notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

sábado, 4 de abril de 2020



O “crime” dos namorados troineiros

Os jovens namorados Benilde com os seus 16 verdes anos e Francisco em plena juventude contando agora com os seus vigorosos 18 decidiram um dia gravar para a posteridade o seu amor. 

No início daqueles idos anos 40 do passado século XX as máquinas fotográficas constituíam um bem raro e como tal os fotógrafos profissionais eram as pessoas que se encarregavam da tarefa de gravar esses bons momentos. 

Os jovens setubalenses, nascidos e criados no popular Bairro de Troino, num belo dia vestiram as suas melhores roupas e sorrateiramente foram ao retratista para que este gravasse para a posteridade aquele momento de felicidade. 

E, foi o retratista que disse que naquele cenário do estúdio, como se estivessem à janela, que a mão do rapaz por cima do ombro da rapariga ficaria melhor. E assim foram fotografados. 

Passados uns dias Francisco estava no mar, onde era camarada num barco da pesca da sardinha quando a Benilde foi buscar os retratos que já estavam prontos. 

Encantada com a imagem a moçoila foi fazer a surpresa à mãe mostrando a bela foto. Esta olhou para a fotografia e ato contínuo levantou a mão e deu uma bofetada na filha, guardando as fotos e exclamando “não tens vergonha!”.
A mãe, não devolvendo, escondeu as fotos e a Benilde ao longo de muitos meses procurou-as por todos os cantos da casa sem as encontrar, não podendo assim mostrar ao namorado. 

Era o que mais faltava uma moça tão prendada que até aprendera a bordar e costurar na Casa dos Pescadores poder vir a ser falada por todo o Bairro de Troino, deixando ficar mal os Canas! Isto no caso do Francisco não se casar com ela, agora que até tinha um retrato com a mãozinha marota por cima da sua filha… 

O tempo passou e, em 1947, o casalinho deu o nó na Igreja da Anunciada e foi nesse dia que Benilde recebeu da mão de sua mãe o retrato captado dois anos antes, qual prova do “crime” e só nesse dia Francisco teve oportunidade de apreciar a imagem de um ternurento momento. 

Durante muitos e muitos anos, Benilde e Francisco viveram uma intensa vida a dois, passando bons e maus momentos até que um dia partiram deixando para além da saudade a bela imagem de um jovem e feliz casal setubalense.
Outros tempos, outras realidades!... 

Rui Canas Gaspar
2020-abril-04


quarta-feira, 1 de abril de 2020


Depois das placas “propriedade privada” na Comenda temos agora mais na Arrábida 

Devido à pandemia a C.M.S. interdita o acesso ao Parque Urbano de Albarquel e à Arrábida e para agravar a situação mais placas com indicação de “propriedade privada” foram colocadas em torno da desativada Bataria do Outão .

Depois de cerca de dois anos de intensas discussões que envolveram diferentes intervenientes as negociações foram dadas por concluídas no final de dezembro passado e o multimilionário chinês  Jin Chang, dono da cadeia de hotéis de luxo  Xanadu, acabou por se tornar o novo dono desta importante parcela da Arrábida.

Conforme notícias anteriormente divulgadas na imprensa já era sabido que no local iria nascer um hotel de 6 estrelas.  A confirmação chega-nos agora e Setúbal irá ficar dotada de uma unidade hoteleira de arquitetura ímpar que será inspirada nas fortificações marítimas portuguesas.

Os postos de trabalho diretos e indiretos calculados para poderem fazer funcionar esta unidade, vocacionada para o turismo de luxo, serão de três centenas de pessoas as quais  começarão a ser recrutadas a partir de janeiro.

Até ao final do corrente ano os trabalhos estarão centralizados nos espaços exteriores e infraestruturas de apoio de forma a que em 2021 avance a construção da unidade hoteleira que segundo o investidor deverá ser inaugurada na passagem do ano de 2021/2022 .

A parte menos agradável da informação é que a estrada no alto da serra (onde normalmente se realiza a Rampa da Arrábida) passará ser acessível apenas no sentido poente/nascente exceção feita para viaturas que tenham como destino a unidade hoteleira as quais poderão transitar entre o entroncamento da Rasca e a antiga bataria.

