ELES VIERAM COMEMORAR O 50º ANIVERSARIO DO P.N.A.
sábado, 18 de julho de 2026
terça-feira, 7 de julho de 2026
A antiga e nova baixa setubalense
Durante muitos anos funcionou na baixa de
Setúbal o comercio e serviços distribuído pelas diferentes ruas especializadas
nos mais variados misteres de onde ressaltava a Rua dos Ourives, a dos
Caldeireiros, a dos Sapateiros, a das Farinhas, a dos Correeiros etc. etc.
Mais tarde essas artérias diversificaram-se e,
modernas e atrativas lojas de tecidos e
sapatarias fariam atrair à baixa muitos dos setubalenses, por vezes só para
verem as montras.
Os comerciantes prosperavam e, aos poucos,
foram tomando conta dos andares superiores dos prédios ocupados pela sua
atividade comercial para naqueles espaços, agora sem moradores, fazerem os seus armazéns e escritórios de
apoio.
As convulsões sociais que se seguiram à
revolução de 25 de Abril de 1974, o envelhecimento dos comerciantes e a sua já
pouca disposição para a mudança de hábitos e novos costumes, aliado ao “pronto
a vestir” que entretanto surgiu e se implantou em força, ditaram o fim de
muitas das lojas da baixa.
Mas… a grande “machadada” aconteceu naquele ano
de 1991, quando em Outubro abriu portas o Hipermercado Jumbo de Setúbal (atual
Alegro) deslocalizando o poder de compra da baixa para as novas e modernas
instalações.
Com as lojas a encerrar e os andares superiores
sem ocupação rapidamente a baixa quase se tornou um deserto. Tendência
potencializada com o parqueamento automóvel que começou a ser pago, em
contraponto com a gratuitidade do novo e vibrante espaço comercial.
Foi necessário deixar passar cerca de uma
dezena de anos desde a abertura do “Jumbo” até que a baixa começasse a ver
alguma luz ao fundo do túnel, agora com a abertura de outro tipo de negócio, a
restauração e bebidas, sendo o antigo Largo da Ribeira Velha a funcionar um
pouco como espaço âncora.
Presentemente, outra década volvida e a baixa
parece querer florescer com as muitas aquisições dos antigos prédios que tem
vindo a ser recuperados e novos negócios começam a surgir um pouco à boleia da
restauração e bebidas que vem atraindo cada vez mais nacionais e estrangeiros à
baixa.
Não é pois de admirar que neste momento
possamos observar naquela zona da cidade para além de novas lojas em
funcionamento mais de uma dezena de edifícios com obras de melhoramentos concluídas
ou em faze de conclusão, pelo que se augura que em breve dias melhores sejam
uma realidade na antiga baixa sadina, com nova e mais vibrante vida diurna e
noturna.
Rui Canas Gaspar
www.troineiro.blogspot.com
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Setúbal na História ou histórias de Setúbal
( 345)
Praia da Saúde, um diamante por lapidar
Quando os Fenícios aqui chegaram vindos de
longínquas terras lá dos lados do Líbano encontraram um amplo estuário cujas
águas entravam pela parte baixa desta bela terra que viria séculos mais tarde e
ser conhecida por Setúbal. As águas do mar espraiavam-se então até às bandas do que é hoje o Parque do
Bonfim, por isso mesmo, eles foram instalar-se na parte mais alta do território
perto do Miradouro de S. Sebastião.
Anos mais tarde chegaram os Romanos e construiram
as suas unidades de conservas de peixe e de molhos (garum) na parte baixa deste
cobiçado território, entre aquele que hoje é o Largo de Misericórdia e a Praça
de Bocage, embora a sua implantação se estendesse mais para poente e para
nascente.
O terramoto de 1755 veio dar cabo de salinas
existentes na que é hoje a Av. Luisa Todi, mais concretamente bem perto do
edifício da Cáritas Diocesana, uma área por onde os romanos também se tinham
instalado junto à praia.
As grandes obras do Porto de Setúbal, levadas a
cabo entre 1930 e 1934 vieram fazer desaparecer um conjunto de praias então
existentes que nessa época eram conhecidas por Fontainhas, Alfandega, Seixal,
etc, ficando apenas a da Saúde que passou a ser utilizada como estaleiro de
reparação e construção naval.
Há cerca de duas décadas decidiu-se avançar
para a devolução das águas ribeirinhas à cidade e assim nasceu o Parque Urbano
de Albarquel e deu-se início ao desmantelamento dos antigos estaleiros navais
para devolver o areal ao usufruto dos cidadãos.
