notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

sexta-feira, 7 de maio de 2021

 


Django o atleta que tem mais vidas que um gato

É sempre com agradável prazer que converso com o amigo Armando Cabrita, o nosso popularmente conhecido DJANGO e dele ouvir as mais incríveis histórias vividas na primeira pessoa.

Django é uma daquelas personagens que “não morre nem que o matem” ou não tivesse o seu falecimento já ter sido noticiado pela oitava vez e ele a despeito dos seus 68 aninhos ainda se manter em excelente forma física ora correndo, pedalando, ou nadando no rio e no Atlântico, como se de um peixe se tratasse.

Agora este incrível atleta gasta boa parte do seu tempo pedalando numa bicicleta transformada por si de forma a estar adaptada quer à estrada quer a todo o terreno e tendo como objetivo servir os seus intentos até aos noventa anos, diz-me rindo com a sua alegria contagiante.

Há poucas semanas pela oitava vez a morte de Django chegou a ser anunciada nas redes sociais, porém quem de facto faleceu foi um seu amigo, também ele excelente nadador, companheiro de aventuras nas águas da foz do Sado que ao sentir-se mal nadou para a praia e a despeito das manobras de reanimação prestadas já nas areias de Albarquel acabou por sucumbir.  

A primeira vez que pensaram que Django tinha morrido foi quando tinha 15 anos e caiu de um 5º andar de uma obra em construção, tendo recuperado rapidamente depois de levar duas bofetadas e ter de carregar com uns sacos de cimento às costas, mas isso é outra história…

Rui Canas Gaspar

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domingo, 11 de abril de 2021

 



“Terra de muitas e desvairadas gentes”

Quando há mais de dois milénios os Fenícios chegaram ao nosso Rio Sado já por aqui encontraram gente disposta a comercializar os seus produtos, tendo para o efeito  estabelecido feitorias, uma espécie de armazém comercial, ou seja os hipermercados daquele tempo.

Algumas centenas de anos depois outros imigrantes descobriram que esta era uma terra onde poderiam estabelecer fábricas de conserva dado a abundância de peixe e de boa água, por isso os Romanos por cá ficaram e ganharam bom dinheiro.

Como na sua terra a água e boas terras agrícolas eram escassas os muçulmanos, vindos do Norte de África trataram também de aqui se estabelecer e por cá ficar por quase oitocentos anos.

Fenícios, Romanos e Muçulmanos, são dos primeiros imigrantes a chegar a Setúbal, embora outros povos viessem até cá e por aqui se estivessem estabelecido ao longo de centenas de anos.

Mais recentemente, por volta do século XVIII, as migrações internas fizeram para aqui deslocar pessoas da zona de Aveiro, popularmente conhecidas por varinos, corruptela de ovarinos, ou seja aqueles nascidos em Ovar e outros oriundos do Algarve, sobretudo da zona de Olhão e Fuzeta.

Nos anos 60 do século XX as fábricas de montagem de automóveis, a indústria papeleira e a naval, a par do desenvolvimento turístico, sobretudo em Troia, fizeram afluir a Setúbal, imigrantes vindos das Beiras e do Alentejo.

Apos 1974 com a descolonização e o êxodo da população das ex-colónias cerca de meio milhão de pessoas viriam de África para Portugal e milhares delas radicar-se-iam em Setúbal.

Mais recentemente, são povos do Leste da Europa, Franceses e sobretudo Brasileiros os que mais procuram esta cidade à beira Sado plantada para viver e trabalhar.

Setúbal é por isso uma terra de “muitas e desvairadas gentes”, uma terra de imigrantes, que procuram conviver pacificamente pese embora as suas naturais diferenças sociais e culturais.

Hoje, dia 11 de abril de 2021 tivemos oportunidade de verificar essa multiculturalidade, característica dos atuais setubalenses, aquando da abertura ao culto da nova capela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, um espaço que veio substituir os outros dois locais de reunião até então existentes na cidade.

Rui Canas Gaspar

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domingo, 14 de março de 2021

 


E que tal mudar a linda e escondida fonte para outro local?

A indústria do turismo é uma poderosa ferramenta de progresso ao dispor das nações porquanto faz desenvolver um vasto conjunto de atividades produtivas que vão da agricultura aos transportes passando pelos serviços, sendo naturalmente fonte de empregos e consequentemente geradora de riqueza e bem-estar dos povos.