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com

segunda-feira, 30 de março de 2020



O polícia Sinaleiro que ficou na memória

O açoreano que se veio radicar em Setúbal e aqui criou a sua família, ficou na memória de muitos setubalenses como um homem elegante, simpático, íntegro, cujo profissionalismo impressionava os pequenos e graúdos.

Porte atlético, tronco muito direito, na sua atividade de polícia sinaleiro os movimentos eram bem vincados e precisos, por isso não é de admirar que fossem muitos os setubalenses, crianças, jovens ou adultos, que ficavam alguns minutos no passeio para admirar a forma impecável como este polícia sinaleiro dirigia o trânsito, normalmente na Avenida 22 de Dezembro.

O Sr. Jacinto era pessoa de uma delicadeza extrema e quantas vezes não mandou ele parar o trânsito para dar o braço a uma senhora idosa ajudando-a a atravessar a rua. Mas o seu profissionalismo era de tal ordem que muitas vezes mesmo sem estar de serviço e notando que havia qualquer problema na fluidez automóvel ia para o meio da via e desbloqueava a situação.

A revolução de 25 de abril de 1974 estava no auge quando as maiores manifestações de jubilo que alguma vez ocorreram em Portugal foram vividas em Setúbal.

Naquele 1º dia de Maio de 1974 uma mulher setubalense foi junto do Sr. Jacinto, que como sempre cumpria a sua atividade ao serviço do trânsito na cidade e colocou-lhe um cravo vermelho na lapela, símbolo da revolução de abril.

No dia seguinte o Sr. Jacinto apresentou-se ao serviço, dirigindo o trânsito, impecavelmente fardado e de sapato a brilhar, mas com dito cravo na lapela.

Rui Canas Gaspar
2020-março-30

sexta-feira, 20 de março de 2020


A história de uma velha imagem

O Moscatel de Setúbal foi colocado na mesa improvisada, forrada com uma tela de sinalização para aeronaves, onde fez companhia ao vinho do Porto e outras bebidas, algumas conservas e poucas iguarias que os familiares tinham feito chegar a Bijene, na Guiné, fronteira norte com o Senegal. 

Na ausência de pinheiro de Natal um ramo de mangueira, enfeitado com estrelas recortadas dos revestimentos dos maços de tabaco tentavam dar um ar natalício àquela noite onde um grupo de militares confraternizavam longe das suas famílias e de olhar atento para o escuro de onde poderia surgir um ataque dos guerrilheiros do PAIGC. 

Não por beber demais, mas pelas misturas feitas, o que comi e bebi acabou por sair e no dia seguinte estava de ressaca. Porém a fémea do mosquito anophellis já me tinha dado uma beijoca e o organismo mais fraco não resistiu ao paludismo (ou malária) que atacou em força. 

Uma semana depois, naquela zona inóspita não havia condições para tratar o doente e foi solicitado que uma avioneta militar me transportasse para o Hospital Principal em Bissau. 

A velha DO Dornier 27 do tempo da 2ª Guerra Mundial estava a fazer-se à pista de aterragem quando os guerrilheiros começaram a atacar, os camaradas pediam que eu corresse e me enfiasse no abrigo, mas mal podia com as botas e estava tão magro que era difícil acertarem neste alvo móvel. 

A avioneta não chegou a aterrar e só pouco depois retornou pousando o tempo suficiente para atirar para o solo umas sacas com correio e para eu entrar, levantando de imediato. 

Já no hospital a coisa ia de mal a pior e, quase sem forças e mais parecendo um esqueleto vaidoso perguntei ao enfermeiro se isto era para morrer ou não.  

Resposta pronta do rapaz: -Olha! estamos à espera de uma injeção que vem da metrópole. Se ela chegar a tempo safas-te, se não lerpas. 

Bem a injeção pelos vistos chegou a tempo, nem sei onde a espetaram porque era só pele e osso… 

Alguns dias depois tentei colocar um ar mais agradável e com um visual mais tipo chinês que português fotografaram-me vestido com o pijama do hospital e enviei a imagem para a minha mãe para que ela pensasse que estava numa qualquer colónia de férias. 

