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domingo, 12 de março de 2017

O nosso Rio Sado está a morrer? 

Quando estudávamos no ensino básico aprendemos que o Rio Sado nascia na Serra do Caldeirão, já perto do Algarve e corria de Sul para Norte. 

No nosso imaginário quase que estávamos a ver um pequeno fio de água que brotava da serra e que iria aumentando de caudal à medida que outros pequenos regatos se lhe juntavam até chegar a Setúbal onde o podíamos ver largeirão desde a nossa cidade até Troia. 

Se calhar a mesma minha imagem infantil é aquela que ainda hoje perdura na mente de muitas pessoas que já se encontram no Inverno da vida e mesmo naquelas que sendo mais jovens aceitam como bom este pensamento. 

Acontece que já em 1610 Duarte Nunes de Leão fazia a seguinte descrição: 

 “Do Sado que é maior que todos, também não fazem os geógrafos menção alguma, tirando Ptolemeu que lhe chama Callipode. 

Este rio não tem nascimento algum próprio, mas é um ajuntamento de águas das ribeiras de Exarama, de Odivellas, de Garcia menino, e de Santa e se ajuntam a tempo que já vão muito grandes, por águas que colheram de muitas ribeirinhas, regatos e fontes: E se ajuntam todos em um certo passo do qual se faz um rio grande que se chama Sado. 

Seu curso é de quatro léguas, no cabo das quais se mete no esteiro de Alcácer que vem para Setúbal. 

Neste rio até onde chamam o porto del Rei, se navega por barcas grandes e se matam infinitas tainhas muito grandes e formosas, barbos e bogas e enguias, por a grande pescaria que ali se faz e a muita caça que naquela parte há de coelhos e perdizes e muitas aves para caça de falcões e por muita e aprazível verdura deste espaço de terra muitos homens nobres na primavera vão ali folgar.” 

Naquele tempo os Invernos eram muito mais rigorosos e as chuvas copiosas faziam engrossar os caudais de riachos e ribeiras que viriam posteriormente encorpar o Sado. 

A partir do século XX a quase totalidade dessas águas deixou de correr para o Sado ficando represadas por uma dezena e meia de barragens disseminadas um pouco por toda a bacia hidrográfica do nosso rio. 

As condições meteorológicas entretanto sofreram um agravamento ano após ano e, como tal, até esses cursos de água ficaram ameaçados com a consequente falta de água nas barragens, que no final do Inverno deste ano de 2017 rondavam os 30% quando deveriam estar cheias e a transbordar para o Sado. 

Assim sendo, o que resta do rio azul? Que é que vemos frente a Setúbal senão as águas do Oceano Atlântico e uma ínfima percentagem de água doce?
Até quando teremos Rio Sado? 

Rui Canas Gaspar 



2017-março-12

domingo, 27 de novembro de 2016

Obrigado setubalenses 

Esta cidade está imparável com muitos e diversificados eventos a acontecer para todos os gostos, daí que muitas pessoas ao optarem por um não possam ir a outro, o que é absolutamente natural. O que não  é natural é que continue a haver pessoas que afirmam que nada acontece nesta cidade. Pura ignorância!

Ontem, sábado 27 de novembro para a apresentação do TROIA – Um Tesouro por Descobrir, apareceram pessoas antes da apresentação que só vieram cumprimentar o autor, adquirir um livro, recolher o autógrafo e sair porque tinham outro evento.

Depois da apresentação e quando a “tralha” já estava toda arrumada outras pessoas chegaram, vindas de outro evento mas que não quiseram perder a oportunidade de vir cumprimentar e “parabenizar” pelo facto de a partir de agora termos um novo livro sobre a nossa região e que tanto diz aos setubalenses.

Mas o curioso foi ver na plateia amigos que vieram de outros convívios, alguns tendo-se deslocado a Setúbal de propósito e que também quiseram estar presentes.

Mas o mais interessante foi ver o rasgado sorriso de uma senhora que mal ali chegou, tratou logo de me dizer: “Acabamos de chegar de Troia, andamos a pé lá pelas ruínas”. Esta senhora com o seu marido foram certamente dos poucos setubalenses que teriam estado para aquelas bandas da arenosa península, neste dia chuvoso e pouco agradável.

De facto estou a falar de um casal, que tendo nascido em terras germânicas e por lá tendo vivido se apaixonou por Setúbal e já fez mais por esta cidade, de forma discreta, do que muitos “papagaios” que se arvoram de setubalenses e mais não fazem que falar mal desta terra de nascimento ou adoção.

