde os amigos possam estar. 

Abreijos 

Rui Canas Gaspar
2017-maio-29

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A obra setubalense de Adães Bermudes 

No dia 4 de junho de 1891 nascia oficialmente em Setúbal a Associação dos Soldadores, os operários especializados que desempenharam um importante papel nas fábricas de conservas de peixe antes da introdução da maquinaria que viria a substitui-los naquela tarefa. 

Vinte anos após a formação desta associação de classe, a organização detentora de importantes fundos financeiros, inaugurava um belo edifício onde viria a funcionar a sua sede social. 

Coube ao conceituado arquiteto e político português Adães Bermudes, descendente de galegos, a tarefa de desenvolver este projeto entre muitos outros por demais importantes que constam no seu curriculum. 

O arquiteto republicano e membro da Maçonaria, distinguido com o prémio Valmor, conquistado em Lisboa no ano de 1908, foi o responsável por belos edifícios particulares e públicos, disseminados um pouco por todo o país, de onde se destacam os concebidos para o Banco de Portugal, entre eles o notável exemplar da cidade de Faro. 

Em 1911 Setúbal teria a honra de inaugurar uma obra com a assinatura deste mestre da arquitetura portuguesa, precisamente o edifício localizado no lado Sul no número 219 da Avenida Luísa Todi onde iria passar a funcionar a Associação de Soldadores. 

Os anos passaram e mais tarde o edifício, localizado ao lado do emblemático “Grande Salão Recreio do Povo” passaria a ter outras funções. 

Porém, o seu belo alçado principal ainda mantém todo o charme concebido pelo seu criador e continua a ser um ponto de referência na principal avenida sadina.

Rui Canas Gaspar 

2017-maio-29 


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domingo, 28 de maio de 2017

A padaria setubalense que virou espaço artístico 

Provavelmente algumas pessoas, vindas das bandas de Troino,  atravessariam a pequena ponte entre as duas margens da Ribeira do Livramento, ali bem perto da Capela do Carmo, para poderem entrar na Rua dos Sapateiros. 

Elas dirigiam-se à Padaria Carmona para adquirir o saboroso pão que ali se fabricava, bem perto do Largo do Sapal, tal como o faziam as pessoas importantes que residiam nesta zona central de Setúbal. 

Passados alguns anos a padaria foi vendida e os novos donos decidiram que aquele era o espaço adequado para fazer um bom café, um restaurante, uma espécie de clube para a elite setubalense onde se pudesse fumar, ler o jornal, discutir e até comer no Império, como assim foi então batizado. 

O novo proprietário encetou os necessárias trabalhos de adaptação tendo chamado para decorar o espaço o talentoso António Casimiro da Silva, que levou tempos e tempos a acabar a obra porque para além dos seus afazeres profissionais era um destacado militante anarquista. 

Mas, o facto é que o espaço ficou pronto e bonito e a clientela inicialmente não faltou àquele novo estabelecimento que, embora sem casa de banho, se apresentava dotado de lavatório com toalha, imagine-se o luxo!... 

Mas, como não há amor que sempre dure, certo dia também as dívidas do proprietário à banca levaram a que o imóvel fosse parar ao Montepio Geral que o acabaria por vender em hasta pública. 

E foi alguém mais endinheirado da capital que acabaria por adquirir o bonito e bem localizado edifício, arrendando-o posteriormente ao Clube dos Amadores de Pesca de Setúbal, que ali tiveram a sua sede e centro de convívio por cerca de meio século, até que dia chegou e dali partiram os últimos pescadores. 

As instalações estiveram então fechadas durante uns cinco anos até serem adquiridas por Lurdes Pólvora da Cruz que tratou de recuperar aquele lindo espaço, tentando combater o salitre, a degradação das paredes, melhorando os pavimentos e dando nova vida às obras de arte produzidas por António Casimiro Silva. 

Presentemente é ali bem perto da Praça de Bocage, na Rua de Augusto Cardoso que podemos apreciar este lindo exemplar arquitetónico, bem como as belas telas produzidas por esta artista que deu vida nova a este antigo espaço setubalense tão recheado de história e de estórias. 

Rui Canas Gaspar

2017-maio-28
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sábado, 27 de maio de 2017

Um quase desconhecido artista setubalense

Quem passa pelo Bairro Salgado, outrora o mais seleto da cidade de Setúbal, local de residência da antiga burguesia sadina, não deixará de reparar naquelas construções com aspeto cuidado, onde não faltam apontamentos decorativos dos mais diversificados estilos, pontuando sobretudo a arte nova.