Hoje fui encontrar a fotografia que partilho aqui com os amigos, com a certeza de que como não “lerpei” vão continuar a ler as mais diferentes histórias contadas por quem já muito viveu e provavelmente ainda por cá ficará o tempo suficiente para contar mais e vocês para me aturar. 

Abreijos e fiquem em casa se puderem. 

Rui Canas Gaspar 

Troineiro.blogspot.com

domingo, 15 de março de 2020


Já comeu xarém? 



No início do século XX muitos pescadores oriundos do Algarve, sobretudo da região de Olhão, Fuzeta e Tavira, vieram radicar-se em Setúbal, assentando arraiais na zona do Bairro de Troino.

Com eles vieram naturalmente usos e costumes algarvios que os tinham absorvido em boa parte dos mouros que durante muitos anos ocuparam aquela região do Sul de Portugal.

O xarém (ou xerém) é um prato típico tradicional da cidade de Olhão e que em Setúbal teve muito consumo entre as famílias dos descendentes algarvios, sobretudo nos invernosos meses aquando do defeso da pesca da sardinha, período em que a fome grassava por toda esta terra de pescadores e conserveiras.

Por ser muito saboroso e barato era consumido com alguma frequência tendo até sido “exportado” para o Brasil e Cabo Verde.  

Trata-se de uma papa de farinha de milho a que se poderão juntar mais alguns condimentos, dependendo da bolsa e da criatividade do cozinheiro.

Ao olhanenses juntam-lhes conquilhas, as deliciosas ameijoas que dão ao prato um delicioso paladar que poderá também ser preparado com toucinho, presunto e chouriço.

Se nunca o degustou e tem os ingredientes necessários aproveite para cozinhar e fique a conhecer mais um pitéu que foi um dos 7 candidatos finalistas às Maravilhas da Gastronomia portuguesa.

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020


Até quando o nosso património ficará descurado? 

Não a primeira vez e provavelmente não será a última que aqui tenho feito reparo a um assunto que me preocupa enquanto setubalense.

Apoio a 100% as obras de beneficiação bem como as obras de arte com que tem sido dotada a nossa cidade, durante tantos anos delas carenciada. 

Porém, manda a prudência que a par da verba para erigir seja o que for, se provisione alguma outra para a necessária manutenção, sob pena dos espaços virem a ficar piores do que estavam. 

É absolutamente incompreensível que um dos poucos monumentos que erigimos aos nossos pescadores esteja HÁ ANOS com um miserável aspeto, votado ao abandono onde nem sequer as simples correntes soltas HÁ ANOS sejam devidamente presas. 

Continuamos com o barco cheio, não de peixe, mas de lixo, tal como a zona que o envolve. E para compor o ramalhete até as pedras decorativas junto ao monumento estão em estado miserável. 

Mas então não há uns cêntimos e alguém disponível na Câmara Municipal ou na União de Freguesias de Setúbal para se disponibilizar para que este espaço de eleição retome algum brilho e dignidade? 

Setúbal terra de gente do Rio e do Mar merecia um pouco mais de atenção e ação em vez de se procurar “trabalhar para a fotografia” descurando o pouco que temos e que muito nos custou a adquirir. Digo eu!... 

Rui Canas Gaspar 

Troineiro.blogspot.com 

2020-fevereiro-27

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020



Sou o Ronaldo e hoje vou falar-vos sobre mim

Nasci na bela cidade de Setúbal, no canil municipal, não me lembro bem do dia mas sei que foi em Outubro de 2012. 

Sou um belo exemplar, de porte atlético e pertenço à raça pitbull, abreviatura de American Pit Bull Terrier. 

Os meus antepassados vieram da terra do Tio Sam, pelo que sendo português, não deixo de ter sangue americano. 

Dizem que tenho como características o ser desajeitado, teimoso, obediente, determinado, afetuoso, leal, amigável e corajoso, o que de facto não são coisas assim tão más, como alguns tentam fazer passar. 

Era ainda pequeno, quando tinha apenas dois meses, o meu amigo e inseparável companheiro, Joaquim Pinela, veio buscar-me ao canil e levou-me para sua casa, que a partir desse dia passou a ser também a minha casa, não conhecendo outra até aos dias de hoje. 

