notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

 


Quando a boa apresentação não joga a favor


No início dos anos 50 do século passado os períodos de defeso da pesca da sardinha, que coincidiam com os terríveis dias de Inverno, eram espaços de tempo onde a fome e a miséria atingiam o auge na cidade de Setúbal, cuja população vivia maioritariamente, direta ou indiretamente, da pesca.

Benilde seria naquela época uma das poucas mulheres de Troino que tinha completado o ensino básico, na escola da Casa dos Pescadores e, ali mesmo, também aprendera a costurar.

Certo dia pensou ajudar financeiramente o marido, pescador, e por isso, decidiu candidatar-se a um emprego de rececionista num consultório médico que funcionava na baixa da cidade.

Vestiu-se a rigor com as roupas que ela mesmo habilmente costurava, deu um jeitinho no cabelo e colocou umas cores no rosto de forma a parecer bem na entrevista.

Azar!!! O entrevistador ao ver a agradável apresentação da candidata nem perdeu muito tempo e logo lhe disse: - Ái menina, isto não é emprego para si, é um trabalho muito simples…

Benilde ficou boquiaberta e desolada acabou por voltar para casa onde continuou a ajudar a família, governando com sabedoria as parcas finanças domésticas e tratando de costurar a roupa com que ela, o seu marido e os seus filhos sempre envergaram e que eram alvo de atenção e reparo por parte de vizinhos e amigos.

A setubalense Benilde até ao dia em que nos deixou sempre manteve a mesma postura de uma mulher prendada, muito elegante e de fino bom gosto, uma senhora que sempre soube dar muito boa conta da sua casa passando um rico legado de valores aos seus dois filhos.

Rui Canas Gaspar

2021-dezembro-17

sábado, 20 de novembro de 2021

 



 

Recordando o bombeiro José de Sousa

 

Embora estivéssemos em janeiro a manhã apresentava-se com uma amena temperatura, pelo que se tornava agradável andar um pouco pelo meu velho Bairro de Troino, depois de ter tratado dos assuntos de ordem profissional que me propus desenvolver nesta manhã.

 

Gosto de observar as gentes da minha terra, as casas onde muitos dos meus amigos e pessoas conhecidas viveram. Enquanto ia olhando um pouco para todo o lado dei comigo a sorrir com o pensamento que tinha tido há muitos anos quando me dei ao trabalho de contar as pessoas que tinha cumprimentado desde que saíra de casa até chegar à Praça do Bocage. Foram mais de trinta…

 

Naquele tempo parece que toda a gente se conhecia. Hoje, depois de mais de uma hora a andar parei junto de um dos cinco passos existentes em Setúbal, a capelinha dedicada a São Marçal, patrono dos bombeiros e até esse momento não tinha aparecido ninguém conhecido.

 

Estive a apreciar aquela capelinha, outrora sempre limpa e bem tratada e onde na época natalícia podíamos ver um grande e bem elaborado e tradicional presépio, que carinhosas e calejadas mãos tomavam à sua responsabilidade.

 

Vi, apreciei, fotografei e fiquei desgostoso com o ar triste a que a mesma se encontra, com vidro partido, reboco a cair, fios elétricos pendurados e um aspeto de abandono, condizente com muitas das habitações da zona da minha meninice.

 

Pensativo, deixo aquele local e entro na Rua Direita de Troino, e eis que me cruzo com um homem que vem andando devagar apoiado numa canadiana. Reconheço-o, cumprimento-o, é a primeira saudação do dia. Ele não me conhece, são quase quinze anos de diferença que nos separam, ele era já um homem enquanto eu não passava de um puto.

 

Paro e entabulo conversa com aquele homem que não me conhecia, embora a sua imagem me tivesse ficada retida na memória ao longo de décadas.

 

José de Sousa, 79 anos, nascido em Troino, na Rua do Castelo, bombeiro, era ele que tratava daquela capelinha até 2011, a sua saúde já não lhe permite desenvolver essa tarefa como outrora o fez com tanto carinho e empenhamento. O mesmo empenhamento que colocou ao serviço dos seus conterrâneos no combate a centenas de fogos na nossa terra.

Hoje o nosso amigo José de Sousa teve oportunidade de encontrar alguém com quem conversar uns minutos sobre um assunto que tanto lhe diz e ao referir-se àquela e à outra capelinha existente no Larga da Veronica, que também cuidava não deixa de se manifestar de forma verbal violenta contra um antigo presidente da Câmara que mandou arrancar os azulejos que ele próprio colocara naqueles espaços, propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal.

