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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Um domingo festivo também em Setúbal

Naquele domingo dia 29 de maio de 1949, pelas 10 horas da manhã, uma caravana de cinco automóveis concentrava-se em Lisboa, junto ao Cais do Sodré, para fazer a travessia do Tejo.
A bordo vinham os mais altos governantes portugueses, o Presidente da República, Marechal Óscar Carmona e o Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar, acompanhado do seu Ministro das Obras Públicas e do Subsecretário da mesma pasta, para além de outras altas individualidades.
A comitiva deslocava-se para o Sul, tendo por objetivo a zona da pequena localidade alentejana de Santa Susana, no concelho de Alcácer do Sal, onde iria inaugurar a maior barragem até então construída em toda a Europa, com tecnologia, capital e mão-de-obra nacional.
A nova barragem que seria então designada por Barragem Salazar e anos mais tarde viria a mudar o nome para Pego do Altar destinava-se ao regadio e à produção de eletricidade.
As populações das diferentes localidades por onde passaria a caravana tinham sido avisadas e, por isso mesmo, podiam observar-se algumas janelas engalanadas com bonitas e vistosas colchas, como também se podiam ver ao longo do trajeto alguns magotes de populares que acenavam à passagem dos automóveis.
Em Setúbal, na Avenida e no Largo dos Combatentes da Grande Guerra cerca das 11,00 horas registou-se a primeira grande manifestação de regozijo devido à passagem pela sua terra de tão distintas individualidades e, por isso mesmo, acorreram àquele espaço a vereação municipal, acompanhada dos representantes de todas as coletividades sadinas e das crianças das escolas primárias locais, tal como muito povo, a fazer fé na noticia publicada pelo jornal “O SÉCULO” no dia seguinte.
Das janelas dos edifícios que ladeavam aquele espaço as senhoras atiravam flores e a banda de música do Orfanato Municipal, muito afinadinha, tocava “A Portuguesa”.
A caravana passou por aqui sem se deter a caminho do seu destino e o domingo teve novo tema de conversa em Setúbal, enquanto lá para sul, para as bandas de Alcácer do Sal a festa continuava com a inauguração de uma importante obra pública que viria a enriquecer a bacia hidrográfica do Sado.
2017-fevereiro-18

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Faz hoje 45 anos!...

A meio da manhã de hoje o meu telemóvel tocou e do outro lado o meu amigo Ricardo Soromenho, de forma direta pergunta com ar de riso: “Sabes que dia é hoje?” (de vez em quando ele vem com o mesmo tipo de pergunta, referente a uma qualquer efeméride).

Segunda feira, dia 26 ou 27, sei lá?!... 27 confirma o Ricardo que logo acrescenta: “Faz hoje 45 anos que morreu o Salazar”.

Áh! Já percebi, queres tu dizer que faz hoje 45 anos que embarquei para a guerra de África, para a Guiné!...

Isso mesmo! Confirma o Ricardo.

De facto naquele dia 27 de julho de 1970 o navio de carga e passageiros “Ana Mafalda” estava acostado ao cais da Rocha do Conde de Óbidos e os meus pais que tinham ouvido no rádio a notícia da morte do ditador português, mantinham a secreta esperança que o navio não partisse de Lisboa.

Mas não, para desencanto dos meus pais o barco ia mesmo partir levando o seu filho mais velho para terras longínquas que se encontravam em guerra e de onde muitos jovens não regressariam.

Na minha memória guardo a imagem do meu pai, com metade da idade que hoje tem, olhando fixamente aquele barco, sem dizer palavra mas adivinhando-se que se lhe fosse possível dar um valente murro e afundá-lo de vez, certamente fá-lo-ia.

A ditadura manteve-se mesmo após a morte de Salazar e lá longe nas matas de Angola, Moçambique e Guiné os combates entre o Exército Português e os Movimentos Independentistas continuaram tal como continuaram a morrer milhares de jovens de ambos os lados.

No primaveril dia 25 de abril de 1974, um punhado de militares, onde predominavam aqueles com patente de capitão, levaram de vencida uma revolução que acabaria por colocar fim à Guerra Colonial e instaurar o regime democrático em Portugal.