Em 23 de setembro de 2013 levei a primeira vacina, porque o meu dono é muito cuidadoso comigo e por isso também me fez um seguro e tratou de conseguir o certificado comprovativo com a aprovação para detenção de cães perigosos e potencialmente perigosos, logo eu que sou um dos mais, senão o mais pacífico morador da minha rua, ali no Bairro Santos Nicolau. 

Marotices? Sim quem é que nunca as fez? Não sou de fazer porcaria fora do lugar, mas uma vez, tinha eu uns três anos sem que o meu dono desse por isso fiz cócó à porta de casa e para que ele não ficasse aborrecido fui buscar um sapato e coloquei por cima. É claro que não o enganei, levei o castigo adequado e nunca mais me atrevi a fazer asneiras. 

Hoje, que estou na meia-idade, sou obediente e bom amigo e, o que mais gosto de fazer é de colocar os meus adereços e ir com o meu dono passear, sendo frequente sentarmo-nos num banco de jardim na Praça de Bocage e, aqui na minha terra sou bem conhecido e até dizem que tenho mais estilo que o outro meu homónimo, embora esse tenha bolas de ouro e eu jogue com algumas menos valiosas. 

Não sou de grandes conversas, mas pensei que gostassem de saber um pouco mais sobre mim e assim possam contar mais esta história de vida, uma daquelas invulgares na História de Setúbal. 

Rui Canas Gaspar 

Troineiro.blogspot.com

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019


Setúbal entra em 2020 muito mais segura 

É com natural satisfação de setubalense que partilho com os amigos  a minha constatação ao ver a nossa cidade, neste final de ano, muito mais segura e protegida de eventuais fortes chuvadas. 

Se mencionamos aqui variadas vezes os trabalhos na várzea de que é visível a bacia de retenção pronta a atuar, o mesmo não tem acontecido com outra importante obra levada a cabo em simultâneo, com a mesma finalidade, estou a referir-me ao jardim dos arcos e à ribeira do Rio da Figueira. 

Nas margens da ribeira desde a zona do Mac Donalds até ao subterrâneo na Algodeia, foram  construídos centenas de metros de  resistentes paredões em betão com cerca de dois metros e meio de altura e uma espessura na ordem dos 30 centímetros. 

Os paredões da ribeira, na zona do Parque da Algodeia formam como que uma barragem às águas que possam vir das lados da Serra de S. Luís e que já por mais do que uma vez fizeram avultados estragos na cidade. 

Com estas bacias de retenção travando o transbordo das ribeiras do Rio da Figueira e do Livramento, podemos facilmente concluir que a cidade de Setúbal entra no ano 2020 muito mais protegida dos nefastos efeitos das grandes chuvadas que de vez em quando afetavam a nossa terra. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2019-dezembro-30

quarta-feira, 20 de novembro de 2019


Faltam cabeças na casa das quatro 

A célebre e então degradada Casa das Quatro Cabeças, imóvel de interesse municipal desde 1977 e posteriormente declarado de Utilidade Pública,  foi adquirida pela Câmara Municipal, depois de expropriada. 

Em Dezembro de 2014 anunciava-se que o imóvel iria ser recuperado pela Autarquia Sadina, tendo por finalidade o alojamento temporário de moradores da zona cujos edifícios fossem ser recuperados. 

De então para cá as obras no edifício foram alvo de intervenção descontinuada com andamentos e paragens ao sabor dos fluxos financeiros, com datas de inauguração nunca cumpridas. 

Posteriormente foi anunciado um outro destino para o vetusto imóvel, desta vez como residência de estudantes. 

Hoje passei por lá e a recuperada construção embora ainda não tendo sido inaugurada já apresenta no seu exterior a imagem de que terá de ser intervencionada ao nível da construção civil. 

Mas, o que mais curioso achei foi o anúncio daquele espaço, escrito na linguagem de sua majestade britânica, ao invés da língua de Camões que com pompa anuncia: “Setúbal Student Residence”. 

