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quinta-feira, 6 de agosto de 2020


A elevação de Setúbal à categoria de cidade

O jovem rei D. Pedro V ainda não tinha completado 23 anos quando na quinta-feira, dia 19 de abril de 1860 assinou o decreto real, no Paço das Necessidades, que elevava a “notável villa” de Setúbal à categoria de cidade.

Foram necessários deixar passar quase dois anos desde aquele dia 14 de julho de 1858 para que fosse deferido o requerimento redigido pela vereação da Câmara Municipal solicitando a Sua Majestade a graça de “aumentar o esplendor e a grandeza da povoação”.

Para além da sua História, do seu importante porto e do seu comércio com o exterior um outro motivo também invocado pelo presidente da autarquia, Aníbal Álvares da Silva e sua vereação era o facto de Setúbal rivalizar em importância e população com todas as cidades do reino, com exceção de Lisboa e Porto.

Para assinalar esta importante data junto dos seus cidadãos, Setúbal tem apenas uma pequena rua com o dia e mês, sem que a mesma faça alusão a este acontecimento histórico, comemorado com grande euforia pelos nossos antepassados.

Foram precisos deixar passar CEM ANOS para que um grupo de cidadãos tomasse a iniciativa de mandar implantar um digno monumento que nem mesmo ele publicita a data, sendo vulgarmente conhecido por “fonte luminosa” mas cuja designação oficial é “Fonte do Centenário”.

Rui Canas Gaspar

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2020-agosto-06


segunda-feira, 4 de maio de 2020



A Milenar e quase ignorada Setúbal 

Quando em 1158 D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, conquistou Palmela aos mouros, meia dúzia de quilómetros abaixo da colina onde se encontra o seu castelo, Setúbal pouco mais seria que um pequeno povoado sem grande importância, ocupado por pescadores e salineiros. 

Porém, um milhar de anos antes deste evento, a mesma Setúbal provavelmente teria um destaque bem maior do que a altaneira Palmela, isto a fazer fé nas descobertas arqueológicas que têm aparecido à luz do dia e que nos mostram um espaço onde a indústria dos preparados de peixe, com destaque para o garum, era de grande vitalidade. 

Para haver muito peixe teriam de ter muitos barcos e, para pescar, forçosamente haveria indústria associada, como seja a dos cabos, das redes, dos anzois, etc. etc. 

Em terra, teria também de haver as “fábricas” conserveiras de que é exemplo aquela que ainda podemos observar sob o pavimento envidraçado do edifício do turismo na Travessa Frei Gaspar, junto ao Largo da Misericórdia, idêntica a outras postas a descoberto em plena Praça de Bocage. 

As grandes olarias produtoras de ânforas da região teriam de as mandar para armazéns antes de serem enviadas para o destino final e um desses armazéns encontrava-se precisamente perto dessas cetárias, nas traseiras da nossa Biblioteca Publica Municipal, mais precisamente na travesse João Galo. 

Mas, como tudo muda com o tempo, não deixa de ser curioso que aí mesmo, onde funcionou o armazém de ânforas haveria de surgir um monumental edifício romano, provavelmente destruído por qualquer violento sismo. Dele restou uma enorme cornija que hoje se encontra na Avenida Luisa Todi, junto ao Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal. 

Esta enorme pedra de calcário tem o comprimento de 3,60 metros e uma largura de 0,72 por 0,34 de espessura. 

Mas, porque onde existe indústria circula mais dinheiro, também os romanos nos deixaram uma pequena amostra do muito que por aqui abundava e, alguém escondeu sem ter tido oportunidade de recuperar uns largos milhares de moedas, colocadas em duas grandes ânforas, que vieram a ser descobertas na antiga Rua Direita de Troino. 

Setúbal é uma localidade milenar e certamente serão muitos os setubalenses e muito mais os forasteiros que nos visitam que disso não tem noção, atendendo a que a nossa rica história pouco tem sido divulgada e o que resta do nosso património edificado não tem tido a devida valorização e divulgação, pelo que urge fazê-lo. 

Rui Canas Gaspar
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2020-maio-04

sexta-feira, 1 de maio de 2020


Será bom sinal se a Proteção Civil não vier a necessitar dela 

Está praticamente concluída a nova capela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias localizada no extremo norte do futuro Parque Urbano da Várzea, em Setúbal. 

