notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A cidade do rio azul não é a República Dominicana

Hoje fui comprar produtos frescos ao bonito e renovado Mercado do Livramento.

Mal entrei naquele local o agradável aroma dá-me vontade de por lá ficar mais tempo do que o necessário para fazer as compras.

Pelo forma de falar dos utilizadores daquele espaço reconheço a maioria das pessoas como setubalenses, embora o sotaque brasileiro e o crioulo cabo-verdiano seja frequente e assim identifico outro tipo de moradores que a cidade sadina tão bem acolheu.

É também curioso verificar a quantidade de turistas que por ali são vistos a fotografar não só as belas e enormes estátuas oferecidas à cidade pela Fundação Buehler-Brockaus, alusivas às profissões daquele estabelecimento, mas também apontando as objetivas das suas máquinas às bancas de verdura, frutas ou do saboroso e diversificado peixe fresco.

A vendedora da banca onde estou a comprar os vegetais mostra-se admirada com a quantidade de gente que hoje, dia seguinte ao primeiro de maio, veio fazer compras e diz-me: - Está cá muita gente de fora!…

Seguidamente dirijo-me ao supermercado Pingo Doce, ao lado do Mercado do Livramento, para comprar outro tipo de produtos que não se encontram à venda no mercado de frescos. Longas filas em todas as caixas e a operadora por quem sou atendido confidencia-me que hoje está muita gente de fora, confirmando assim o que já ouvira no mercado.

Não sei de onde apareceram tantos forasteiros, mas lá que eles estão cá isso estão. Venham eles nas autocaravanas que este ano “descobriram” Setúbal, estejam em casas no outro lado do rio, em Troia, apenas de passagem, em casa de familiares ou amigos, não faço ideia…

Ontem, primeiro de maio, na minha volta pelo Parque Urbano de Albarquel, a determinada parte do percurso o mesmo encontrava-se obstruído por um grupo de oito adultos, homens e mulheres, que caminhavam lentamente. Como caminhava logo atrás tive oportunidade de naturalmente escutar parte da sua conversa.

Pela pronúncia notava-se que era pessoal do Norte, das bandas do Porto, Gaia ou Matozinhos. Tudo admiravam e comentavam elogiosamente, desde os lindos tufos de arbustos floridos, aos espaços relvados, às zonas de aparelhos de ginástica, ao rio azul, ao “calçadão” e mostraram-se agradavelmente surpreendidos com o espaço destinado à zona de merendas, com os seus protetores de sol feitos em matéria natural como usado nos países tropicais.

E foi aqui que uma das senhoras, visivelmente agradada com tudo o que via, desabafou: - Parece que estamos na Republica Dominicana, e isto não se fica nada atrás!...

Bem, cada um gosta do que gosta, as afirmações valem o que valem, mas não há duvida que Setúbal está como nunca antes se viu. Muito mais agradável e com muito mais pontos de interesse, sendo o expoente máximo a devolução do seu rio azul ao usufruto da cidade.

De facto, muito ainda há por fazer, mas “Roma e Pavia não se fizeram num dia” e, goste-se ou não, nestes últimos anos a cidade sadina mudou imenso.

Nós que cá estamos podemos não nos aperceber, mas aqueles que nos visitam, ou aqueles que tendo por cá nascido ou residido retornem para nos visitar, passado meia dúzia de anos, são dessa opinião.

Esta é uma cidade com vida própria, com um amplo tecido industrial, é uma cidade marítima mas que já não vive da pesca, o turismo é um importante polo a explorar a par de outros pontos de interesse, uma cidade de enorme potencial.

Saibam os setubalenses e seus governantes, nascidos ou não aqui, reconhecer e acarinhar a cidade que temos, desenvolvendo as potencialidades que estão ao nosso alcance.

É meu desejo e minha esperança que um dia ainda possa ver a minha terra não como a Republica Dominicana, mas sim igual a si mesma, a cidade do rio azul, uma potência turística internacional por mérito próprio.

Rui Canas Gaspar

2014-maio-02

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Cuidado com a mentira

É atribuída a Goebbels, o famoso político alemão que foi responsável pela propaganda na Alemanha nazi, a célebre máxima: “Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”.

Soubesse eu que surtiria esse efeito e não deixaria de por mais 999 vezes divulgar aqui na internet a brincadeira que engendrei no dia primeiro de abril, o tradicional dia das mentiras. Poderia ser que todas aquelas inovações noticiadas como tendo sido iniciadas em Setúbal se tornassem realidades.