Perguntei aos vizinhos se a casa já estava ocupada, atendendo a que não via qualquer janela aberta e, com aquele sorriso que caracteriza quem sabe da poda a resposta foi-me devolvida com um simples: “acha ?” 

Bem, depois de terem sido gastos “rios de dinheiro” e de se terem ultrapassado todos os prazos, pelos vistos casa já temos (ou não !) o que parece faltar em Setúbal são as cabeças para a ocupar, sendo pois legítimo colocar a pergunta, até quando? 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2019-novembro-20

domingo, 17 de novembro de 2019


Valha-nos a “Santa Paciência” 

A estrada molhada, uns pingos de chuva aqui e ali, nuvens baixas criando efeito de nevoeiro nalguns troços dificultavam a visibilidade no alto da Serra da Arrábida, nesta cinzentona  tarde de Outono. 

Naturalmente os cuidados eram redobrados na condução, não fosse encontrar algum pedregulho na estrada ou animais selvagens, nomeadamente os javalis cujos rastos estavam bem visíveis nas bermas ou alguma atrevida raposa.
E foi precisamente a seguir a uma curva que um bem nutrido animal pertencente à família Canidae surgiu junto à berma daquela estrada até então deserta. 

Parei o carro e fotografei o animal que de selvagem só tem o habitat, dado que logo se me dirigiu provavelmente para receber o seu pagamento pelo trabalho de modelo. Teve azar não levou nada!... 

Em sentido contrário apareceu outra viatura que logo parou e de dentro do carro saiu uma senhora que ao ver a cena chamou a raposa que logo se dispôs a atravessar a estrada sem mais demora. Chamei a sua atenção para o facto de não dever fazer isso sob pena do animal ser atropelado. Resposta: Ela sabe o que faz!... 

O melhor estava para vir quando a dita senhora chama o animal por “Toma” acrescentando “vem cá à dona” e retirando do bolso um rebuçado tirou-lhe o papel e deu a comer (ou engolir) à raposa que não se fez rogada. Mais uma vez chamo a atenção da senhora para o que estava a fazer e ignorando tratou de dar mais outro rebuçado… 

Os animais selvagens sabem como sobreviver em meios hostis e as raposas espertas como são não fogem à regra. O que acontece é que com estas ações de alguns humanos que pensam ser pessoas com melhor coração que os demais, habituamos os animais a virem comer à mão, a atravessar estradas de qualquer maneira e a serem atropeladas por alguma viatura que venha com mais velocidade. 

Vim embora, a raposa por lá ficou a fazer parar os carros e vim pensando que para este tipo de pessoas que teimam em alimentar os animais selvagens, sem medir as consequências dos seus atos, nem a “Santa Paciência” poderá fazer grande coisa. 

Rui Canas Gaspar
2019-novembro-17
Troineiro.blogspot.com

quinta-feira, 31 de outubro de 2019


A “Rosita”

Manhã bem cedo, olho para a foz do Sado e nada mais observo para além de um denso manto de nevoeiro que teima em não mostrar a outra banda. 

Do meio do nada ouve-se o ruído de um motor e o estridente piar de numerosas gaivotas que acompanham aquele invisível barco de pesca que recolhe ao porto.

Os instrumentos de bordo ajudam aqueles heróis que com este tempo vão ao mar buscar o peixe com que nos deliciamos e que fazem dos nossos restaurantes uma referência gastronómica. 

Lembro-me de quando era rapaz ver sair a “Rosita”, a popular “vedeta” da Capitania, em dias que o mau tempo se anunciava, dirigindo-se para a zona da barra, onde ali chegada passava um cabo a cada bote a remos que por ali pescava de forma a rapidamente os rebocar para terra.

Esta embarcação que pertencia  à capitania do porto de Setúbal funcionava como uma mãe que na eminencia do perigo se apressava a ir recolher os filhos para os trazer para o lar, o seu porto de abrigo.

Hoje as embarcações de médio porte e até os botes já são movidos a motor e os novos pescadores já vão munidos de GPS, radares, sondas, telemóveis e demais equipamentos. Mas, o mar, o nevoeiro e o mau tempo continuam a não dar tréguas a estes valentes guerreiros que são os pescadores da nossa terra.