Mas para que uma terra seja atrativa para os turistas ela deverá ter algo apelativo e diferente e não aquilo que o forasteiro poderá observar no próprio local onde reside, sejam as paisagens seja a gastronomia ou os seus monumentos.

Setúbal é uma agradável cidade, com uma gastronomia muito apetecível, cercada por uma invejável moldura natural, porém com poucos monumentos ou obras de arte que possa atrair o turismo cultural.

Mas, se já temos pouco ainda por cima somos mal aproveitados. Exemplo do que afirmo é o Forte São Luis Gonzaga, um dos melhores miradouros da cidade, abandonado no meio do mato. O mirante da Quinta da Azeda à espera que caia e, a linda fonte seiscentista escondida atrás do auditório José Afonso.

Se queremos visitantes na nossa cidade mais do que a limpar e embonecar a urbe temos de valorizar o nosso património e, por isso, teremos de não perder o que temos.

Porque não gosto de extremismos e como tal não advogar a hipótese de derrubar o auditório José Afonso, atrevo-me a sugerir a mudança da bonita fonte para a Avenida 22 de Dezembro, frente ao convento de onde a mesma saiu. Quanto ao mirante da Quinta da Azeda que o mesmo fosse recuperado e como tal destapado das lonas publicitárias que o envolvem. Já o Forte S. Luís Gonzaga que se começasse de vez a recuperar esta peça do nosso património militar e histórico, iniciando-se com a desmatação e limpeza do espaço envolvente.

Rui Canas Gaspar

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2021-março-14

quinta-feira, 11 de março de 2021

 


A Escola Conde de Ferreira


A exemplo de algumas dezenas de localidades, sedes de concelho, em Setúbal podemos ainda admirar uma singular e simples construção, localizada a meio do lado norte da Avenida Luísa Todi, nº 357 de onde se destaca um pequeno frontão que lembra um campanário.

Na base deste frontão está inscrita a data de 26 de março de 1866 e sob a porta principal a inscrição “Conde de Ferreira” o benemérito que doou a verba para a sua construção e respetivo equipamento e a quem o ensino público em Portugal muito deve.

A data poderá sugerir o dia em que a escola foi inaugurada, como é comum aparecer em tantos outros edifícios. Mas não, neste caso a mesma aparecia em todas os 91 estabelecimentos escolares, dos 120 que o testamento de Joaquim Ferreira dos Santos, agraciado com o título de Conde de Ferreira, preconizou erigir e lembra a data de falecimento daquele mecenas.

Esta é uma das escolas edificada de acordo com planta única, para evitar custos maiores com elaboração de diferentes projetos, a qual contemplava alojamento para o professor, para além das salas de aulas destinadas a alunos de ambos os sexos e que deveria ser erigida num espaço não inferior a 600 M2 além da área ocupada pelo edifício.

No seu diversificado testamento o Conde de Ferreira escreveu:

“ Convencido de que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da Sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que forem cabeças de concelho sendo todas por uma mesma planta e com acomodações para vivenda do professor, não excedendo o custo de cada casa e mobília a quantia de 1200 reis e pronta que esteja não mandarão construir mais de duas casas em cada cabeça de concelho e preferirão aquelas terras que bem entenderem.”

Depois de terem servido o ensino ao longo de décadas quer sob o regime monárquico quer sobre o republicano alguns destes imóveis ainda cumpriam o fim para que foram edificados.

A escola de Setúbal onde muitos dos nossos conterrâneos aprenderam as primeiras letras e outros se submeteram a exames oficiais está desativada como estabelecimento de ensino.

Rui Canas Gaspar

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2021-março-11

domingo, 7 de março de 2021

 

 



O primeiro secretário-geral do PCP foi um setubalense


Independentemente das simpatias ou filiações partidárias a comemoração de um centenário é sempre motivo para ser devidamente assinalado, tanto mais que se pode afirmar que nos últimos 100 anos não há transformação social, avanços ou conquistas dos trabalhadores e do povo, que não esteja associada direta ou indiretamente à ação, intervenção e luta do PCP , conforme escreveu Paula Santos no jornal EXPRESSO.

