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segunda-feira, 20 de maio de 2019


Só e abandonada à sua sorte 

Que alegria eu dei quando era nova, e quantos ajudei a ultrapassar o obstáculo que representava as águas tumultuosas que corriam sob o meu arco. 

Os anos passaram e eu continuei a servir fielmente não só os meus donos mas todos aqueles que recorreram aos meus serviços. 

O tempo passou as produtivas quintas foram sendo paulatinamente abandonadas e por arrastamento deixaram de me utilizar, abandonando-me à minha sorte. 

Passados tantos anos depois do meu nascimento aqui me encontro só e abandonada, às portas da cidade que não parou de crescer. 

A linha de água ainda por cá está, chamavam-lhe Rio da Figueira, agora um autêntico matagal a necessitar de limpeza. 

Será que embora velhinha eu não seria uma boa e agradável companhia para aqueles que passeiam no jardim que faz parte integrante da urbanização do golfinho, um espaço agora ocupado com muitos apartamentos erigidos no local onde os meus antigos patrões tinham a sua quinta? 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2019-maio-20

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Setúbal acompanha os tempos e o vento de feição 

Foi na Escola Industrial e Comercial de Setúbal, quando era menino, que aprendi caligrafia e a arte de bem escrever as letras inglesa, francesa e gótica, habilmente ensinadas a milhares de setubalenses pelo professor Camalhão. 

Mas, provavelmente este homem de ar severo não teria sido professor se não tivesse um pai com possibilidades financeiras acima da média, atendendo aos tempos difíceis que então se vivia na nossa terra. 

Seu pai era horticultor e mandou erigir algumas casas na Horta da Rã, ao lado da Quinta das Rosas, onde hoje está a funcionar o Mac’Donalds, no Rio da Figueira. Por isso não é de admirar que a horta também fosse conhecida pela Quinta do Camalhão. 

E foi precisamente neste espaço, que se encontrava desativado das suas funções agrícolas há bastantes anos que hoje pude assistir a três máquinas em operações, uma que derrubava as construções, outra que tritorava o entulho transformando-o de novo em terra e a terceira que recolhia a madeira velha. 

Muito mais rápido que o amigo Camalhão haveria de supor as suas construções foram transformadas de novo em terra, embora por ali ainda não seja visível qualquer anúncio obrigatório sobre a demolição em curso ou a obra que irá ser erigida. 

Sabe-se, no entanto, que naquele espaço irá nascer um supermercado Continente, com um piso subterrâneo destinado ao necessário parqueamento, coisa que o Mac’Donalds não previu e por isso utilizou parte do terreno do vizinho temporariamente, sofrendo agora as consequências com a quebra de clientela. 

Aquela zona da cidade dentro em breve estará irreconhecível, não só com esta construção mas porque também o velho edifício frente ao restaurante e onde se localiza a conhecida taberna “Vendaval” já foi vendido e em breve será também alvo de obras de recuperação. 

Setúbal acompanha os tempos e ventos que sopram de feição alindando-se e modernizando-se. Quer os particulares quer a autarquia estão a fazer as coisas acontecer, o que naturalmente será bom para todos os setubalenses e para quem nos visita. 

Rui Canas Gaspar
2017-maio-19

www.troineiro.blogspot.com

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A “aldeia” setubalense do Rio da Figueira

Já lá vão umas seis décadas quando o Francisco, num qualquer domingo de bom tempo, vestiu a sua melhor roupa, a que não faltou um casaco atado na cintura, colocou um chapéu na cabeça e decidiu quebrar um pouco da rotina, deixando de ir conviver com os outros pescadores numa das inúmeras tabernas do seu bairro de Troino para se dirigir quase para fora de portas, para a zona do Rio da Figueira.

Naqueles tempos do Estado Novo, a polícia, sobretudo a política e a fiscalização eram omnipresentes e tudo era controlado. Até o simples acender de um isqueiro, sem ter a devida licença, era alvo de coima.

O Francisco, com os seus trinta anos de idade tinha uma boa aparência e a roupa que sua preocupada e diligente esposa lhe preparara dava-lhe um ar nada condizente com os homens do mar, mais se parecendo com um daqueles burocratas ou fiscais que a população tanto temia.

Quando o nosso homem estava prestes a chegar à taberna onde iria lubrificar a garganta, já na Estrada das Machadas de Cima, foi dado o alarme por um dos clientes que se encontrava à porta e logo o estabelecimento rapidamente se esvaziou. Vamos lá nós saber porquê…

O nosso “fiscal” bebeu um copinho de tinto deu meia volta e voltou para o seu bairro, contando a peripécia à esposa e aos amigos.

Seis décadas passadas paro a viatura no estacionamento das desativadas instalações da Universidade Moderna, uns metros abaixo onde então existiu a tal taberna, saio segurando a pequena máquina fotográfica tendo por objetivo observar pormenorizadamente e fotografar o exterior do enorme edifício.

Um pouco acima uns três homens observam-me atentamente, comentam uns com os outros e vão-me seguindo com o olhar, mas agora perderam o receio e já não fogem do “fiscal”.

Por aqueles lados e a meio da manhã pouca gente passa e muito menos nas traseiras do grafitado e emparedado edifício. Porém, curiosamente seria precisamente nas traseiras do mesmo que me cruzaria com duas pessoas que pareciam estar também a fazer um reconhecimento ao imóvel.

Quando acabei de contornar, verifiquei que entravam num automóvel identificado como sendo de uma das conhecidas empresas setubalenses de pintura de imóveis.

E cá fiquei eu a pensar com os meus botões naquilo que diz o meu amigo Ricardo Soromenho, nascido para aquelas bandas, que o Rio da Figueira era uma pequena aldeia dentro da cidade, também me veio à mente o episódio ocorrido há tantos anos com o meu pai e fiquei igualmente a imaginar como ficaria agradável o edifício repintado e ocupado dando mais vida à antiga “aldeia” do Rio da Figueira.

Será que isto irá acontecer?

Rui Canas Gaspar
2015-julho-06

www.troineiro.blogspot.com