Se o texto que difundi naquele dia fosse passado noutra qualquer data que não a de 1 de abril, estaríamos em presença de uma notícia viral, isto a fazer fé no facto de que mesmo depois de eu ter esclarecido tratar-se de brincadeira, diariamente o texto continuar a ser compartilhado como verdadeiro.

As pessoas vibram com as boas notícias, com o desenvolvimento, com o progresso e se estes pormenores forem de proximidade, eles tornar-se-ão motivo de orgulho, daí a sua necessidade de compartilhar a novidade.

Muitos milhares de leitores gostaram e mais de meio milhar de pessoas partilharam esta falsa notícia. Mas, o mais curioso é que passado um mês sobre o seu desmentido ela não só continua a circular como a ser compartilhada por outras pessoas.

Para aqueles que por acaso não tiveram oportunidade de tomar contacto com esta falsa notícia aqui vai a ligação: http://troineiro.blogspot.pt/2014/04/com-verdade-me-enganas-revolucao-em.html

Mas não se esqueçam que se trata de ficção, a não ser que os nossos políticos queiram passar da ficção à realidade e nesse caso não me importaria nada…

Com isto podemos aprender que temos de ter cuidado com o que se lê, porque se nem tudo o que luze é ouro, nem tudo o que parece é. E especialmente os políticos gostam muito de passar uma imagem de fantasia especialmente quando estão em campanha eleitoral.

Por tudo isto, todo o cuidado é pouco, porque colocando um pouco de verdade numa grande mentira poderá dar alguma credibilidade a um monumental embuste.

Rui Canas Gaspar
2014-maio-02



Afinal quem é o responsável?

São jarros padronizados, em metal, segundo modelo exigido pela C.M.S. e encontravam-se no interior do Cemitério da Paz (Aljeruz), a decorar com bonitas flores os gavetões onde repousam os restos mortais de muitos setubalenses.

Estamos a falar de um espaço delimitado, com portão e horário de abertura e fecho pertencente à Autarquia sadina.

Segundo notícia publicada com destaque de primeira página no jornal O SETUBALENSE de 30 de abril de 2014 (quarta-feira) aquele espaço teria sido alvo de assalto, tendo os larápios furtado cerca de quatrocentos jarros, deixando todo o espaço num caos com centenas de flores espalhadas pelo chão.

Mas, para mim, o mais curioso  é o facto do jornal informar que a Câmara Municipal de Setúbal não se responsabiliza  por este inédito furto, tendo entregue o assunto à Polícia de Segurança Pública.

Claro está que a Autarquia deve entregar o caso para averiguação da P.S.P. de forma a tentar apurar a responsabilidade do assalto e eventual captura dos larápios.

Porém, não seria mais correto a nossa C.M.S. assumir de imediato a reposição das peças que se encontram à sua responsabilidade, porquanto é ela própria a proprietária e gestora de um espaço vedado e interdito ao comum dos mortais, fora do horário por si estipulado?

Rui Canas Gaspar

2014-maio-01
Enquanto neste dia primeiro de maio o jornal abandonado ao lado anuncia em manchete "Menos cortes para pensões douradas" um pacato cidadão goza as delicias do sol setubalense, junto ao Parque Urbano de Albarquel, provavelmente sem intenção de se dourar, mas pelo menos com a esperança de sair de Setúbal com um invejável bronzeado.
www.troineiro.blogspot.com
A Arrábida é um dos mais belos locais do mundo

Num frio, triste e cinzento dia de inverno a comunicação social aqueceu o nosso coração com a agradável notícia da apresentação da candidatura da Arrábida a Património Mundial Misto da Humanidade, por parte de Portugal, ao Comité Internacional da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

A necessária documentação contendo a pretensão nacional foi oficialmente entregue naquele organismo, sedeado em Paris, na sexta-feira dia 1 de fevereiro de 2013, depois de um exaustivo trabalho desenvolvido ao longo de uma década pelo poder local, que contou com a valiosa colaboração de várias entidades e cientistas de diversos estabelecimentos do ensino superior.

O Dr. Paulo Portas, então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, disse a propósito deste assunto o seguinte: “A candidatura da Arrábida a Património Mundial é justa e de enorme potencial. A Arrábida é uma das “joias da coroa” do património português que poderá ganhar muito com o seu reconhecimento internacional”.

