Setúbal na História ou histórias de Setúbal
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Praia da Saúde, um diamante por lapidar
Quando os Fenícios aqui chegaram vindos de
longínquas terras lá dos lados do Líbano encontraram um amplo estuário cujas
águas entravam pela parte baixa desta bela terra que viria séculos mais tarde e
ser conhecida por Setúbal. As águas do mar espraiavam-se então até às bandas do que é hoje o Parque do
Bonfim, por isso mesmo, eles foram instalar-se na parte mais alta do território
perto do Miradouro de S. Sebastião.
Anos mais tarde chegaram os Romanos e construiram
as suas unidades de conservas de peixe e de molhos (garum) na parte baixa deste
cobiçado território, entre aquele que hoje é o Largo de Misericórdia e a Praça
de Bocage, embora a sua implantação se estendesse mais para poente e para
nascente.
O terramoto de 1755 veio dar cabo de salinas
existentes na que é hoje a Av. Luisa Todi, mais concretamente bem perto do
edifício da Cáritas Diocesana, uma área por onde os romanos também se tinham
instalado junto à praia.
As grandes obras do Porto de Setúbal, levadas a
cabo entre 1930 e 1934 vieram fazer desaparecer um conjunto de praias então
existentes que nessa época eram conhecidas por Fontainhas, Alfandega, Seixal,
etc, ficando apenas a da Saúde que passou a ser utilizada como estaleiro de
reparação e construção naval.
Há cerca de duas décadas decidiu-se avançar
para a devolução das águas ribeirinhas à cidade e assim nasceu o Parque Urbano
de Albarquel e deu-se início ao desmantelamento dos antigos estaleiros navais
para devolver o areal ao usufruto dos cidadãos.
A Praia da Saúde regressou assim à
configuração original e, embora ainda não aprovada oficialmente para a fruição
da prática balnear não deixa por isso de ser praia, até porque praia é uma
formação geológica costeira composta por areia e localizada na zona de
transição entre a terra e um corpo de água.
O meu avô Artur Canas, há mais de um século,
antes mesmo de haver ali estaleiro usava aquela praia para encalhar a sua
embarcação. O meu pai Francisco Gaspar para ali ia tratar dos barcos onde era
camarada e minha mãe Benilde quando eu era bem menino levava-me para aquela
Praia da Saúde, onde então funcionava o estaleiro naval, porque se dizia que os
ares dali eram melhores dos que os de Troia, muito mais fortes e não tão bons
para a saúde.
Passados mais de três quartos de século desde
os meus primeiros banhos na Praia da Saúde são muitos os antigos e novos setubalenses,
bem como forasteiros que procuram este
agradável espaço, dentro da cidade, e que com um pouco de jeito e algum
trabalho será uma invejável praia reconhecida para a prática balnear.
Tenho o privilégio de já ter estado em algumas
dezenas de países do mundo, em quase todos os continentes, conheço alguns
espaços com praias famosas mas que ficam muito aquém desta. Porém, vamos lá nós
saber porquê é sempre com muito agrado e particular orgulho que olho para a
nossa Praia da Saúde, quase todos os dias, e vejo ali um potencial ímpar. Um
verdadeiro diamante por lapidar.
Rui Canas Gaspar



