 


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

 

As boas memórias que ficaram da “nossa” Comenda 


A minha ficha de escuteiro regista o ano de 1961 como sendo o do primeiro acampamento que fiz na Herdade da Comenda, no sítio de Almelão, a cerca de 1 km para o interior da foz da Ribeira da Ajuda.

Desde essa data até à minha saída do ativo escutista foram dezenas de noites de campo em acampamentos levados a cabo no interior da “nossa” Comenda.

É bom notar que já naquele tempo, antes da revolução da 25 de abril de 1974, o espaço encontrava-se vedado em grande parte da herdade e antes de acamparmos solicitávamos a devida autorização ao representante do proprietário.

Não me recordo do rosto do guarda da propriedade no tempo do Conde Armand, mas registei o nome de Chacatas ou Xacatas a quem geralmente dirigíamos o pedido de autorização para acampar debaixo daqueles enormes eucaliptos, na margem da ribeira e junto à mina de água.

Pouco antes da “Revolução dos Cravos” a herdade foi vendida à TORRALTA, que acabou por a entregar como dação em pagamento ao Banco Pinto & Sotto Mayor, que por sua vez vendeu a António Xavier de Lima. Após o seu falecimento  os herdeiros alienariam à Seven Properties – Sociedade de Investimentos Imobiliários S.A., atuais detentores desta enorme propriedade, em pleno Parque Natural da Arrábida.

Aquando na posse de António Xavier de Lima os escuteiros continuaram a acampar naquele magnifico espaço, que permitia as mais diferentes aventuras e a propriedade continuou a ser devidamente guardada desta vez por  António Chinita cuja imagem  aqui mostramos e onde também se podem ver alguns dos belos painéis de azulejos, rapidamente furtados e vandalizados quando este que foi o último guarda das instalações deixou de exercer a sua atividade.

Presentemente a casa apalaçada arquitetada por Raúl Lino encontra-se recuperada, a propriedade está a ser limpa e ordenada e, se alguns setubalenses e demais utentes daqueles espaços estão tristes por não os poderem agora utilizar, outros ficarão satisfeitos pela recuperação levada a cabo pelos novos proprietários.

Quanto a mim, ficaram as memórias do tempo de juventude e de muitos e bons momentos de salutar convívio e das histórias contadas à volta da fogueira, naquelas noites estreladas, como só as vivi na “nossa” Comenda.

Rui Canas Gaspar

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2021-outubro-29

terça-feira, 27 de julho de 2021

 


Há 51 anos nem a morte de Salazar nos livrou!...

Éramos (e somos) três bons amigos que desde tenra idade fizemos parte de um grupo de escuteiro setubalense e que nesta foto nos apresentamos como equipa de ténis de mesa, representante local desse Movimento Mundial..

Quando jovens, tal como uma dúzia de escuteiros do mesmo grupo, fomos incorporados no serviço militar obrigatório e pouco depois enviados para as três frentes de combate que Portugal travava lá longe, em África, nas suas colónias da Guiné, Angola e Moçambique.

Naquele dia 27 de julho de  1970 o Ricardo Soromenho estava para embarcar em Lisboa no Navio Bragança no mesmo dia eu faria o mesmo no Ana Mafalda. Foi então que a rádio noticiou o falecimento de Oliveira Salazar e logo os rumores começaram a circular pelo cais de embarque que os navios transportando centenas de militares para a Guiné não largariam amarras do porto de Lisboa.

Poucos dias antes já o Mário Salgado tinha ali embarcado no velho paquete Carvalho Araújo também ele rumo à Guiné integrado numa companhia que foi reforçar a localidade de Pirada alvo de violentos ataques do PAIGC de que resultou mortos, feridos e prisioneiros entre as nossas tropas.

A morte de Salazar afinal de pouco nos serviu pois pela tardinha ambos os barcos deixavam a barra de Lisboa, rumo a Bissau e a uma guerra que nos poupou a vida e que continuamos a recordar sem saudade a não ser aquela dos nossos bem passados tempos de juventude.

Rui Canas Gaspar

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2021-julho-27

domingo, 4 de julho de 2021

 

A última subida ao Alto do Formosinho



O peso dos anos já se faziam sentir quando liderei um grupo de jovens num acampamento levado a efeito no CEADA, o belo parque que os Escuteiros da Região de Setúbal possuem nos Picheleiros, em pleno coração da Serra da Arrábida.