Na primaveril manhã do ano de 2014 quando muitos países do mundo comemoram o Dia do Trabalhador a comunicação social arrefecia o nosso coração com a notícia que dava conta de uma nota informativa divulgada pela AMRS (Associação de Municípios da Região de Setúbal) com o seguinte teor:

"Fomos informados pela Sra. Embaixadora de Portugal na UNESCO, Dra. Ana Martinho, de que o Estado Português irá retirar a Candidatura face aos conteúdos dos relatórios da ICOMOS e do IUCN" - refere uma nota do Gabinete de Imprensa da Associação de Municípios da Região de Setúbal.

"O processo de candidatura da Arrábida a Património Mundial, tal como sempre afirmámos, tem sido um projecto de desenvolvimento regional, de valorização das nossas gentes e terras, do seu património natural e cultural." - é sublinhado.


Estado Português Retira Candidatura da Arrábida a Património Mundial



Construímos este caminho com inúmeras personalidades e instituições da região, com a profunda convicção de que sendo um dossier de candidatura complexo e exigente, na Arrábida coexistem valores naturais e culturais únicos e excepcionais, que merecem ser conhecidos, preservados e divulgados.

No entanto, fomos informados pela Sra. Embaixadora de Portugal na UNESCO, Dra. Ana Martinho, de que o Estado Português irá retirar a Candidatura face aos conteúdos dos relatórios da ICOMOS e do IUCN.

Agradecendo o contributo e empenho de todos os que participaram na Candidatura, reafirmamos a nossa intenção de prosseguir o processo de afirmação e valorização da Arrábida, nomeadamente, através da continuação dos trabalhos em curso, entre eles, os decorrentes dos Protocolos estabelecidos com instituições do ensino superior relativos à definição de roteiros e ao estudo de capacidade de carga da Arrábida; a edição dos estudos técnicos e científicos produzidos; a promoção dos valores naturais e culturais da Arrábida.

Agradecendo, igualmente, o apoio e a disponibilidade sempre demonstrada pela Comissão Nacional da UNESCO ao longo deste processo, estamos, desde já, a procurar todas as possibilidades alternativas para o reconhecimento internacional deste território, convictos de que as populações e os agentes de desenvolvimento permanecerão ao nosso lado neste desígnio regional.

Para o dossier ser retirado é porque o Estado Português, em função dos relatórios apresentados, sentiu que a candidatura teria grandes hipóteses de não ser aprovada pela UNESCO e sendo assim optou por não se sujeitar a uma humilhante reprovação, retirando-a.

O que eu acho estranho, como simples cidadão e não como perito nestas coisas, é como é que se gastam anos e anos com estudos técnicos e largos milhares de euros despendidos para se apresentar ao mais alto nível, uma candidatura deste tipo, sem que a mesma esteja solidamente fundamentada, ao ponto de ser o próprio promotor, o País, a retira-la.

Mais estranho ainda é que depois da candidatura apresentada, o próprio país promotor, Portugal, receba os mais importantes relatórios,  apontando certamente em direção diametralmente oposta às suas pretensões.

Coisa boa não é certamente apurada por aqueles relatórios oriundos do ICOMOS e do IUCN e isso seria interessante ser também divulgado publicamente, é que, na Arrábida a par de toda a indiscutível beleza também há por lá muita coisa menos boa e isso todos nós sabemos, mas pelos vistos, com grande pena nossa, havia alguém que não sabia…

Rui Canas Gaspar

2014-maio-01

domingo, 27 de abril de 2014

FONTE NOVA
Ainda falta a cereja em cima do bolo

Foi com muita satisfação que verifiquei que uma equipa de trabalhadores estava a levar a cabo obras de melhoramento no antigo fontanário da Praça Machado dos Santos, mais conhecida por “Fonte Nova”.

Aquele importante monumento sadino era já referido desde 1510 e sofreu obras em meados do século XVIII dando-lhe o aspeto neoclássico com que hoje se apresenta.

No século XX foi relegado para segundo plano, quando algum “distraído” autarca autorizou a construção de um “mamarracho” mesmo pegado ao seu alçado posterior retirando-lhe o destaque que naturalmente lhe seria devido.

Como parte das comemorações do 40º aniversário da revolução de 25 de abril a Autarquia decidiu dar nova vida a este belo monumento e, por isso, junto do mesmo houve festa, onde não faltou a música e os discursos da praxe.

