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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Em Setúbal temos uns proprietários que são filhos e outros que são enteados?

Afonso Palheira era um setubalense que embora nunca lhe tivesse sido permitido fazer a promessa de escuteiro, por motivos que aqui não interessa explicar, costumava acompanhar, de vez em quando, com o nosso grupo.

Era um homem simples e como gostava de fardas e não ingressou nos escuteiros, lá conseguiu filiar-se na Legião Portuguesa e, no dia 25 de abril de 1974, porque havia uma revolução e quando miraculosamente de um momento para o outro deixaram de haver pides, bufos e legionários em Portugal  quem é que apareceu à porta da Legião? O nosso amigo Afonso Palheira, para defender Portugal, segundo dizia.

Quem o salvou nesse dia de poder levar alguma sova foi o falecido Chefe Joaquim, um escuteiro por demais conhecido na cidade, que ao passar pelo local tratou de fazer sair dali de imediato o nosso amigo Afonso.

Lembrei-me desta passagem ao olhar para esta antiga foto onde vemos altas figuras do regime ditatorial, alguns deles fazendo a saudação nazi, precisamente à porta do quartel setubalense da Legião Portuguesa.

Podemos reparar como estava bem arranjado este edifício que poucas saudades deixou a não ser provavelmente àqueles que ali foram mitigar a fome comendo uma das famosas “sopas da legião” ou aos outros que se aproveitavam para exercer alguma forma de desdém sobre os seus conterrâneos.

Passadas várias dezenas de anos vamos encontrar o edifício, agora propriedade de um conhecido setubalense, segundo dizem, num estado deplorável e que nada dignifica o seu proprietário nem o nobre local onde está implantado, em plena Avenida Luísa Todi.

Curiosamente, e para mal dos nossos pecados, ainda estamos sujeitos a qualquer dia entrar em despesas, com o dinheiro dos nossos impostos, porquanto a Polícia de Segurança Pública, que tem instalações mesmo ao lado utiliza a parte da frente como parque de estacionamento de viaturas à sua responsabilidade.

Ora se um destes dias cair em cima de um daqueles carros um pedaço do degradado prédio a quem serão assacadas culpas? Ao proprietário, porque é dono do imóvel, à Câmara porque já deveria ter tomado medidas no sentido de pelo menos mandar reforçar as zonas em perigo, ou à P.S.P. que embora sendo polícias e não construtores devia saber que aquele local não é apropriado para estacionamento?

É claro que não defendo, nem de perto nem de longe ideologias e formas comportamentais como os senhores aqui fotografados, mas o facto é que também não partilho de alguma permissividade que se vê por aí e que esta foto bem ilustra.

Não se podem considerar os proprietários setubalenses uns como filhos e outros como enteados e, pelos vistos, o dono deste prédio, atendendo ao estado de conservação e ao tempo que assim se encontra, não deve ser enteado. Digo eu!...


Rui Canas Gaspar
2016-fevereiro-02

www.troineiro.blogspot.com

domingo, 13 de julho de 2014

Uma história para a História ocorrida com o barco EVORA

O Barreiro e região envolvente era uma zona da margem sul do Tejo onde laboravam corticeiros, salineiros, pescadores, metalúrgicos, operários químicos e têxteis de entre outros, que labutavam afincadamente por uma vida melhor. Politicamente era uma comunidade também conhecida em Portugal pela luta de resistência que mantinha contra o regime ditatorial vigente no país.

Por esse facto, a PVDE (Policia de Vigilância e de Defesa do Estado) formada em 1933, seguia de perto os movimentos operários particularmente ativos nesta região. As forças policiais faziam sentir a sua presença por intermédio de um forte e omnipresente contingente da Guarda Nacional Republicana, uma força militarizada que naqueles tempos funcionava como uma espécie de guarda pretoriana do Estado Novo.

Em 1945, a PVDE muda de nome e passa a apresentar-se como PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) a temível polícia política portuguesa, organizada segundo os moldes da GESTAPO, a polícia secreta, de má memória em toda a Europa ocupada pela Alemanha nazi.

Naqueles tempos de ditadura, a 23 de maio de 1936, pelas 11 horas da manhã a polícia política invadiu as Oficinas Gerais dos Caminhos-de-Ferro do Sul e Sueste, com o propósito de prender o serralheiro José Francisco.

Devida a desta ação da polícia o pessoal operário decidiu solidarizar-se com o seu colega e logo após o toque das 13 horas partiu em perseguição da polícia que se dirigia para o cais de embarque onde eu me encontrava atracado.

Os operários arremessavam pedras aos agentes que se refugiavam a bordo e estes respondiam a tiro, o que ocasionou 4 feridos. Este evento ficou conhecido para a história como o “caso do vapor EVORA”.

Se o Barco EVORA falasse poderia resumir assim este episódio:

- Eu tremia, não sei se por causa da ligeira ondulação, ou das pedradas que me acertavam cada vez com mais força. Claro que como podem constatar nada tinha a ver com o assunto, apenas cumpria a minha missão de transportador entre as pacíficas margens do Tejo. Mas, tal como reza o velho ditado português: “quando o mar bate na rocha, quem sofre é o mexilhão…”

Rui Canas Gaspar
2014-julho-13