Porém, ao olhar com alguma atenção para aqueles edifícios verificamos que algumas destas elegantes moradias, maioritariamente construídas no final do século XIX princípio do XX, ostentam pormenores curiosos como aquela localizada na Rua Garcia Peres, nº 32, que faz esquina com a Rua Gama Braga, cujos topos dos alçados estão decorados com bonitos baixos-relevos designados pelo artista como “fantasia”.

Curiosamente, noutro ponto da cidade, na Rua Augusto Cardoso, antiga Rua dos Sapateiros, vamos encontrar outro belo edifício, bem conhecido dos setubalenses por ali ter funcionado durante muitos anos o Clube dos Amadores de Pesca de Setúbal e presentemente ser o local onde está instalada a galeria e atelier de arte de Lurdes Pólvora da Cruz.

Também neste imóvel encontramos vários trabalhos em talha que decoram interior e exteriormente aquele espaço e que lhe dão uma beleza simples como só os verdadeiros artistas sabem proporcionar aos comuns mortais.

Ambos os imóveis têm em comum o facto de terem tido a intervenção artística do mesmo homem, um pescador, que na primeira metade do século XX viria a enveredar pela arte de marceneiro entalhador e que ficaria bem conhecido na sua cidade natal como um destacado militante anarquista.

António Casimiro da Silva, artista de grande mérito para além da sua atividade profissional foi também secretário da poderosa União de Sindicatos Operários de Setúbal.

A sua dinâmica ação revolucionária levou-o à prisão quando ousou opor-se à participação de Portugal na Grande Guerra e voltou de novo ao cárcere quando se envolveu nas lutas contra a governação de Sidónio Pais.

Este artista e combatente setubalense não deixaria descendência, embora a sua companheira Laura de Sousa lhe tivesse dado um filho, Reclus Sousa da Silva, o facto é que o rapaz viria a falecer ainda muito jovem.

Mas se dele não ficou descendência, para a posteridade ficaram as suas obras de arte que esperemos sejam preservadas ao longo de muitos e muitos anos tal como a sua memória de artista e combatente.

Rui Canas Gaspar
2017-maio-27

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Vá para fora cá dentro, de Setúbal pois claro! 

Quem pouco sai de casa e não dá umas voltas pela cidade dificilmente se dá conta do desusado movimento que por aqui cada vez se verifica com mais intensidade, quer de setubalenses quer dos forasteiros que cada vez são em maior número. 

Para aproveitar este fluxo não é pois de admirar que a alentejana Câmara do Redondo tivesse aqui vindo promover a sua festa das flores com um bonito e sugestivo pavilhão que implantou em plena Avenida Luísa Todi. 

Também neste fim-de-semana Setúbal decidiu honrar as flores com um verdadeiro festival e a cidade mais uma vez animou-se com muita gente nas ruas da baixa, quer durante o dia quer à noite onde a música e a dança teve lugar. 

Curiosamente tive oportunidade de verificar a existência de várias excursões que demandaram a nossa cidade vindas de vários pontos do país e do estrangeiro. Mas, o mais curioso foi também ver passear pela cada vez mais cosmopolita Setúbal, africanos usando as lindas vestes típicas do Senegal, indianas com os seus saris e até outro tipo de turistas/aventureiros que deslocando-se de bicicleta percorrem o mundo, sem esquecer a bela Setúbal. 

E foi precisamente à frente da vetusta e popular Mercearia Américo que os exóticos viajantes pararam para se abastecerem naquela casa que funciona de manhã à noite, todos os dias do ano. 

Setúbal é de facto uma terra que urge partir à descoberta, inclusive por alguns dos próprios setubalenses de nascimento ou de adoção que certamente muito terão ainda para conhecer, recomendando-se por isso o velho slogan propagandístico e que tão bem aqui se adequa: “Vá para fora cá dentro” . 

Rui Canas Gaspar 

2017-maio-27 


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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Setúbal acompanha os tempos e o vento de feição 

Foi na Escola Industrial e Comercial de Setúbal, quando era menino, que aprendi caligrafia e a arte de bem escrever as letras inglesa, francesa e gótica, habilmente ensinadas a milhares de setubalenses pelo professor Camalhão. 

Mas, provavelmente este homem de ar severo não teria sido professor se não tivesse um pai com possibilidades financeiras acima da média, atendendo aos tempos difíceis que então se vivia na nossa terra. 