O Partido Comunista Português, nasceu em 1921 e entre os seus fundadores encontrava-se um setubalense profissionalmente ligado ás coisas do mar e da indústria conserveira, um homem que viria a tornar-se no primeiro secretário-geral do partido.

José Carlos Rates, nascido em Setúbal no ano de 1879 viria a falecer em 1945. Ele foi um dedicado dirigente sindical, grande propagandista e dinâmico militante  tendo organizado sindicatos quer no continente quer na Madeira, para além de colaborar com artigos de opinião na imprensa operária.

Este dinâmico comunista visitaria também a Rússia revolucionária para ali beber os ensinamentos comunistas de forma a melhor poder exercer a sua ação em território nacional.

A polícia política estava atenta e por isso a sua ação revolucionária valeu-lhe ter sofrido penas de prisão, tendo também sido sentenciado ao degredo para terras de África.

Curiosamente este revolucionário setubalense acabaria por vir a ser expulso do partido que ajudou a fundar, em maio de 1926, aquando do 2º Congresso do PCP alegadamente devido a desvios das diretivas emanadas pela Internacional Comunista.

Em 1931, dez anos depois de ter fundado o Partido Comunista Português o multifacetado setubalense que também foi escritor, fadista e membro da maçonaria passou para o lado oposto da barricada, filiando-se á União Nacional, o partido único salazarista.

Rui Canas Gaspar

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2021-março-07

sábado, 13 de fevereiro de 2021

 




Setúbal entre o verde e o azul

No último meio século a cidade de Setúbal cresceu bastante e, proporcionalmente ao aumento das novas construções, verificou-se a diminuição dos espaços verdes, então ocupados por diversas quintas onde predominavam os pomares de laranjeiras.

Curiosamente as colinas a poente da cidade apresentavam-se então quase despidas de vegetação como podemos constatar por fotos da época, uma situação que gradualmente viria a mudar, apresentando-se hoje esses espaços cobertos por milhares de arvores, sobretudo pinheiros.

E os novos inquilinos que se instalaram não só pelas encostas mas também por todos os terrenos disponíveis são de tal forma numerosos que hoje podemos observá-los ao longo de largas dezenas de hectares de zona envolvente aos fortes de S. Filipe e Casalinho, descendo pela encosta até ao da Albarquel, seguindo a mancha verde para poente até ao forte do Outão.

Na sequencia dos trabalhos de contenção de terras na encosta do nosso castelo está a proceder-se a um desbaste de arvoredo em torno do mesmo, provavelmente no âmbito das medidas de proteção contra incendios, o que permite a quem está na cidade ver o Forte de São  Filipe na sua plenitude, como já não acontecia á várias dezenas de anos.

Esta ampla mancha verde a norte do Sado, combinada com o lindo azul do nosso rio e Atlantico dá um enquadramento único a Setúbal que assim beneficia de uma boa qualidade ambiental oferecida pela Natureza que tão generosamente colocou à nossa disposição a serra e o mar.

Rui Canas Gaspar

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

 



 

Os raros bolos setubalenses

Naquele tempo, passados pouco mais de meio século,  era quase um luxo poder comprar um bolo na pastelaria, fosse ele um disco, um pastel de nata, um bolo de arroz ou qualquer outro exposto na montra. É que o dinheiro era escasso demais para poder ser esbanjado nessas coisas mais ou menos supérfluas.

Não é pois de admirar que fosse com a maior alegria e contido consumo que se degustava o bolo feito pela mãe, depois de levar uma semana a guardar as natas obtidas após a fervura do leite, que o leiteiro, portando as suas bilhas e medidas, vinha vender á porta de casa.

Claro que pelo Natal logo tínhamos tempo de comer alguma guloseima, se o menino Jesus estivesse abonado e trouxesse algo mais que um par de meias, ou então que alguma vizinha partilhasse uma daquelas broas de milho que o patrão lá da fábrica de conservas tinha mandado a casa por intermédio do operário que ao longo do ano a vinha chamar com o tradicional “peixe pra já.

E que terna lembrança ficou daquela prima moradora no nosso Bairro de Troino quando da sua janela me pedia para ir à mercearia do César comprar um pouco de açúcar para adoçar o café, fazendo logo de seguida a promessa de quando se casasse me daria um bolinho da sua boda.