A intervenção no monumento decorreu sob a responsabilidade da União de Freguesias de Setúbal e teve como objetivo colocar a jorrar água as duas bicas do fontanário, dando-lhe vida, ainda que a mesma já não seja oriunda do Outeiro da Saúde, mas sim daquela que os setubalenses consomem nas suas habitações, captada em furos hertzianos e distribuída, depois de tratada com cloro, pela empresa Águas do Sado.

Não se pense que se trata de um desperdício e a água corre pelas bicas e escoa-se para o esgoto. Nada disso, ela é paga à empresa fornecedora que para o efeito instalou um contador junto ao fontanário, por isso o precioso líquido circula em circuito fechado, não devendo ser consumido.

Para completar o embelezamento deste vetusto fontanário foram colocados pontos de iluminação LED, de cor azul, embora o sistema esteja dotado de dispositivo que lhe permite mudar de cor se e quando for essa a opção.

Tudo muito bem, tudo muito bonito e quero daqui dar os parabéns aos autarcas que deram vida a um antigo marco da minha e da de muitos meninos que por ali nasceram, cresceram e brincaram.

Mas como não há bela sem senão, foi pena não se ter concluído o trabalho, fosse por desconhecimento, por falta de tempo ou por outro qualquer motivo, o facto é que faltou “a cereja em cima do bolo” ou seja faltou colocar a esfera armilar, em ferro, com o espigão no topo do fontanário.

Não acredito que tenha sido por falta de verba, até porque é um elemento decorativo relativamente barato e fácil de fazer num dos nossos ferreiros setubalenses. Aceito que tenha sido um lapso e que por isso mesmo esse importante pormenor seja corrigido no mais curto espaço de tempo.

Não estou a ver o Presidente Rui Canas ou a Presidente Dores Meira, bem vestidos, esmeradamente penteados, preparados para uma cerimónia que nos represente a nós setubalenses e ao invés de se apresentarem devidamente calçados irem apenas com meias e dedo de fora…

É o mesmo que se passa neste momento com a Fonte Nova, pelo que urge fornecer-lhe os sapatinhos, ou seja o chapéu, ou melhor a necessária peça decorativa que está em falta.

Rui Canas Gaspar


2014-abril-27

terça-feira, 22 de abril de 2014

E assim nasceu o Clube Naval Setubalense

O Clube Naval Setubalense é uma antiga instituição sadina que dentro em breve comemorará o seu centenário.

A página oficial deste antigo clube dá-nos conta de como foi o seu passado e de como vive presentemente este Instituição que tem ajudado nos desportos náuticos tantas gerações de setubalenses.

Vale a pena conhecer um pouco da história dos primeiros anos deste quase centenário clube sedeado junto ao rio azul.

Foi em 6 de maio de 1920, dez anos depois da formação do Vitória Futebol Clube que graças ao entusiasmo do Comandante Afonso O’Neill, Dr. Carlos Botelho Moniz, Tenente Silva Escudeiro, Capitão Cassar, João Teixeira e Virgílio de Sant’Ana se formou este clube sadino direcionado para as atividades náuticas de lazer.

Nos primeiros tempos os pioneiros tinham o Sado para praticar as suas atividades aquáticas porém como não tinham onde reunir conseguiram resolver a situação graças à boa vontade dos bombeiros voluntários que lhes cederam uma sala nas suas instalações.

Perto do Rio Sado, onde hoje se localiza a Praça da República, existia naqueles tempos um barracão pertença da Câmara Municipal e os dirigentes do clube trataram de mover os seus melhores esforços, no sentido da Autarquia lhes ceder aquele espaço, esforço que foi compensado com o deferimento da sua petição.

O entusiasmo dos primeiros tempos era enorme e um ano depois, em 1921, nasce a ideia de se construir um hangar junto ao barracão pelo que os promotores trataram de obter a prévia concordância da Câmara Municipal.

Autorização já havia, faltava-lhes apenas um pequeno pormenor, o dinheiro para a construção!...

Mas, os navalistas estavam mesmo dispostos a levar de vencida o seu projeto e para isso não recorreram a nenhuma ação naval, preferiram fazê-la em terra, organizando uma vacada na Praça de Touros Carlos Relvas. Um espetáculo cuja receita angariada lhes permitiu fazer face às primeiras despesas do Hangar.

Naquele ano a satisfação foi bem mais completa porquanto lhes foi dado conhecimento que no dia 13 de agosto o Ministro da Marinha tinha aprovado os Estatutos do Clube.