Seu pai era horticultor e mandou erigir algumas casas na Horta da Rã, ao lado da Quinta das Rosas, onde hoje está a funcionar o Mac’Donalds, no Rio da Figueira. Por isso não é de admirar que a horta também fosse conhecida pela Quinta do Camalhão. 

E foi precisamente neste espaço, que se encontrava desativado das suas funções agrícolas há bastantes anos que hoje pude assistir a três máquinas em operações, uma que derrubava as construções, outra que tritorava o entulho transformando-o de novo em terra e a terceira que recolhia a madeira velha. 

Muito mais rápido que o amigo Camalhão haveria de supor as suas construções foram transformadas de novo em terra, embora por ali ainda não seja visível qualquer anúncio obrigatório sobre a demolição em curso ou a obra que irá ser erigida. 

Sabe-se, no entanto, que naquele espaço irá nascer um supermercado Continente, com um piso subterrâneo destinado ao necessário parqueamento, coisa que o Mac’Donalds não previu e por isso utilizou parte do terreno do vizinho temporariamente, sofrendo agora as consequências com a quebra de clientela. 

Aquela zona da cidade dentro em breve estará irreconhecível, não só com esta construção mas porque também o velho edifício frente ao restaurante e onde se localiza a conhecida taberna “Vendaval” já foi vendido e em breve será também alvo de obras de recuperação. 

Setúbal acompanha os tempos e ventos que sopram de feição alindando-se e modernizando-se. Quer os particulares quer a autarquia estão a fazer as coisas acontecer, o que naturalmente será bom para todos os setubalenses e para quem nos visita. 

Rui Canas Gaspar
2017-maio-19

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terça-feira, 2 de maio de 2017

O meu obrigado ao Hospital de São Bernardo 

Nos anos seguintes à revolução de 25 de abril de 1974 muitos casais setubalenses optavam por ir ter os seus bebés a clínicas particulares de Lisboa, duvidando dos recursos disponibilizados pelo nosso Hospital de São Bernardo. 

Em nossa casa discutimos o assunto e optamos por este hospital para local de nascimento dos nossos filhos, sem nunca nos termos arrependido da decisão tomada devido ao impecável tratamento de que fomos alvo. 

Das raras vezes que tomei contacto com os seus serviços nunca tive razão de queixa, embora por vezes o tempo de espera para quem está doente seja sempre preocupante. 

Este ano devido à doença que afetou o meu pai tive de ir lá por três vezes e de todas elas fomos atendidos com a máxima eficiência e profissionalismo, surpreendendo-nos o facto de a última consulta estar marcada para as 16,00 e faltavam dois minutos para a hora agendada quando o altifalante nos chamava para o consultório médico… 

Independentemente da pontualidade, os dois médicos que nos atenderam, foram de um profissionalismo e sensibilidade indescritível, mostrando-se muito bons conhecedores do processo clínico do paciente. 

Já tenho acompanhado doentes a hospitais particulares onde os médicos quase nem levantam a cabeça para olhar o doente recebendo-nos como se de um frete se tratasse. 

Igualmente tenho ido a consultórios particulares onde os horários não são para cumprir e onde se paga a peso de ouro. 

Se eu tivesse de classificar, numa escala de 0 a 20, certamente não daria menos de 19 ao Hospital de São Bernardo, um estabelecimento de que muito me orgulho enquanto setubalense. 

Cada um tem a sua experiência, eu tenho a minha, e deixo este testemunho e agradecimento pela forma como sempre tenho sido bem atendido neste hospital público, sem “conhecimentos” e sem “cunhas” mas como simples cidadão setubalense. 

Rui Canas Gaspar

2017-maio-02

domingo, 30 de abril de 2017

Os Escuteiros invadiram Setúbal 

Milhares de jovens escuteiros podiam ser vistos andando em grupos pela cidade e arredores, neste domingo dia 30 de abril, dia em que tradicionalmente se juntam nos “Jogos da Primavera”, uma atividade destinada a comemorar o dia do seu padroeiro, S. Jorge. 

Foi no ano de 1973 que pela primeira vez a então Região Pastoral de Setúbal do Corpo Nacional de Escutas decidiu organizar autonomamente as comemorações do Dia do Escuta, demarcando-se da Região de Lisboa, onde pertencia, e onde anualmente participava no Rali da Primavera, uma corrida de carros de madeira que tinha como cenário o Parque Eduardo VII. 

