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terça-feira, 28 de julho de 2020


Faz hoje 50 anos 

No dia 27 de julho de 1970, faz hoje 50 anos, era também segunda-feira e o dia apresentava-se igualmente luminoso não fosse o ar pesado que pairava sobre a família que em Lisboa olhava fixamente para o rapaz que ia  partir para a guerra. 

Ele estava prestes a embarcar no Ana Mafalda, um navio misto de passageiros e carga, rumo à Guiné, onde então se desenrolava uma das mais aguerridas frentes da Guerra Colonial. 

Subitamente uma notícia começou a correr no cais de embarque fazendo aflorar a esperança de que o barco não sairia do porto. Oliveira Salazar falecera! 

Foi “sol de pouca dura” pois o barco apitou, as amarras foram largadas e ele deixou Lisboa e fez-se ao mar rumo a Bissau onde dias depois atracou no cais do Pigiguiti. 

27 longos meses haveria de passar naquela quente terra africana, onde pela primeira vez conheci um hospital graças ao terrível paludismo que por pouco não acabou comigo. 

Foi ali, naquele espaço, quando desanimado e quase sem me poder mexer que perguntei a um jovem enfermeiro se os meus dias estavam a chegar ao fim, ao que este respondeu: “Estamos à espera de uma injeção que vem da Metrópole. Se chegar a tempo safas-te. Se não chegar lerpas!”. 

A injeção chegou a tempo e eu venci o jogo da vida. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2020-julho-27

sexta-feira, 20 de março de 2020


A história de uma velha imagem

O Moscatel de Setúbal foi colocado na mesa improvisada, forrada com uma tela de sinalização para aeronaves, onde fez companhia ao vinho do Porto e outras bebidas, algumas conservas e poucas iguarias que os familiares tinham feito chegar a Bijene, na Guiné, fronteira norte com o Senegal. 

Na ausência de pinheiro de Natal um ramo de mangueira, enfeitado com estrelas recortadas dos revestimentos dos maços de tabaco tentavam dar um ar natalício àquela noite onde um grupo de militares confraternizavam longe das suas famílias e de olhar atento para o escuro de onde poderia surgir um ataque dos guerrilheiros do PAIGC. 

Não por beber demais, mas pelas misturas feitas, o que comi e bebi acabou por sair e no dia seguinte estava de ressaca. Porém a fémea do mosquito anophellis já me tinha dado uma beijoca e o organismo mais fraco não resistiu ao paludismo (ou malária) que atacou em força. 

Uma semana depois, naquela zona inóspita não havia condições para tratar o doente e foi solicitado que uma avioneta militar me transportasse para o Hospital Principal em Bissau. 

A velha DO Dornier 27 do tempo da 2ª Guerra Mundial estava a fazer-se à pista de aterragem quando os guerrilheiros começaram a atacar, os camaradas pediam que eu corresse e me enfiasse no abrigo, mas mal podia com as botas e estava tão magro que era difícil acertarem neste alvo móvel. 

A avioneta não chegou a aterrar e só pouco depois retornou pousando o tempo suficiente para atirar para o solo umas sacas com correio e para eu entrar, levantando de imediato. 

Já no hospital a coisa ia de mal a pior e, quase sem forças e mais parecendo um esqueleto vaidoso perguntei ao enfermeiro se isto era para morrer ou não.  

Resposta pronta do rapaz: -Olha! estamos à espera de uma injeção que vem da metrópole. Se ela chegar a tempo safas-te, se não lerpas. 

Bem a injeção pelos vistos chegou a tempo, nem sei onde a espetaram porque era só pele e osso… 

Alguns dias depois tentei colocar um ar mais agradável e com um visual mais tipo chinês que português fotografaram-me vestido com o pijama do hospital e enviei a imagem para a minha mãe para que ela pensasse que estava numa qualquer colónia de férias. 

Hoje fui encontrar a fotografia que partilho aqui com os amigos, com a certeza de que como não “lerpei” vão continuar a ler as mais diferentes histórias contadas por quem já muito viveu e provavelmente ainda por cá ficará o tempo suficiente para contar mais e vocês para me aturar. 

Abreijos e fiquem em casa se puderem. 

Rui Canas Gaspar 

Troineiro.blogspot.com

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Faz hoje 45 anos!...

A meio da manhã de hoje o meu telemóvel tocou e do outro lado o meu amigo Ricardo Soromenho, de forma direta pergunta com ar de riso: “Sabes que dia é hoje?” (de vez em quando ele vem com o mesmo tipo de pergunta, referente a uma qualquer efeméride).