O curioso é que depois de tantos recados e serviços prestados um dia a prima casou-se com um vizinho lá da nossa Rua das Oliveiras e fosse pelo entusiasmo, pelos afazeres, ou por mero esquecimento das promessas feitas o facto é que nem sequer vi a cor dos tais prometidos bolinhos…

Abençoados tempos estes que vivemos onde não temos de esperar pelo Natal, por juntar as natas do leite que ferveu, ou pelo cumprimento de promessas não cumpridas, para podermos comer em qualquer dia do ano um dos muitos deliciosos bolos que hoje se nos apresentam.

Rui Canas Gaspar

2021-fevereiro-10

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domingo, 24 de janeiro de 2021

 

 

 



Apara-lápis  o peixe esquisito que nos apareceu…


 

Estávamos no início dos anos setenta do passado século XX quando as traineiras de setubalenses se depararam com um desconhecido fenómeno.  É que ao invés da captura dos cardumes de sardinha ou carapaus começaram a recolher nas suas redes grandes quantidades de pequenos peixes de cor alaranjada e com um bico comprido.

 

Apara-lápis este peixe costeiro, também conhecido por trombeteiro ou corneta, quando juvenis vivem na coluna de água alimentando-se plâncton tal como as sardinhas.

 

Esta espécie piscícola praticamente quase não tinha valor comercial o que representava um importante prejuízo para os pescadores. Ele acabaria por ter como destino a fábrica SADOP, uma unidade industrial sediada na periferia da cidade que transformava em farinha as toneladas dos pequenos peixes carregados em camionetas de carga desde a doca dos pescadores.

 

Conforme apareceu, também algum tempo depois desapareceu, não deixando boa memória a sua passagem por terras setubalenses, embora tenha ficado o registo sonoro conforme podemos aqui escutar  

https://www.youtube.com/watch?v=prpQDWLuvjg

 

Rui Canas Gaspar

2021-janeiro-24

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

 



MIL E UM o monstro que não conseguiu emergir das areias de Troia

Caso não tivesse ocorrido a revolução de 25 de Abril de 1974 ou mesmo se esta tivesse acontecido uns anos mais tarde, na outra margem do Sado, frente a Setúbal, poderíamos hoje observar uma cidade turística que então se anunciava como capital do turismo europeu.

Na imagem ilustrativa desta nota mostro o projeto geral da TORRALTA para aquela península de finas areias brancas que previa de entre outras a mudança de local da capela existente na zona da caldeira, a construção de um hospital e até a edificação de um “monstruoso” hotel designado por Mil e Um dado o mesmo prever a existência de 1001 quartos conforme então era voz corrente em Troia.

Para se poder ter uma ideia da volumetria do tal hotel, que não chegou a sair do papel, basta comparar aqui na planta a área do mesmo com a do Clube Hotel, aquele enorme edifício onde hoje se encontra o casino, junto à marina.

Goste-se ou não do projeto da TORRALTA, goste-se ou não do que lhe sucedeu depois da passagem para a SONAE, goste-se ou não dos resultados da revolução de 25 de Abril que acabou com a ditadura em Portugal, o facto é que se este monstro tivesse saído das areias de Troia aquela península teria uma paisagem seguramente diferente.

Rui Canas Gaspar

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2021-janeiro-12

sábado, 26 de dezembro de 2020

 



O Segredo dos Monges da Arrábida

Os frades arrábidos não só viveram da contemplação das soberbas belezas que se podem desfrutar a partir das suas instalações no coração da Serra da Arrábida, como também procederam à construção de diversas estruturas e igualmente se interessaram pelo conhecimento da flora local.

E foi a partir desse conhecimento que criaram um saboroso licor com fins digestivos, cuja fórmula foi mantida em segredo, sabendo-se que a matéria prima de base é o martunho, uma planta da família Myrtaceae que por esta altura do ano pode ser colhida na serra.

Em 1834 com a extinção das Ordens Religiosas os monges que estavam no Convento de Santa Maria da Arrábida foram forçados a partir sendo que alguns se acolheram numa quinta aqui na região, encontrando-se entre eles o frade licorista, ou seja o guardião da formula secreta.

Quando esse frade partiu para Espanha a família anfitriã herdou o conhecimento e a fórmula daquele a que viria a ser conhecido por Arrabidine, o delicioso néctar agora com muitas décadas de vida.