Construída num amplo terreno, propriedade da Igreja, as novas instalações ocupam cerca de metade do mesmo tendo cedido o restante à autarquia sadina para construção de arruamentos e integração no  próprio parque verde. 

Quando estas instalações começarem a funcionar para ali serão transferidas as congregações sediadas na Avenida General Daniel de Sousa e também a da zona da Camarinha. 

A nova capela segue o padrão internacional e a exemplo das muitas milhares de outras construídas ultimamente em Portugal e no estrangeiro a sua arquitetura está adaptada não só ao culto como também a atividades sociais e a eventualmente poder ser transformada num polo de apoio à Proteção Civil em caso de emergência. 

A título de exemplo é bom saber que em várias partes do mundo, com especial destaque para o Brasil, várias capelas SUD estão já a apoiar os diferentes hospitais que se encontram sobrelotados.
Em Portugal a  Igreja já doou vário equipamento médico e de proteção para os hospitais e diversas das suas capelas estão colocadas como unidades de reserva pela Proteção Civil sendo que em Setúbal é a capela localizada na zona do Bairro da Camarinha aquela que pelas suas características ficou integrada nesta listagem para uma eventual situação de emergência devido ao COVID 19 
.
Devido à situação gravosa que o Mundo em geral atravessa as ações de culto nas capelas estão suspensas e ainda não há data assinalada para as “portas abertas” desta nova unidade que irá servir os cristão SUD setubalenses. 

Rui Canas Gaspar
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2020-maio-01

segunda-feira, 6 de abril de 2020



Figueirinha a praia construída pelos setubalenses

Muitos daqueles que se deslocam hoje à Figueirinha, a maior praia setubalense, em pleno Parque Natural da Arrábida desconhecem ou estarão esquecidos, que este espaço de eleição foi conquistado ao mar, inicialmente mais por necessidade do que a pensar no lazer. 

Em 1929 o Estado aprovou uma verba de 100 mil contos destinada às primeiras obras portuárias onde também se inseria o Porto de Setúbal cujos trabalhos teriam o seu início no dia 28 de julho de 1930 com o lançamento da primeira pedra. 

Mas a primeira pedra seria apenas o início da colocação de milhões de outras destinadas à edificação de cerca de 4 quilómetros de muralhas e de três docas na baía de Setúbal. 

As pedras seriam retiradas da falésia frente à Figueirinha que por se encontrar praticamente em cima do mar tornariam o trabalho de transporte a bordo de grande e possantes barcaças muito mais fácil e rápido. E foi o que aconteceu. 

Com a conclusão da obra e terminados os trabalhos de extração verificou-se que a falésia tinha recuado e consequentemente haveria agora mais espaço disponível na sua base do que a diminuta faixa de areal até então se verificara. 

O tempo e as marés encarregaram-se de dotar a praia com mais algum espaço, porém nada comparável ao que hoje observamos. 

Foi a construção do espigão a montante da praia e copiosas injeções de areias obtidas com as dragagens do leito do Sado que a praia tal como a conhecemos começou a tomar forma, facto a que não é alheio a natural movimentação de areia devido às correntes submarinas. 

Nos últimos anos foi construído o parque de estacionamento e o mesmo foi posteriormente melhorado e revestido com adequado pavimento, ocupando um espaço que até há poucos anos era banhado pelas águas do Atlântico e que agora se apresenta bem longe do mesmo. 

Podemos assim concluir que a Praia da Figueirinha é o resultado da engenharia, do trabalho árduo e do desenvolvimento da nossa terra, onde a mão humana se sobrepôs à da mãe Natureza. 

Rui Canas Gaspar
202-abril-06


sábado, 4 de abril de 2020



O “crime” dos namorados troineiros

Os jovens namorados Benilde com os seus 16 verdes anos e Francisco em plena juventude contando agora com os seus vigorosos 18 decidiram um dia gravar para a posteridade o seu amor. 

No início daqueles idos anos 40 do passado século XX as máquinas fotográficas constituíam um bem raro e como tal os fotógrafos profissionais eram as pessoas que se encarregavam da tarefa de gravar esses bons momentos. 

Os jovens setubalenses, nascidos e criados no popular Bairro de Troino, num belo dia vestiram as suas melhores roupas e sorrateiramente foram ao retratista para que este gravasse para a posteridade aquele momento de felicidade. 