Segunda feira, dia 26 ou 27, sei lá?!... 27 confirma o Ricardo que logo acrescenta: “Faz hoje 45 anos que morreu o Salazar”.

Áh! Já percebi, queres tu dizer que faz hoje 45 anos que embarquei para a guerra de África, para a Guiné!...

Isso mesmo! Confirma o Ricardo.

De facto naquele dia 27 de julho de 1970 o navio de carga e passageiros “Ana Mafalda” estava acostado ao cais da Rocha do Conde de Óbidos e os meus pais que tinham ouvido no rádio a notícia da morte do ditador português, mantinham a secreta esperança que o navio não partisse de Lisboa.

Mas não, para desencanto dos meus pais o barco ia mesmo partir levando o seu filho mais velho para terras longínquas que se encontravam em guerra e de onde muitos jovens não regressariam.

Na minha memória guardo a imagem do meu pai, com metade da idade que hoje tem, olhando fixamente aquele barco, sem dizer palavra mas adivinhando-se que se lhe fosse possível dar um valente murro e afundá-lo de vez, certamente fá-lo-ia.

A ditadura manteve-se mesmo após a morte de Salazar e lá longe nas matas de Angola, Moçambique e Guiné os combates entre o Exército Português e os Movimentos Independentistas continuaram tal como continuaram a morrer milhares de jovens de ambos os lados.

No primaveril dia 25 de abril de 1974, um punhado de militares, onde predominavam aqueles com patente de capitão, levaram de vencida uma revolução que acabaria por colocar fim à Guerra Colonial e instaurar o regime democrático em Portugal.

Alguns meses antes eu tinha chegado a Portugal, depois de 26 meses de Guiné, sem ter disparado um tiro, sem ter recebido um tiro, mas quase, quase, a juntar as botas devido a um terrível ataque de paludismo que me deixou às portas da morte.

Outros jovens, alguns setubalenses, vieram daquela guerra com estilhaços no corpo, outros não viriam de lá vivos, como foi o caso do meu amigo Fernando, troineiro, morador na Fonte Nova, que deu a sua vida numa guerra estúpida e sem sentido, como aliás o são todas as guerras.

Rui Canas Gaspar
2015-julho-27

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Como recordo tão bem aquelas festas populares de São Pedro no Montijo

As luzes multicolores alegravam ainda mais os vistosos enfeites com que o Montijo se apresentava engalanado. Uma forma de honrar festivamente São Pedro, o seu patrono.

Era difícil naquela noite de 1970 transitar por aquelas ruas repletas de pessoas denotando alegria e boa disposição e o nosso grupo de jovens, rapazes e moças, idos de Setúbal ajudava ao bom ambiente com a alegria própria das nossas verdes duas dezenas de Primaveras.

Estava já com quase um ano de serviço militar obrigatório cumprido e prestava serviço no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, aquartelado na Trafaria, encontrando-me naquele momento a usufruir de um período de folga.

Naquele dia festivo tinha recebido uma nota do aquartelamento para me apresentar no mesmo e, porque a minha especialidade militar fosse a primeira do seu tipo pensei que iria ser transferido para o Quartel-General da Região Militar de Lisboa, dado que os meus camaradas de curso já tinham sido mobilizados uns para Angola e outros para Moçambique.

No Montijo a festa estava animada e nós também, quando no meio da multidão encontro o Gomes, um camarada que por coincidência se encontrava naquela altura de serviço na secretaria do BRT. Logo tratei de lhe perguntar o que é me queriam, ou melhor, para onde me iriam transferir.

O Gomes, um rapaz alto e forte, com ar bonacheirão, tentou dar a volta à conversa, dizendo para me divertir e no dia seguinte logo trataria do assunto referente à notificação. Ora, a resposta dele cheirou-me a esturro e perante a minha insistência acabou por dizer que me encontrava mobilizado para o pior cenário da guerra colonial, a Guiné.

A festa continuou no Montijo o nosso grupo de jovens setubalenses continuou a divertir-se enquanto Oliveira Salazar o ditador que com mão de ferro governara Portugal sofria com as dores motivadas pela queda de uma cadeira.
Apresentei-me na minha Unidade militar e foram-me concedidos mais uns dias de licença.

 No dia 26 de julho, o navio misto “Ana Mafalda”, transportaria não só mercadorias mas também duas centenas de jovens para a guerra na Guiné e, quando o barco estava prestes a partir veio a notícia de que Salazar teria falecido.

A esperança de que o barco não saísse esfumou-se quando o mesmo largou amarras do cais da Rocha do Conde de Óbidos, transportando-me para uma aventura que naquelas quentes e longínquas terras africanas se arrastaria por longos 27 meses.