Este é um licor conventual de genuínas tradições. Ele é fabricado na Quinta do Anjo, pela empresa Lima Fortuna, mantendo-se a produção segundo formula original, embora possamos encontrar outros licores, sobretudo no sul de Portugal, feitos igualmente à base das pequenas bagas brancas, de cor azul-escuro ou pretas, de característico sabor agridoce, conhecidas por martunhos.

Neste frio e solarengo dia de Inverno, dediquei algum tempo a um passeio pela Serra-Mãe onde me   diverti a colher e a comer alguns martunhos, vindo-me à mente a história deste saboroso licor tão característico da nossa terra.

Rui Canas Gaspar

2020-dezembro-26

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sábado, 5 de dezembro de 2020

 



Os romanos na Arrábida

Há muito, muito tempo, um povo guerreiro e empreendedor começou a expandir a sua influência territorial vindo a ocupar boa parte do mundo até então conhecido.

E, foi á cerca de 2 000 anos que os Romanos acabariam também por chegar a esta terra localizada na parte mais ocidental do continente europeu.

Aqui, pelas nossas bandas,  acabariam por se instalar em ambas as margens do Sado e, neste espaço, construíram várias fábricas de salga de peixe e derivados originando que estas unidades industriais se transformassem nas maiores do seu género em todo o Império Romano.

Na Arrábida, junto ao Portinho também construíram uma dessas primitivas fábricas, bem perto de uma forte de água doce, um bem imprescindível para o seu bom funcionamento.

Muitos anos mais tarde, já sem os romanos por cá, a fonte foi debitando cada vez menos água até que chegou ao ponto de pouco mais que pingar, pelo que os seus raros utentes lhe atribuíram a designação de “Fonte da Paciência” devido ao tempo que teriam de despender para encher um pequeno recipiente do precioso líquido.

Hoje na belíssima zona do Creiro, em pleno coração do Parque Natural da Arrábida, pouco mais resta do que um memorial àquela que foi a “Fonte da Paciência” bem como as ruinas postas a descoberto da que foi uma produtiva fábrica de conservas romanas de onde o peixe e seus derivados saíam para abastecer o famoso e enorme Império  que também se haveria de finar.

E para que a nossa memória coletiva não desapareça como aconteceu com o Império Romano, penso que seria bom que fosse agendado pelo Parque Natural da Arrábida e pelo Museu de Arqueologia  as necessárias ações tendentes não só à conservação mas que também fossem prosseguidas as escavações com o objetivo de valorizar e colocar a descoberto este nosso importantíssimo património histórico.

Rui Canas Gaspar

05-dezembro-2020

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

 


Para oferecer a si mesmo ou a um amigo

Nestes tempos esquisitos que atravessamos por vezes a melhor companhia para o confinamento será mesmo um livro.

Para quem gosta das coisas de Setúbal saiba que temos agora à disposição um excelente e muito bem documentado trabalho da autoria de Diogo Ferreira e João Pedro Santos focando nada mais nada menos que o meu querido Bairro de Troino.

Este é um livro que recomendo e que pode ser adquirido, de entre outros locais, nas livrarias da baixa de Setúbal.

Rui Canas Gaspar

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domingo, 23 de agosto de 2020

“Pau da Consolação”  ou democraticamente quem manda aqui sou eu ?

Nascido e criado nesta terra setubalense, já lá vão alguns anitos, nunca por aqui escutei o termo de “Miradouro de Albarquel” como agora alguém decidiu batizar aquele espaço, mas sim “Pau da Consolação”.

Que o espaço agora intervencionado está mais agradável, lá isso está. Que embora à volta do banco  algumas peças da brecha da Arrábida se encontrassem danificadas lá isso é verdade, embora outras pudessem ficar integradas no arranjo envolvente do pinheiro manso, ícone daquele espaço.

Porém o foco do meu comentário é mesmo a nova designação do espaço, com o qual discordo, entendendo que deveria ser mantida a terminologia por que é efetivamente conhecida entre as gentes da nossa terra.

A interpretação do termo “Pau da Consolação” cada um dará a que lhe aprouver,  sendo seguro que uns se consolaram ali namorando, outros traindo, outros bebericando, outros apreciando a paisagem, outros inspirando-se, etc. etc.