Este primeiro encontro dos escuteiros de toda a região de Setúbal, levado a cabo no Parque das Escolas, posteriormente rebatizado de Largo José Afonso, seria designado por “Rali Romano” porquanto o mesmo tinha por base uma corrida de bigas, puxadas não por quatro cavalos mas por outros tantos jovens, um colorido espetáculo inspirado no filme de Bem-Hur. 

Poucos anos depois é que a designação dos jogos seria alterada para “Jogos da Primavera” e se manteria até aos dias de hoje, tendo passado por vários modelos e ficando para a história o célebre “Rali Romano” que chegou a ser alvo de dilatada cobertura televisiva por parte da RTP. 

Desde aquele longínquo ano de 1973, muitos milhares de jovens setubalenses, alguns deles hoje já avós, participaram nos jogos que constituem o maior encontro de escuteiros da Região de Setúbal. 

Embora cada um com as suas vivências e recordações, o que a esmagadora maioria dos escuteiros desconhece é que os Jogos representaram o “Grito de Ipiranga” lançado pelos escuteiros setubalenses em relação à Região de Lisboa. 

Setúbal, só viria a ser constituída uma Região escutista portuguesa no âmbito do Corpo Nacional de Escutas, no dia 26 de outubro de 1975, quando D. Manuel Martins foi sagrado bispo de Setúbal, dia em que também foi eleita por voto secreto a primeira Junta Regional do Corpo Nacional de Escutas. 

Rui Canas Gaspar
2017-abril-30

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sábado, 29 de abril de 2017

Primeiro de Maio, dia do trabalhador 

Deveria eu ter uns 14 anos quando naquele dia primeiro de Maio, pela manhã, me dirigi para a baixa setubalense, um dia de trabalho como qualquer outro, dado que em Portugal não era feriado. 

Por cá não se assinalava o “Dia do Trabalhador” comemorativo daquela manifestação realizada em Chicago, nos Estados Unidos, no ano de 1886, quando milhares de pessoas reivindicaram as oito horas de trabalho diário. 

Minha mãe tinha-me avisado para que se visse qualquer panfleto no chão para não o apanhasse e lesse. Estava a referir-se aos panfletos espalhados durante a noite pelos militantes comunistas e passíveis dos seus leitores serem denunciados à PIDE. 

De facto, naquela manhã não vi panfletos em Setúbal, eles tinham sido espalhados, mas os eficientes serviços da polícia política tinham-se encarregado de os apanhar, tal como o fizeram com alguns conhecidos setubalenses, militantes do Partido Comunista. 

A temível PIDE, de má memória, prendera naquela madrugada vários opositores ao regime, reprimindo assim qualquer tentativa subversiva, agindo de forma preventiva e silenciando as pessoas. Daí que os próprios comentários na baixa fossem feitos à “boca fechada” quando se falava no assunto e, se dizia, que naquela madrugada o senhor Álvaro Dias, comerciante na Rua Álvaro Castelões também tinha sido preso. 

Foi necessário chegar o dia 25 de abril de 1974 para ser instituído em Portugal o feriado de Primeiro de Maio no ano de queda da ditadura e implantação da liberdade democrática. 

A exemplo de todo o país o povo saiu à rua e também em Setúbal se assistiu à maior manifestação que por cá se realizou com o povo a entupir as principais artérias da cidade. 

Passadas algumas décadas, o entusiasmo deste dia vitorioso foi diminuindo e da memória dos homens vai-se esfumando nomes de pessoas e factos históricos determinantes para a liberdade de expressão que hoje naturalmente usufruímos, como sempre assim tivesse sido. 

Julgo que é da mais elementar justiça prestar homenagem àqueles setubalenses que combatendo na clandestinidade se sacrificaram pondo em risco até a própria vida para que hoje tivéssemos a liberdade, até para dizer mal de tudo e de todos, confundindo frequentemente o estar à vontade com o estar à vontadinha. 

Rui Canas Gaspar
2017-abril-29

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Como Setúbal perdeu um bombeiro e um jornalista 

Provavelmente estávamos no Outono ou Inverno, porque o rapaz de sete ou oito anos encontrava-se em casa, de boina na cabeça, para melhor se proteger do frio, num tempo em que no antigo bairro de Troino, em Setúbal, se desconhecia a existência de aparelhos de ar condicionado ou aquecedores elétricos.