A Praia da Saúde regressou assim à
configuração original e, embora ainda não aprovada oficialmente para a fruição
da prática balnear não deixa por isso de ser praia, até porque praia é uma
formação geológica costeira composta por areia e localizada na zona de
transição entre a terra e um corpo de água.
O meu avô Artur Canas, há mais de um século,
antes mesmo de haver ali estaleiro usava aquela praia para encalhar a sua
embarcação. O meu pai Francisco Gaspar para ali ia tratar dos barcos onde era
camarada e minha mãe Benilde quando eu era bem menino levava-me para aquela
Praia da Saúde, onde então funcionava o estaleiro naval, porque se dizia que os
ares dali eram melhores dos que os de Troia, muito mais fortes e não tão bons
para a saúde.
Passados mais de três quartos de século desde
os meus primeiros banhos na Praia da Saúde são muitos os antigos e novos setubalenses,
bem como forasteiros que procuram este
agradável espaço, dentro da cidade, e que com um pouco de jeito e algum
trabalho será uma invejável praia reconhecida para a prática balnear.
Tenho o privilégio de já ter estado em algumas
dezenas de países do mundo, em quase todos os continentes, conheço alguns
espaços com praias famosas mas que ficam muito aquém desta. Porém, vamos lá nós
saber porquê é sempre com muito agrado e particular orgulho que olho para a
nossa Praia da Saúde, quase todos os dias, e vejo ali um potencial ímpar. Um
verdadeiro diamante por lapidar.
Rui Canas Gaspar
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Tempos de defeso, tempos difíceis
Uma antiga camisa e um lenço que se encontrava
naquela velha arca, revestida a pele de porco, que servia como banco de fardas
do grupo da Ordem Terceira, uns calções de ganga feitos pela mãe, daquela usada
pelos marítimos, um cinto do pai, que nunca foi escuteiro, umas meias cinzentas
de senhora compradas na casa formiga, ali para as bandas da Praça de Bocage e
uma fita de nastro verde pregada na camisa identificavam aquele jovem escuteiro
como subguia de patrulha leão, na sua primeira atividade, fora de Setúbal.
Os escuteiros, aqui fotografados pelo mestre
Baptista, Junto ao Apeadeiro de Quebedo, excluindo os dirigentes eram membros
do grupo sediado no Orfanato Municipal
de Setúbal, percursor do atual Agrupamento da Anunciada – Setúbal.
Estávamos na primeira metade dos idos anos 60
do passado século XX e neste mês de Janeiro a vida se já era difícil nesta
terra de homens do mar ainda pior ficava devido ao defeso da pesca da sardinha
com a consequente paragem das fábricas de conserva de peixe.
O subguia aqui fotografado sou eu, um filho de
pescador sadino que teve a sorte de ter nascido numa humilde mas boa família e ter tido bons chefes escuteiros que
ajudaram a formar o carácter do homem que hoje sou, com todos os naturais
defeitos inerentes à condição humana.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
terça-feira, 29 de abril de 2025
Neste contexto nasceu a URBISADO
Em 1970 Setúbal fervilhava de atividade com a construção civil a edificar muitos prédios onde outrora existiam quintas, várias industrias de montagem de automóveis a laborar, a SOCEL, indústria de pasta de papel já em plena laboração e a SETENAVE que no ano seguinte aqui iniciaria os trabalhos para edificação dos maiores estaleiros navais da Europa, enquanto na outra margem do Sado se iniciavam os trabalhos de construção daquela que estava anunciada como a capital do turismo europeu, a TORRALTA que ali ocupava nas construções de Troia largas centenas de operários. Tudo isto a par das demais indústrias já aqui instaladas, destacando-se a SECIL e a SAPEC faziam deste concelho um espaço de atração de gente oriunda um pouco de todo o país.
A classe trabalhadora via assim os seus salários serem um pouco mais generosos, devido à maior oferta que procura de empregos, o ramo automóvel conhecia invulgar dinamismo, com a venda das viaturas normalmente efetuadas com o recurso a letras (títulos de crédito) e a venda dos apartamentos disparava graças sobretudo ao financiamento bancário para as casas recém-construídas em regime de propriedade horizontal.
A falta de habitação em Setúbal era gritante e nesse ano podia ser observado na periferia da cidade, quer a nascente quer a poente, um conjunto de mais de duas mil e duzentas barracas onde habitavam em condições muito precárias cerca de 11 mil pessoas, correspondente a cerca de 25% da população sadina nesse tempo.
