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domingo, 15 de maio de 2016

O “Coisas de Setúbal” é o “Café Central” dos tempos modernos?

Nos finais dos anos 60 tínhamos em Setúbal alguns cafés muito frequentados e de entre eles um dos mais populares e bem conhecido era o Café Central, localizado na Praça do Bocage.

Era ali que se reuniam os mais diferentes grupos de amigos, com os mais diversos interesses e, era também ali, que alguns outros vinham escutar o que por lá se comentava, com os mais díspares objetivos. Alguns até com a missão de passarem a informação para a temível polícia política, de má memória, a PIDE/DGS.

Um desses agentes da polícia política que espiava o conhecido cantor José Afonso teria emitido até a seguinte nota informativa: “Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de “jovens”, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio.”

No “Central” falava-se sobretudo das coisas de Setúbal, daquilo que preocupava os setubalenses, daquilo que os alegrava e do que cada um dos intervenientes nas discussões, entre amigos, preconizava para a nossa terra.

Gosto de comparar o grupo “Coisas de Setúbal” com aquele conhecido café que durante muitos anos frequentei e onde muitas sugestões ali produzidas foram levadas à prática quando muitos dos setubalenses que hoje são membros do “Coisas de Setúbal” eram jovens cheios de vigor e de sonhos, uns realizados, outros nem por isso.

Também o “Coisas de Setúbal” é um entre os diversos grupos organizados no facebook, provavelmente será um dos que mais gente agrega e onde a discussão livre e saudável é uma característica dominante.

Embora já não estejamos no “tempo da outra senhora” também se nota que aqui vêm alguns elementos “cuscar” o que se comenta para levarem a informação aos seus destinatários.

É um facto que também graças ao que aqui se tem comentado que algumas coisas que não estavam bem na nossa cidade já foram alteradas, sem que isso servisse de alarde para o grupo ou seus promotores.

Gosto de pensar que todos os membros deste grupo amam Setúbal e querem o melhor para a sua terra de nascimento, de acolhimento ou de simpatia e por isso partilham como podem e como sabem, geralmente de forma educada e ordeira, por isso também gosto de comparar este grupo ao saudoso “Café Central” onde tantos de nós guardamos ternas recordações.

Rui Canas Gaspar
2016-maio-15

www.troineiro.blogspot.com

sábado, 25 de abril de 2015

Lembro-me…

Lembro-me de que em determinado dia, nos finais de Abril, em meados dos anos sessenta, aparecer pelo chão nas ruas da baixa de Setúbal panfletos contra o governo totalitário liderado por Salazar, incentivando o povo a manifestar-se contra o regime.

Lembro-me que nesse dia, quando as lojas da baixa abriram a notícia começou a correr célere entre comerciantes e empregados das muitas casas comerciais que naquela noite a temível polícia política PIDE/DGS teria preso alguns conhecidos setubalenses, militantes comunistas, entre eles o dono  dos Armazéns Papeis do Sado e um senhor bem conhecido na Fonte Nova, onde naquele emblemático largo exercia as funções de alfaiate.

Lembro-me da enorme preocupação de minha mãe quando lhe contei estas novidades e lhe disse que tinha apanhado um daqueles panfletos no chão e que o tinha lido também.

Lembro-me de ter visto, naquele período de má memória, umas centenas de pessoas que se manifestaram pelas ruas da cidade, com a polícia correndo para os prender e, quando chegaram frente ao edifício da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida Luísa Todi, arremessando pedras, partiram alguns dos vidros daquele edifício, ele também símbolo do Estado Novo.

Lembro-me de  alguns setubalenses escutarem às escondidas as notícias da Rádio Moscovo e de ouvir também da sua preocupação não fosse aparecer  um  carro com grandes antenas que detetaria a sua posição e então a polícia política tratava de intervir para os prender. Dizia-se então que um copo de água junto ao aparelho receptor originaria que o radiogoniómetro não conseguiria interceptar.

Lembro-me da preocupação de mães, esposas e namoradas, pelo facto dos seus ente queridos, tão jovens, serem mobilizados para as frentes de combate em África, temendo que alguns de nunca de lá viessem. E foram muitos os que lá faleceriam.

Lembro-me de outros que temendo a morte naquelas quentes terras de África preferiam cumprir o serviço militar obrigatório, servindo o dobro do tempo, nos gélidos mares da Terra Nova, pescando o “fiel amigo”, o bacalhau. Muitos desses jovens pescadores encontraram sepultura no fundo daqueles terríveis mares.

Lembro-me de ter sido obrigatoriamente incorporado no exército e porque a minha especialidade militar estivesse ligado aos serviços de criptologia, tenha sido obrigado a preencher uma ficha com os mais diversos dados individuais para poder ser alvo de observação pela PIDE/DGS.