A dona de casa tinha guardado as natas separadas do leite que o leiteiro diariamente vendia de porta em porta e conservava-as numa tijela, com umas pitadas de sal, o tipo de conservação então usado na ausência de frigorífico.

E porque naquele dia já tinha as natas suficientes, decidiu fazer um bolo, onde juntaria as ditas, a farinha, um ovo e o açúcar, tudo bem mexido e colocado no tacho de barro seria posteriormente cozido na padaria do Elias, ali bem ao fundo da Rua do Queimado onde também a Ti Laura cozia os deliciosos bolos que depois vendia à porta do Grande Salão Recreio do Povo.

O rapaz andava às volta da saia da mãe, à espera de poder passar o dedo pela massa depois de mexida com o açúcar e deliciar-se chupando, isto na ausência de um “Salazar” aquele raspador tão usado nestas alturas na cozinha.

Foi então que subitamente se começou a escutar a forte sirene dos carros dos bombeiros que subiam a ladeira, nas traseiras, a caminho do Viso e logo o rapaz começou aos saltos empolgado para ir ver onde era o fogo.

A mãe com receio de que ele fosse atropelado, disse-lhe logo, “não sais de casa”, “mas eu vou” dizia o rapaz, não vais, vais, não vais, e tanto a apoquentou que a mãe perdeu a paciência e o tacho de barro que estava a ser barrado com manteiga para o bolo não se pegar ao fundo, agarrado com as duas mão bateu na cabeça do rapaz.

O tacho de barro desfez-se em mil pedaços, mas, nada de mossas na dura cabeça protegida pela boina. O problema foi o bolo que lá se foi e com ele uma “reportagem” perdida bem como o provável “batismo” como bombeiro voluntário.

Provavelmente para suprir este “trauma de infância” é que eu ainda hoje continuo a escrever estas coisas e a pagar as minhas quotas de sócio dos Bombeiros Voluntários de Setúbal.

Rui Canas Gaspar
2017-abril-19

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terça-feira, 18 de abril de 2017


Parabéns Setúbal 

As aspirações dos moradores da vila de Setúbal foram finalmente satisfeitas naquele dia 19 de abril de 1860, quando viram escrito no boletim oficial do Estado o Decreto de Sua Majestade D. Pedro V, Rei de Portugal, que declarava: “fazer mercê à Vila de Setúbal de a elevar à categoria de cidade, com a denominação de cidade de Setúbal” justificando a real decisão pelo facto desta terra ter uma excelente posição geográfica, boa qualidade dos seus edifícios e muita população. 

O regozijo foi grande em Setúbal e o seu líder Aníbal Álvares da Silva logo tratou de agradecer ao rei em nome dos sadinos dizendo: “ Setúbal, Senhor, que já era grande, pela sua população e extenso comércio, passa a sê-lo, d’ora avante, pelo título com que Vossa Majestade a enobreceu”. 

Passados 157 anos sobre esta efeméride e depois de dezenas de homens terem dirigido os destinos terra a primeira e única mulher a liderar o concelho sadino, Maria das Dores Meira, presidirá amanhã dia 19 de abril de 2017 às comemorações que se iniciarão pelas 09,00 horas com o hastear da bandeira na Praça do Bocage. 

As cerimónias  prosseguirão com a iniciativa “Paços do Concelho de Portas Abertas” dá a conhecer, através de uma visita guiada, os locais mais emblemáticos do edifício da Câmara Municipal de Setúbal, requalificado recentemente.

Entretanto, na Casa da Baía, pelas 12h00, será inaugurada a exposição "Entre Nós", a segunda mostra coletiva dos trabalhadores da Câmara Municipal de Setúbal.

Os setubalenses estão naturalmente convidados a participar e a assinalar condignamente esta efeméride.

Rui Canas Gaspar

2017-abril-18

segunda-feira, 17 de abril de 2017

“Ora já sabem que estou aqui ?” 

Tinham passado apenas quatro anos desde que as praias ribeirinhas setubalenses tinham desaparecido para dar lugar a muralhas, cais de atracação e novas docas, quando surgiu uma casa a quem os seus proprietários atribuíram a designação de La Valenciana. 

Ao longo dos anos a gelataria setubalense conquistaria o paladar das gentes da terra e certamente não haverá em Setúbal quem não conheça a casa aqui implantada desde 1938. 

Várias décadas passaram e também a zona ribeirinha acabou por levar uma reviravolta apresentando-se agora mais agradável que nunca e até o espaço dos estaleiros navais da Praia da Saúde (a única que ficou) foi devolvido ao usufruto da população. 