E, foi o retratista que disse que naquele cenário do estúdio, como se estivessem à janela, que a mão do rapaz por cima do ombro da rapariga ficaria melhor. E assim foram fotografados. 

Passados uns dias Francisco estava no mar, onde era camarada num barco da pesca da sardinha quando a Benilde foi buscar os retratos que já estavam prontos. 

Encantada com a imagem a moçoila foi fazer a surpresa à mãe mostrando a bela foto. Esta olhou para a fotografia e ato contínuo levantou a mão e deu uma bofetada na filha, guardando as fotos e exclamando “não tens vergonha!”.
A mãe, não devolvendo, escondeu as fotos e a Benilde ao longo de muitos meses procurou-as por todos os cantos da casa sem as encontrar, não podendo assim mostrar ao namorado. 

Era o que mais faltava uma moça tão prendada que até aprendera a bordar e costurar na Casa dos Pescadores poder vir a ser falada por todo o Bairro de Troino, deixando ficar mal os Canas! Isto no caso do Francisco não se casar com ela, agora que até tinha um retrato com a mãozinha marota por cima da sua filha… 

O tempo passou e, em 1947, o casalinho deu o nó na Igreja da Anunciada e foi nesse dia que Benilde recebeu da mão de sua mãe o retrato captado dois anos antes, qual prova do “crime” e só nesse dia Francisco teve oportunidade de apreciar a imagem de um ternurento momento. 

Durante muitos e muitos anos, Benilde e Francisco viveram uma intensa vida a dois, passando bons e maus momentos até que um dia partiram deixando para além da saudade a bela imagem de um jovem e feliz casal setubalense.
Outros tempos, outras realidades!... 

Rui Canas Gaspar
2020-abril-04


segunda-feira, 30 de março de 2020



O polícia Sinaleiro que ficou na memória

O açoreano que se veio radicar em Setúbal e aqui criou a sua família, ficou na memória de muitos setubalenses como um homem elegante, simpático, íntegro, cujo profissionalismo impressionava os pequenos e graúdos.

Porte atlético, tronco muito direito, na sua atividade de polícia sinaleiro os movimentos eram bem vincados e precisos, por isso não é de admirar que fossem muitos os setubalenses, crianças, jovens ou adultos, que ficavam alguns minutos no passeio para admirar a forma impecável como este polícia sinaleiro dirigia o trânsito, normalmente na Avenida 22 de Dezembro.

O Sr. Jacinto era pessoa de uma delicadeza extrema e quantas vezes não mandou ele parar o trânsito para dar o braço a uma senhora idosa ajudando-a a atravessar a rua. Mas o seu profissionalismo era de tal ordem que muitas vezes mesmo sem estar de serviço e notando que havia qualquer problema na fluidez automóvel ia para o meio da via e desbloqueava a situação.

A revolução de 25 de abril de 1974 estava no auge quando as maiores manifestações de jubilo que alguma vez ocorreram em Portugal foram vividas em Setúbal.

Naquele 1º dia de Maio de 1974 uma mulher setubalense foi junto do Sr. Jacinto, que como sempre cumpria a sua atividade ao serviço do trânsito na cidade e colocou-lhe um cravo vermelho na lapela, símbolo da revolução de abril.

No dia seguinte o Sr. Jacinto apresentou-se ao serviço, dirigindo o trânsito, impecavelmente fardado e de sapato a brilhar, mas com dito cravo na lapela.

Rui Canas Gaspar
2020-março-30

sexta-feira, 20 de março de 2020


A história de uma velha imagem

O Moscatel de Setúbal foi colocado na mesa improvisada, forrada com uma tela de sinalização para aeronaves, onde fez companhia ao vinho do Porto e outras bebidas, algumas conservas e poucas iguarias que os familiares tinham feito chegar a Bijene, na Guiné, fronteira norte com o Senegal. 

Na ausência de pinheiro de Natal um ramo de mangueira, enfeitado com estrelas recortadas dos revestimentos dos maços de tabaco tentavam dar um ar natalício àquela noite onde um grupo de militares confraternizavam longe das suas famílias e de olhar atento para o escuro de onde poderia surgir um ataque dos guerrilheiros do PAIGC. 