Em 1922 como parte integrante das comemorações do aniversário do Naval, de novo os seus sócios e demais amigos voltam à Praça de Touros Carlos Relvas, desta vez não para uma vacada, mas para espetáculo mais a sério, uma tourada! De novo a receita de bilheteira, agora mais substancial, reverte a favor da construção da fase final do hangar.

Quatro anos depois do seu nascimento e o Clube Naval Setubalense já era uma entidade reconhecida e respeitada sendo então anfitriã do Campeonato Nacional de Remo, evento que contou com o decisivo apoio da Câmara Municipal. Este acontecimento desportivo foi de tal forma importante que contou com a presença do próprio Presidente da República de Portugal.

Rui Canas Gaspar

2014-abril-22

domingo, 20 de abril de 2014

Capela do Senhor do Bonfim

Quando era criança, deveria ter entre uns quatro ou cinco anos, tomei o meu primeiro contacto com a religião cristã pela mão de meus pais, que por diversas vezes me levaram a acompanha-los à Capela do Senhor do Bonfim.

Já no seu interior, subia por uma escada existente nas traseiras do altar, para ir beijar o pé da imagem da Cristo, após o que colocava uma moeda na caixa das esmolas aí existente que minha mãe retirava da sua mala de mão e me entregava para ser eu a depositar.

Esta era uma forma de meus pais agradecerem a graça concedida pela proteção dispensada e pela pesca conseguida, que nos trazia alimento e agasalho, naqueles tempos difíceis.

Lembro-me de numa dependência lateral, creio que anexa à sacristia, existirem os mais variados ex-voto com bonitas pinturas naif, reproduções de barcos e figuras de partes do corpo esculpidas em cera. Tratava-se de manifestações de agradecimento pelas mais diversas graças concedidas aos fieis devotos do Senhor do Bonfim.

E foi para rever estas minhas antigas memórias que um dia passando à porta daquela capela ali entrei e tudo observei. Mas, na sala onde se encontrariam os tais ex-voto nada relacionado com isso lá estava, já há vários anos…

Procurei obter alguma explicação para tal situação, mas o que consegui saber foi muito vago e fiquei com a impressão de que tudo aquilo que representava a fé de muitas pessoas, que por essa mesma fé, viram ser-lhes concedidas as mais diversas graças, teria ido parar ao lixo na totalidade ou a casa de alguém no que se referia a peças mais duradouras e que poderiam servir de decoração.

Em Setúbal, não é a primeira vez, nem a segunda, nem sequer a terceira que tenho conhecimento de situações idênticas da perca do mais variado património religioso e correlacionado, porque algum mais zeloso “responsável” decide levar a cabo uma ação de modernização e limpeza de instalações das quais não é dono, mas sim simples “mordomo”.

E foi nessa minha incursão, já lá vão meia dúzia de anos, por este local de gratas memórias não só da minha meninice mas também local onde quando jovem foi celebrado o meu casamento que fotografei o interior da Capela e montei em jeito de foto-reportagem, que disponibilizei no popular YouTube e que ainda hoje desperta a curiosidade e o interesse de várias pessoas devotas ou não do Senhor do Bonfim.

http://youtu.be/LLm7qpcWs5g

Rui Canas Gaspar

2014-abril-20

sábado, 19 de abril de 2014

Foi a 19 de abril…

No dia 14 de abril de 1858, a Câmara Municipal, presidida por Aníbal Alvares da Silva dirige ao rei a petição no sentido deste poder elevar a vila de Setúbal à categoria de cidade argumentando o seguinte: “Setúbal, conhecida por toda a parte do mundo pela extensão do seu comércio de sal, laranja, cortiça e cereais (…) recebendo no seu magnífico porto o preito que lhe pagam as principais nações do Mundo, cujos estandartes ali flutuam atraídos pela excelência dos seus géneros e produtos da sua indústria (…) pede a Vossa Majestade a graça de elevar esta muito notável vila à categoria de cidade”.

O tempo passou e, no primaveril dia 19 de abril de 1860, o jovem Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio de Saxe-Coburgo-Gotha e Bragança, mais conhecido entre os comuns mortais por D. Pedro V, a quem alguns portugueses resolveram cognomizar de “O esperançoso”, do alto dos seus 22 aninhos, defensor acérrimo da abolição da escravatura, elevava a então “ notável villa” de Setúbal à categoria de cidade tendo mandado despachar o decreto-lei, do qual se salienta a seguinte passagem:

 “Tendo em muito apreço os constantes testemunhos que os seus habitantes têm dado de nobre dedicação ao trono e às instituições constitucionais da monarquia: hei por bem, anuindo à representação da câmara municipal de Setúbal; e me apraz que nesta qualidade goze de todas as prerrogativas, liberdades e franquezas que direitamente lhe pertencerem (…)”.

