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terça-feira, 12 de março de 2019


Arrábida desconhecida

Tempos houve em que o gado apascentava livremente pela Serra da Arrábida vindo até das bandas de Sesimbra até ao Creiro, junto à antiga fábrica de conservas de peixe, onde muitos romanos em tempos se afadigaram.  Ali os animais  dessedentavam-se  na conhecida Fonte da Paciência, a qual dispunha então de um tanque para esse efeito.

Com o passar dos anos a fonte foi-se finando até que aconteceu que dali saiu o último pingo de água doce. 

Em 2002 o Parque Natural da Arrábida  recuperou o local, colocou dois painéis de azulejos reproduzindo antigas fotos e colocou uns bancos de madeira, dando ao espaço um ar bastante agradável. 

A Natureza seguindo o seu curso milenar fez crescer ervas, mato, silvas e toda a espécie de vegetação ocupando o agradável local que se apresenta agora como um desleixado espaço atendendo à falta da mais elementar manutenção. 

Os painéis ainda lá estão, embora picados pelas pedradas lançadas por pessoas que de pessoas só podem ter essa designação e assim se apresenta um espaço que conta um pouco da história deste belo Parque Natural um pouco governado ao sabor do vento. 

Rui Canas Gaspar
2019-março-12
Troineiro.blogspot.com

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Fonte da Paciência a joia perdida da Arrábida

Os invasores romanos quando decidiram instalar nesta zona da Arrábida uma unidade industrial de salga de peixe e seus derivados, fizeram-no certamente por alguns bons motivos, seguramente bem ponderados.

Primeiro estavam junto a um bom porto de abrigo, depois encontravam-se numa zona de grandes recursos piscícolas e, finalmente, para que a sua indústria pudesse funcionar em pleno necessitavam de quantidade significativa de um outro imprescindível recurso natural: a água.

E foi precisamente este último recurso aquele que foram encontrar de forma abundante, na base do Creiro, uma zona da Arrábida frente à Pedra da Anicha, quase junto à praia. Uma verdadeira riqueza quando é sabido que não são abundantes os aquíferos existentes nesta região.

A água que então corria abundantemente e que fornecia a indústria e a população que laborava naquele complexo foi ao longo dos anos ficando mais escassa.

Mesmo assim, centenas de anos depois, no século XIX, ainda temos notícia de que um agricultor popularmente conhecido por “Zé Nabo” vinha a pé, acompanhando as suas vacas, desde a Maçã, perto de Sesimbra, para apascentar e dessedentar o gado nesta fonte, facto que ficou registado num dos painéis de azulejos colocado anos mais tarde neste local.

Na década de 60 do século XX jorrava alguma água desta fonte que abastecia as famílias de pescadores que, no Verão, acampavam nas redondezas.

No final desta década a água ainda continuava a verter para os cantis dos escuteiros que ali passavam nas suas caminhadas pela serra, porém estava prestes a esgotar-se e era já um ténue fio  que a fonte podia oferecer. Era então necessário algum tempo e muita paciência para poder recolher um pouco do precioso líquido!...

Uma década depois, nos finais dos anos setenta, já o fio de água não corria no Verão. A fonte oferecia a sua água mas apenas gota a gota, como que chorando pela sua anunciada morte.

Nesse tempo, os escuteiros nas suas caminhadas pela serra mãe chegavam a acampar naquela zona e enquanto dormiam nas suas tendas procuravam fazer o abastecimento recolhendo a água que já não corria mas que agora apenas pingava da outrora pujante fonte.

E chegou o dia em que com ou sem paciência já nem uma simples gota a fonte passou a oferecer. Tinha secado de vez, apenas ficando o local de onde vertia pura e cristalina e a sua memória na mente de alguns daqueles que um dia ali se dessedentaram.

Rui Canas Gaspar
2016-abril-22

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Na Arrábida a Fonte da Paciência espera pacientemente que alguém trate do seu espaço.

Sou uma das várias fontes existentes um pouco por todo o Parque Natural da Arrábida e considero-me importante pelos mais diferentes motivos, mais que não seja porque forneci  um bem imprescindível à vida, a água.

É bem provável que fosse também por minha causa que, já lá vão imensos anos,se tivessem instalado aqui perto uns romanos que se dedicavam a laborar um enorme complexo onde conservavam peixe e fabricavam produtos seus derivados que exportavam para os mais diversos cantos do seu vasto império.