Goste-se ou não das obras de arte que adornam a nossa terra, até há poucos anos despida de elementos escultóricos, alguém as pagou e garanto-vos que boa parte desse dinheiro não veio dos nossos impostos, mas sim daquele casal que formaram a Fundação Buehler-Brockhaus entidade que tem apoiado com muitos largos milhares de euros a arte na nossa terra. 
  
São eles que estão também a apoiar financeiramente os trabalhos de recuperação das pinturas da basílica romana de Troia.

Pessoas simples e simpáticas Marion e seu esposo Hans-Peter Buehler são de facto daquelas pessoas que considero como bons setubalenses, de quem eu gosto, que não dispensam a ida ao meu bairro de Troino almoçar o delicioso peixe assado da nossa terra.

São assim os amigos, são assim os setubalenses de nascimento ou de coração, para eles um forte abraço e o meu muito obrigado.

Rui Canas Gaspar
2016-novembro-27

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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

De costas voltadas para Setúbal 

Para os jovens setubalenses de finais das décadas de 70 e 80 do passado século XX, o Verão sem ir pelo menos uma vez às piscinas de Troia não era Verão.

O complexo de piscinas da Costa da Galé, saído do atelier do arquiteto Conceição e Silva, era naquele tempo o maior da Europa e teve até a honra de ser inaugurado pelo Presidente da República, Almirante Américo Tomás.

Com o declínio da TORRALTA e por falta de adequada manutenção aquele enorme e importante equipamento viria paulatinamente a degradar-se.

Ele não seria parte integrante no programa desenvolvido pela Sonae que também reduziria o número de camas previstas no projeto inicial de setenta mil para as seis mil e quinhentas agora contempladas no verdejante Troia Resort.

Embora os setubalenses tenham deixado de ir às piscinas do enorme complexo de Troia por as mesmas terem entretanto sido demolidas, na memória de muitos ficou o seu emblemático equipamento composto por espreguiçadeiras e cadeirões fabricados em fibra de vidro e de cor amarela.

Mas nem tudo desapareceu com a voragem dos tempos. Como podem ver subsistiram, sabe-se lá como, pelo menos estes dois cadeirões, que fui encontrar na marina de Troia, curiosamente de costas voltadas para Setúbal e para as suas gentes que mesmo assim continuam a afluir em grande número àquelas praias de fina areia branca.

Rui Canas Gaspar
2016-outubro-07

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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Troia e os nossos sorridentes políticos 

Enquanto pesquisava imagens no meu vasto arquivo fotográfico com a  finalidade de ilustrar o próximo livro que estou a concluir sobre Troia, encontrei esta foto que captei pelas 16.00 horas do dia 8 de setembro de 2005, já lá vão 11 anos.

Naquela tarde de verão o trânsito automóvel estava complicado na cidade de Setúbal. Eram muitos os automobilistas que queriam chegar à beira-mar a tempo de assistir, em direto, à implosão das torres de Troia “verde-mar” e T04” enquanto eu me dirigi para um ponto alto no Bairro dos Pescadores.

Sorri ao olhar para a imagem que então captei da implosão numa altura em que os cartazes espalhados pela cidade anunciavam os candidatos à autarquia sadina.

Nesta imagem ilustrativa do texto podemos ver, como que a olhar para mim, sorridente, Fernando Negrão, o candidato do PSD à Câmara Municipal de Setúbal que pouco depois de perder as eleições se mudaria para a capital.

No outro lado do rio, o então primeiro-ministro socialista, José Sócrates, sorridente, premia o comando que faria cair duas das seis torres erigidas naquela península de finas areias brancas.

Os comunistas, presidentes das câmaras de Setúbal e de Grândola assistiam ao evento conjuntamente com os convidados dos empresários do grupo Sonae e, ainda a poeira não se tinha dissipado aplaudiam de rasgado sorriso o sucesso da operação.

Era o início de uma nova Troia que deixara de “ser do povo”, tinha ultrapassado o “admirável mundo novo” publicitado pela TORRALTA que preconizava a construção de uma cidade turística e que a partir daquele histórico momento passaria a ser um espaço que privilegiaria a qualidade em detrimento da quantidade, segundo versão dos seus promotores.

Onze anos passaram e Troia, goste-se ou não, nada tem a ver com o que eu conheci nos meus tempos de juventude, pouco tem em comum com o projeto da TORRALTA que ajudei a concretizar e que agora se apresenta ao mundo como um espaço de eleição.

Uma coisa parece no entanto haver em comum, os sorrisos dos nossos políticos dos mais diversos quadrantes, irmanados provavelmente pelo agradável ar que se respira naquela restinga que os romanos designaram por Ácala e que para nós é a adorável Troia.