Eram passados apenas 88 anos sobre esta importante efeméride, quando uma senhora conhecida entre os setubalenses de então pelo nome de Esguita, era chamada para assistir no Bairro de Troino a uma jovem de vinte aninhos que se contorcia com as dores do parto.

E tal como na generalidade das situações por aquelas bandas, sem cartões nem complicações, não nascia um menino, porque isso era privilégio de senhoras ricas, mas sim um moço, que começou logo por ser alvo de discussão entre a progenitora e aquele a quem convidara para padrinho, um cavalheiro de nome Primo.

Ora como a jovem entendia que Primo não deveria ser nome de gente e o Primo que não gostava do seu nome entendia que o seu afilhado deveria também ser Primo, logo acabou por ser descartado e outro padrinho rapidamente o substituiu.

E foi assim que no natalício dia 19 de abril, quando Setúbal comemorava o seu 88º aniversário de elevação a cidade, nasceria nesta terra, de Bocage, Luisa Todi e do Primo, mais um outro setubalense, a quem decidiram finalmente colocar não um tão extenso nome como o daquele menino que nasceu nobre, mas sim um bem mais pequeno, à medida da sua qualidade plebeia, embora para a sua avozinha ele fosse o seu Rei da China, do Japão, e de tantas outras estranhas terras que o bebé Rui um dia provavelmente iria conhecer...

Rui Canas Gaspar

2014-abril-19

quinta-feira, 17 de abril de 2014


É necessário reativar o Balneário Dr. Paula Borba

Localizado na Rua Balneário Dr. Paula Borba, frente à capela de Nossa Senhora dos Anjos, Ordem Terceira de S. Francisco, em cujas instalações funciona o Agrupamento 62 do Corpo Nacional de Escutas, encontra-se o edifício do desativado Balneário Dr. Paula Borba.

Este antigo e funcional balneário, inaugurado em 20 de maio de 1926, chegou a ser considerado pelo autor do projeto, Eng. Carlos Manitto Torres como “o melhor balneário do país” instalações que na altura da sua inauguração não encontravam paralelo, excetuando as existentes nas termas e nos hospitais da Universidade de Coimbra e de Santo António, no Porto, embora menos modernas e equilibradas.

Não foi fácil instalar esta unidade em Setúbal. O dinheiro proveio das mais diversas fontes de financiamento, começando por uma subscrição pública entre os habitantes da cidade tendo como objetivo fazer um monumento ao grande benemérito Dr. Paula Borba, que não aceitou a homenagem e sugeriu que esse dinheiro fosse aplicado num balneário a instalar no Hospital da Misericórdia.

Em Setembro de 1917 teve inicio o processo de construção liderado pelo Dr. Francisco Paula Borba, diretor-presidente da Associação de Beneficência da Misericórdia de Setúbal.

Uma Comissão foi constituída e uma subscrição pública foi lançada tendo como objetivo conseguir a verba necessária. O dinheiro não abundava e o empreendimento levaria quase uma década até ver a água correr nas suas modernas cabines de duche.

Anos mais tarde as instalações encerraram por um período de tempo necessário a trabalhos de substituição de peças e materiais, melhoramentos de equipamentos e modernização, voltando a reabrir em 1960, “agora em condições que representam um notável melhoramento para a cidade” conforme noticiado pelo jornal O SETUBALENSE de 7 de maio.

O equipamento que tinha como objetivo a higiene da população,  bem como a dinamização de tratamentos hidroterápicos, viria a ter bastantes utilizadores ao longo dos anos, não só setubalenses como também daqueles estrangeiros, homens do mar, que aqui aportavam nos seus barcos vindos sobretudo do norte da Europa.

Nos anos sessenta do século passado, eram ainda muitas as habitações em Setúbal que não dispunham de instalações sanitárias e os banhos eram geralmente tomados semanalmente de forma precária, na cozinha das pequenas habitações, recorrendo-se a uma grande bacia de esmalte ou chapa zincada.   

Foi nessa época que conheci o balneário e a ele comecei a recorrer frequentemente, lembrando-me bem o quão era agradável aqueles deliciosos banhos de chuveiro, com água quente, um prazer que não podia desfrutar nas casas onde a família habitou até à minha chegada da guerra de África.