Alguns meses antes eu tinha chegado a Portugal, depois de 26 meses de Guiné, sem ter disparado um tiro, sem ter recebido um tiro, mas quase, quase, a juntar as botas devido a um terrível ataque de paludismo que me deixou às portas da morte.

Outros jovens, alguns setubalenses, vieram daquela guerra com estilhaços no corpo, outros não viriam de lá vivos, como foi o caso do meu amigo Fernando, troineiro, morador na Fonte Nova, que deu a sua vida numa guerra estúpida e sem sentido, como aliás o são todas as guerras.

Rui Canas Gaspar
2015-julho-27

www.troineiro.blogspot.com

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Como recordo tão bem aquelas festas populares de São Pedro no Montijo

As luzes multicolores alegravam ainda mais os vistosos enfeites com que o Montijo se apresentava engalanado. Uma forma de honrar festivamente São Pedro, o seu patrono.

Era difícil naquela noite de 1970 transitar por aquelas ruas repletas de pessoas denotando alegria e boa disposição e o nosso grupo de jovens, rapazes e moças, idos de Setúbal ajudava ao bom ambiente com a alegria própria das nossas verdes duas dezenas de Primaveras.

Estava já com quase um ano de serviço militar obrigatório cumprido e prestava serviço no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, aquartelado na Trafaria, encontrando-me naquele momento a usufruir de um período de folga.

Naquele dia festivo tinha recebido uma nota do aquartelamento para me apresentar no mesmo e, porque a minha especialidade militar fosse a primeira do seu tipo pensei que iria ser transferido para o Quartel-General da Região Militar de Lisboa, dado que os meus camaradas de curso já tinham sido mobilizados uns para Angola e outros para Moçambique.

No Montijo a festa estava animada e nós também, quando no meio da multidão encontro o Gomes, um camarada que por coincidência se encontrava naquela altura de serviço na secretaria do BRT. Logo tratei de lhe perguntar o que é me queriam, ou melhor, para onde me iriam transferir.

O Gomes, um rapaz alto e forte, com ar bonacheirão, tentou dar a volta à conversa, dizendo para me divertir e no dia seguinte logo trataria do assunto referente à notificação. Ora, a resposta dele cheirou-me a esturro e perante a minha insistência acabou por dizer que me encontrava mobilizado para o pior cenário da guerra colonial, a Guiné.

A festa continuou no Montijo o nosso grupo de jovens setubalenses continuou a divertir-se enquanto Oliveira Salazar o ditador que com mão de ferro governara Portugal sofria com as dores motivadas pela queda de uma cadeira.
Apresentei-me na minha Unidade militar e foram-me concedidos mais uns dias de licença.

 No dia 26 de julho, o navio misto “Ana Mafalda”, transportaria não só mercadorias mas também duas centenas de jovens para a guerra na Guiné e, quando o barco estava prestes a partir veio a notícia de que Salazar teria falecido.

A esperança de que o barco não saísse esfumou-se quando o mesmo largou amarras do cais da Rocha do Conde de Óbidos, transportando-me para uma aventura que naquelas quentes e longínquas terras africanas se arrastaria por longos 27 meses.

Nunca mais pude esquecer os festões, balões e as luzes multicoloridas daquelas populares festas de São Pedro, no Montijo e ainda hoje recordo o rosto simpático do meu camarada Gomes, numa imagem que me ficou gravada na memória desde que me deu aquela pouco agradável notícia, já lá vão 45 anos.

Rui Canas Gaspar



2015-junho-25

sábado, 25 de abril de 2015

Lembro-me…

Lembro-me de que em determinado dia, nos finais de Abril, em meados dos anos sessenta, aparecer pelo chão nas ruas da baixa de Setúbal panfletos contra o governo totalitário liderado por Salazar, incentivando o povo a manifestar-se contra o regime.

Lembro-me que nesse dia, quando as lojas da baixa abriram a notícia começou a correr célere entre comerciantes e empregados das muitas casas comerciais que naquela noite a temível polícia política PIDE/DGS teria preso alguns conhecidos setubalenses, militantes comunistas, entre eles o dono  dos Armazéns Papeis do Sado e um senhor bem conhecido na Fonte Nova, onde naquele emblemático largo exercia as funções de alfaiate.