O senão, era uma terrível e nefasta guerra travada lá longe, em África, em três frentes, nos territórios ultramarinos de Angola, Moçambique e Guiné, para onde foram mobilizados 90% dos rapazes portugueses, dos quais se estima tivessem morrido cerca de 10 mil militares, fossem feridos na ordem dos 20 mil e uma centena de milhar de civis tenham perdido a vida. Uma tragédia que só viria a conhecer o fim com a revolução de 25 de abril de 1974.
O dinâmico empresário setubalense, Zé da Mota, estava ele próprio no auge da sua atividade como exportador de conservas de peixe e, foi precisamente no ano de 1970, que levantou na Câmara Municipal de Setúbal, licenças de construção para erigir na cidade sadina mais vinte e seis prédios de sete pisos, naquele que viria a ser designado por bairro da Urbisado, assumindo aquele novo espaço o nome da empresa construtora a URBISADO – Urbanizações e Empreendimentos do Sado, S.A.R.L.
Rui Canas Gaspar
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
Como
chegaram a Setúbal 7 grandes e vistosos carros alegóricos
Para o brilhantismo dos
corsos carnavalescos de finais dos anos 60, quando Francisco Finuras era Rei do
Carnaval, foi decisiva a ação de um
grande e popular setubalense, José Eduardo Martins, o conhecido “Zé da Mota”, então
membro da comissão de festas municipal, corresponsável pela organização destes
eventos.
Foi ele que com os
seus peculiares dotes de negociante conseguiu trazer para Setúbal sete enormes
carros alegóricos que se encontravam armazenados em Alcoentre e que tinham sido
utilizados num dos anteriores desfiles levado a cabo no cosmopolita Estoril.
Esta história é
verdadeiramente surpreendente! O dono do Casino Estoril não estava na
disposição de emprestar os carros e nem sequer quis receber os membros da
comissão de festas de Setúbal. Por isso, Zé da Mota, fazendo-se passar por
negociante de ferro-velho, interessado na compra de toda a sucata de carnaval conseguiu
marcar uma reunião e convence-lo a entregar os vistosos carros que seriam então
vendidos a 10 contos cada um.
Poucos dias depois das
partes terem fechado negócio os atrativos e enormes carros estavam a ser rebocados por
tratores para Setúbal, com escolta da Polícia de Viação e Trânsito, numa
delicada e difícil operação, que durou toda a noite e onde não faltaram fios
elétricos quebrados e partes do Estoril sem energia.
Ainda hoje no Estoril
estão à espera que os bonitos carros alegóricos, então já sem utilização e a
degradar-se num armazém de Alcoentre, sejam pagos pelo arguto “ferro velho”,
pelo rei Finuras ou pelas depauperadas finanças seu reino.
Mas, como diz o povo:
“É carnaval, ninguém leva a mal”…
Rui
Canas Gaspar
www.troineiro.blogspot.com
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Mas
que peixe tão esquisito que havia de aparecer…
Nos anos sessenta do
passado século XX a grande frota pesqueira setubalense capturava
maioritariamente a sardinha, que era na sua generalidade encaminhada para as
dezenas de fábricas conserveiras que laboravam um pouco por toda a cidade.
Os anos setenta
nasciam e com eles uma maldição atingia os pescadores sadinos, é que ao invés das
suas redes capturarem sardinhas vinham pejadas de pequenos peixes, da família dos
cavalos marinhos e a que os setubalenses logo trataram de batizar de “apara-lápis”,
embora também sejam conhecidos por “trombeteiros” ou “cornetas” e tenham a
designação científica de Macroramphosus scolopax.
Os apara-lápis sem
quase nenhum valor comercial era descarregado às toneladas no porto de Setúbal
e daí encaminhado para a SADOP, uma unidade industrial sita na periferia da
cidade, onde o peixe era transformado em farinha.
Este peixe representou
o princípio do fim da indústria de pesca de cerco setubalense e da sua indústria
conserveira, a que se juntaram as alterações climáticas, a pesca por meio de
arrasto e a falta de alimento para a sardinha, de entre outros aspetos não
completamente esclarecidos.
Neste domingo, dia 02
de fevereiro deste ano de 2025, logo pela manhã o meu irmão enviou-me a
fotografia do pequeno peixe, uma imagem que ele captou numa banca do nosso
Mercado do Livramento e que nos fez recordar tempos bem difíceis, ou não
fossemos nós descendentes de velhos e rijos pescadores setubalenses.