Rui Canas Gaspar
2016-outubro-03

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Nunca esteve previsto Parque de Campismo em Troia

Quando o tema é Troia, aqui pela internet, quase sempre vem à baila, o saudoso parque de campismo existente no tempo da TORRALTA e que esteve ativo desde meados dos anos setenta, onde muitos dos intervenientes nos debates  acamparam e, provavelmente,  de novo gostariam de o fazer.

O assunto nada tem a ver com o campismo que se fazia na zona da Caldeira ou aquele “selvagem” que por ali acontecia até aos anos sessenta e que depois se deslocalizou um pouco mais para montante, para a zona da Ponta do Verde.

O que acontece é que no plano geral de desenvolvimento de Troia, nunca esteve previsto nenhum parque de campismo e, no espaço onde depois da revolução de 25 de abril de 1974 foi instalado um, ele foi implantado no local que estaria destinado ao “super-edifício”, que não chegou a sair do papel, designado por hotel 1001.

Para se ter uma pequena noção do que seria este edifício, em forma de pirâmide com 1001 quartos (como se comentava na época) ele ocuparia uma área-base  cerca de quatro vezes maior que aquela ocupada pelo Troia Design Hotel, onde agora se situa o casino.

Troia não esteve, desde que começou o desenvolvimento urbanístico pela mão da TORRALTA, nem desde que o projeto recomeçou pela batuta da SONAE virada para o campismo, pelo que quem usufruiu desse prazer naquele espaço que guarde as boas recordações para partilhar com as atuais gerações.

Presentemente, e por um período de três dias no ano poderá voltar a recordar esses tempos, acampando na Caldeira durante as suas centenárias festas em honra de Nossa Senhora de Troia, ou então deslocando-se mais para sul, poderá fazê-lo no Parque de Campismo da Praia da Galé, perto de Melides.

Rui Canas Gaspar
2016-agosto-18

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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

SABIA?
O Estado Português garante o campismo em Troia

É já a partir do próximo sábado dia 20 e terminará no dia 22 deste mês de agosto de 2016 que terá lugar as seculares festividades em honra de Nossa Senhora do Rosário de Troia que em tempos teria tido a denominação mais precisa de Nossa Senhora dos Prazeres.

No século XVIII não se fazia uma festa mas sim duas, uma levada a cabo pelos marítimos de Setúbal e a outra pelos hortelões que habitavam em Troia e arredores, esta tradição perder-se-ia, continuando apenas a que é levada a cabo pelos homens do mar.

Manda a tradição que se monte acampamento na zona da Caldeira para que as festividades populares possam ter lugar junto à capela ali erigida.

E tão importante é esta tradição que embora o espaço seja propriedade privada e para aquele local exista um projeto turístico na sequência do que tem vindo a ser desenvolvido em Troia, que o Estado condicionou o parecer do mesmo.

Por respeito a esta fé centenária, aquando da emissão em 26 de fevereiro de 2009 da declaração de impacte ambiental, assinada pelo Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional este organismo governamental condicionou o seu parecer a alguns pontos, referindo concretamente o seguinte no 9º:

“Garantia da realização da festa centenária de Nossa Senhora do Rosário de Troia, que se realiza durante o mês de agosto e que é tradição dos pescadores acamparem nesta zona, durante três dias em que a mesma se desenrola.”

Sendo assim, está garantido pelo Estado Português a pratica campista na zona da Caldeira nos três dias de festividades em honra de Nossa Senhora de Troia.

Rui Canas Gaspar
2016-agosto-15

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Festas em honra de Nossa Senhora de Troia
De 20 a 22 de agosto de 2016

Nos últimos anos as festividades em honra de Nossa Senhora de Troia ganharam maior incremento agora com a participação não só dos varinos, mas de toda a comunidade piscatória e turístico-marítima de Setúbal.

No atual cortejo fluvial, podemos ver incorporadas as mais diversas embarcações: desde as da pesca artesanal às de pesca desportiva, passando pelos barcos de recreio de pequeno e médio porte. Também as embarcações das empresas marítimo-turísticas e motas de água incorporam-se no colorido cortejo que chega a juntar mais de uma centena de todo o tipo.

Tudo começa com uma cerimónia religiosa na Igreja de São Sebastião. Seguidamente organiza-se um cortejo composto de vários andores, levados em ombros quer por homens quer por mulheres.