Lembro-me da enorme preocupação de minha mãe quando lhe contei estas novidades e lhe disse que tinha apanhado um daqueles panfletos no chão e que o tinha lido também.

Lembro-me de ter visto, naquele período de má memória, umas centenas de pessoas que se manifestaram pelas ruas da cidade, com a polícia correndo para os prender e, quando chegaram frente ao edifício da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida Luísa Todi, arremessando pedras, partiram alguns dos vidros daquele edifício, ele também símbolo do Estado Novo.

Lembro-me de  alguns setubalenses escutarem às escondidas as notícias da Rádio Moscovo e de ouvir também da sua preocupação não fosse aparecer  um  carro com grandes antenas que detetaria a sua posição e então a polícia política tratava de intervir para os prender. Dizia-se então que um copo de água junto ao aparelho receptor originaria que o radiogoniómetro não conseguiria interceptar.

Lembro-me da preocupação de mães, esposas e namoradas, pelo facto dos seus ente queridos, tão jovens, serem mobilizados para as frentes de combate em África, temendo que alguns de nunca de lá viessem. E foram muitos os que lá faleceriam.

Lembro-me de outros que temendo a morte naquelas quentes terras de África preferiam cumprir o serviço militar obrigatório, servindo o dobro do tempo, nos gélidos mares da Terra Nova, pescando o “fiel amigo”, o bacalhau. Muitos desses jovens pescadores encontraram sepultura no fundo daqueles terríveis mares.

Lembro-me de ter sido obrigatoriamente incorporado no exército e porque a minha especialidade militar estivesse ligado aos serviços de criptologia, tenha sido obrigado a preencher uma ficha com os mais diversos dados individuais para poder ser alvo de observação pela PIDE/DGS.

Lembro-me de que quando cheguei da Guiné, dias depois e estando já a trabalhar na SETUBAUTO, ter recebido a visita de dois agentes da PIDE/DGS que trataram de mesmo ali procederem a um interrogatório, pelo simples facto de ter tido uma conversa com os colegas comentado uma notícia política, e, um deles ter passado a informação para aquela polícia.

Lembro-me de tanta coisa!… Das condições miseráveis em que a maior parte da população vivia. Nos bairros de lata que envolviam a nossa cidade, na ausência de condições sanitárias, nas dificuldades diversas do nosso dia-a-dia, que só quem não viveu nesse tempo não saberá dar o valor às conquistas que o nosso país conseguiu nestes últimos 41 anos.

Por tudo isto e mais alguma coisa, e sendo crítico de muitas das ações governativas nestes tempos de democracia, continuo a considerar que mais vale uma má democracia do que uma boa ditadura, e por isso mesmo dou vivas ao dia 25 de abril de 1974 que hoje se comemora.

Rui Canas Gaspar
2015-abril-25

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sábado, 14 de março de 2015

O comboio alemão ao largo da costa setubalense

Estávamos no ano de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial.

O vapor tinha saído do porto de Setúbal abastecido da lenha necessária para que a sua caldeira produzisse a energia suficiente para o fazer movimentar durante o período da faina.

Naquele dia não foi necessário recorrer ao apoio do buque que, carregado, costumava segui-lo para o poder reabastecer, quando se tratava de maiores distâncias ou mais tempo passado no mar.

Era já noite e o Francisco, jovem pescador, estava no seu turno de vigia a bordo do “Alentejano” vapor setubalense da pesca do cerco que se encontrava fundeado junto à Praia da Baleeira, ali para os lados do Cabo Espichel, em Sesimbra, um local bem abrigado graças às altas encostas escarpadas.

Subitamente, o jovem reparou que a poucos metros do vapor setubalense uma ténue luz vermelha se deslocava sobre a água, de norte para sul, podendo observar também uma espécie de braço que dela saía.

Imediatamente deu o alarme aos seus camaradas que tiveram oportunidade de constatar tratar-se de um submarino, que navegava submerso,
Naqueles tempos conturbados esta era a arma mais temida pelos homens do mar, os seus torpedos foram responsáveis pelo afundamento de milhares de navios e por muitos mais milhares de mortos.

Poucos minutos depois de ter passado o submarino, surgem as silhuetas de vários navios de guerra que, ladeando, protegiam um enorme paquete da marinha mercante.