Quem nunca ouviu falar
em semelhante espécie, sugiro que possa escutar a canção que oportunamente foi
criada a propósito desta inusitada invasão das nossas águas costeiras.
https://www.youtube.com/watch?v=prpQDWLuvjg
Rui Canas Gaspar
quinta-feira, 29 de agosto de 2024
Muitos
mortos e feridos no Terramoto de Setúbal
Pequenos abalos já teriam
sido sentidos no dia anterior e durante a noite. Porém o que a população não
esperava é que naquele dia 11 de novembro de 1858 Setúbal fosse sacudida de forma
tão violenta por um terremoto de 7.1
O Bairro de Troino
ficou praticamente em ruínas e a Fonte Nova viu muitos dos seus edifícios
ficarem seriamente danificados, havendo até relatos que a Praça do Sapal (atual
Praça de Bocage) viria a sentir os efeitos desse forte abanão vindo a Igreja de
S. Julião a registar fendas e ornatos caídos da fachada.
Até o Convento de Jesus
ficou mais danificado com este terremoto do que com aquele outro ocorrido em
1755.
Às sete horas da manhã
daquele dia 11 de novembro, Setúbal encontrava-se apenas a 30 quilómetros do
epicentro pelo que os efeitos do abalo aqui se fizeram sentir com maior
intensidade do que em quaisquer outras zonas do país.
Foram as casas mais
modestas que mais sofreram e dos montes de escombros foram muitas as vítimas
mortais, bem como grande número de pessoas que ficaram feridas, algumas com
gravidade.
Os sobreviventes
trataram de montar barracas junto à praia, enquanto as pilhagens aconteciam um
pouco por todo o lado. Para cúmulo da desgraça, o mau tempo que se fazia sentir naquele final
de ano originava uma tragédia terrível com muitas pessoas feridas, sem terem de
vestir, abrigar-se, ou mesmo que comer.
Foram necessários dois
anos para que fossem reerguidas 181 casas e isso foi possível graças a muita
solidariedade dos setubalenses com o apoio dos seus vizinhos palmelenses que
forneceram boa parte dos materiais de construção provenientes do antigo
convento de Palmela.
Para assinalar estas novas
casas foi mandado colocar uma peça de azulejo com o seguinte: “Beneficência 11
de Novembro de 1858” que ainda hoje podemos ver numa ou outra fachada da cidade
sadina.
As casas hoje estão construídas
para melhor poderem responder a terramotos do que aquelas outras que passaram
pelo de 1755 e 1858, no entanto, e porque outro terramoto virá sem previamente se
fazer anunciar, convém que estejamos minimamente preparados, nem que seja com a
já muito badalada mochila de emergência, também conhecida por kit 72 horas, mas
esse é um assunto que depois trataremos.
Rui
Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
sábado, 17 de agosto de 2024
Na rota dos nossos
antepassados fenícios
Aqueles homens, após
entrarem nas águas azuis e calmas do estuário do Sado, olhando para o lado
direito, provavelmente o que ali viam não seria a grande língua, formando a
península de areia branca tal como hoje a conhecemos.
Estes antigos
navegadores e comerciantes, membros de um povo culto e habilidoso que também
participou na construção do célebre Templo de Salomão, acharam então por bem
edificar uma feitoria em Abul, um local situado um pouco para montante, na
margem direita do rio. A feitoria seria uma construção que lhes serviria de
armazém e base de apoio para os seus negócios internacionais.
Passados que foram
algumas centenas de anos sobre a chegada destes dinâmicos comerciantes
marítimos da antiguidade, seriam os conquistadores e colonizadores romanos que
se viriam a instalar nesta região.
Nesse tempo, é bem
possível que a paisagem da margem esquerda do Sado que se apresentava perante o
seu olhar, junto à foz, ainda não fosse uma península, mas sim um cordão
composto por algumas ilhas, sendo provavelmente a maior delas aquela designada
por Ácala.
E foi precisamente a
bordo de uma embarcação com o sugestivo nome de “Ácala” que hoje subi o Sado,
passando precisamente frente a Abul, onde os nossos antepassados fenicios
instalaram a sua feitoria. Esta foi uma agradável viagem pela História muito mais
do que um simples e agradável cruzeiro fluvial pelo nosso
rio azul.
Rui Canas Gaspar
sexta-feira, 9 de agosto de 2024
Quando D. Juan Carlos e o Presidente
Mário Soares se juntaram em Setúbal
Pouco antes de ser oficialmente anunciada a descoberta do
Brasil, na localidade espanhola de Tordesilhas, no ano de 1494, já lá vão 530
anos, as então superpotências marítimas da
altura celebraram um acordo de divisão do mundo o qual definia como linha de demarcação o meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no
arquipélago de Cabo Verde.