Embora os jovens presentes naquele evento não fossem escuteiros, o tipo de atividades que lhes proporcionamos  foram idênticas ao que os jovens deste movimento mundial levam a cabo aquando nos seus acampamentos.

Uma destas atividades consistia na subida ao ponto mais alto da Península de Setúbal, o Alto do Formosinho, pelo que pedi a um experiente chefe escuteiro que guiasse o grupo, ficando eu para trás, tipo “carro vassoura” estando no entanto mentalmente preparado de que já não conseguiria completar o meio quilómetro do trajeto sempre a subir.

Acontece que passados algumas dezenas de metros andados, encosta acima, dei conta de que um dos jovens mostrava alguma dificuldade pelo que lhe disse para descansar e não tentar a subida até ao marco ao que o rapaz me respondeu que queria lá chegar mesmo que fosse o último.

Bem, como “querer é poder” embora caminhando mais devagar o moço gordinho foi trepando pelos íngremes carreiros e eu a acompanhá-lo e
poucos minutos depois do grupo ter chegado ao cimo da serra lá chegávamos os dois  a tempo de fazer o registo fotográfico para a posteridade e admirar a soberba paisagem que daquele ponto se desfruta desde o Monte Abraão, até ao Atlântico, de Troia a Lisboa…

A atitude de perseverança daquele jovem levou-me também a conseguir aquilo que já tinha dado por impensável e não lhe tinha confessado, ficando para mim mais uma lição daquelas que vamos aprendendo ao longo da vida , ou seja:  “faz mais quem quer do que quem pode”.

Rui Canas Gaspar

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21-julho-04

sexta-feira, 7 de maio de 2021

 


Django o atleta que tem mais vidas que um gato

É sempre com agradável prazer que converso com o amigo Armando Cabrita, o nosso popularmente conhecido DJANGO e dele ouvir as mais incríveis histórias vividas na primeira pessoa.

Django é uma daquelas personagens que “não morre nem que o matem” ou não tivesse o seu falecimento já ter sido noticiado pela oitava vez e ele a despeito dos seus 68 aninhos ainda se manter em excelente forma física ora correndo, pedalando, ou nadando no rio e no Atlântico, como se de um peixe se tratasse.

Agora este incrível atleta gasta boa parte do seu tempo pedalando numa bicicleta transformada por si de forma a estar adaptada quer à estrada quer a todo o terreno e tendo como objetivo servir os seus intentos até aos noventa anos, diz-me rindo com a sua alegria contagiante.

Há poucas semanas pela oitava vez a morte de Django chegou a ser anunciada nas redes sociais, porém quem de facto faleceu foi um seu amigo, também ele excelente nadador, companheiro de aventuras nas águas da foz do Sado que ao sentir-se mal nadou para a praia e a despeito das manobras de reanimação prestadas já nas areias de Albarquel acabou por sucumbir.  

A primeira vez que pensaram que Django tinha morrido foi quando tinha 15 anos e caiu de um 5º andar de uma obra em construção, tendo recuperado rapidamente depois de levar duas bofetadas e ter de carregar com uns sacos de cimento às costas, mas isso é outra história…

Rui Canas Gaspar

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domingo, 11 de abril de 2021

 



“Terra de muitas e desvairadas gentes”

Quando há mais de dois milénios os Fenícios chegaram ao nosso Rio Sado já por aqui encontraram gente disposta a comercializar os seus produtos, tendo para o efeito  estabelecido feitorias, uma espécie de armazém comercial, ou seja os hipermercados daquele tempo.

Algumas centenas de anos depois outros imigrantes descobriram que esta era uma terra onde poderiam estabelecer fábricas de conserva dado a abundância de peixe e de boa água, por isso os Romanos por cá ficaram e ganharam bom dinheiro.

Como na sua terra a água e boas terras agrícolas eram escassas os muçulmanos, vindos do Norte de África trataram também de aqui se estabelecer e por cá ficar por quase oitocentos anos.

Fenícios, Romanos e Muçulmanos, são dos primeiros imigrantes a chegar a Setúbal, embora outros povos viessem até cá e por aqui se estivessem estabelecido ao longo de centenas de anos.

Mais recentemente, por volta do século XVIII, as migrações internas fizeram para aqui deslocar pessoas da zona de Aveiro, popularmente conhecidas por varinos, corruptela de ovarinos, ou seja aqueles nascidos em Ovar e outros oriundos do Algarve, sobretudo da zona de Olhão e Fuzeta.