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2019-outubro-31

segunda-feira, 7 de outubro de 2019


Obra de amor continua coberta por telas publicitárias 

Foi uma hora o tempo que despendi ontem para fazer  os quatro quilómetros de perímetro no futuro Parque Verde da Várzea, a fazer fé no relógio e na aplicação sobre saúde do meu telemóvel, responsável por esta informação. 

Aproveitei esta agradável caminhada  para observar com algum pormenor o que por ali já se fez e continua a fazer e não deixei de ir junto às telas publicitárias que envolvem o Mirante da Quinta da Azeda, para ver com os meus próprios olhos que aquela peça histórica ainda ali se encontra, devidamente escorada por fortes e bem travadas peças de andaime. 

Mais uma vez sorri ao ler texto da mensagem publicitária ao banco promotor que reza assim: “Juntos pela preservação da nossa História” e também mais uma vez pensei, pensei, mas não cheguei a qualquer conclusão. 

É que, qualquer coisa não bate certo. A palavra “juntos” remete-nos para uma qualquer parceria que neste caso como que a querer dizer que quer fazer tudo para “preservação da nossa História”.  Subentendendo-se que o banco e a Autarquia quererão manter e recuperar aquela que é uma das primeiras construções em betão armado erigidas em Portugal. 

Porém, até hoje não ouvi da boca de um dos responsáveis autárquicos algo que indicie que estão a fazer um esforço para que a peça (apresentada em tempos como o emblema do PUV) seja para recuperar, ao invés disso apresentam-nos um projeto de réplica, mal parida, destinada a ser construída e implantada algures no futuro parque. 

Gostaria de pensar que as contrapartidas  (e não devem ser pequenas) que se recebem do banco pela enorme publicidade, em lugar de grande destaque, estará a ir para um fundo de reserva que terá como objetivo a recuperação deste belo exemplar arquitetónico que um dia um agricultor setubalense mandou erigir por amor a uma mulher. 

Mas, será que haverá sensibilidade e sobretudo vontade para manter esta peça exposta em toda a sua beleza numa antiga cidade tão carenciada de apontamentos arquitetónicos de relevo? 

É que pode ser caro, mas o dinheiro quando se quer sempre se arranja e depois, será que não temos já por aí algum mealheiro com o dinheiro pago pelo banco que está a usufruir da publicidade inserida naquele espaço? 

São interrogações para as quais não tenho resposta, mas que gostaria de as ter. 

Rui Canas Gaspar
2019-outubro-06
Troineiro.blogspot.com

sexta-feira, 27 de setembro de 2019


Chamem a polícia…
O Sopeira 

Contava-me o meu falecido pai que quando ele era um jovem e a cidade era bem mais pequena, a mesma encontrava-se segura, de dia ou de noite. A zona de Troino  costumava então ser patrulhada por um polícia de nome (ou alcunha) Sopeira, o terror de quem se atrevia a pôr o pé em ramo verde. 

Os anos passaram, a cidade cresceu, o número de polícias aumentou, mas o patrulhamento a pé foi praticamente abandonado e substituído pelo motorizado.
O facto é que a população reclama por policiamento adequado que minimize, sobretudo aos fins de semana, as ações de vandalismo que infelizmente vão sendo comuns por aqui. 

Mas, ao que parece, os novos agentes pouco mais podem fazer devido à falta de meios, sobretudo viaturas cujo parque se mostra envelhecido e insuficiente para poderem fazer frente às necessidades de nova Setúbal, bem diferente dos tempos do “Sopeira”. 

A segurança é uma das prioridades que as pessoas mais reclamam e, embora Setúbal seja uma cidade relativamente segura, os atos de vandalismo que por aqui acontecem, cada vez com mais frequência e violência, tem de ser combatidos com eficiência e sobretudo com meios que pelos vistos tardam em chegar. 

Rui Canas Gaspar
2019-setembro-27
Troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 25 de setembro de 2019


Vamos perder o comboio do desenvolvimento? 

Rolando menos de 30 kms acabo  de sair da autoestrada e entro no Montijo, deparando-me logo com uma dezena de gruas que ajudam na edificação de vários edifícios habitacionais. 