Não por beber demais, mas pelas misturas feitas, o que comi e bebi acabou por sair e no dia seguinte estava de ressaca. Porém a fémea do mosquito anophellis já me tinha dado uma beijoca e o organismo mais fraco não resistiu ao paludismo (ou malária) que atacou em força. 

Uma semana depois, naquela zona inóspita não havia condições para tratar o doente e foi solicitado que uma avioneta militar me transportasse para o Hospital Principal em Bissau. 

A velha DO Dornier 27 do tempo da 2ª Guerra Mundial estava a fazer-se à pista de aterragem quando os guerrilheiros começaram a atacar, os camaradas pediam que eu corresse e me enfiasse no abrigo, mas mal podia com as botas e estava tão magro que era difícil acertarem neste alvo móvel. 

A avioneta não chegou a aterrar e só pouco depois retornou pousando o tempo suficiente para atirar para o solo umas sacas com correio e para eu entrar, levantando de imediato. 

Já no hospital a coisa ia de mal a pior e, quase sem forças e mais parecendo um esqueleto vaidoso perguntei ao enfermeiro se isto era para morrer ou não.  

Resposta pronta do rapaz: -Olha! estamos à espera de uma injeção que vem da metrópole. Se ela chegar a tempo safas-te, se não lerpas. 

Bem a injeção pelos vistos chegou a tempo, nem sei onde a espetaram porque era só pele e osso… 

Alguns dias depois tentei colocar um ar mais agradável e com um visual mais tipo chinês que português fotografaram-me vestido com o pijama do hospital e enviei a imagem para a minha mãe para que ela pensasse que estava numa qualquer colónia de férias. 

Hoje fui encontrar a fotografia que partilho aqui com os amigos, com a certeza de que como não “lerpei” vão continuar a ler as mais diferentes histórias contadas por quem já muito viveu e provavelmente ainda por cá ficará o tempo suficiente para contar mais e vocês para me aturar. 

Abreijos e fiquem em casa se puderem. 

Rui Canas Gaspar 

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domingo, 15 de março de 2020


Já comeu xarém? 



No início do século XX muitos pescadores oriundos do Algarve, sobretudo da região de Olhão, Fuzeta e Tavira, vieram radicar-se em Setúbal, assentando arraiais na zona do Bairro de Troino.

Com eles vieram naturalmente usos e costumes algarvios que os tinham absorvido em boa parte dos mouros que durante muitos anos ocuparam aquela região do Sul de Portugal.

O xarém (ou xerém) é um prato típico tradicional da cidade de Olhão e que em Setúbal teve muito consumo entre as famílias dos descendentes algarvios, sobretudo nos invernosos meses aquando do defeso da pesca da sardinha, período em que a fome grassava por toda esta terra de pescadores e conserveiras.

Por ser muito saboroso e barato era consumido com alguma frequência tendo até sido “exportado” para o Brasil e Cabo Verde.  

Trata-se de uma papa de farinha de milho a que se poderão juntar mais alguns condimentos, dependendo da bolsa e da criatividade do cozinheiro.

Ao olhanenses juntam-lhes conquilhas, as deliciosas ameijoas que dão ao prato um delicioso paladar que poderá também ser preparado com toucinho, presunto e chouriço.

Se nunca o degustou e tem os ingredientes necessários aproveite para cozinhar e fique a conhecer mais um pitéu que foi um dos 7 candidatos finalistas às Maravilhas da Gastronomia portuguesa.

Rui Canas Gaspar
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019


Setúbal entra em 2020 muito mais segura 

É com natural satisfação de setubalense que partilho com os amigos  a minha constatação ao ver a nossa cidade, neste final de ano, muito mais segura e protegida de eventuais fortes chuvadas. 

Se mencionamos aqui variadas vezes os trabalhos na várzea de que é visível a bacia de retenção pronta a atuar, o mesmo não tem acontecido com outra importante obra levada a cabo em simultâneo, com a mesma finalidade, estou a referir-me ao jardim dos arcos e à ribeira do Rio da Figueira. 

Nas margens da ribeira desde a zona do Mac Donalds até ao subterrâneo na Algodeia, foram  construídos centenas de metros de  resistentes paredões em betão com cerca de dois metros e meio de altura e uma espessura na ordem dos 30 centímetros. 

Os paredões da ribeira, na zona do Parque da Algodeia formam como que uma barragem às águas que possam vir das lados da Serra de S. Luís e que já por mais do que uma vez fizeram avultados estragos na cidade. 