Nos anos 60 do século XX as fábricas de montagem de automóveis, a indústria papeleira e a naval, a par do desenvolvimento turístico, sobretudo em Troia, fizeram afluir a Setúbal, imigrantes vindos das Beiras e do Alentejo.

Apos 1974 com a descolonização e o êxodo da população das ex-colónias cerca de meio milhão de pessoas viriam de África para Portugal e milhares delas radicar-se-iam em Setúbal.

Mais recentemente, são povos do Leste da Europa, Franceses e sobretudo Brasileiros os que mais procuram esta cidade à beira Sado plantada para viver e trabalhar.

Setúbal é por isso uma terra de “muitas e desvairadas gentes”, uma terra de imigrantes, que procuram conviver pacificamente pese embora as suas naturais diferenças sociais e culturais.

Hoje, dia 11 de abril de 2021 tivemos oportunidade de verificar essa multiculturalidade, característica dos atuais setubalenses, aquando da abertura ao culto da nova capela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, um espaço que veio substituir os outros dois locais de reunião até então existentes na cidade.

Rui Canas Gaspar

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domingo, 14 de março de 2021

 


E que tal mudar a linda e escondida fonte para outro local?

A indústria do turismo é uma poderosa ferramenta de progresso ao dispor das nações porquanto faz desenvolver um vasto conjunto de atividades produtivas que vão da agricultura aos transportes passando pelos serviços, sendo naturalmente fonte de empregos e consequentemente geradora de riqueza e bem-estar dos povos.

Mas para que uma terra seja atrativa para os turistas ela deverá ter algo apelativo e diferente e não aquilo que o forasteiro poderá observar no próprio local onde reside, sejam as paisagens seja a gastronomia ou os seus monumentos.

Setúbal é uma agradável cidade, com uma gastronomia muito apetecível, cercada por uma invejável moldura natural, porém com poucos monumentos ou obras de arte que possa atrair o turismo cultural.

Mas, se já temos pouco ainda por cima somos mal aproveitados. Exemplo do que afirmo é o Forte São Luis Gonzaga, um dos melhores miradouros da cidade, abandonado no meio do mato. O mirante da Quinta da Azeda à espera que caia e, a linda fonte seiscentista escondida atrás do auditório José Afonso.

Se queremos visitantes na nossa cidade mais do que a limpar e embonecar a urbe temos de valorizar o nosso património e, por isso, teremos de não perder o que temos.

Porque não gosto de extremismos e como tal não advogar a hipótese de derrubar o auditório José Afonso, atrevo-me a sugerir a mudança da bonita fonte para a Avenida 22 de Dezembro, frente ao convento de onde a mesma saiu. Quanto ao mirante da Quinta da Azeda que o mesmo fosse recuperado e como tal destapado das lonas publicitárias que o envolvem. Já o Forte S. Luís Gonzaga que se começasse de vez a recuperar esta peça do nosso património militar e histórico, iniciando-se com a desmatação e limpeza do espaço envolvente.

Rui Canas Gaspar

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2021-março-14

quinta-feira, 11 de março de 2021

 


A Escola Conde de Ferreira


A exemplo de algumas dezenas de localidades, sedes de concelho, em Setúbal podemos ainda admirar uma singular e simples construção, localizada a meio do lado norte da Avenida Luísa Todi, nº 357 de onde se destaca um pequeno frontão que lembra um campanário.

Na base deste frontão está inscrita a data de 26 de março de 1866 e sob a porta principal a inscrição “Conde de Ferreira” o benemérito que doou a verba para a sua construção e respetivo equipamento e a quem o ensino público em Portugal muito deve.

A data poderá sugerir o dia em que a escola foi inaugurada, como é comum aparecer em tantos outros edifícios. Mas não, neste caso a mesma aparecia em todas os 91 estabelecimentos escolares, dos 120 que o testamento de Joaquim Ferreira dos Santos, agraciado com o título de Conde de Ferreira, preconizou erigir e lembra a data de falecimento daquele mecenas.

Esta é uma das escolas edificada de acordo com planta única, para evitar custos maiores com elaboração de diferentes projetos, a qual contemplava alojamento para o professor, para além das salas de aulas destinadas a alunos de ambos os sexos e que deveria ser erigida num espaço não inferior a 600 M2 além da área ocupada pelo edifício.