Pela minha parte dezenas de vezes ali parei para descansar de longas caminhadas quando andava por aquelas bandas da Arrábida de mochila às costas. Uma consolação!...

Era  ali à sombra do grande pinheiro manso, que o falecido chefe escuteiro Joaquim Oliveira, caixeiro viajante, muitas vezes ia redigir  a nota de encomenda dos tecidos pedidos  pelos comerciantes da baixa aproveitando esse momento para depois fazer uma reconfortante sesta.

Porque carga de água agora algum iluminado resolve mudar o nome ao espaço?  Faz-me isto lembrar a mudança do nome de outra rua da nossa baixa, a de João Galo para Mareantes. Sim porque com a mudança toponímica acabaram-se as casas de prostituição na cidade…

Em  Setúbal, terra milenar, a despeito  de poder modernizar, devemos  ter em conta o património edificado e as tradições do nosso povo, não  descaracterizando ao ponto de qualquer dia desconhecermos a terra dos nossos pais e avós, isto porque  alguns dos que aqui chegaram optaram por um conjunto de alterações baseados no  “democraticamente quem manda aqui sou eu”.

Rui Canas Gaspar

2020-agosto-23

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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 

O saboroso peixe assado setubalense

A ilha de fogareiros e expositores de peixe que serve os três restaurantes localizados na Praça Machado dos Santos, popularmente conhecida por “Fonte Nova” não deixa de fumegar enquanto muitos setubalenses e forasteiros se deliciam com o saboroso peixe assado, debaixo das frondosas árvores daquele típico largo de Troino.

As antigas tabernas, agora transformadas em restaurantes, em meados do século passado não serviam os clientes tal como hoje, mas sim, estes, normalmente pescadores e descarregadores, traziam o seu peixe para assar e a taberna fornecia o fogareiro e o carvão e eram os próprios clientes que assavam o peixe, pagando depois ao taberneiro o “aluguer” do fogareiro, o carvão e mais aquilo que consumisse,  nomeadamente o pão e o vinho.

Horácio Cipriano, 78 anos, dono da Casa Morena, uma antiga taberna que assumiu esta designação porque o seu proprietário é natural de Grândola, localidade imortalizada por Zeca Afonso como a “Vila Morena” foi um dos pioneiros a servir o peixe assado tal como hoje conhecemos servindo-o assim há quase quatro décadas.

Mas assar peixe não é para qualquer um, nem sequer é só colocar em cima da grelha, que o diga Horácio Cipriano que estando aos comandos deste popular espaço não entra na ilha onde o peixe é assado. Ali quem domina  é  dona Fernanda, sua esposa, e segundo confidencia este nosso amigo o peixe é o mesmo, o lume é o mesmo, mas se for ele a tratar o assado nunca sai tão bom com o de sua esposa.

A antiga taberna, inaugurada em 1929, outrora local de convívio de tantos pescadores de Setúbal é hoje um espaço muito bem  frequentado sobretudo por setubalenses que sabem apreciar o bom peixe  que cada vez mais escasseia naquela que já foi a nossa  produtiva costa atlântica.

Rui Canas Gaspar

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2020-agosto-13

quinta-feira, 6 de agosto de 2020


A elevação de Setúbal à categoria de cidade

O jovem rei D. Pedro V ainda não tinha completado 23 anos quando na quinta-feira, dia 19 de abril de 1860 assinou o decreto real, no Paço das Necessidades, que elevava a “notável villa” de Setúbal à categoria de cidade.

Foram necessários deixar passar quase dois anos desde aquele dia 14 de julho de 1858 para que fosse deferido o requerimento redigido pela vereação da Câmara Municipal solicitando a Sua Majestade a graça de “aumentar o esplendor e a grandeza da povoação”.

Para além da sua História, do seu importante porto e do seu comércio com o exterior um outro motivo também invocado pelo presidente da autarquia, Aníbal Álvares da Silva e sua vereação era o facto de Setúbal rivalizar em importância e população com todas as cidades do reino, com exceção de Lisboa e Porto.

Para assinalar esta importante data junto dos seus cidadãos, Setúbal tem apenas uma pequena rua com o dia e mês, sem que a mesma faça alusão a este acontecimento histórico, comemorado com grande euforia pelos nossos antepassados.