Esta
linha estava situada a meio caminho entre estas ilhas (então portuguesas) e as
ilhas das Caraíbas descobertas
por Colombo, no tratado referidas como "Cipango" e Antília. Assim sendo, os territórios a leste deste meridiano
pertenceriam a Portugal e os territórios a oeste, a Castela.
Pouco
depois da assinatura do acordo, em 1500, Portugal anunciava a descoberta do
Brasil, seria uma coincidência ou um segredo bem guardado pela coroa
portuguesa, passando assim a perna a nuestros hermanos?
O
Tratado de Tordesilhas viria a ser ratificado em Setúbal pouco depois e, foi
para a cidade sadina que 500 anos mais tarde se deslocaram o Rei de Espanha D.
Juan Carlos, acompanhado da Rainha Sofia e o Presidente da República Dr. Mário
Soares, com a Primeira Dama, Dra. Maria Barroso, para celebrar tão importante
evento.
O
Presidente Mário Soares no seu discurso teve oportunidade de frisar, ainda que
por outras palavras, que o Tratado de
Tordesilhas é um exemplo de como os povos podem resolver a contento e de forma
pacífica as suas divergências.
Dentro
de poucos dias fará 30 anos que o acontecimento foi celebrado em Setúbal com
toda a pompa e dignidade, tendo a cidade sabido receber, como é seu apanágio,
os reis de Espanha e o Presidente da República Portuguesa.
A
RTP Memória tem nos seus arquivos este pequeno excerto que vale a pena ver e
recordar.
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/comemoracao-dos-500-anos-do-tratado-de-tordesilhas/
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
quarta-feira, 7 de agosto de 2024
O abandonado e quase esquecido Forte
do Casalinho
A foto que aqui vemos mostra-nos uma desativada estrutura
militar (ao tempo ainda operacional) e foi
captada precisamente à 75 anos, pelo avô do nosso conterrâneo e provavelmente o
melhor conhecedor das coisas de Setúbal, António Cunha Bento.
A imagem mostra-nos o Forte do Casalinho, equipado e pronto
para entrar em ação no âmbito da Primeira Grande Guerra, a par de outra
estrutura do mesmo tipo, embora inacabada, o vizinho Forte de Milregos, implantado
na margem esquerda da Ribeira da Ajuda, bem perto do Parque de Merendas da
Comenda.
Presentemente os artilheiros das peças Krupp de 280mm teriam
alguma dificuldade em dispara-las nem com o apoio do Moinho da Desgraça que
lhes servia de posto de observação, porquanto os pinheiros de Alepo cresceram à
sua volta de forma desordenada, por toda aquela área da serra, sobretudo na
parte de cima de Albarquel.
Antes de ocorrer a pandemia COVID 19 tive oportunidade de
visitar pormenorizadamente este local na companhia do meu amigo e velho
escuteiro Mário Salgado, tendo filmado o espaço e colocado o resultado do
trabalho no YouTube.
O forte com grandes potencialidades para ser utilizado
como equipamento de apoio a Bombeiros, Escuteiros, projeto lúdico/Turistico, etc.
encontra-se nitidamente ao abandono, daí que vai sendo ocupado de forma mais ou menos “esquisita”
e que nada abona ou contribui para a sua preservação e dignidade.
Se aproveitássemos melhor estas coisas que Setúbal ainda tem
e que se encontram nos braços de Morfeu, provavelmente poderíamos potenciar o
turismo um pouco mais para além do Sol e água salgada que vamos tentando vender
a quem nos quer visitar.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
quinta-feira, 25 de julho de 2024
Hoje é dia dos “caramelos”
Era assim que no século passado, quando a Feira de
Santiago se realizava na Avenida Luísa Todi, o pessoal do Bairro de Troino
designava este primeiro dia de feira. Este não era o dia para o bom povo deste bairro de
pescadores e conserveiras visitar o certame mas deixar a noite para os “caramelos”
aquele pessoal que vivia no campo, nos arredores, para os lados de Palmela.
Eram outros tempos, outras realidades, quando os
vendedores de barros ocupavam boa parte das placas a poente da avenida e faziam
bons negócios, ou não fossem poucos os ganhos dos pescadores e ainda insipidas
as panelas, alguidares e tachos de alumínio.
Era o tempo em que as enormes árvores do lago se
enfeitavam com luzes coloridas de alto a baixo que podiam ser vistas do Viso e,
altura para muito boa gente estrear um vestido ou calças novas para ir à feira
onde via e era visto, um espaço privilegiado para a sociabilização.