Séculos mais tarde criadores de gado apascentaram nas minhas imediações os seus animais e também eles vinham aqui saciar a sede. Para além de ficar registado em foto, posteriormente pintaram  essas cenas em painéis que hoje podem ver a decorar o espaço que ainda ocupo.

No final do século passado, quando centenas de casas, casinhas e casinhotas ocupavam a base da serra e espalhavam-se ao longo de todo o Portinho da Arrábida, até aqui ao Creiro, muitos dos seus habitantes era a mim que recorriam para pacientemente encher os recipientes com que portavam aquilo que eu generosamente oferecia.

Não era muito abundante, de facto, ao longo dos anos fui perdendo as forças, mas sempre fui generosa e nunca deixei ficar ninguém mal, ainda que aqui levassem algum tempo para encher os seus recipientes.  Tinham de ter paciência, uma importante virtude!...

A idade não perdoa e um dia deixei de correr à vista de todos como sempre o fiz e, não se riam, porque o mesmo irá acontecer convosco.

Os senhores do Parque Natural da Arrábida fizeram-me uma linda sepultura e trataram de aqui fazer um espaço de descanso e paz em minha homenagem, inaugurando-o em 2002.

 Imaginem que fizeram lindas cercaduras em madeira tratada, colocaram bancos e um bonito mural, com três painéis de azulejos dando conta aos visitantes que não me tinham conhecido em vida sobre a importância que eu teria tido outrora.

Mas, agora sinto-me triste e abandonada, com o mato a crescer à minha volta e com as paredes do meu mural a necessitar de uma limpeza e um pouco de tinta.  Nada que não se possa fazer com um pouco de boa vontade.

Aguardo pacientemente a chegada de alguém que voluntária ou institucionalmente me venha, não ressuscitar, mas ao menos cuidar do espaço onde outrora dei tantas alegrias e saciei a sede a inúmeras gerações.

Rui Canas Gaspar
2016-fevereiro-05

www.troineiro.blogspot.com

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

ARRÁBIDA

Haja paciência, porque parece que estamos entregues à bicharada!…

Há cerca de dois mil anos os romanos verificaram que o Portinho da Arrábida era um excelente local para instalar uma unidade de conservação da bela sardinha e cavala pescada aqui na nossa Costa da Galé.

Estes nossos antepassados colocaram mãos ao trabalho e, construíram na zona do Creiro, uma destas unidades conserveiras, cujos produtos exportavam para diferentes pontos do seu vasto império.

Naturalmente para as instalações fabris teria forçosamente de haver água doce, um bem escasso pelas bandas da Arrábida, no entanto, naqueles tempos longínquos deveria haver por aquela zona alguma nascente, provavelmente a que ainda hoje referenciamos como a “fonte da paciência”.

A designação dever-se-á certamente a ser tão diminuto o seu caudal que será necessária muita paciência para que se consiga obter alguma água para nos saciarmos.

Em tempos menos longínquos, por volta do século XVIII  o local era utilizado para pastagem de gado bovino conforme atestado por documentos da época.

Em 2002 o Parque Natural da Arrábida investiu verbas significativas no local desta fonte, construindo um muro e colocando ali três painéis elucidativos feitos em azulejo. Igualmente dotou o espaço com cercadura e bancos rústicos feitos de troncos tratados, tornando-o bem agradável.

Não sei se desde essa data até hoje houve algum tipo de manutenção, o facto é que o local se encontra atualmente com aspeto de abandonado e o mato e silvas vão tomando conta daquele agradável espaço.

Não percebo que tipo de proteção e manutenção o P.N.A. preconiza para estes espaços, sei que não autoriza as viaturas acederem à parte de baixo dos parques de estacionamento do Creiro e depois não faz a necessária manutenção e acompanhamento destes espaços.

O nosso povo utiliza um termo que não poderia ser mais adequado para este tipo de situações, aquele que reza assim: “estamos entregues à bicharada” . 

Nada mais verdadeiro! É que ao fazer uma incursão por aquele local da nossa serra-mãe se não vi javalis selvagens, vi pelo menos bastantes pegadas e “terra lavrada” por aqueles animais na sua busca por alimento.

De facto, haja paciência, porque parece que estamos mesmo entregues à bicharada!...

Rui Canas Gaspar
2015-fevereiro-13

www.troineiro.blogspot.com