Foram precisos deixar passar CEM ANOS para que um grupo de cidadãos tomasse a iniciativa de mandar implantar um digno monumento que nem mesmo ele publicita a data, sendo vulgarmente conhecido por “fonte luminosa” mas cuja designação oficial é “Fonte do Centenário”.

Rui Canas Gaspar

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2020-agosto-06


domingo, 2 de agosto de 2020

Sardinhada na Fonte Nova ao som de boa música

Se a sardinha está boa os carapaus não se ficam atrás e, por isso, não é de admirar que os muitos e bons restaurantes sadinos vocacionados para o peixe assado estejam nesta altura muito bem frequentados.

Que o digam aqueles que operam com as suas esplanadas sob as frondosas árvores na velhinha Fonte Nova, no coração do típico Bairro de Troino.

Não é pois de admirar que os lugares estejam todos ocupados, sobretudo ao fim de semana e com muitos clientes a  aguardar vez para se poderem sentar.

No sábado para alegrar os comensais apareceu um trio, dois violas e um baterista, que durante alguns minutos animaram aquele espaço, tendo sido aplaudidos pelo público presente que acabou por contribuir monetariamente para ajudar estes profissionais tão afetados profissionalmente pela pandemia.

Se as pessoas não vão à música a música vem às pessoas!

Parabéns para os dois setubalenses e para o simpático alentejano que integra o agradável trio musical que alegrou o saboroso almoço degustado sob uma fresquinha brisa troineira.

Rui Canas Gaspar

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2020-Agosto-01


terça-feira, 28 de julho de 2020


Faz hoje 50 anos 

No dia 27 de julho de 1970, faz hoje 50 anos, era também segunda-feira e o dia apresentava-se igualmente luminoso não fosse o ar pesado que pairava sobre a família que em Lisboa olhava fixamente para o rapaz que ia  partir para a guerra. 

Ele estava prestes a embarcar no Ana Mafalda, um navio misto de passageiros e carga, rumo à Guiné, onde então se desenrolava uma das mais aguerridas frentes da Guerra Colonial. 

Subitamente uma notícia começou a correr no cais de embarque fazendo aflorar a esperança de que o barco não sairia do porto. Oliveira Salazar falecera! 

Foi “sol de pouca dura” pois o barco apitou, as amarras foram largadas e ele deixou Lisboa e fez-se ao mar rumo a Bissau onde dias depois atracou no cais do Pigiguiti. 

27 longos meses haveria de passar naquela quente terra africana, onde pela primeira vez conheci um hospital graças ao terrível paludismo que por pouco não acabou comigo. 

Foi ali, naquele espaço, quando desanimado e quase sem me poder mexer que perguntei a um jovem enfermeiro se os meus dias estavam a chegar ao fim, ao que este respondeu: “Estamos à espera de uma injeção que vem da Metrópole. Se chegar a tempo safas-te. Se não chegar lerpas!”. 

A injeção chegou a tempo e eu venci o jogo da vida. 

Rui Canas Gaspar
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2020-julho-27

domingo, 26 de julho de 2020


Setúbal vai ficar ainda mais bonita 

Longe vão os tempos em que Setúbal era comparada a uma tela de gosto duvidoso porém ornamentada com uma moldura digna de uma verdadeira obra de arte. 

Hoje a cidade apresenta-se agradável não só para quem nos visita mas sobretudo para os que cá residem, que tem à sua disposição mais espaços verdes, mais edifícios recuperados e mais obras de arte disseminadas por diferentes espaços públicos. 

Depois da decoração da rotunda da Rodrigues Manito com motivo de agrado quase geral, em breve poderemos desfrutar da nossa joia da coroa, o vetusto Convento de Jesus e as suas zonas envolventes, agora com um aspeto muito mais agradável. 

Esta semana nova obra de arte foi colocada na Avenida Luisa Todi e hoje mesmo reparei no enorme buracão que foi feito na rotunda frente ao Hospital de São Bernardo e que pela armação em ferro que está no seu interior indicia uma sólida base que irá provavelmente suster uma obra de grande envergadura. 

Os bairros populares, situados a poente e a nascente têm sofrido profundas intervenções e algumas zonas da cidade não tem ficado esquecidas, como é o caso do Liceu. 

