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sexta-feira, 5 de junho de 2026

 






Setúbal na História ou histórias de Setúbal ( 345)

Praia da Saúde,  um diamante por lapidar

Quando os Fenícios aqui chegaram vindos de longínquas terras lá dos lados do Líbano encontraram um amplo estuário cujas águas entravam pela parte baixa desta bela terra que viria séculos mais tarde e ser conhecida por Setúbal. As águas do mar espraiavam-se então  até às bandas do que é hoje o Parque do Bonfim, por isso mesmo, eles foram instalar-se na parte mais alta do território perto do Miradouro de S. Sebastião.

Anos mais tarde chegaram os Romanos e construiram as suas unidades de conservas de peixe e de molhos (garum) na parte baixa deste cobiçado território, entre aquele que hoje é o Largo de Misericórdia e a Praça de Bocage, embora a sua implantação se estendesse mais para poente e para nascente.

O terramoto de 1755 veio dar cabo de salinas existentes na que é hoje a Av. Luisa Todi, mais concretamente bem perto do edifício da Cáritas Diocesana, uma área por onde os romanos também se tinham instalado junto à praia.

As  grandes obras do Porto de Setúbal, levadas a cabo entre 1930 e 1934 vieram fazer desaparecer um conjunto de praias então existentes que nessa época eram conhecidas por Fontainhas, Alfandega, Seixal, etc, ficando apenas a da Saúde que passou a ser utilizada como estaleiro de reparação e construção naval.

Há cerca de duas décadas decidiu-se avançar para a devolução das águas ribeirinhas à cidade e assim nasceu o Parque Urbano de Albarquel e deu-se início ao desmantelamento dos antigos estaleiros navais para devolver o areal ao usufruto dos cidadãos.

A Praia da Saúde regressou assim à configuração original e, embora ainda não aprovada oficialmente para a fruição da prática balnear não deixa por isso de ser praia, até porque praia é uma formação geológica costeira composta por areia e localizada na zona de transição entre a terra e um corpo de água.

O meu avô Artur Canas, há mais de um século, antes mesmo de haver ali estaleiro usava aquela praia para encalhar a sua embarcação. O meu pai Francisco Gaspar para ali ia tratar dos barcos onde era camarada e minha mãe Benilde quando eu era bem menino levava-me para aquela Praia da Saúde, onde então funcionava o estaleiro naval, porque se dizia que os ares dali eram melhores dos que os de Troia, muito mais fortes e não tão bons para a saúde.

Passados mais de três quartos de século desde os meus primeiros banhos na Praia da Saúde  são muitos os antigos e novos setubalenses, bem como  forasteiros que procuram este agradável espaço, dentro da cidade, e que com um pouco de jeito e algum trabalho será uma invejável praia reconhecida para a prática balnear.

Tenho o privilégio de já ter estado em algumas dezenas de países do mundo, em quase todos os continentes, conheço alguns espaços com praias famosas mas que ficam muito aquém desta. Porém, vamos lá nós saber porquê é sempre com muito agrado e particular orgulho que olho para a nossa Praia da Saúde, quase todos os dias, e vejo ali um potencial ímpar. Um verdadeiro diamante por lapidar.

Rui Canas Gaspar

www.troineiro.blogspot.com