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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A sabedoria da idosa senhora setubalense

Final da tarde, o sol já vai encadeando os automobilistas que se deslocam pela Avenida Luísa Todi, no sentido nascente/poente, quando reparo numa idosa completamente trajada de preto, colhendo negros martunhos nos tufos que se encontram a decorar o canteiro.

E porque levava também alguns raminhos com os frutos agarrados dirigi-me à senhora para a questionar sobre o porquê da sua colheita e que utilidade iria dar aos raminhos.

Curiosamente reconheceu-me e tratando-me pelo meu nome explicou que iria fazer aguardente de martunho e que todos os dias ali outras pessoas iam colher as pequenas bagas.

Esta é a matéria-prima com que, segundo a tradição, os monges da Arrábida faziam um licor que se diz ter uma fórmula secreta e que nos nossos dias o vemos comercializado com a designação de Arrabidine.

Numa garrafa, a velha senhora irá juntar a mesma quantidade destes frutos silvestres com idêntica quantidade de aguardente, adicionará algum açúcar e juntará um pouco de canela, provavelmente dois ou três pauzinhos desta especiaria.

Depois deixará ficar engarrafado alguns meses e mais tarde servirá aos seus filhos, sim, porque a velha senhora confeciona esta antiga especialidade, mas não bebe.

Depois de ter visto alguém a colher as azeitonas das muitas oliveiras dispersas pela cidade, e que serão destinadas a deliciosa conserva, uns meses antes tinha visto também pessoas a apanhar as folhas e flores das muitas dezenas de agradáveis e bem cheirosas tílias que nos proporcionam uma agradável infusão, é agora o momento da colheita dos martunhos, dos negros pois claro, porque os brancos ainda estão com a maturação atrasada.

E assim se pode juntar o útil ao agradável, não deixando desperdiçar o que podemos aproveitar, sobretudo por aqueles que mais necessidade têm e cuja sabedoria lhes permite tirar o melhor partido do que a natureza e a cidade lhes oferece.

E porque Setúbal já foi terra de grandes laranjais, porque não plantar também pelos parques da cidade algumas destas árvores? Quanto aos frutos? Não faria mal a ninguém que quem os quisesse colhesse, porque sempre é preferível alguém usufruir para alívio da sua carteira do que plantar arvores que não produzem coisa nenhuma. Digo eu!...

Rui Canas Gaspar
2015-outubro-08

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