Nunca mais pude esquecer os festões, balões e as luzes multicoloridas daquelas populares festas de São Pedro, no Montijo e ainda hoje recordo o rosto simpático do meu camarada Gomes, numa imagem que me ficou gravada na memória desde que me deu aquela pouco agradável notícia, já lá vão 45 anos.

Rui Canas Gaspar



2015-junho-25

sábado, 7 de março de 2015

A guerra psicológica na Guiné

Ao encontrar um curioso panfleto, entre as minhas memórias da Guerra Colonial, veio-me à mente aquele momento vivido na distante Guiné, enquanto jovem militar ao serviço do Exército Português, no serviço de criptologia.

Naturalmente não partilhei esta experiencia nas crónicas da Guiné que então enviei para o jornal “O Setubalense” por motivos óbvios.

Lá bem longe, no meio do nada, em Bijene, na fronteira norte, onde uma pantanosa bolanha separa o território da Guiné com o Senegal, naquela noite escura no início dos anos setenta do século passado ouve-se o ruido de motor de um avião.

O temor apossou-se de alguns de nós, dado que não tínhamos recebido qualquer mensagem que indicasse a passagem de aeronaves, muito menos em voo noturno.

De facto, escutamos o ruido do motor, mas o avião navegava, sem qualquer luz, pelo que não conseguimos distinguir a sua identificação, verificando sim a bem definida direção da Guiné para o sul do Senegal, região do Casamançe, onde grupos guerrilheiros do P.A.I.G.C. se movimentavam com natural liberdade de movimentos.

Pouco tempo depois alguém trouxe-nos um impresso escrito em crioulo, onde os naturais do Casamançe se insurgiam contra o P.A.I.G.C., panfleto que tinha sido encontrado algures na mata daquele território vizinho.

É claro que o avião desconhecido certamente teve alguma coisa a ver com este e com muitos outros impressos iguais disseminados pelo território do Casamance.

Alguém mesmo sem utilizar o poder de fogo das poderosas armas ao dispor do Exército Português combatia o adversário utilizando armas diferentes, chamava-se a isto “guerra psicológica”.

Os anos passaram, a tecnologia evoluiu, mas hoje tal como ontem os métodos não mudaram muito e se não aparece por aqui um avião desconhecido a enviar panfletos propagandísticos, outros meios encontram-se ao dispor de várias forças para disseminar a mentira ou a notícia de conveniência.

Rui Canas Gaspar
2015-março-07

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domingo, 28 de dezembro de 2014

E, como manda a tradição um Bom 2015

As estações de rádio davam conta naquele bonito dia de Verão, 27 de julho de 1970, que António Oliveira Salazar acabava de falecer, depois de um acidente doméstico que o levara a cair de uma cadeira de lona, quando gozava um período de férias no Forte Santo António no Estoril.

O acidente teria ocorrido em 3 de agosto de 1968 sem nunca se ter sabido se foi por descuido, desequilíbrio ou debilidade da cadeira, o facto é que o Presidente do Conselho de Ministros, ao cair bateu com a cabeça no pavimento de pedra e nunca mais recuperou até à sua morte, dois anos depois.

Naquele tempo, depois do acidente do ditador eram muitos os que pensavam que o país iria finalmente mudar de rumo e que a guerra que Portugal mantinha com os movimentos de libertação nas suas colónias de Angola, Moçambique e Guiné iria acabar.

Mas não, um ano depois, em 1969, eu e mais uns milhares de jovens portugueses fomos incorporados no serviço militar obrigatório. E passado um ano, precisamente no dia 27 de julho de 1970, enquanto uns choravam e outros abriam garrafas de espumante, eu estava num cais em Lisboa, sem saber se o navio misto de carga e passageiros, “Ana Mafalda” construído pela CUF (Companhia União Fabril) em Lisboa, no ano de 1951, partiria ou não rumo à Guiné.

Naquele cais a despedir-se dos jovens militares estavam alguns familiares, não muitos, porquanto éramos poucos os que íamos em rendição individual de outros camaradas que tinham acabado o seu tempo de comissão militar.

Recordo o porte elegante de minha mãe, de lágrima ao canto do olho, o rosto fechado e tenso do meu pai, velho lobo-do-mar, olhando fixamente para aquele navio que estava prestes a levar o seu filho para um teatro de guerra de onde não saberia se voltaria vivo. Até porque estava na nossa memória recente o falecimento de outros jovens setubalenses naquelas guerras…

Havia a esperança de que com o anúncio da morte do ditador o barco não largasse amarras daquele cais, mas não, o barco partiu, Salazar foi sepultado, a guerra acabaria somente quatro anos depois graças à revolução de 25 de abril de 1974.

