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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Fui à Feira de Santiago e tive pena
Américo Ribeiro merecia melhor!

A foto ilustrativa desta nota não é de minha autoria mas sim da Junta de Freguesia de São Sebastião e de facto está com muito melhor qualidade do que aquelas que eu tirei ontem aquando na minha primeira visita à Feira de Santiago, em Setúbal, levada mais uma vez a cabo no Parque Santiago, na Manteigada.

Não me vou pronunciar sobre a bondade do local, não me vou igualmente pronunciar sobre a afluência ou sequer sobre o modelo do certame, vou incidir a minha opinião sobre um importante pormenor que me parece que continua a passar despercebido a muitos visitantes.

No pobre recinto encontra-se patente uma exposição que poderia, em meu entender, ser um dos pontos altos de atração depois dos concertos musicais, trata-se de uma mostra fotográfica do grande mestre Américo Ribeiro que nos legou quase duas centenas de milhar de fotos retratando a vida, hábitos e costumes desta cidade, diria mesmo que o seu legado conta a história desta terra por intermédio de imagens por si captadas.

O que acontece é que a exposição foi relegada para um espaço nas traseiras, sendo para além de pouco apelativa, composta por pouco mais de uma dúzia de imagens que começam com desporto mas deixam de ser temáticas ao mostrar outros aspetos captados pelo fotógrafo.

Não consigo entender como é que num recinto culturalmente e apelativamente tão pobre os promotores não tiveram a imaginação e o profissionalismo para se aproveitar o que temos para se fazer algo de bom ou muito bom.

A Câmara Municipal de Setúbal é detentora do vastíssimo espólio de Américo Ribeiro e o organizador desta exposição bem que poderia usar e abusar desse magnífico manancial para mostrar a cidade, tematicamente ou não, mas com muito mais imagens patentes numa exposição cuidada e interessante escolhendo um melhor local de passagem, consequentemente de maior visibilidade e não aquele nas traseiras de algumas barracas.

A foto que ilustra esta nota, da autoria insuspeita da Junta de Freguesia de São Sebastião mostra a pobre exposição tal como a vi, desinteressante e sem ninguém a apreciá-la.

Mais uma vez salvou a noite o lombinho do Séninho e como sobremesa a fartura da Luizinha.

O Américo Ribeiro, de cabelo encaracolado, andar acelerado que eu tão bem conheci merecia melhor.

Tive pena!...

Rui Canas Gaspar
2016-agosto-02

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domingo, 26 de julho de 2015

Quem teve medo do “Almeida bruxo” ?

Muito pouco ficou para a posteridade, a não ser algumas memórias, sobre aquele homem alto, magro, normalmente bem vestido e de gravata colocada, que caminhava muito direito, com os braços pendidos ao longo do corpo.

O seu apelido seria Almeida, e era conhecido em Setúbal na segunda metade do século XX como “Almeida bruxo”.

A popularidade deste personagem levou-o a ser alvo de atenção do famoso fotógrafo setubalense Américo Ribeiro, autor da foto que aqui se apresenta.

Lembro-me quando este homem, que residia na Freguesia de Santa Maria da Graça, na Rua Arronches Junqueiro, aparecia pelas bandas do Bairro de Troino a rapaziada logo tratava de correr atrás dele num misto de curiosidade e de receio, não fosse ele fazer alguma bruxaria.

Quando chegava à Rua das Oliveiras a rapaziada desatava a gritar: “É Almeida bruxo!” E mal o homem se voltava, todos tratavam de fugir, como um bando de pardais, escondendo-se na Rua do Ligeiro, porque mais valia prevenir que remediar e só o seu olhar já podia augurar que nada de bom pudesse acontecer.

Vendo as coisas a esta distância, e tirando o facto de ao final do dia o nosso homem tentar manter o equilíbrio nas suas longas e magras pernas, devido aos efeitos dos vapores do álcool que lhe subiam à cabeça. O que não era de admirar por naquela época as tabernas setubalenses serem mais que muitas, “Almeida bruxo” se vivesse hoje seria considerado por muitos como um filósofo ou um observador da vida quotidiana.

Conta-se que o segredo dos seus “dotes de adivinho” residia no facto de receber em sua casa os clientes. Porém, não seria ele a fazer o primeiro atendimento, ou triagem, mas sim a esposa que habilmente encaminhava a conversa para o motivo da visita.

O “vidente” escutaria o diálogo numa outra dependência da casa e quando estava senhor da situação aparecia, como se tivesse acabado de chegar a casa, dispondo-se então a atender o seu cliente.

Depois, era usar as próprias informações disponibilizadas por quem o procurara e fazer ouvir aquilo que mais se pudesse adequar à situação do pobre paciente.
A forma como falava, calma e solene, a sua postura e o seu aspeto físico tratariam só por si de fazer o resto.

Rui Canas Gaspar
2015-julho-26

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Américo Ribeiro o homem que fotografou Setúbal

Américo Augusto Ribeiro nasceu em Setúbal no primeiro dia de janeiro de 1906 e viria a falecer em 10 de julho de 1992.

São muitos os setubalenses que recordam este homem de olhar vivo, passo apressado e cabelo ondulado sempre de máquina fotográfica em punho pronto a disparar sobre tudo e sobre todos.

Foi assim que durante 65 anos captou o pulsar de uma região como poucos alguma vez o fizeram, tornando-se conhecido dos seus concidadãos desde que em 1922 expôs os seus trabalhos fotográficos na montra de Alberto Sartoris, o proprietário de um estúdio fotográfico setubalense.

No ano em que Henry Ford, lá longe, nos Estados Unidos via sair da sua fábrica o décimo milionésimo carro “Modelo T”, no outro lado do Atlântico, em Portugal, Américo Ribeiro não adquiria uma destas viaturas mas sim a sua primeira máquina fotográfica, disponibilizando para isso a substancial quantia de 60 escudos.

O fotógrafo cobria todos os acontecimentos na cidade, dos fenómenos meteorológicos aos acontecimentos desportivos, dos eventos sociais aos culturais.

Nas procissões religiosas lá o podíamos ver a captar imagens um pouco de tudo e todos; dos anjinhos aos escuteiros, do povo que seguia na cauda às autoridades civis e religiosas que sob o palio desfilavam.

O seu apurado sentido de repórter, levava-o a não perder tempo e, quando a procissão terminava, eram muitos aqueles que corriam logo para o Largo da Conceição para poder apreciar na monta da Foto Cetóbriga, o seu estabelecimento fotográfico, as imagens captadas poucos minutos antes.

Era então altura dos mais abonados comprarem um exemplar da foto onde se viam retratados e eu não fugi à regra, ora fardado de escuteiro ou como centurião da legião romana que nos idos anos 60 desfilou num dos celebérrimos carnavais de Setúbal.

Rui Canas Gaspar
2014-julho-24

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