 Não faço ideia quantas mais gruas estarão montadas naquela cidade, nossa vizinha, nem quantos edifícios estão a ser ali construídos, mas são mais, muito mais que em Setúbal. 

Aqui os dedos de uma mão chegam e provavelmente sobram para contar as gruas sendo que uma delas apoia uma obra cultural, outra, uma religiosa e outra ainda uma desportiva. Quanto aos edifícios habitacionais em construção teremos de andar de lupa na mão para os encontrar. 

Bem sei que gruas não é sinónimo de desenvolvimento, mas é um indicador seguro e, neste aspeto na cidade de Setúbal o que vemos são muitos projetos anunciados, mas poucos em vias de concretização, salvando-se aqui um conjunto de pequenas obras de recuperação e ou remodelação de pequenos edifícios. 

Não será pois de admirar que tenhamos na cidade carência acentuada na habitação, dado que as empresas locais com capacidade para o fazer parece terem desaparecido e vamos lá nós saber porquê. 

Assim, a continuarmos neste estado de letargia não estaremos condenados a perder o comboio do desenvolvimento? 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2019-setembro-25

domingo, 15 de setembro de 2019



Setúbal na História ou histórias de Setúbal (5)
O nosso maior poeta e a sua praça 

Tempos houve que a atual Praça do Bocage ficava bem junto à foz do Sado. A atestar esta afirmação estão as cetárias romanas, que se encontram por baixo deste espaço central da cidade e que estes nossos antepassados destinavam à salga, molhos e derivados de peixe. 

Este espaço também já serviu de local de enterramento, dada a sua proximidade da Igreja de São Julião. 

D. João II ordenou a remodelação do terreiro medieval, então conhecido como Praça do Sapal, um espaço central setubalense que viria a acolher o monumento que homenagearia Manuel Maria Barbosa du Bocage, aquele que foi um dos maiores poetas portugueses. 

A iniciativa de erigir este monumento, um marco da centralidade sadina, foi do escritor romântico António Feliciano de Castilho e o dinheiro para a sua construção foi angariado entre os setubalenses e seus amigos do outro lado do Atlântico, os Brasileiros, que através de subscrição pública angariaram a necessária verba para levar de vencida este projeto. 

O monumento erigido em 1871 é da autoria do escultor Pedro Carlos dos Reis e foi confecionado em Lisboa na oficina de Germano José Salles. 

Com 12 metros de altura, em mármore branco a coluna coríntia assenta sobre quatro degraus oitavados, tendo sobre o capitel a estátua do poeta, de dois metros de altura, de casaca à girondina, tendo na mão direita uma pena e na esquerda um rolo de papel. 

O espaço que rodeia o monumento tem vindo ao longo dos tempos a sofrer alterações, ao gosto da época, porém só depois da revolução de 25 de abril de 1974, graças ao dinamismo de um pequeno grupo de jovens ecologistas setubalenses liderados por Carlos Frescata, a zona envolvente seria completamente interdita à circulação automóvel. 

Rui Canas Gaspar
2019-setembro-15

domingo, 8 de setembro de 2019


Setúbal na História ou as histórias de Setúbal
Por volta de 1665 quando se procedia à construção do Forte S. Luís Gonzaga chegou a Setúbal a notícia de que Espanha estava a invadir Portugal. Então, o Engenheiro Militar Luís Serrão Pimentel avançou para a rápida construção do Forte de São João de forma a melhor proteger Setúbal.
A localidade sadina sofreu horas de aflição porquanto já em 1580 tinha estado na rota da invasão, opondo-se fortemente aos espanhóis dando-lhes luta na Torre do Outão, até à capitulação.
O Forte de São João foi então erigido à pressa, não se utilizando a pedra talhada, recorrendo os seus construtores à areia existente no próprio local e utilizando o sistema de salsicha em faxina, ou seja, à estacaria de madeira, para melhor o suster.
Quando chegou a Setúbal a notícia de que as tropas espanholas tinham sido derrotadas em Montes Claros Setúbal regozijou-se e o Forte de São João deixou de ser uma prioridade.
Porém, Luís Serrão Pimentel deixou escrito uma recomendação para que o forte fosse erigido, lembrando que os Reis descuravam as construções militares no Orçamento do Reino em tempos de paz…
O tempo encarregar-se-ia de lhe dar razão e o Forte de São João, também referenciado por alguns como Forte da Estrela, devido à sua forma, ficou por construir com materiais mais sólidos e duradouros dele nada acabando por restar a não ser o que ficou escrito e desenhado.
Hoje podemos ver apenas e só uma artéria urbana, na zona do Hospital de S. Bernardo, local onde supostamente teria sido erigido esta estrutura defensiva e que se encontra agora referenciada com a designação de Ladeira do Forte da Estrela.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com