Em procissão e ao som da banda de música, descem aquelas estreitas e íngremes ruas das Fontainhas dirigindo-se para o cais junto ao rio, a fim de, na Doca do Comércio poderem embarcar nos mais diversos barcos que aí os aguardam.

O cortejo desloca-se ao compasso da banda que sempre acompanha o círio de Nossa Senhora de Troia. Em andores ornamentados, carregados aos ombros são levadas outras imagens da devoção dos pescadores: São Pedro, Sagrado Coração de Jesus, São Vicente Paulo, São Sebastião, Menino Jesus de Praga, Anjo de Portugal, São José e Nossa Senhora da Conceição são as imagens que serão colocadas à proa de alguns barcos, pré selecionados pela organização do evento.

Em Troia, as famílias que ali ficarão acampadas fizeram a prévia inscrição junto da organização e agora chegadas à Caldeira montam as suas tendas no espaço determinado para o efeito.

O clima é de festa, de partilha, de comes e bebes, sendo o peixe grelhado o alimento mais consumido e a cerveja é a bebida que já vai substituindo o bom vinho da região.

Rui Canas Gaspar

2016-agosto-12

sábado, 28 de maio de 2016

“Ora já sabem que estou aqui?”

Ervilha apelido ou alcunha?

O homem do povo já não se encontra entre nós, morreu! Ele não foi escritor, poeta, político ou jogador de futebol, mas grande parte dos seus conterrâneos que tiveram a oportunidade de o conhecer jamais o irão esquecer.

Estou a lembrar-me de um  homem simples, que governava honestamente a sua vida, no Outono/Inverno vendendo castanhas ou batatas doces assadas, normalmente na esquina da Rua dos Ourives com o Largo da Ribeira Velha.

No Verão, quando era mais novo e rijo, lá pelos anos 60 do século passado, carregava um pesado recipiente onde transportava os deliciosos gelados e percorria os extensos areais de Troia com o seu característico pregão: “Há fruta ó chocolate” ou ainda o outro simpático “Ora já sabem que estou aqui?” é que o “Ervilha nunca falha”.

Mais tarde construiu um carrinho que adaptou a bicicleta destinado à venda dos seus saborosos gelados e que se transformou num veículo icónico que ainda hoje podemos apreciar no Museu do Trabalho, em Setúbal.

Esse veículo adaptado, pintado de branco, ostentando a figura de Bocage, o escudo nacional e algumas legendas, ficava a condizer com o seu proprietário vestido com impecáveis calças e camisa branca, tipo marinheiro.

Os seus gelados faziam as delicias de pequenos e graúdos, quer fossem saboreados nas quentes areias de Troia, quer na frescura da beira-mar, ali por perto da “Asa do Avião”.

Ao que julgo saber o segredo da sua confeção só ele e poucos mais o conheciam, mas lá que eram deliciosos isso eram, quer os de chocolate quer aqueles outros com pedacinhos de fruta.

João Henrique Melo munido de gravador registou para a posteridade alguns desses pregões tão ao gosto do Ervilha e dessa gravação foi escolhido um pedaço que serviu de genérico para a emissora setubalense Rádio Azul:  “Ora já sabem que estou aqui?”

Rui Canas Gaspar
2016-maio-28

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sexta-feira, 27 de maio de 2016

As piscinas que sumiram nas areias de Troia 

Foi até à véspera da inauguração que os trabalhos se processaram de forma acelerada e poucos minutos antes da chegada dos distintos convidados para a inauguração do vasto complexo ainda se davam os últimos retoques nos arranjos exteriores.

No dia 26 de maio de 1973 Troia recebia a visita do Chefe de Estado, Almirante Américo Tomaz, que ali se deslocou expressamente para inaugurar um emblemático polo turístico da TORRALTA, aquele que então ficou designado por “Conjunto da Costa da Galé”.

As suas enormes piscinas, nascidas nos estiradores do atelier de arquitetura de Conceição e Silva eram então consideradas na década de setenta do século XX como as maiores da Europa.

Esta ímpar construção virada para o lazer e desporto localizava-se junto ao Oceano Atlântico, no lado oposto à Caldeira de Troia.

Do seu equipamento coletivo ficou na memória de muitos daqueles que o conheceram as singulares espreguiçadeiras de cor amarela fabricadas em fibra de vidro.

Para ali se chegar ou se ia a pé, de automóvel ou então os utentes ao desembarcar nos barcos que faziam as travessias do Sado utilizavam o “comboio”, aquelas simpáticas e divertidas carruagens rebocadas por um trator que fazia o trajeto entre os cais de atracação dos barcos e as piscinas e vice-versa.