Com estas bacias de retenção travando o transbordo das ribeiras do Rio da Figueira e do Livramento, podemos facilmente concluir que a cidade de Setúbal entra no ano 2020 muito mais protegida dos nefastos efeitos das grandes chuvadas que de vez em quando afetavam a nossa terra. 

Rui Canas Gaspar
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2019-dezembro-30

quarta-feira, 20 de novembro de 2019


Faltam cabeças na casa das quatro 

A célebre e então degradada Casa das Quatro Cabeças, imóvel de interesse municipal desde 1977 e posteriormente declarado de Utilidade Pública,  foi adquirida pela Câmara Municipal, depois de expropriada. 

Em Dezembro de 2014 anunciava-se que o imóvel iria ser recuperado pela Autarquia Sadina, tendo por finalidade o alojamento temporário de moradores da zona cujos edifícios fossem ser recuperados. 

De então para cá as obras no edifício foram alvo de intervenção descontinuada com andamentos e paragens ao sabor dos fluxos financeiros, com datas de inauguração nunca cumpridas. 

Posteriormente foi anunciado um outro destino para o vetusto imóvel, desta vez como residência de estudantes. 

Hoje passei por lá e a recuperada construção embora ainda não tendo sido inaugurada já apresenta no seu exterior a imagem de que terá de ser intervencionada ao nível da construção civil. 

Mas, o que mais curioso achei foi o anúncio daquele espaço, escrito na linguagem de sua majestade britânica, ao invés da língua de Camões que com pompa anuncia: “Setúbal Student Residence”. 

Perguntei aos vizinhos se a casa já estava ocupada, atendendo a que não via qualquer janela aberta e, com aquele sorriso que caracteriza quem sabe da poda a resposta foi-me devolvida com um simples: “acha ?” 

Bem, depois de terem sido gastos “rios de dinheiro” e de se terem ultrapassado todos os prazos, pelos vistos casa já temos (ou não !) o que parece faltar em Setúbal são as cabeças para a ocupar, sendo pois legítimo colocar a pergunta, até quando? 

Rui Canas Gaspar
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2019-novembro-20

quinta-feira, 31 de outubro de 2019


A “Rosita”

Manhã bem cedo, olho para a foz do Sado e nada mais observo para além de um denso manto de nevoeiro que teima em não mostrar a outra banda. 

Do meio do nada ouve-se o ruído de um motor e o estridente piar de numerosas gaivotas que acompanham aquele invisível barco de pesca que recolhe ao porto.

Os instrumentos de bordo ajudam aqueles heróis que com este tempo vão ao mar buscar o peixe com que nos deliciamos e que fazem dos nossos restaurantes uma referência gastronómica. 

Lembro-me de quando era rapaz ver sair a “Rosita”, a popular “vedeta” da Capitania, em dias que o mau tempo se anunciava, dirigindo-se para a zona da barra, onde ali chegada passava um cabo a cada bote a remos que por ali pescava de forma a rapidamente os rebocar para terra.

Esta embarcação que pertencia  à capitania do porto de Setúbal funcionava como uma mãe que na eminencia do perigo se apressava a ir recolher os filhos para os trazer para o lar, o seu porto de abrigo.

Hoje as embarcações de médio porte e até os botes já são movidos a motor e os novos pescadores já vão munidos de GPS, radares, sondas, telemóveis e demais equipamentos. Mas, o mar, o nevoeiro e o mau tempo continuam a não dar tréguas a estes valentes guerreiros que são os pescadores da nossa terra.

Rui Canas Gaspar
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2019-outubro-31

segunda-feira, 7 de outubro de 2019


Obra de amor continua coberta por telas publicitárias 

Foi uma hora o tempo que despendi ontem para fazer  os quatro quilómetros de perímetro no futuro Parque Verde da Várzea, a fazer fé no relógio e na aplicação sobre saúde do meu telemóvel, responsável por esta informação. 

Aproveitei esta agradável caminhada  para observar com algum pormenor o que por ali já se fez e continua a fazer e não deixei de ir junto às telas publicitárias que envolvem o Mirante da Quinta da Azeda, para ver com os meus próprios olhos que aquela peça histórica ainda ali se encontra, devidamente escorada por fortes e bem travadas peças de andaime. 