O comboio alemão passou bem perto do vapor pesqueiro setubalense sem incomodar e lá seguiu a sua rota, para sul.

Nessa altura os exércitos nazis alemães, aliados aos fascistas italianos ocupavam vastos territórios do Norte de África, combatendo os exércitos aliados e, certamente, aquele importante comboio levaria reforços para o teatro de operações, a conhecida “Guerra do Deserto” que ocorreu entre junho de 1940 e maio de 1943.

Salazar, o governante português, conseguiu manter a neutralidade do país que mesmo sem se envolver no conflito via o seu espaço aéreo e marítimo ser utilizados pelas diferentes forças.

Era o tempo do volfrâmio, um minério extraído de uma centena de minas portugueses, minério destinado ao fabrico de armas e munições, cujo preço subiu em flecha e, pago pelos alemães em ouro, canalizado para o nosso país via Suíça.

Também os pescadores setubalenses chamaram a esse período o do volfrâmio, porquanto o preço da sardinha subiu bastante, peixe destinado às fábricas de conservas que o exportavam igualmente para os países em guerra.

O comboio marítimo passou, o conflito bélico terminou, as minas encerraram e as fábricas conserveiras com o tempo também desapareceram, ficou a recordação de um velho pescador de Troino que hoje partilhou mais uma das suas ricas memórias de um passado recente e seguramente já pouco conhecido.

Rui Canas Gaspar
2015-março-14

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domingo, 28 de dezembro de 2014

E, como manda a tradição um Bom 2015

As estações de rádio davam conta naquele bonito dia de Verão, 27 de julho de 1970, que António Oliveira Salazar acabava de falecer, depois de um acidente doméstico que o levara a cair de uma cadeira de lona, quando gozava um período de férias no Forte Santo António no Estoril.

O acidente teria ocorrido em 3 de agosto de 1968 sem nunca se ter sabido se foi por descuido, desequilíbrio ou debilidade da cadeira, o facto é que o Presidente do Conselho de Ministros, ao cair bateu com a cabeça no pavimento de pedra e nunca mais recuperou até à sua morte, dois anos depois.

Naquele tempo, depois do acidente do ditador eram muitos os que pensavam que o país iria finalmente mudar de rumo e que a guerra que Portugal mantinha com os movimentos de libertação nas suas colónias de Angola, Moçambique e Guiné iria acabar.

Mas não, um ano depois, em 1969, eu e mais uns milhares de jovens portugueses fomos incorporados no serviço militar obrigatório. E passado um ano, precisamente no dia 27 de julho de 1970, enquanto uns choravam e outros abriam garrafas de espumante, eu estava num cais em Lisboa, sem saber se o navio misto de carga e passageiros, “Ana Mafalda” construído pela CUF (Companhia União Fabril) em Lisboa, no ano de 1951, partiria ou não rumo à Guiné.

Naquele cais a despedir-se dos jovens militares estavam alguns familiares, não muitos, porquanto éramos poucos os que íamos em rendição individual de outros camaradas que tinham acabado o seu tempo de comissão militar.

Recordo o porte elegante de minha mãe, de lágrima ao canto do olho, o rosto fechado e tenso do meu pai, velho lobo-do-mar, olhando fixamente para aquele navio que estava prestes a levar o seu filho para um teatro de guerra de onde não saberia se voltaria vivo. Até porque estava na nossa memória recente o falecimento de outros jovens setubalenses naquelas guerras…

Havia a esperança de que com o anúncio da morte do ditador o barco não largasse amarras daquele cais, mas não, o barco partiu, Salazar foi sepultado, a guerra acabaria somente quatro anos depois graças à revolução de 25 de abril de 1974.

Quanto a mim, fui, vim e ainda por cá ando depois de ter vivido a experiencia militar, uma de entre muitas outras que tenho vivenciado nesta passagem por este nosso belo planeta azul, prestes a completar mais uma volta completa em torno do astro rei.

E, porque ainda por cá andamos nesta jornada terrena, desejo como manda a tradição, um Bom 2015, com ou sem passas de uva, vestindo ou não cuecas de cor azul, como igualmente manda, ou mandava, a tradição naqueles tempos em que o Salazar morreu.

Rui Canas Gaspar

2014-dezembro-28
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