No seu diversificado testamento o Conde de Ferreira escreveu:

“ Convencido de que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da Sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que forem cabeças de concelho sendo todas por uma mesma planta e com acomodações para vivenda do professor, não excedendo o custo de cada casa e mobília a quantia de 1200 reis e pronta que esteja não mandarão construir mais de duas casas em cada cabeça de concelho e preferirão aquelas terras que bem entenderem.”

Depois de terem servido o ensino ao longo de décadas quer sob o regime monárquico quer sobre o republicano alguns destes imóveis ainda cumpriam o fim para que foram edificados.

A escola de Setúbal onde muitos dos nossos conterrâneos aprenderam as primeiras letras e outros se submeteram a exames oficiais está desativada como estabelecimento de ensino.

Rui Canas Gaspar

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2021-março-11

domingo, 7 de março de 2021

 

 



O primeiro secretário-geral do PCP foi um setubalense


Independentemente das simpatias ou filiações partidárias a comemoração de um centenário é sempre motivo para ser devidamente assinalado, tanto mais que se pode afirmar que nos últimos 100 anos não há transformação social, avanços ou conquistas dos trabalhadores e do povo, que não esteja associada direta ou indiretamente à ação, intervenção e luta do PCP , conforme escreveu Paula Santos no jornal EXPRESSO.

O Partido Comunista Português, nasceu em 1921 e entre os seus fundadores encontrava-se um setubalense profissionalmente ligado ás coisas do mar e da indústria conserveira, um homem que viria a tornar-se no primeiro secretário-geral do partido.

José Carlos Rates, nascido em Setúbal no ano de 1879 viria a falecer em 1945. Ele foi um dedicado dirigente sindical, grande propagandista e dinâmico militante  tendo organizado sindicatos quer no continente quer na Madeira, para além de colaborar com artigos de opinião na imprensa operária.

Este dinâmico comunista visitaria também a Rússia revolucionária para ali beber os ensinamentos comunistas de forma a melhor poder exercer a sua ação em território nacional.

A polícia política estava atenta e por isso a sua ação revolucionária valeu-lhe ter sofrido penas de prisão, tendo também sido sentenciado ao degredo para terras de África.

Curiosamente este revolucionário setubalense acabaria por vir a ser expulso do partido que ajudou a fundar, em maio de 1926, aquando do 2º Congresso do PCP alegadamente devido a desvios das diretivas emanadas pela Internacional Comunista.

Em 1931, dez anos depois de ter fundado o Partido Comunista Português o multifacetado setubalense que também foi escritor, fadista e membro da maçonaria passou para o lado oposto da barricada, filiando-se á União Nacional, o partido único salazarista.

Rui Canas Gaspar

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2021-março-07

sábado, 13 de fevereiro de 2021

 




Setúbal entre o verde e o azul

No último meio século a cidade de Setúbal cresceu bastante e, proporcionalmente ao aumento das novas construções, verificou-se a diminuição dos espaços verdes, então ocupados por diversas quintas onde predominavam os pomares de laranjeiras.

Curiosamente as colinas a poente da cidade apresentavam-se então quase despidas de vegetação como podemos constatar por fotos da época, uma situação que gradualmente viria a mudar, apresentando-se hoje esses espaços cobertos por milhares de arvores, sobretudo pinheiros.

E os novos inquilinos que se instalaram não só pelas encostas mas também por todos os terrenos disponíveis são de tal forma numerosos que hoje podemos observá-los ao longo de largas dezenas de hectares de zona envolvente aos fortes de S. Filipe e Casalinho, descendo pela encosta até ao da Albarquel, seguindo a mancha verde para poente até ao forte do Outão.

Na sequencia dos trabalhos de contenção de terras na encosta do nosso castelo está a proceder-se a um desbaste de arvoredo em torno do mesmo, provavelmente no âmbito das medidas de proteção contra incendios, o que permite a quem está na cidade ver o Forte de São  Filipe na sua plenitude, como já não acontecia á várias dezenas de anos.

Esta ampla mancha verde a norte do Sado, combinada com o lindo azul do nosso rio e Atlantico dá um enquadramento único a Setúbal que assim beneficia de uma boa qualidade ambiental oferecida pela Natureza que tão generosamente colocou à nossa disposição a serra e o mar.