E é aí que fomos encontrar novo motivo de embelezamento que se encontra a ser ultimado e que nos mostra o nome da nossa cidade composto por grandes letras decoradas. 

Igualmente os setubalenses foram surpreendidos, no mesmo espaço, na zona relvada, com a colocação de dois novos enormes sombreamentos a exemplo dos que já lá se encontravam, potenciando aquele espaço para a prática de atividades ao ar livre, ou simplesmente para usufruto de uns momentos de lazer. 

Mas, o mais interessante é que outro motivo de atração e interesse ali se pode encontrar e, nada mais nada menos, do que os deliciosos gelados da Valenciana, aqui servidos num triciclo do tipo do nosso saudoso Ervilha, o homem que os anunciava com o pregão:  “Ora já sabem que estou aqui?” 

Se conhece a zona ribeirinha setubalense desfrute-a, se não a conhece não perca tempo e venha até esta bela cidade à beira do Sado plantada e desfrute de uma das mais belas baías do mundo. 

Rui Canas Gaspar
2017-abril-17

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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Obrigado 

A exemplo do que vai acontecendo um pouco por toda a cidade também a sua principal entrada e saída, a Praça 25 de Abril de 1974, vulgarmente conhecida por “rotunda do Jumbo” está a embelezar-se tendo recebido agora mais um imponente conjunto escultórico representando os golfinhos do Sado (roazes-corvineiros) esculpidos em pedra mármore. 

Trata-se de mais uma obra de arte oferecida à cidade pelo Fundação Buehler-Brochaus  que tanto tem contribuído para a mudança da imagem da cidade, agora que a mesma se apresenta com as mais diferentes obras de arte um pouco para todos os gostos. 

É bom recordar que Setúbal até há bem poucos anos era uma terra praticamente despida de elementos escultóricos o que a tornava visualmente pouca atrativa, situação que se tem vindo a inverter a olhos vistos e para a qual muito tem contribuído o casal alemão Hans e Marion. 

Este simpático par, amantes da arte, decidiu radicar-se em Setúbal, terra para a qual tem contribuído com largos milhares de euros despendidos não só com o pagamento de algumas obras de arte que podemos apreciar nas nossas rotundas, mas também com o embelezamento exterior do Fórum Municipal Luísa Todi e até o melhoramento de uma rua da cidade foi por ele custeado. 

Igualmente esta fundação tem apoiado alguns espetáculos culturais levados a cabo na cidade, oferecido obras de arte ao Museu da Cidade e apoiado financeiramente uma companhia teatral setubalense. 

Foi também oportunamente anunciado que a Fundação Buehler-Brochaus custearia o passadiço entre o PUA e a Albarquel aquando da recuperação do forte cedido à cidade. 

Por tudo isto e muito mais é mais que justo que os meus conterrâneos considerem o casal alemão como dos seus mais distintos setubalenses, eles que até gostam de peixe assado, saboreado nas esplanadas do nosso típico bairro de Troino. 

Sim, porque setubalense não é apenas o que aqui nasce, mas aquele que ama, trabalha e dá o seu contributo para o desenvolvimento desta terra que um dia me viu nascer, não só a mim como também à Luísa Todi e a tantos outras e outros que tendo aqui sido dados à luz de cá sumiram bem novinhos e em nada contribuiram para o progresso de Setúbal. 

Rui Canas Gaspar
2017-abril-13

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domingo, 2 de abril de 2017

Mercado Quinhentista

Setúbal merece o melhor 

Gostaria antes de tecer qualquer outro comentário de endereçar os melhores parabéns à organização do excelente evento designado por Mercado Quinhentista.

Faço-o também à Câmara Municipal de Setúbal e muito particularmente a um setubalense, membro do nosso grupo COISAS DE SETÚBAL, o conhecido decorador João Maria.

À organização do evento pela forma agradável como delineou todo o espaço do certame e nele enquadrou as mais diferentes formas de animação histórica, lúdica e gastronómica.

À C.M.S. porque se atreveu a franquear os portões do nosso Forte de S. Filipe, tendo em especial atenção a zona que não se encontra em perigo e que em breve irá ser alvo de profunda intervenção para estabilização da encosta.

E ao nosso amigo João Maria pela fina decoração que concebeu e empresta ao espaço outra atratividade e beleza, fazendo com que os setubalenses e visitantes desta terra tenham mais gosto em ali se deslocar não só para usufruir da soberba paisagem mas também pela agradabilidade do espaço.