Esta era uma feira diferente daquela outra mais “abarracada”
que se realizou anos antes na beira-mar e esta também diferente da que se realizou
no Bonfim onde o gado era também motivo de transação e, esta muito distinta da
inicial levada a cabo no Largo de Jesus junto às margens da Ribeira do
Livramento, com água corrente vinda dos lados de Palmela.
Hoje a feira realiza-se nas Manteigadas (ou Manteigada),
um espaço praticamente desprovido de vendedores de barros, entretanto caídos em
desuso e onde pontuam os concertos de música ao gosto da época em que vivemos e
que juntam milhares de pessoas sobretudo jovens.
Todo o tempo é feito de mudanças, umas para melhor,
outras nem por isso, o facto é que pessoalmente continuo a gostar da Feira de
Santiago, um espaço sempre agradável onde vamos encontrar muito boa gente amiga,
nova ou menos nova, ora sentada a comer
uma bifaninha ou passeando descontraidamente degustando uma deliciosa fartura.
Para manter a tradição e porque hoje é o tal dia dos “caramelos”
não irei à feira, amanhã talvez seja dia dos setubalenses, provavelmente dos velhos,
não os do Restelo mas de Troino.
Rui Canas Gaspar
www.troineiro.blogspot.com
domingo, 14 de julho de 2024
A asa do avião
Olhando
assim à primeira vista faz-me lembrar uma daquelas naves espaciais que vemos
nos filmes de ficção cientifica que vinda lá dos confins do espaço aterrou aqui
neste belo espaço setubalense.
Mas
não, trata-se de uma, senão mesmo a mais antiga construção, do jardim Engenheiro
Luis da Fonseca, popularmente conhecido entre nós por “Jardim da Beira Mar” e
mais não é que uma grande pala construída em betão armado que proporciona
sombra a um enorme banco corrido, onde muitos e muitas esperam, esperaram e até
desesperaram…
Desde
que esta singular estrutura aqui apareceu os setubalenses logo trataram de a
batizar como “Asa do avião” por tal lhes parecer logo nos longínquos tempos da
sua construção e até hoje assim a identificamos.
A construção
serviu de bilheteira para os barcos que faziam a travessia para Troia, tendo
nas traseiras da mesma wc para homens e senhoras.
Presentemente
(julho de 2024) tudo está desativado e, como quase sempre acontece nestas situações,
vandalizado e parcialmente ocupado indevidamente.
Todo
este belo jardim, cheio de histórias das gentes de Setúbal está (ou esteve) à responsabilidade do Porto de
Setúbal, sendo que foi noticiado na comunicação social, em abril de 2022, a existência
de conversações entre os presidentes da Câmara Municipal de Setúbal e do Porto
de Setúbal para que aquele espaço de quatro hectares passasse para a gestão
municipal.
Rui
Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
domingo, 9 de junho de 2024
Maria Barroso a Primeira Dama que
estudou em Setúbal
A criança nasceu no Algarve, na pitoresca Fuzeta,
concelho de Olhão, naquele distante dia
2 de maio de 1925, filha de uma professora do ensino primário e de um oficial
do exército.
Seu pai haveria de vir a ser transferido para o Regimento
de Infantaria Nº 11, trazendo então toda a família para Setúbal, onde se
radicou, e onde a esposa haveria de lecionar na escola primária então a
funcionar na ala sul da casa apalaçada de Fe
u Guião, na popularmente conhecida
Fonte Nova.
E, foi nessa escola que a menina Maria Barroso frequentou
os primeiros anos de instrução primária.
Mais tarde, já em 1945 a pequena Maria haveria de rumar a Lisboa onde
estudou na Faculdade de Letras, estabelecimento de ensino público onde viria a concluir o curso de Histórico-Filosóficas.
Pouco depois, casou por procuração com o conhecido
político Mário Soares, quando este estava na prisão por motivos políticos, um
português que desempenhou funções de Primeiro-Ministro e de Presidente da
República Portuguesa e que foi o grande responsável pela adesão de Portugal à
Comunidade Europeia.
Maria Barroso Soares, a senhora que foi Primeira Dama de
Portugal, viria a falecer em 7 de julho de 2015 quando contava 90 anos. Porém,
antes de partir desta vida ainda quis voltar a Setúbal visitando o edifício da
sua antiga escola primária, onde foi fotografada junto ao velho portão do “Palácio
Feu Guião” agora bem bonito, restaurado e a servir de residência a mais de uma
dezena de famílias.