Presentemente a generalidade das casas, mesmo as mais antigas, dispõem de espaço próprio para banho, embora outros novos problemas se levantem à cidade, que entretanto conheceu um grande crescimento populacional.

Pessoas sem-abrigo, turistas de mochila às costas, setubalenses carenciados que vivem em quartos com acesso restrito a banhos estão na linha da frente, a par de outros que dispondo dessas condições poderiam gostar de usufruir de outro tipo de serviços que um moderno balneário poderia prestar como por exemplo as cabines de sauna, hidroterapia, etc.

Com uma população residente na ordem das cento e vinte mil pessoas, a cidade necessita de alguns serviços de apoio e este é seguramente um deles.
Até pelo facto de já existirem as necessárias infraestruturas edificadas, em minha opinião, deveria colocar-se de novo a funcionar o balneário público setubalense, encerrado já há alguns anos.

Este não será assim um investimento tão dispendioso perante a mais-valia que isto representa em termos de saúde pública e oportunidade temporal, considerando por isso mesmo que se trata de um bem necessário e urgente.

Rui Canas Gaspar

2014-abril-17
Um mau negócio para todos

Há anos atrás costumava correr no mundo dos negócios uma frase, que de certo modo servia de guia entre negociantes, dizia-se então que: “negócio que não fosse bom para as duas partes não era negócio”. Ou seja, se duas pessoas negociavam algo, ambas teriam de ficar satisfeitas com o que teriam acordado, sem que um ficasse a ganhar e o outro se sentisse perdedor.

Embora não seja este propriamente o caso, atendendo a que não houve negócio algum entre duas partes, a situação reveste-se porém de alguns contornos parecidos, o que me leva a concluir que aqui não só não existiu um bom negócio, mas sim uma péssima situação para todas as partes envolvidas direta e indiretamente.



Fruto de contencioso os barcos da Transado e suas instalações foram parar, há cerca de uma dezena de anos, à posse da APSS. A administração da Transado recorreu judicialmente, o caso arrasta-se há anos pelo tribunal e a APSS que pouco tempo passado e, com a entrada ao serviço dos novos barcos da Atlantic Ferries acabou por recolher os antigos fery-boats e os convencionais que faziam o trajeto entre Setúbal e Troia aos seus ancoradouros, lá para as bandas da Mitrena.

As embarcações encontram-se à responsabilidade da APSS, que como se costuma dizer, ficou com a criança nos braços e, com o passar do tempo têm vindo a ser alvo de acentuada degradação natural bem como daquela motivada pela intervenção humana, sem este entidade possa alienar aquele património porquanto o assunto pendente em Tribunal ainda não transitou em julgado.

Entretanto, o novo operador dos transportes fluviais entre Setúbal e Troia e vice-versa, segundo informações que correm na cidade, não está com resultados operacionais favoráveis, fruto do elevado valor investido na aquisição das novas embarcações e na acentuada diminuição de pessoas e veículos transportados. Ora estes resultados seriam bem diferentes se tivesse optado pela aquisição dos antigos barcos em vez de investir nos novos.

Não vale a pena entrar em grandes pormenores, sendo que muita informação sobre este assunto encontra-se disponível publicamente. Porém, para o comum cidadão é fácil concluir que este é um daqueles casos em que mais valia ter havido um mau acordo que uma boa sentença.

Sentença que ainda não foi proferida devido à lentidão da Justiça Portuguesa, mas que faz com que uma frota de barcos fluviais no valor de alguns milhões de euros fique a apodrecer no Sado, ocupando espaço físico que seguramente poderia ser utilizado de forma mais produtiva e que quando for proferida certamente ninguém irá aproveitar porque os barcos, se ainda existirem, estão prontos para serem vendidos ao quilo, como sucata.


Rui Canas Gaspar

2014-abril-16

terça-feira, 15 de abril de 2014


COISAS DE SETÚBAL o mais completo grupo de naturais e amigos da cidade e região do Rio Azul.
Se ainda não é membro deste dinâmico grupo convidamo-lo 
a pedir já a sua adesão.
A fábrica de conservas do gargalo

A fábrica de conservas do Gargalo foi uma das mais importantes unidades fabris sedeadas em Setúbal.
As suas instalações no interior do baluarte do Livramento, junto à doca do Clube Naval Setubalense, encontram-se vandalizadas e com muito lixo a exemplo da fábrica dos "Espanhóis do Bonfim" e de tantas outras importantes unidades produtivas que laboraram em terras setubalenses.
Que bom seria vermos a nossa cidade ser dotada de uma nova marina e em substituição de todo este degradado património que ali pudéssemos observar uma moderna, limpa e funcional zona comercial e de apoio às atividades náuticas de desporto e lazer.