Mais uma vez sorri ao ler texto da mensagem publicitária ao banco promotor que reza assim: “Juntos pela preservação da nossa História” e também mais uma vez pensei, pensei, mas não cheguei a qualquer conclusão. 

É que, qualquer coisa não bate certo. A palavra “juntos” remete-nos para uma qualquer parceria que neste caso como que a querer dizer que quer fazer tudo para “preservação da nossa História”.  Subentendendo-se que o banco e a Autarquia quererão manter e recuperar aquela que é uma das primeiras construções em betão armado erigidas em Portugal. 

Porém, até hoje não ouvi da boca de um dos responsáveis autárquicos algo que indicie que estão a fazer um esforço para que a peça (apresentada em tempos como o emblema do PUV) seja para recuperar, ao invés disso apresentam-nos um projeto de réplica, mal parida, destinada a ser construída e implantada algures no futuro parque. 

Gostaria de pensar que as contrapartidas  (e não devem ser pequenas) que se recebem do banco pela enorme publicidade, em lugar de grande destaque, estará a ir para um fundo de reserva que terá como objetivo a recuperação deste belo exemplar arquitetónico que um dia um agricultor setubalense mandou erigir por amor a uma mulher. 

Mas, será que haverá sensibilidade e sobretudo vontade para manter esta peça exposta em toda a sua beleza numa antiga cidade tão carenciada de apontamentos arquitetónicos de relevo? 

É que pode ser caro, mas o dinheiro quando se quer sempre se arranja e depois, será que não temos já por aí algum mealheiro com o dinheiro pago pelo banco que está a usufruir da publicidade inserida naquele espaço? 

São interrogações para as quais não tenho resposta, mas que gostaria de as ter. 

Rui Canas Gaspar
2019-outubro-06
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sexta-feira, 27 de setembro de 2019


Chamem a polícia…
O Sopeira 

Contava-me o meu falecido pai que quando ele era um jovem e a cidade era bem mais pequena, a mesma encontrava-se segura, de dia ou de noite. A zona de Troino  costumava então ser patrulhada por um polícia de nome (ou alcunha) Sopeira, o terror de quem se atrevia a pôr o pé em ramo verde. 

Os anos passaram, a cidade cresceu, o número de polícias aumentou, mas o patrulhamento a pé foi praticamente abandonado e substituído pelo motorizado.
O facto é que a população reclama por policiamento adequado que minimize, sobretudo aos fins de semana, as ações de vandalismo que infelizmente vão sendo comuns por aqui. 

Mas, ao que parece, os novos agentes pouco mais podem fazer devido à falta de meios, sobretudo viaturas cujo parque se mostra envelhecido e insuficiente para poderem fazer frente às necessidades de nova Setúbal, bem diferente dos tempos do “Sopeira”. 

A segurança é uma das prioridades que as pessoas mais reclamam e, embora Setúbal seja uma cidade relativamente segura, os atos de vandalismo que por aqui acontecem, cada vez com mais frequência e violência, tem de ser combatidos com eficiência e sobretudo com meios que pelos vistos tardam em chegar. 

Rui Canas Gaspar
2019-setembro-27
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019


Vamos perder o comboio do desenvolvimento? 

Rolando menos de 30 kms acabo  de sair da autoestrada e entro no Montijo, deparando-me logo com uma dezena de gruas que ajudam na edificação de vários edifícios habitacionais. 

 Não faço ideia quantas mais gruas estarão montadas naquela cidade, nossa vizinha, nem quantos edifícios estão a ser ali construídos, mas são mais, muito mais que em Setúbal. 

Aqui os dedos de uma mão chegam e provavelmente sobram para contar as gruas sendo que uma delas apoia uma obra cultural, outra, uma religiosa e outra ainda uma desportiva. Quanto aos edifícios habitacionais em construção teremos de andar de lupa na mão para os encontrar. 

Bem sei que gruas não é sinónimo de desenvolvimento, mas é um indicador seguro e, neste aspeto na cidade de Setúbal o que vemos são muitos projetos anunciados, mas poucos em vias de concretização, salvando-se aqui um conjunto de pequenas obras de recuperação e ou remodelação de pequenos edifícios. 

Não será pois de admirar que tenhamos na cidade carência acentuada na habitação, dado que as empresas locais com capacidade para o fazer parece terem desaparecido e vamos lá nós saber porquê. 

