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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Lembrança da Escola Conde de Ferreira 

O banho fora tomado na grande bacia de esmalte branco que fora colocada na cozinha, o cabelo bem penteado e lustroso graças à brilhantina que era posta na vasta cabeleira da cor do carvão e os melhores calções e casaco seriam envergados. 

Uma pasta de cartão atada com três laços servia de proteção à folha pautada de 35 linhas que ali era transportada para a sala onde a criança iria fazer a prova de passagem da terceira classe, não na escola que frequentava na Casa dos Pescadores, mas sim naquela outra que ostentava o monárquico nome de Conde de Ferreira. 

E, para que o rapaz não ficasse nervoso neste dia tão especial, nada melhor que tomar um pouco de chá de flor de laranjeira. Dizia-se que acalmava… 

Para que tão importante evento pudesse ficar registado para a posteridade, depois da prova, com a mãe, rumaram ao retratista no Largo da Misericórdia onde aquele conceituado profissional registou o momento. 

Foi assim que aconteceu com muitas e muitas crianças setubalenses que pela primeira vez saíram da escola da Casa dos Pescadores para entrarem na do Conde de Ferreira, o benemérito português que tendo nascido de família humilde fez fortuna lá pelo Brasil. 

O senhor Joaquim Ferreira dos Santos casou e teve um filho que faleceu ainda criança pelo que decidiu fazer testamento de forma a que a sua vasta fortuna fosse utilizada da melhor forma possível e daí ter deixado o dinheiro suficiente para que fossem erigidas e equipadas 120 escolas em todas as sedes de concelho. 

Mas o governo monárquico acabaria por apenas edificar 91 das quais ao que consta neste momento só existirão 70 de pé e não com funções letivas mas a serem utilizadas para serviços, normalmente à disposição de Juntas de Freguesia. 

Estas escolas foram erigidas de acordo com planta única, para evitar custos maiores e deveriam contemplar uma casa para residência do professor. 

Curiosamente muitos pensarão que a data de 24 de março de 1866 que vemos colocada por cima da porta principal do estabelecimento escolar se refere à data da inauguração, mas não, ela é sim a data do falecimento do benemérito português. 

Em Setúbal a Escola Conde de Ferreira, agora ao serviço da União de Freguesias de Setúbal,  encontra-se sediada na Avenida Luísa Todi, ao lado da Esquadra da Polícia de Segurança Pública, instalações que também já foram designadas por “Casa das Máquinas”, mas isso é outra história!... 

Rui Canas Gaspar 

2017-junho-05 


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domingo, 4 de junho de 2017

O edifício setubalense da Casa dos Pescadores 

Quatro anos depois de ser implantada a República em Portugal, Setúbal viria a inaugurar um belo edifício de referência na cidade, com três andares, naquele que hoje é conhecido por Largo José Afonso, graças ao esforço e dedicação de pescadores e “embarcadiços”. 

O edifício dos “Trabalhadores do Mar” inaugurado no ano de 1914 viria a ser expropriado pelo Estado Novo que atribuiu àquela casa a designação que ainda hoje ostenta no seu alçado principal “Casa dos Pescadores”. 

Foi o trabalho e dedicação de homens valentes e lutadores que levou de vencida este projeto, sendo de destacar João da Boa-Viagem, operário conserveiro que ali fez nascer logo nos primeiros tempos do seu funcionamento a escola para as crianças filhas de marítimos. 

Outra pessoa a quem se deve este belo projeto é aquele que ficou conhecido pelo “homem da boca cerrada”. Trata-se de Jaime Rebelo, pescador e líder da grande greve dos pescadores ocorrida em 1931. Este foi o homem que cortou a sua própria língua para não ceder à tortura dos terríveis carcereiros da polícia política, a famosa e de má memória PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). 

O edifício serviu muitos milhares de crianças que ali fizeram os quatro anos de estudos básicos, tendo também sido utilizado na vertente de escola de pesca para os rapazes que se iniciaram nas lides do mar e de escola de costura para as prendadas meninas que geralmente não foram parar às fábricas de conservas de peixe. 

No Inverno era comum ser servido às crianças que ali estudavam o mal cheiroso óleo de fígado de bacalhau, que funcionava como arma contra o raquitismo. Era então ver as crianças formadas em fila, na cantina, de boca aberta. Uma funcionária despejava na colher o óleo que todos tinham de engolir, gostassem ou não. 

Passados muitos anos, já no início do século XXI aquando de obras levadas a cabo no edifício foram encontradas algumas caixas com frascos de óleo sob o soalho da cantina, vamos lá nós saber o porquê. Um desses frascos encontra-se exposto na Mercearia pedagógica (do César) sita no popularmente conhecido Largo da Fonte Nova. 

A par destes serviços o edifício dispunha de posto médico onde eram assistidos os pescadores e suas famílias, bem como de uma enfermaria para dar continuidade aos tratamentos que se impunham. 

Curiosamente era também a secretaria que funcionava no rés-do-chão daquele prédio que também servia como farmácia para a meia dúzia de diferentes tipos de comprimidos que os médicos de então frequentemente receitavam. 

Os comprimidos encontravam-se dentro de grandes frascos e dali eram retirados à unidade para serem embrulhados em papel pardo e servidos aos pacientes. 

Ainda hoje o edifício se mantém aberto ao público, agora sob a alçada da Segurança Social que ali procede ao serviço de juntas médicas.

Rui Canas Gaspar
2017-junho-04

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terça-feira, 20 de outubro de 2015



O nosso “querido” óleo de fígado de bacalhau

O enfraquecimento dos ossos, motivado pela falta da luz solar e de vitamina D afetou muitas crianças no século XIX e boa parte do século XX.

O óleo de fígado de bacalhau tornou-se assim num popular suplemento alimentar para as crianças daqueles tempos, que nas escolas primárias faziam filas para que uma funcionária, colher numa mão e frasco na outra, com os miúdos a fazerem cara feia ou não, tratavam de enfiar-lhes o desagradável suplemento pela garganta abaixo.

Passados tantos anos o seu gosto ainda se encontra gravado na memória. Um desagradável sabor que em algumas escolas era neutralizado com um gomo de laranja igualmente ali fornecido.

Era mais ou menos nesta época do ano, quando o frio começava a fazer-se sentir e quando as muitas embarcações da nossa frota bacalhoeira já se encontravam em Portugal, trazendo a bordo muitos quintais do fiel amigo e várias barricas de óleo que o mesmo começava a ser ministrado às crianças portuguesas.

Curiosamente soube hoje que um desses antigos frascos, recém-descobertos, com várias dezenas de anos, contendo o célebre suplemento que foi fornecido na escola primária da Casa dos Pescadores às crianças que se podem ver na foto ilustrativa, foi oferecido e se encontra em exposição na “Mercearia do César”, o novo espaço pedagógico setubalense, recentemente inaugurado na “Fonte Nova”.

Passados tantos anos e com os ossos ainda em plena forma, não serei eu a dizer mal do tal muito pouco saboroso óleo de fígado de bacalhau.

Rui Canas Gaspar
2015-outubro-20

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