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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A arte nova e a nova arte setubalense

Ao contrário do que alguns setubalenses pensam, muitos dos nossos edifícios mais antigos não estão votados ao abandono, verificando-se mesmo um incremento de recuperações do património imobiliário, um pouco por toda a cidade, pese embora o facto de reconhecermos que muito ainda haverá por fazer nesta área.

Uma das zonas da cidade onde se tem vindo a fazer alguma coisa neste setor de atividade é o Bairro Salgado, embora por lá também exista muito património por recuperar. E, é aí, nesse bairro, onde outrora habitou a burguesia setubalense que mais exemplares com apontamentos do estilo arte nova vamos encontrar.

Curiosamente, existem também alguns poucos edifícios no popular Bairro de Troino onde os seus construtores aplicaram igualmente alguns apontamentos deste estilo, muito em voga na Europa nos finais do século XIX, sendo disso exemplo esta casa que apresento em primeiro plano na foto e que se encontra devidamente recuperada arquitetonicamente.

Agora foi a vez do proprietário do prédio contíguo recuperar a sua propriedade e, embora se tratem de edifícios de épocas diferentes, não deixa de ser curioso as cores que escolheu para pintar o exterior do mesmo.

Assim sendo, vamos encontrar lado a lado na Rua das Oliveiras, em pleno coração do Bairro de Troino, dois exemplares de imóveis devidamente recuperados, um tipo arte nova e o outro, porque não dize-lo, da nova arte.

Gosto de ver a minha cidade com o seu património imobiliário devidamente recuperado ao invés da degradação que ainda por aí se verifica, mas francamente ainda não consegui habituar o meu gosto estético a esta mistura de estilos de arte nova e nova arte, ainda por cima no meu Bairro de Troino, na Rua que me viu nascer e quase em frente à fonte da charroca que tanta vez me saciou a sede.

Dizem que burro velho não aprende línguas, mas pela minha parte vou tentar educar o meu gosto estético de forma a poder habituar-me a gostar deste tipo de casamento.

Rui Canas Gaspar
2015-dezembro-22

www.troineiro.blogspot.com 

sábado, 1 de agosto de 2015

A velha porta da Rua das Oliveiras

Por esta velha e cansada porta, entraram rijos e honestos pescadores, operárias conserveiras, gente humilde, gente boa que souberam criar os seus filhos como pessoas de bem e dar-lhes o melhor que podiam naqueles tempos difíceis sobretudo na época de defeso da pesca da sardinha.

Em pleno Bairro de Troino, ela ainda lá se mantém, com a sua mãozinha onde outras pequenas mãozinhas seguraram para a encostar, no tempo em que não era necessário fechar e onde as portas das casas estavam igualmente encostadas.

Era um tempo em que os vizinhos funcionavam como se de uma grande família se tratasse, em que os rapazes vinham jogar à bola para a rua, que parecia bem mais larga e onde nas noites quentes de Verão se sentavam à porta conversando e convivendo.

Tempos felizes, tempos diferentes em que as pessoas se contentavam com pouco, naturalmente porque não conheciam o muito. Porém, se os bens materiais eram escassos, a solidariedade era por demais abundante.

Num daqueles cinzentos dias de Inverno parte da muralha que circundava a cidade abateu-se sobre o prédio a que pertence esta velha porta e logo a vizinha da frente, D. Dora, ofereceu os seus préstimos e as instalações de sua própria casa para ali guardar os parcos haveres enquanto não se arranjasse nova habitação.

Que maravilhosos pensamentos, que gratas recordações guardo desta velha porta, da sua vetusta mãozinha de ferro que ainda lá está e onde a minha pequena mãozinha tantas vezes segurou já lá vão algumas dezenas de anos.

Num destes dias fiz questão de ir mostrar ao meu pequeno neto o Bairro de Troino onde nasci, a Rua das Oliveiras onde pela primeira vez vi a luz do dia e contar-lhe as estórias do seu avô e dos seus antigos amigos e vizinhos quando tinha a sua idade e entrava por esta velha porta que tantas boas memórias me fez vir à mente.

São coisas de Setúbal, que nos marcam para toda a vida e que vamos partilhando com os amigos naturais e virtuais, agora que temos à nossa disposição esta poderosa ferramenta que há alguns anos era para nós impensável, a internet.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-01

www.troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Como me cortaram a carreira de jornalista e de bombeiro…

Longe vão os tempos em que as crianças do bairro de Troino e de tantos outros bairros típicos da nossa cidade podiam brincar na rua, até que ouvissem a sua mãe chamar pelo seu nome para regressar a casa, tal como as sirenes das fábricas o faziam para convocar as suas operárias quando as fábricas “metiam peixe”.

Os carros eram raros e por vezes quando algum passava pelas nossas bandas logo corríamos para nos empoleirar na traseira do mesmo e desta forma andar alguns metros de boleia, sem medir o perigo a que nos sujeitávamos.

Claro está, que para os moços o perigo não existe, enquanto para as mães ele está sempre à espreita em tudo o que seja lado. Isso era assim ontem, é hoje e continuará a ser amanhã.

- Certo dia, morando a nossa família na Rua das Oliveiras, estava minha mãe a barrar com manteiga o tacho de barro onde iria cozer o bolo de farinha de milho, e eu saltitando à sua volta à espera que a massa estivesse feita para lamber os restos, quando começamos a ouvir as sirenes dos carros dos bombeiros que subiam pela estrada do Viso, nas traseiras da nossa rua.

O bolo para mim deixou logo de ter interesse e, com indisfarçável satisfação, disse para a minha mãe que ia ver onde era o fogo.

- Não vais! Podes ser atropelado. Dizia a minha mãe. Vou! Não sou nada atropelado. Não vais! Vou… Não vais! Vou…

A minha mãe perdeu a paciência e com o tacho de barro já barrado com a manteiga, agarrando com ambas as mãos, bateu-o na minha dura cabeça que se encontrava coberta com uma boina por causa do frio.

O tacho ficou feito em mil pedaços, o bolo deixou de ser feito, levei mais umas palmadas no traseiro e, pelos vistos isso viria a influenciar o meu trajeto profissional futuro que não passaria por seguir a carreira de repórter nem sequer a de bombeiro…

Rui Canas Gaspar
2014-julho-23