Assim, a continuarmos neste estado de letargia não estaremos condenados a perder o comboio do desenvolvimento? 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2019-setembro-25

domingo, 15 de setembro de 2019



Setúbal na História ou histórias de Setúbal (5)
O nosso maior poeta e a sua praça 

Tempos houve que a atual Praça do Bocage ficava bem junto à foz do Sado. A atestar esta afirmação estão as cetárias romanas, que se encontram por baixo deste espaço central da cidade e que estes nossos antepassados destinavam à salga, molhos e derivados de peixe. 

Este espaço também já serviu de local de enterramento, dada a sua proximidade da Igreja de São Julião. 

D. João II ordenou a remodelação do terreiro medieval, então conhecido como Praça do Sapal, um espaço central setubalense que viria a acolher o monumento que homenagearia Manuel Maria Barbosa du Bocage, aquele que foi um dos maiores poetas portugueses. 

A iniciativa de erigir este monumento, um marco da centralidade sadina, foi do escritor romântico António Feliciano de Castilho e o dinheiro para a sua construção foi angariado entre os setubalenses e seus amigos do outro lado do Atlântico, os Brasileiros, que através de subscrição pública angariaram a necessária verba para levar de vencida este projeto. 

O monumento erigido em 1871 é da autoria do escultor Pedro Carlos dos Reis e foi confecionado em Lisboa na oficina de Germano José Salles. 

Com 12 metros de altura, em mármore branco a coluna coríntia assenta sobre quatro degraus oitavados, tendo sobre o capitel a estátua do poeta, de dois metros de altura, de casaca à girondina, tendo na mão direita uma pena e na esquerda um rolo de papel. 

O espaço que rodeia o monumento tem vindo ao longo dos tempos a sofrer alterações, ao gosto da época, porém só depois da revolução de 25 de abril de 1974, graças ao dinamismo de um pequeno grupo de jovens ecologistas setubalenses liderados por Carlos Frescata, a zona envolvente seria completamente interdita à circulação automóvel. 

Rui Canas Gaspar
2019-setembro-15

terça-feira, 6 de agosto de 2019


Manutenção precisa-se com urgência 

Entendo que não é boa e avisada política andarmos a fazer novos e bonitos empreendimentos, sem que seja acautelado o necessário acompanhamento de conservação e manutenção destas iniciativas. 

Vem isto a propósito de várias situações anómalas que observei no troço entre Setúbal e a Praia da Figueirinha destacando apenas esta última pela quantidade de pessoas que ali se deslocam diariamente e que tal como eu podem observar o que refiro. 

Os dois grandes depósitos para colocação de plásticos, publicitando o Centro Comercial Alegro, continuam tombados e duvido que alguma utilidade venham a ter naquele estado em que se encontram. 

Dos painéis de sensibilização para a preservação do meio ambiente, um deles só lá tem a armação e outro encontra-se tombado já há vários dias. 

Das bandeiras arvoradas naquele espaço destacam-se a bandeira azul, presa por uma ponta, enquanto a do concelho de Setúbal  já sumiu parte e está rota, se não for rapidamente substituída duvido que dure muito mais. 

Não compreendo como é que situações destas se vão mantendo ao longo de dias e dias, quando são observadas diariamente não só pelo comum cidadão como por todo o tipo de autoridades, concessionários e funcionários da Câmara e Junta de Freguesia. 

Será esta imagem de desleixo e de falta de manutenção dos espaços públicos, onde são gastos milhares de euros a embelezar que se pretende transmitir? 

Podemos arranjar mil e uma desculpas para isto, mas lá que é uma situação incompreensível lá isso é. 

Rui Canas Gaspar
2019-agosto-06
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sábado, 3 de agosto de 2019


Saudades de uma menina setubalense 

A senhora caminhava lentamente pela rua, olhando tudo o que a rodeava, parando de vez em quando para assim melhor apreciar um ou outro pormenor.
Esta setubalense nascera ali na “azinhaga do Quileu” e por aqueles terrenos por asfaltar brincou, saltou, correu e subiu vezes sem conta ao moinho do D. António para dali ver chegar os barcos dos varinos. 