Posto isto, gostaria também de partilhar com os amigos a minha convicção de que cada vez mais temos de apostar na qualidade ainda que a mesma possa ter mais alguns acrescidos custos o retorno do investimento é seguramente garantido e com mais-valias.

Este evento bem como a decoração do “castelo” é um investimento que estou em crer poucos poderão não aplaudir e ninguém, que eu tenha escutado, deu por mal empregue os 2 euros pagos pela entrada naquele certame.

Penso que a aposta está ganha e, se no próximo ano ela se voltar a repetir muito mais gente ali acorrerá. Assim sendo, com vista a manter ou melhorar a qualidade talvez a organização tenha de espaçar mais (o terreno existe) os expositores de forma a acolher mais gente sem o inconveniente de andarem a acotovelar-se.

Outro aspeto a ter em atenção e tendo em conta que ali não será possível o estacionamento automóvel, deverá ser reforçado o sistema de vai-e-vem dos mini-autocarros.

Mais uma vez parabéns para todos os intervenientes e continuemos a apostar na qualidade porque Setúbal merece o melhor.

Rui Canas Gaspar
2017-abril-02

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sábado, 1 de abril de 2017

Javalis de novo na Avenida Luísa Todi 

Já não é a primeira vez que os javalis da Arrábida descem à cidade e no ano passado dois deles andaram a passear pela Doca dos Pescadores e noutro dia pela Avenida Luísa Todi onde foram fotografados e filmados por alguns setubalenses que os avistaram. 

De novo os animais desceram à cidade, provavelmente em busca de alimento, destruindo com as suas presas parte da zona ajardinada a poente da avenida. 

Atendendo a que estes porcos selvagens se deslocaram em grupo (cerca de uma dezena) alguém contatou o Serviço de Proteção da Natureza da G.N.R. que rapidamente enviou para o local uma patrulha munida de carabinas e dardos tranquilizantes, conseguindo desta forma neutralizar os animais e empurra-los para o interior do auditório José Afonso. 

O espaço foi entretanto cercado por baias metálicas de proteção, enquanto se aguarda a chegada de transporte próprio para levar os animais para uma herdade do Alentejo, segundo informação do P.N.A., ao invés de os devolver à Serra da Arrábida. 

Pelo inédito da situação não deixa de ser curioso verificar a quantidade de setubalenses que têm acorrido à Avenida Luísa Todi para fotografar e filmar o insólito espetáculo que é o auditório transformado em curral. 

Desta vez ao invés de algum programa musical levado a cabo neste monumental e pouco aproveitado espaço, vemos uma inédita cena, tendo por protagonistas uma vara de porcos selvagens a aguardar a sua triste sina, no interior da improvisada pocilga. 

Pessoalmente preferia que os animais fossem encaminhados para o respetivo habitat, ou seja a Serra da Arrábida. Mas esta é a minha opinião!... 

Gostaria de saber o que acham os meus amigos sobre esta situação? 

Rui Canas Gaspar
2017-04-01

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quinta-feira, 30 de março de 2017

Boas novas para a José Mourinho 

Em Setúbal, das instalações localizadas junto à Doca dos Pescadores da minha meninice e juventude já pouco mais resta do que alguns raros vestígios.
Setúbal tem vindo a transformar-se e esta é uma zona onde esse fenómeno é mais visível. 

É aqui que os antigos armazéns de redes, as velhas fábricas de conservas e as muitas tabernas vieram dar lugar sobretudo a bonitos e bem equipados restaurantes, famosos pelo peixe assado que disponibilizam. 

Até há bem pouco tempo ainda podíamos encontrar nesta zona algum espaço disponível para venda. Presentemente eles são uma raridade e hoje mesmo podemos observar uma mensagem publicitária, colocada nos automóveis ali parqueados, mostrando a imagem de uma vendedora de uma conhecida imobiliária que informava que tinha vendido dois armazéns. 

Muito em breve quem passar pela Avenida José Mourinho, a antiga Rua da Saúde, terá dificuldade em reconhecer o local, agora que mais um edifício está prestes a concluir o processo de recuperação para ali funcionar mais um restaurante. 

Um novo hotel em breve iniciará a construção frente ao Rockalot, naquela avenida e com mais estes dois imóveis vendidos a juntar a um terceiro transacionado há pouco a uns asiáticos é espectável que dentro de meia dúzia de anos teremos uma avenida com apresentação muito diferente, mais digna e agradável. 