Rui Canas Gaspar
Toineiro.blogspot.com
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024
Os nossos simpáticos Golfinhos
Em meados do século passado os tripulantes dos muitos barcos de pesca e de carga que demandavam ou tinham como porto de abrigo a foz do Sado serviam-se das suas águas como vazadouro para tudo o que estivesse a mais a bordo das suas embarcações.
E era graças a essas nefastas práticas que muitos pescadores sadinos, envergando as suas pesadas “botas de água” várias vezes escorregaram nas muralhas da altamente poluída doca, devido aos cabos de amarração estarem completamente oleados e a muralha por demais escorregadia.
“Uma porcaria!” É a expressão usada por um velho pescador ao relembrar esses tempos.
A juntar à falta de legislação, fiscalização e consciência ecológica contribuíam ainda a indústria conserveira, com os seus óleos e sangue do peixe que escorria livremente pelos esgotos até ao Sado.
Nessa altura os arrastões eram inexistentes. A costa era também rica em plâncton, pelo que a sardinha abundava e mesmo com todo este tipo de poluição, mais junto à margem norte do Sado, o rio era farto de espécies piscícolas e a colónia de roazes corvineiros era numerosa.
A partir dos anos 60 do século XX, diferente tipo de indústrias se instalaram a nascente da baía sadina e com elas chegou outro tipo de poluição que sem o devido controlo acabou por deixar marcas profundas de que é um bom exemplo as famosas ostras do Sado que quase desapareceram.
Com menos alimento também a colónia de roazes se foi reduzindo até que nos finais do século passado, início do século XXI, vamos encontrar a poluição muito mais controlada, não só por adequada legislação, por maior consciência ambiental e pelos filtros e centrais de tratamento de águas e resíduos, entretanto instaladas e colocadas a funcionar.
Com estas boas práticas ambientais as águas do Sado voltaram a ser quase transparentes. Aqui têm o seu habitat uma quase única colónia de roazes, os nossos simpáticos golfinhos, que nadam, caçam e se reproduzem e são alvo de admiração da população setubalense.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024
Maria, peixe pra já!
Naquele tempo, em meados do século passado, eram muitas
as fábricas de conserva de peixe que laboravam um pouco por toda a cidade de
Setúbal.
A pesca era abundante e os barcos faziam fila para vender
o pescado, sobretudo sardinha, destinado à dinâmica indústria conserveira.
Logo que o fabricante comprava o peixe na lota a fábrica
fazia soar a sua estridente sirene e identificada pelo diferente som as
operárias saiam de casa correndo na direção da mesma afim de ocuparem o seu
posto de trabalho, fosse a que horas fosse, de manhã, de tarde, ou mesmo de
noite.
Mas, para reforçar o sonoro aviso algumas fábricas ainda
mandavam um “moço”, normalmente vestido de calça curta e camisa de ganga de cor
azul, montado numa bicicleta (pasteleira) passar pela casa de cada uma das
operárias afim de chamá-las ao serviço, gritando na rua, “Maria, peixe pra já!”.
E, as Marias, largavam tudo o que estavam a fazer,
agarravam no avental, na toca e na tesoura, enfiavam os chinelos nos pés e
corriam rua afora deixando tudo para trás de forma a chegar ao local de trabalho
atempadamente, não fossem atrasar-se e a mestra já não as deixar entrar
perdendo assim a oportunidade de trazer alguns magros centavos para casa.
E quantas crianças, ainda bebés, não foram mamando pelo
caminho e já na fábrica ficariam a dormir no interior de alguma caixa de
madeira, servindo de berço, enquanto a sua esforçada mãe trabalhava para prover
o seu sustento?
Eram tempos difíceis aqueles que tantos e tantos homens e
mulheres da nossa terra vivenciaram e ainda hoje perduram na memória de muitos
setubalenses.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
Faz hoje 60 anos o dia em que quase ficamos
soterrados
Naquela madrugada de 15 de dezembro de 1963 a vizinhança
do predio com os números 51, 53 e 55, na Rua das Oliveiras, no popular Bairro
de Troino, acordou sobressaltada com o
enorme estrondo produzido nas traseiras do edifício.
Terra, entulho e enormes pedregulhos vindos do
alto caíram nos pequenos quintais , bloqueando portas e assustando os moradores
com a inusitada e perigosa situação.
Parte da muralha na zona do Baluarte de Santo
Amaro, ali junto ao Viso, mandada
construir por D. Joao IV e com obras concluídas no distante ano de 1696
sucumbiriam aos terrenos encharcados pelas chuvas outonais.