Certamente que muito há para fazer a vários níveis. Se calhar até poderíamos ter ido mais longe, mas que a cidade está diferente para melhor disso não temos a menos dúvida e só não verá quem não quiser. 

Rui Canas Gaspar
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2020-julho-26

terça-feira, 7 de julho de 2020


Setúbal na História ou histórias de Setúbal (128)
Um dos mais valiosos tesouros setubalenses 

Um dos tesouros setubalenses que em breve certamente poderemos apreciar no Museu da Cidade, encontrou-se em tempos a decorar a Igreja de Jesus. 

Não deixa de ser curioso notar que há mais de 170 anos estas obras de arte já eram apreciadas não só por nacionais como por estrangeiros. 

Conforme escreveu o conde Raczynski em 1844, Os quadros em número de 17 são atribuídos ao pintor Grão-Vasco embora não se conheça nenhum documento que o prove; porém o citado conde, por alguns anos ministro da Prussia junto à corte de Lisboa, e que foi examinar a Setúbal, embora se não julgasse habilitado para tal, aponta, no entanto , esta coleção como uma das mais preciosas que ele viu em Portugal. 

1.       S. Francisco recebendo as chagas
2.       Anunciação de Nossa Senhora
3.       O nascimento de Cristo
4.       A Circuncisão
5.       A adoração dos Reis
6.       A santa Verónica
7.       Jesus crucificado 8º Calcário
8.       O Calvário
9.       Assunção de Nossa Senhora
10.   O santo Sepulcro
11.   A Ressureição
12.   Santas religiosas
13.   Santos Mártires
14.   Santo António
15.   A Ascensão
E mais dois quadrinhos representando a Prisão de Cristo e a Flagelação. 

Rui Canas Gaspar
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2010-julho-07

segunda-feira, 4 de maio de 2020



A Milenar e quase ignorada Setúbal 

Quando em 1158 D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, conquistou Palmela aos mouros, meia dúzia de quilómetros abaixo da colina onde se encontra o seu castelo, Setúbal pouco mais seria que um pequeno povoado sem grande importância, ocupado por pescadores e salineiros. 

Porém, um milhar de anos antes deste evento, a mesma Setúbal provavelmente teria um destaque bem maior do que a altaneira Palmela, isto a fazer fé nas descobertas arqueológicas que têm aparecido à luz do dia e que nos mostram um espaço onde a indústria dos preparados de peixe, com destaque para o garum, era de grande vitalidade. 

Para haver muito peixe teriam de ter muitos barcos e, para pescar, forçosamente haveria indústria associada, como seja a dos cabos, das redes, dos anzois, etc. etc. 

Em terra, teria também de haver as “fábricas” conserveiras de que é exemplo aquela que ainda podemos observar sob o pavimento envidraçado do edifício do turismo na Travessa Frei Gaspar, junto ao Largo da Misericórdia, idêntica a outras postas a descoberto em plena Praça de Bocage. 

As grandes olarias produtoras de ânforas da região teriam de as mandar para armazéns antes de serem enviadas para o destino final e um desses armazéns encontrava-se precisamente perto dessas cetárias, nas traseiras da nossa Biblioteca Publica Municipal, mais precisamente na travesse João Galo. 

Mas, como tudo muda com o tempo, não deixa de ser curioso que aí mesmo, onde funcionou o armazém de ânforas haveria de surgir um monumental edifício romano, provavelmente destruído por qualquer violento sismo. Dele restou uma enorme cornija que hoje se encontra na Avenida Luisa Todi, junto ao Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal. 

Esta enorme pedra de calcário tem o comprimento de 3,60 metros e uma largura de 0,72 por 0,34 de espessura. 

Mas, porque onde existe indústria circula mais dinheiro, também os romanos nos deixaram uma pequena amostra do muito que por aqui abundava e, alguém escondeu sem ter tido oportunidade de recuperar uns largos milhares de moedas, colocadas em duas grandes ânforas, que vieram a ser descobertas na antiga Rua Direita de Troino. 

Setúbal é uma localidade milenar e certamente serão muitos os setubalenses e muito mais os forasteiros que nos visitam que disso não tem noção, atendendo a que a nossa rica história pouco tem sido divulgada e o que resta do nosso património edificado não tem tido a devida valorização e divulgação, pelo que urge fazê-lo. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2020-maio-04