Quanto a mim, fui, vim e ainda por cá ando depois de ter vivido a experiencia militar, uma de entre muitas outras que tenho vivenciado nesta passagem por este nosso belo planeta azul, prestes a completar mais uma volta completa em torno do astro rei.

E, porque ainda por cá andamos nesta jornada terrena, desejo como manda a tradição, um Bom 2015, com ou sem passas de uva, vestindo ou não cuecas de cor azul, como igualmente manda, ou mandava, a tradição naqueles tempos em que o Salazar morreu.

Rui Canas Gaspar

2014-dezembro-28
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Era eu um jovem que tinha acabado poucos dias antes de cumprir o serviço militar obrigatório, servindo uma comissão militar de 27 meses na Guiné, quando escrevi para o jornal “O Setubalense”, o texto que abaixo reproduzo, publicado naquele jornal em 22 de dezembro de 1972.

Os anos passam mas as memórias ficam e, não passa um Natal sem que deixe de recordar aquela noite de consoada partilhada com os meus camaradas de armas no aquartelamento da pequena povoação de Bijene, vindo-me à mente aqueles que ainda hoje se encontram nestas circunstâncias num qualquer recanto do mundo.

 “ Repicam os sinos
Troam os canhões
É NATAL !
O céu azul-escuro, todo estrelado, convidava ao amor!

A quietude da noite, a brisa suave e quente abanava levemente as palmeiras e mangueiros. Como era diferente aquela noite de Natal!

Habituados como estávamos, a ter nesta quadra o tempo frio e chuvoso, aquela brisa agradável despertava em nós sentimentos diferentes. Éramos um punhado de jovens aquartelados numa pequena povoação algures na fronteira norte da Guiné.

Ensaiamos algumas canções natalícias, escutistas e populares, com os nossos camaradas. Decoramos as toscas mesas com telas de sinalização, fizemos estrelas com invólucros de maços de cigarros, colamos postais de “boas festas” e armamos uma árvore de natal, que não era pinheiro mas sim um mangueiro.

Sentimentos comuns nos uniam; a fraternidade, a solidão e a bela quadra festiva que estávamos vivendo.

Pouco antes da meia noite, começamos a preparar a ceia.  Garrafas de bebidas várias iam surgindo, iguarias próprias da quadra eram postas em comum. Oh! Como é belo viver em paz e ter este sentimento de fraternidade… Porém, para além de toda a beleza, de toda a paz aparente, os espíritos de todos estavam alerta e, de vez em quando, o olhar desviava-se para a cerca de arame farpado por detrás da qual estava o mato, a bolanha, o perigo.

Lá longe, a muitos milhares de quilómetros, festejava-se a festa da família, família à qual todos pertencíamos, e que naquele momento, naquelas longas horas, o nosso pensamento voava para o conforto do lar. O nosso corpo estava em África, mas os nossos corações estavam na Metrópole.

Na Metrópole, onde os sinos convidavam à oração de Natal, onde os cânticos belos convidavam as pessoas a serem boas (pelo menos nesse dia), e nós, naquela pequena povoação, sem sinos e sem cânticos a convidar ao amor, teimávamos em aliar aquela Santa Noite à Paz.

Meia-noite. Na Metrópole, repicavam os sinos. Os lares festejavam o Natal, o nascimento de Jesus, aquele que veio ao mundo para nos trazer a paz. Na terra sem sinos, onde nos encontrávamos, três potentes obuses abriam fogo.

As diabólicas “bocas do inferno” faziam ouvir a sua voz poderosa, arrasando com a sua força brutal, todos os meios de vida ao seu alcance.

E nós, mesquinhos e simultaneamente terríveis seres, cantando cânticos de paz e amor à mesma hora em que os sinos repicavam, fazíamos com que aquelas terríveis armas fizessem ouvir o seu estrondo medonho, a fim de permitirem que as nossas pobres gargantas cantassem em paz tão lindos cânticos de amor.

A noite de Natal findou. Aleluia! Jesus nasceu, e nós não fomos atacados. Estávamos vivos!

Aqui, na Metrópole, cantam os sinos! Todos cantamos, de uma forma ou de outra. A roda giratória não para; uns que vão outros que vêm, ficando no conforto do lar.

Pensando nos que lá estão, e que não ouvem os sinos, juntamos a nossa voz aos que, de todo o coração vos desejam Santo Natal.”

Rui Canas Gaspar
11-dezembro-2014

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