Rui Canas Gaspar
2014-abril-15


domingo, 13 de abril de 2014

O elefante branco

De branco tem a cor dos edifícios construídos, de elefante não tem a inteligência desse animal, mas sim a  monstruosidade da asneira e do desbaratar dos dinheiros de todos nós a que se poderá acrescentar a brutalidade de encargos diários para manter a estrutura entretanto construida.

Estou a falar das instalações inacabadas destinadas à Casa Pia de Lisboa para acolher algumas centenas de jovens em recém-construídos edifícios numa propriedade anexa ao convento de S. Francisco, bem à saída de Setúbal a caminho do Forte de S. Filipe.

Em 6 de março de 2000 a comunicação social anunciou o início da construção do mega projeto social financiado pelo PIDDAC, uma obra orçada em dois milhões de contos (cerca de dez milhões de euros) dos quais seriam de imediato desembolsados 800 mil contos para as obras de construção do Colégio da Casa Pia.

Seriam edificados sete blocos de edifícios que receberiam cinco lares de alunos internos. No local seria também construida uma escola de ensino profissional e um espaço de ensino pré-primário e infantil. Proceder-se-ia à recuperação do velho convento e tudo seria alindado com a construção de zonas verdes e de lazer a que não faltaria uma piscina coberta.

Dispendiosos muros de contenção de terras foram levantados, foi erguida uma enorme e altíssima vedação em torno do amplo espaço, instalado todo o sistema de saneamento e construíram-se cinco dos sete edifícios previstos.

E quando tudo parecia estar prestes a concretizar-se e os jovens casa-pianos a terem um novo lar eis que a Provedora da Casa Pia diz que o espaço se encontra afastado do tecido social e urbano e que contraria as orientações técnico pedagógicas e como tal as instalações não servem para aquele organismo.

As obras pararam sem que fosse concluído o projeto e já depois de ali terem sido gastos milhões de euros do erário público, passados tantos anos assim continuam a consumir os parcos recursos do povo português, devido à necessária manutenção do espaço.

O “elefante branco” é colocado à venda, mas como este é um tipo de carne que não se consome cá pelas nossas bandas, ninguém pegou nele. De dia para dia a propriedade continua a desvalorizar, sem que os “competentes” gestores financeiros lhe deem um outro diferente destino, que não seja acabarem por a vender ao preço da uva mijona.

Quanto aos “responsáveis” pela originalidade de um projeto que não servia para o fim em vista isso nem se fala.

Infelizmente em Portugal a culpa costuma morrer solteira quando falamos de pesos pesados, sejam eles elefantes ou gorilas, é claro que se falássemos de franganitos há muito que já teriam sido mortos, esfolados e consumidos.

Pobre povo que se encontra à mercê deste tipo  de incompetentes palradores  que se dão ao luxo de fazer destas absurdas barbaridades sem serem alvo de quaisquer consequências.

Rui Canas Gaspar

2014-abril-13

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A água pura e cristalina da nossa terra

Como em séculos passados hoje a água corria com força, fresca e cristalina pelos escuros tuneis da Arca d’Água de Alferrara, seguindo o mesmo percurso com que durante muitos e muitos anos percorreu, serra abaixo, correndo sobre o aqueduto que a conduziria até ao Largo do Sapal, hoje conhecido por Praça de Bocage, local onde se encontrava a vistosa fonte que abastecia aquela zona nobre de Setúbal.

Hoje na Fonte do Sapal, instalada noutro local, na Praça Teófilo Braga, correm outras águas, provavelmente não tão puras e cristalinas como estas que hoje percorriam os frescos e escuros tuneis da serra.

Tive a oportunidade de mostrar ao meu pequeno neto esta maravilha da nossa terra, e explicar-lhe o percurso da água que vinda do interior da serra seguiria pelo interior desta antiga estrutura que se encontra votada ao abandono.

Quantas crianças (e até adultos) da nossa terra não beneficiariam com uma visita a este local e uma explicação sobre a captação e consumo da água e não interiorizariam que estamos em presença de um bem finito que urge preservar, tal como este património que se encontra votado ao abandono?







Rui Canas Gaspar

2014-abril-11