Gosto de saber e de partilhar estas notícias da minha terra que não para de se embelezar de crescer e de se tornar cada vez mais agradável, graças ao espírito empreendedor de nacionais e estrangeiros que aqui encontram uma oportunidade de negócio, ajudando a cidade do rio azul a sair de uma letargia onde esteve mergulhada durante vários anos. 

Rui Canas Gaspar 

2017-março-30


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segunda-feira, 27 de março de 2017

A dança dos hotéis em Setúbal 

Foi anunciado com grandes parangonas e toda a pompa que os chineses vinham para Setúbal investir na construção da marina e erigir apartamentos e um hotel, num enorme empreendimento que iria modificar a zona ribeirinha. 

Pelos vistos os chineses roeram a corda, já cá não vêm pôr os pés e os promotores asiáticos não vão aqui construir marina nem hotel nenhum. 

É agora anunciado que os israelitas vêm erigir um hotel em Setúbal, frente ao Centro Comercial Alegro e, mais uma vez, ficamos naturalmente satisfeitos com o anúncio desta construção que depois de pronta anuncia-se como geradora de uma centena de postos de trabalho. 

Mas, já diziam os putos de Troino:  “a ver vamos como diz o cego”… 

Por outro lado, o emblemático Grande Salão Recreio do Povo, à porta do qual muitos bolinhos à ti Laura comi, certo dia foi parar às mãos de um banco, que acabou absorvido por outro, que por sua vez se desfez do imóvel para fazer o quê? Um hotel, pois claro!... 

É como se costuma dizer por cá: “Não há duas sem três” mas de hotéis nem visto! 

O que eu não sabia é que afinal sem confusão nem complicação, sem parangonas e sem estrangeiros metidos no assunto estava em curso na minha cidade a construção de, imagine-se, um hotel. 

Exatamente. Tomei hoje conhecimento de que está em curso, nas Fontainhas, obras numa antiga fábrica conserveira com vista à sua transformação para ali poder vir a funcionar uma unidade hoteleira. 

O espaço é propriedade de um conhecido setubalense, que curiosamente há bem pouco tempo inaugurou aqui na cidade um bonito hostel. 

É claro que fiquei satisfeito por saber de mais este investimento para a minha terra e bem mais satisfeito ao constatar também mais uma vez são os portugueses em geral e os setubalenses em particular que estão a apostar naquilo que é nosso. 

O investimento estrangeiro é naturalmente bem-vindo, mas nesta dança dos hotéis parece que vão sendo mais as vozes que as nozes, salvando-se, e ainda bem, estas constatações. 

Rui Canas Gaspar
2017-março-27

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Já apreciaram a montra do nosso Hôtel de Ville? 

Luísa Rosa nasceu em Setúbal e segundo tradição oral teria sido na Rua de Coina, posteriormente rebatizada como da Brasileira, em pleno Bairro de Troino, onde eu também berrei que me fartei pela primeira vez naquele primaveril dia 19 de Abril. 

A mocinha poucos anos por cá esteve e aos 14 já atuava em Lisboa onde casou quase sem ter tempo para brincar com as bonecas de trapos, optando por se entreter com um italiano ligado às coisas da musica e mais velho que ela, uns bons aninhos. 

Porque o marido tinha o apelido de Todi a jovem artista passou a ser conhecida por Luísa Todi e, foi assim que ficou famosa nas mais diversas cortes da Europa aquando das suas atuações para as mais importantes figuras reais do seu tempo. 

De Setúbal, a piquena poucas recordações deve ter levado e, pelos vistos, mesmo em adulta não voltou a colocar cá os pés, nem sequer depois de morta. 

Mas porque aqui viu pela primeira vez a luz do dia, os setubalenses decidiram honrá-la como a nenhuma outra e o seu nome e busto figuram nos lugares cimeiros desta generosa terra de gente boa e hospitaleira. 

Hoje mesmo fui encontrar o seu busto no afrancesado Hôtel de Ville, ali para as bandas da Praça do Bocage e consegui esta interessante imagem sem recurso a truques ou malabarismos fotográficos, utilizando apenas e só a câmara do meu telemóvel. 

Espero que gostem e que possam ir até à baixa para apreciar ao natural este motivo decorativo da nossa principal casa setubalense, agora também apta a receber casamentos. 

Rui Canas Gaspar
2017-março-27

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