Rui Canas Gaspar

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

 



 

Os raros bolos setubalenses

Naquele tempo, passados pouco mais de meio século,  era quase um luxo poder comprar um bolo na pastelaria, fosse ele um disco, um pastel de nata, um bolo de arroz ou qualquer outro exposto na montra. É que o dinheiro era escasso demais para poder ser esbanjado nessas coisas mais ou menos supérfluas.

Não é pois de admirar que fosse com a maior alegria e contido consumo que se degustava o bolo feito pela mãe, depois de levar uma semana a guardar as natas obtidas após a fervura do leite, que o leiteiro, portando as suas bilhas e medidas, vinha vender á porta de casa.

Claro que pelo Natal logo tínhamos tempo de comer alguma guloseima, se o menino Jesus estivesse abonado e trouxesse algo mais que um par de meias, ou então que alguma vizinha partilhasse uma daquelas broas de milho que o patrão lá da fábrica de conservas tinha mandado a casa por intermédio do operário que ao longo do ano a vinha chamar com o tradicional “peixe pra já.

E que terna lembrança ficou daquela prima moradora no nosso Bairro de Troino quando da sua janela me pedia para ir à mercearia do César comprar um pouco de açúcar para adoçar o café, fazendo logo de seguida a promessa de quando se casasse me daria um bolinho da sua boda.

O curioso é que depois de tantos recados e serviços prestados um dia a prima casou-se com um vizinho lá da nossa Rua das Oliveiras e fosse pelo entusiasmo, pelos afazeres, ou por mero esquecimento das promessas feitas o facto é que nem sequer vi a cor dos tais prometidos bolinhos…

Abençoados tempos estes que vivemos onde não temos de esperar pelo Natal, por juntar as natas do leite que ferveu, ou pelo cumprimento de promessas não cumpridas, para podermos comer em qualquer dia do ano um dos muitos deliciosos bolos que hoje se nos apresentam.

Rui Canas Gaspar

2021-fevereiro-10

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domingo, 24 de janeiro de 2021

 

 

 



Apara-lápis  o peixe esquisito que nos apareceu…


 

Estávamos no início dos anos setenta do passado século XX quando as traineiras de setubalenses se depararam com um desconhecido fenómeno.  É que ao invés da captura dos cardumes de sardinha ou carapaus começaram a recolher nas suas redes grandes quantidades de pequenos peixes de cor alaranjada e com um bico comprido.

 

Apara-lápis este peixe costeiro, também conhecido por trombeteiro ou corneta, quando juvenis vivem na coluna de água alimentando-se plâncton tal como as sardinhas.

 

Esta espécie piscícola praticamente quase não tinha valor comercial o que representava um importante prejuízo para os pescadores. Ele acabaria por ter como destino a fábrica SADOP, uma unidade industrial sediada na periferia da cidade que transformava em farinha as toneladas dos pequenos peixes carregados em camionetas de carga desde a doca dos pescadores.

 

Conforme apareceu, também algum tempo depois desapareceu, não deixando boa memória a sua passagem por terras setubalenses, embora tenha ficado o registo sonoro conforme podemos aqui escutar  

https://www.youtube.com/watch?v=prpQDWLuvjg

 

Rui Canas Gaspar

2021-janeiro-24

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

 



MIL E UM o monstro que não conseguiu emergir das areias de Troia

Caso não tivesse ocorrido a revolução de 25 de Abril de 1974 ou mesmo se esta tivesse acontecido uns anos mais tarde, na outra margem do Sado, frente a Setúbal, poderíamos hoje observar uma cidade turística que então se anunciava como capital do turismo europeu.

Na imagem ilustrativa desta nota mostro o projeto geral da TORRALTA para aquela península de finas areias brancas que previa de entre outras a mudança de local da capela existente na zona da caldeira, a construção de um hospital e até a edificação de um “monstruoso” hotel designado por Mil e Um dado o mesmo prever a existência de 1001 quartos conforme então era voz corrente em Troia.

Para se poder ter uma ideia da volumetria do tal hotel, que não chegou a sair do papel, basta comparar aqui na planta a área do mesmo com a do Clube Hotel, aquele enorme edifício onde hoje se encontra o casino, junto à marina.

Goste-se ou não do projeto da TORRALTA, goste-se ou não do que lhe sucedeu depois da passagem para a SONAE, goste-se ou não dos resultados da revolução de 25 de Abril que acabou com a ditadura em Portugal, o facto é que se este monstro tivesse saído das areias de Troia aquela península teria uma paisagem seguramente diferente.

Rui Canas Gaspar

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2021-janeiro-12