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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019


“Está ali um burro à venda por um vintém mas a minha mãe não tem!...” 

Este é um ditado popular que me habituei a escutar desde menino e ao que parece não se aplica à nossa Câmara Municipal de Setúbal que vai mesmo fazer a compra do IMA PARK por 4,4 milhões de euros. 

Sou a favor do desenvolvimento, do investimento e  contra o imobilismo e o faz de conta. O que acontece é que neste caso, a concretizar-se, não se vai investir, vai-se gastar o que é coisa bem diferente, pior um pouco, quando se sabe que o que se vai ter de despender  não se tem e vamos pedir emprestado. 

Seria de todo desejável, atendendo ao volume do negócio (porque seremos nós os setubalenses a pagar) que fosse minimamente explicado a bondade do mesmo e a sua premente necessidade. 

Sabemos que a uma compra imobiliária deste tipo se vai juntar mais uns euritos aos anunciados 4,4 milhões que rapidamente subirão para mais de meia dúzia e também sabemos que a poupança de 15 mil x 12 dá apenas 180 mil por ano, valor que se paga pelo arrendamento do espaço do mercado abastecedor. 

Pela minha parte, enquanto setubalense nada terei a obstar contra o negócio desde que seja de facto um investimento e me demonstrem que é rentável, podendo como tal assumir o risco inerente a um qualquer negócio. 

Agora se vão fazer uma despesa desta monta e não explicam a sua hipotética mais-valia começo a ficar preocupado,  pois com investimentos prioritários a fazer, com manutenção de espaços cada vez maiores, com dívidas por saldar, julgo que não haverá dinheiro que chegue por mais IMI que se cobre e por mais espaços de estacionamento tarifados que se criem. 

Expliquem-se meus amigos autarcas, demonstrem que vamos de facto fazer um bom negócio e que se trata de um investimento proveitoso e não de uma despesa  que de momento até não é assim tão necessária, embora vejamos que está ali o tal burro à venda por um vintém, só que a minha mãe não tem! 

Rui Canas Gaspar
2019-fevereiro-07
Troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Quem quer comprar as instalações da ex-PIDE/DGS de Setúbal?

Ao passar por uma das ruas do Bairro Salgado, em Setúbal, reparei numa moradia com a placa de uma agência imobiliária dando conta que a mesma estaria para venda. Nada de especial, não fosse uma outra pequena placa que ainda por lá ostenta dando conta de que ali teriam funcionado os serviços da Autoridade Florestal Nacional do Ministério do Agricultura e do Mar.

Porém, até à revolução de 25 de abril de 1974 uma outra placa, mais sinistra, podia ver-se afixada naquelas instalações, a da PIDE/DGS a temida polícia política do Estado Novo.

Ao olhar para aquele edifício o meu pensamento rapidamente recuou no tempo e veio-me à mente aquele dia, quando cumpria serviço militar em Leiria, antes de concluir a especialidade que me permitia aceder a informação privilegiada, ter sido obrigado, tal como todos os camaradas de curso, a preencher a própria ficha com informações pessoais destinada à tal polícia política, de má memória.

Cerca de três anos depois de ter preenchido essa ficha para a PIDE/DGS e já depois de ter cumprido o serviço militar, primeiro no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, na Trafaria e, depois do Quartel-General em Bissau, regressei à vida civil e retomei o meu antigo posto de trabalho na secção de vendas da Setubauto, antigo concessionário Ford em Setúbal.

E, foi aí, no final de 1972 ou início de 1973, numa, conversa casual sobre a atualidade, a propósito de umas bombas que teriam deflagrado por aqueles dias, que partilhei com os colegas presentes a informação de que teria sido determinado movimento revolucionário que as teria colocado.

Esta informação ter-me-ia chegado à mão por intermédio de um panfleto informativo enviado para a minha residência, por um anónimo, que a fez chegar por correio, em envelope timbrado do jornal EXPRESSO.

No dia seguinte a ter havido esta conversa entre colegas da mesma empresa, o telefone interno tocou e um colega pedia-me que me dirigisse ao salão de exposição automóvel onde dois senhores queriam falar comigo.

E, foi nessa altura, que pela primeira vez tomei contacto direto com dois agentes da PIDE/DGS os quais sem perderem muito tempo logo ali me interrogaram sobre a conversa que tinha tido no dia anterior e sobre os tais impressos que teria recebido, tentando que lhes indicasse a proveniência. Coisa que eu não sabia, como então declarei.

O assunto aparentemente morreu por ali, e antes daqueles agentes se irem embora não deixaram de fazer a recomendação de eu deveria ter cuidado com as companhias e, caso recebesse mais alguns daqueles panfletos informativos que lhos entregasse.

Bem, a partir daquele dia e até ao restante tempo que estive empregado na Setubauto tive o máximo de cuidado com o tipo de conversas com os colegas e, embora continuando a receber alguma informação revolucionária, nunca mais falei no assunto com eles.

Faltaria pouco tempo para que na primaveril manhã de 25 de abril de 1974 um punhado de jovens militares proporcionasse a oportunidade ao povo português de se exprimir livremente, sem receio de algum dos seus “amigos” fazer passar para a polícia política o teor de qualquer casual conversa.

Para os que não viveram esses anos de ditadura, gostaria de acrescentar que um inofensivo texto como este seria o suficiente para causar problemas ao seu autor, para além de ser censurado pelo Regime vigente.

Passados tantos anos, este episódio continua gravado na minha memória, pelo que não deixo de ter para mim, que mal, por mal, mais vale uma má democracia do que uma boa ditadura. Pelo menos agora exprimimo-nos livremente, às vezes até para dizer asneiras.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-01

www.troineiro.blogspot.com