Se o barco do seu avô, o “Quileu”, viesse com gaivotas esvoaçando na popa, era sinal de alegria, vinha aí peixe fresco!… 

Ao longo dos anos a antiga azinhaga transformou-se em rua, tal como a menina se transformou em mulher, velhas casas foram sendo recuperadas porém, curiosamente, ainda ali está viva e de boa saúde a taberna do “Quileu”. 

A senhora fez questão de visitar a “cova do Quileu” local de residência do seu avô e onde tantas vezes brincou. Naquele espaço que ela tão bem conhecia no lugar de um estreito e íngreme caminho, existe hoje uma ampla escadaria e ao invés das velhas casas abarracadas das suas memórias de há meio século temos hoje pequenas e agradáveis moradias. 

Era emoção a mais!... A voz embargou-se os olhos encheram-se de lágrimas e as saudades da sua meninice, fizeram-na rapidamente dar meia volta e retornar para junto de seu marido que a aguardava a confortável distância. 

Mais uma setubalense que partiu da sua terra natal para longe do belo rio azul e que agora ao regressar às suas raízes se surpreende com o que vê meio século passado, um curto período de tempo mas o suficiente para termos mudado não só em Setúbal em particular mas o país em geral que passou de cores a preto e branco para multicolor, ainda que algumas dessas cores estejam ainda um pouco desbotadas. 

Rui Canas Gaspar
2019-agosto-03
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terça-feira, 23 de julho de 2019


O meu primeiro dia na Feira de Santiago 

Passavam poucos minutos das 19,00 horas quando entrei no recinto da Feira de Santiago, o mais antigo e importante certame que se realiza a sul do Rio Tejo.
Dando uma rápida vista de olhos aos stands que se nos deparavam rumei quase diretamente para o Séninho, o bar que já entrou nos hábitos de muitos setubalenses que não perdem a oportunidade de ali se deliciarem com os saborosos lombinhos no pão quentinho e estaladiço. 

Embora as incomodativas melgas estivessem ausentes em seu lugar e sabedoras dos saborosos lombinhos este ano aquele espaço estava repleto de aborrecidas moscas que não nos deixavam comer descansados. 

O meu neto, que nunca conheceu a feira noutro lado que não ali, quase nem comeu entusiasmado com a espetativa de nos divertir-nos no espaço dos carroceis, carrinhos de choque, montanha russa, roda gigante, casa assombrada e tantos outros divertimentos que por ali abundam. 

Fomos os primeiros a entrar numa cabine da roda gigante e pouco depois ela punha-se em movimento levando-nos até ao ponto mais alto onde parou. Aproveitamos para observar  com algum pormenor a feira vista do alto, observamos o bairro da cooperativa das Manteigadas todo arrumadinho e até fotografamos o pôr-do-sol lá nas alturas. 

Estava eu a pensar  que a roda estava parada há demasiado tempo quando a mesma se colocou em movimento e ao chegar ao final desta sua primeira volta o funcionário abriu a porta e convidou-nos a sair e ir à bilheteira reaver o valor pago. É que segundo ele tinha acontecido um pequeno problema técnico. Ainda bem que conseguiram colocar aquela coisa a andar porque senão não havia crónica para ninguém. 

Sem qualquer susto lá fomos para o comboio fantasma e, depois o meu jovem companheiro fez questão de ir ainda para a montanha russa e para a casa assombrada, enquanto o avô se preparava para se deliciar com as farturas da Luizinha. 

Já de regresso a casa e antes de sair do agradável recinto ainda tivemos oportunidade de passar pelo stand das bolachas Piedade onde nos abastecemos.
Na saída fomos dar uma primeira olhadela aos cartazes de informação institucional e reparei que afinal o edifício da EDP sempre vai acolher os serviços da Câmara, tal como as instalações do Ima Parque serão igualmente adquiridas pela autarquia, onde pelos vistos a “massa” não falta. 

Despertou-me também a atenção e fez-me sorrir, a sugestiva foto patente no espaço da União de Freguesias, onde se podem ver dois cozinheiros a mexer num taxo cheio de massa, curiosamente esses mestres da culinária são nada mais nada menos que Rui Canas e Dores Meira, os presidentes da União de Freguesias e da Câmara Municipal. 

Se este apontamento fosse redigido pelo saudoso Fernando Pessa acredito que terminaria assim: “E esta hein?!...” 

Rui Canas Gaspar
2019-julho-22
troineiro.blogspot.com