Lembro-me de que quando cheguei da Guiné, dias depois e estando já a trabalhar na SETUBAUTO, ter recebido a visita de dois agentes da PIDE/DGS que trataram de mesmo ali procederem a um interrogatório, pelo simples facto de ter tido uma conversa com os colegas comentado uma notícia política, e, um deles ter passado a informação para aquela polícia.

Lembro-me de tanta coisa!… Das condições miseráveis em que a maior parte da população vivia. Nos bairros de lata que envolviam a nossa cidade, na ausência de condições sanitárias, nas dificuldades diversas do nosso dia-a-dia, que só quem não viveu nesse tempo não saberá dar o valor às conquistas que o nosso país conseguiu nestes últimos 41 anos.

Por tudo isto e mais alguma coisa, e sendo crítico de muitas das ações governativas nestes tempos de democracia, continuo a considerar que mais vale uma má democracia do que uma boa ditadura, e por isso mesmo dou vivas ao dia 25 de abril de 1974 que hoje se comemora.

Rui Canas Gaspar
2015-abril-25

www.troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Quem quer comprar as instalações da ex-PIDE/DGS de Setúbal?

Ao passar por uma das ruas do Bairro Salgado, em Setúbal, reparei numa moradia com a placa de uma agência imobiliária dando conta que a mesma estaria para venda. Nada de especial, não fosse uma outra pequena placa que ainda por lá ostenta dando conta de que ali teriam funcionado os serviços da Autoridade Florestal Nacional do Ministério do Agricultura e do Mar.

Porém, até à revolução de 25 de abril de 1974 uma outra placa, mais sinistra, podia ver-se afixada naquelas instalações, a da PIDE/DGS a temida polícia política do Estado Novo.

Ao olhar para aquele edifício o meu pensamento rapidamente recuou no tempo e veio-me à mente aquele dia, quando cumpria serviço militar em Leiria, antes de concluir a especialidade que me permitia aceder a informação privilegiada, ter sido obrigado, tal como todos os camaradas de curso, a preencher a própria ficha com informações pessoais destinada à tal polícia política, de má memória.

Cerca de três anos depois de ter preenchido essa ficha para a PIDE/DGS e já depois de ter cumprido o serviço militar, primeiro no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, na Trafaria e, depois do Quartel-General em Bissau, regressei à vida civil e retomei o meu antigo posto de trabalho na secção de vendas da Setubauto, antigo concessionário Ford em Setúbal.

E, foi aí, no final de 1972 ou início de 1973, numa, conversa casual sobre a atualidade, a propósito de umas bombas que teriam deflagrado por aqueles dias, que partilhei com os colegas presentes a informação de que teria sido determinado movimento revolucionário que as teria colocado.

Esta informação ter-me-ia chegado à mão por intermédio de um panfleto informativo enviado para a minha residência, por um anónimo, que a fez chegar por correio, em envelope timbrado do jornal EXPRESSO.

No dia seguinte a ter havido esta conversa entre colegas da mesma empresa, o telefone interno tocou e um colega pedia-me que me dirigisse ao salão de exposição automóvel onde dois senhores queriam falar comigo.

E, foi nessa altura, que pela primeira vez tomei contacto direto com dois agentes da PIDE/DGS os quais sem perderem muito tempo logo ali me interrogaram sobre a conversa que tinha tido no dia anterior e sobre os tais impressos que teria recebido, tentando que lhes indicasse a proveniência. Coisa que eu não sabia, como então declarei.

O assunto aparentemente morreu por ali, e antes daqueles agentes se irem embora não deixaram de fazer a recomendação de eu deveria ter cuidado com as companhias e, caso recebesse mais alguns daqueles panfletos informativos que lhos entregasse.

Bem, a partir daquele dia e até ao restante tempo que estive empregado na Setubauto tive o máximo de cuidado com o tipo de conversas com os colegas e, embora continuando a receber alguma informação revolucionária, nunca mais falei no assunto com eles.

Faltaria pouco tempo para que na primaveril manhã de 25 de abril de 1974 um punhado de jovens militares proporcionasse a oportunidade ao povo português de se exprimir livremente, sem receio de algum dos seus “amigos” fazer passar para a polícia política o teor de qualquer casual conversa.

Para os que não viveram esses anos de ditadura, gostaria de acrescentar que um inofensivo texto como este seria o suficiente para causar problemas ao seu autor, para além de ser censurado pelo Regime vigente.

Passados tantos anos, este episódio continua gravado na minha memória, pelo que não deixo de ter para mim, que mal, por mal, mais vale uma má democracia do que uma boa ditadura. Pelo menos agora exprimimo-nos livremente, às vezes até para dizer asneiras.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-01

www.troineiro.blogspot.com