terça-feira, 6 de agosto de 2019


Manutenção precisa-se com urgência 

Entendo que não é boa e avisada política andarmos a fazer novos e bonitos empreendimentos, sem que seja acautelado o necessário acompanhamento de conservação e manutenção destas iniciativas. 

Vem isto a propósito de várias situações anómalas que observei no troço entre Setúbal e a Praia da Figueirinha destacando apenas esta última pela quantidade de pessoas que ali se deslocam diariamente e que tal como eu podem observar o que refiro. 

Os dois grandes depósitos para colocação de plásticos, publicitando o Centro Comercial Alegro, continuam tombados e duvido que alguma utilidade venham a ter naquele estado em que se encontram. 

Dos painéis de sensibilização para a preservação do meio ambiente, um deles só lá tem a armação e outro encontra-se tombado já há vários dias. 

Das bandeiras arvoradas naquele espaço destacam-se a bandeira azul, presa por uma ponta, enquanto a do concelho de Setúbal  já sumiu parte e está rota, se não for rapidamente substituída duvido que dure muito mais. 

Não compreendo como é que situações destas se vão mantendo ao longo de dias e dias, quando são observadas diariamente não só pelo comum cidadão como por todo o tipo de autoridades, concessionários e funcionários da Câmara e Junta de Freguesia. 

Será esta imagem de desleixo e de falta de manutenção dos espaços públicos, onde são gastos milhares de euros a embelezar que se pretende transmitir? 

Podemos arranjar mil e uma desculpas para isto, mas lá que é uma situação incompreensível lá isso é. 

Rui Canas Gaspar
2019-agosto-06
Troineiro.blogspot.com

sábado, 3 de agosto de 2019


Saudades de uma menina setubalense 

A senhora caminhava lentamente pela rua, olhando tudo o que a rodeava, parando de vez em quando para assim melhor apreciar um ou outro pormenor.
Esta setubalense nascera ali na “azinhaga do Quileu” e por aqueles terrenos por asfaltar brincou, saltou, correu e subiu vezes sem conta ao moinho do D. António para dali ver chegar os barcos dos varinos. 

Se o barco do seu avô, o “Quileu”, viesse com gaivotas esvoaçando na popa, era sinal de alegria, vinha aí peixe fresco!… 

Ao longo dos anos a antiga azinhaga transformou-se em rua, tal como a menina se transformou em mulher, velhas casas foram sendo recuperadas porém, curiosamente, ainda ali está viva e de boa saúde a taberna do “Quileu”. 

A senhora fez questão de visitar a “cova do Quileu” local de residência do seu avô e onde tantas vezes brincou. Naquele espaço que ela tão bem conhecia no lugar de um estreito e íngreme caminho, existe hoje uma ampla escadaria e ao invés das velhas casas abarracadas das suas memórias de há meio século temos hoje pequenas e agradáveis moradias. 

Era emoção a mais!... A voz embargou-se os olhos encheram-se de lágrimas e as saudades da sua meninice, fizeram-na rapidamente dar meia volta e retornar para junto de seu marido que a aguardava a confortável distância. 

Mais uma setubalense que partiu da sua terra natal para longe do belo rio azul e que agora ao regressar às suas raízes se surpreende com o que vê meio século passado, um curto período de tempo mas o suficiente para termos mudado não só em Setúbal em particular mas o país em geral que passou de cores a preto e branco para multicolor, ainda que algumas dessas cores estejam ainda um pouco desbotadas. 

Rui Canas Gaspar
2019-agosto-03
Troineiro.blogspot.com