Felizmente não houve feridos, apenas prejuízos
materiais. Os bombeiros chamados ao
local mandaram de imediato evacuar o prédio, uma medida acertada, porquanto
poucas horas depois enormes pedras da muralha voltaram a cair e desta vez se
estivesse alguém nas casas não teriam tanta sorte como no inicio do
desabamento.
O Governo Civil de Setubal cedeu de imediato
uma zona do antigo Converto de S. Francisco, então parcialmente ocupado por
equipamentos do antigo Regimento de Infantaria 11 onde os moradores ficaram
alojados provisoriamente ate conseguirem arranjar novas habitações pelos seus próprios
meios.
Um dos jovens deslocados, o Mario Salgado, então
eletricista, tratou de colocar as primeiras lâmpadas eletricas que iluminaram
um pouco da escuridão daquele enorme espaco. E foi precisamente este Amigo que
hoje fez questão de me lembrar aquele dia em que ambos, ele no r/c esquerdo e
eu no direito, quase ficamos soterrados em vida.
Rui Canas Gaspar
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sábado, 25 de novembro de 2023
Lembrança do nosso outeiro
Descalços, de botas cardadas ou de botas de água a que
hoje chamamos galochas, os rapazes de Troino, de calções vestidos, subiam ao
outeiro e dali lançavam os seus papagaios de papel, naqueles tempos em que com
o aproximar do mês de dezembro já se faziam sentir fortes vendavais.
Os papagaios eram construídos pelos próprios rapazes,
recorrendo a canas verdes para fazer a armação e a papel de jornal para o
revestimento, alguns que conseguiam arranjar alguns trocos compravam papel
colorido na papelaria do Largo da Fonte Nova dando assim uma visão mais
agradável ao seu papagaio.
E, porque não havia dinheiro para luxos, o papel era
colado recorrendo ao sabão preto ou a cola feita pelos próprios moços,
recorrendo aos caroços de marmelo.
O grande rolo de fio para prender o “bicharoco” era
aquele utilizado pelos pescadores que generosamente doavam aos rapazes.
Em dias ventosos era uma alegria naquele outeiro, por
cima da Fonte da Charoca, aquela construída em nicho na Rua das Oliveiras, ver
os papagaios voando lá no alto, tentando cada um superar o outro na altura a
que chegavam, esvoaçando sobre os telhados do casario daquele antigo e popular
bairro, dominado pela torre da Igreja de Nossa Senhora da Anunciada, onde se
radicaram os pescadores oriundos das quentes terras algarvias.
Voltei hoje ao alto do outeiro para apreciar a mesma
panorâmica que os rapazes da minha geração tanto gostavam e que foi lugar de
muitas e salutares brincadeiras, num tempo sem facilidades, mas de grandes e
fortes amizades que ultrapassando a voracidade dos tempos ainda hoje perduram
Rui Canas Gaspar
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quarta-feira, 15 de novembro de 2023
Zé
da Mota quando rapaz foi conhecido por Zé dos Quadradinhos
José Eduardo Martins, um industrioso setubalense que muito contribuiu para o desenvolvimento desta nossa cidade, ficou conhecido entre os seus conterrâneos por Zé da Mota. O que se calhar poucos sabem é que este invulgar personagem teve como primeira alcunha “Zé dos Quadradinhos”
Quando
era rapaz o gosto pelo cinema ocupava-lhe boa parte do tempo. O primeiro filme
que assistiu foi projetado num cinema improvisado no “Lago” (atual Largo José
Afonso) onde então já se realizava a Feira de Santiago.
A
partir de então começou a ir assistir aos filmes passados nos cinemas Salão ou
Casino.
Foi
nessa altura que lhe atribuíram a alcunha de “Zé dos Quadradinhos”. A razão da
alcunha prendia-se com o facto dos constantes esquemas que lhe vinham à mente,
não só para entrar todos os dias no cinema sem pagar bilhete, oferecendo-se
para ir à estação dos caminhos de ferro levantar as bobines dos filmes do dia
com o seu carrinho de mão.
Ora
como durante a projeção do filme era comum as peliculas se partirem o operador
do projetor tinha de cortar de 10 a 20 centímetros de cada lado da fita partida
antes de a colar com acetona para dar continuidade ao filme.
As sobras de dez centímetros davam 20 quadradinhos
de fita com as figuras em cena e o rapaz combinado com o operador vendia ou
trocava esses quadradinhos, ou fitas como então eram conhecidos, desde 10 a 50
centavos conforme a proximidade da figura do Tio Mackhoi ou outras estrelas de
cinema desse tempo. Essas fitas eram vendidas aos colecionadores ou
trocadas, como hoje se faz com os cromos.
Rui Canas Gaspar
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