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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Uma das últimas tabernas setubalenses 

Há 42 anos que D. Fernanda está a explorar aquela vetusta taberna localizada na Rua Fran Pacheco, a antiga Rua Direita de Troino, mesmo em frente à renovada e desocupada “Casa das 4 Cabeças” um imóvel adquirido pela Autarquia e que foi alvo de intervenção com vista à sua recuperação. 

A taberna mantém a antiga estrutura de certo modo comum a todos os antigos estabelecimentos do seu género, com o amplo balcão em pedra mármore, uma pia para despejos e uma pequena casa de banho adaptada para o efeito num canto do estabelecimento. 

D. Fernanda, simpática, conversadora, de origem indiana, veio de Moçambique após a descolonização e aqui se radicou com o falecido marido e seus três filhos, fazendo deste negócio o seu ganha-pão. 

O longo tempo que as obras da emblemática casa situada mesmo em  frente da sua taberna, com os taipais a ocuparem toda a pequena frente da rua inviabilizaram a rentabilização do seu negócio que sofreu uma enorme quebra. 

Agora que os taipais já desapareceram pode ser que os clientes regressem, a exemplo dos futuros inquilinos daquela casa que a Câmara se propôs adquirir e que continua vazia. 

À D. Fernanda que está aos comandos desta que é uma das últimas tabernas setubalenses, resta a esperança de dias melhores, porque a esperança é a última a morrer. 

Rui Canas Gaspar 

2018-janeiro-12 


Troineiro.blogspot.com

sábado, 26 de março de 2016

Os antigos enólogos setubalenses

Em meados dos anos quarenta do século passado a população setubalense rondaria as cinquenta mil pessoas, cerca de metade daquelas que atualmente a cidade comporta.

Porém, as tabernas eram provavelmente em muito maior quantidade do que os cafés que hoje por aqui existem um pouco por todo o lado.

A taberna não era apenas o local onde se ia beber um copo de vinho, mas também o espaço de petisco, de convívio e até “escritório” de pescadores que ali iam acertar as contas da sua “quinzena”.

Alguns desses locais disponibilizavam os fogareiros e o carvão, vendiam o vinho e o pão e os pescadores e os descarregadores de peixe levavam a sua “teca” e ali, sentados à porta, assavam as sardinhas e outros peixes, vindo daí o hábito de se comer bom peixe assado em Setúbal.

Mas, embora o vinho da região fosse afamado desde tempos remotos, o facto é que havia sempre um ou outro taberneiro “chico esperto” que o batizava e uns litros de água colocada dentro do barril, pouco se notando, sobretudo depois do cliente já estar bem bebido.

É claro que há sempre quem não goste de ser ludibriado e havia em Setúbal um pequeno grupo de três ou quatro homens do mar, daqueles que trabalhavam com as redes em terra, que todos os anos transportados numa carroça, lá iam de taberna em taberna provando o vinho novo que lá se iria comercializar e que depois seria publicitado como sendo do melhor que por cá se vendia.

Atendendo às largas dezenas de tabernas que então existiam por estas bandas, dá para pensar se aqueles enólogos ao final do dia ainda conseguiam dar conta do recado.

Foi o meu pai que me contou hoje mais esta faceta da nossa terra e, ao questioná-lo sobre o estado dos homens, o meu pai não teve duvidas ao responder-me que se tratava de homens muito habituados a beber e que aguentavam muito.

Se assim era ou não, não faço ideia, o que me parece é que ao final de um dia de provas o vinho já deveria ser todo muito bom, ou muito mau. Digo eu!...

Rui Canas Gaspar
2016-março-26

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