Uma das memórias mais engraçadas que guardo daquele local era o facto de muitos dias, à hora do almoço, ir lá tomar a bica com outros colegas de trabalho. Íamos a pé desde as “torres”, pela praia, porque regra geral encontrávamos as moedas necessárias para pagar o cafezinho.

Certamente que outros amigos terão diferentes vivências deste local, que poucos anos funcionou, e que hoje dele apenas restam memórias que se vão diluindo no tempo.

Rui Canas Gaspar
2016-maio-27

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domingo, 31 de janeiro de 2016

Quem te viu e quem te vê

Para além da frota de quatro hovermarines destinados ao serviço comercial, para a travessia do Sado nos anos setenta do século passado, também havia um hovercraft para serviço particular dos dois irmãos Silva, os patrões da Torralta. Esse sim, um verdadeiro hovercraft que dispunha de três lugares e entrava pela terra dentro.

No edifício onde hoje funciona o Casino de Troia, nos anos 70, quando se encontrava em construção o mesmo era identificado por “Clube Hotel”. Foi precisamente para entrar nesse edifício que se construiu uma rampa em betão desde o rio, ao lado da ponte de madeira por onde transitavam os passageiros dos hovermarine, para que o pequeno hovercraft, cor de laranja, subisse depois de ter atravessado velozmente as águas do rio azul.

Curiosamente, no inovador projeto inicial o Clube Hotel teria um canal de acesso à porta da receção para que o cliente saísse diretamente do barco para o hall daquela unidade hoteleira projetada para ser uma peça emblemática da nossa florescente indústria turística.

O Clube Hotel apenas seria suplantado em grandeza pelo Hotel 1001 cuja construção não chegou a ser iniciada e que caso fosse edificado seria de facto um “hotel das Arábias” implantado nas areias de Troia, um pouco mais para sul do grosso das edificações que se viriam a desenvolver.

Enquanto se levava a cabo a construção dos edifícios de Troia era o patrão Domingos Silva que mais vezes se deslocava neste hovercraft que tinha a capacidade de se mover em terra, contrariamente aos hovermarine que apenas usavam a almofada de ar para se elevarem na água oferecendo menos resistência hidrodinâmica e assim se deslocarem velozmente.

As duas imagens mostram-nos o antes e o depois. A preto e branco podemos ver a veloz embarcação no Sado, a cores, podemos observar o que resta dela, em cima de um telhado a olhar para o rio azul.

A veloz e soberba embarcação faz-nos lembrar os mortais humanos, quando jovens cheios de vida, de projetos e esperança, mas que volvidos alguns anos são confrontados com a velhice e, pouco depois, acabam como esta ímpar embarcação num qualquer impensável local.

Se calhar vale a pena pensar nisto e darmos mais valor à vida, à amizade e a solidariedade.

Tenhamos uma boa semana.

Rui Canas Gaspar
2016-janeiro-31

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Urbanização de Troia que não chegou a ser erigida

Em 1973 eram na ordem dos milhares os operários e técnicos de construção civil que diariamente atravessavam o Sado, quer nos barcos convencionais, quer nos modernos hovercrafts, para trabalhar na construção daquela que se pretendia vir a ser a capital do turismo europeu, Troia.

Para ali também convergiam muitas outras centenas de trabalhadores que a empresa fazia transportar numa frota de autocarros recolhendo-os nas mais diferentes localidades dos concelho de Grândola e Alcácer do Sal.

A Torralta - Clube Internacional de Férias, S.A. era a empresa mãe de um conjunto de outras, entre as quais a A.C. (Arquitetura e Construção) aquela que tinha à sua responsabilidade os trabalhos de construção civil e que coordenava várias outras empresas subempreiteiras.

Na grande península de finas areias brancas, onde poucos anos antes proliferavam as barracas de campistas ocasionais de fim-de-semana, ou dos outros que ali faziam longas temporadas de veraneio, erguiam-se agora diferentes edifícios, construídos por uma legião de mais de três mil pessoas de todas as artes.

Quando se deu o golpe militar de 25 de abril de 1974, Troia estava prestes a concluir alguns edifícios, em banda, que iriam receber os primeiros turistas. Porém muitos outros, quer hoteleiros, quer de apoio não chegaram a ser iniciados.

Entre aqueles que não começaram a ser construídos conta-se o Posto Médico, uma pequena unidade hospitalar onde então eu deveria começar a exercer a minha atividade como jovem técnico.

Igualmente não chegou a ver a luz do dia o célebre Hotel 1001, uma enorme construção, em forma de pirâmide com 1001 quartos, que aqui podemos ver implantado neste plano geral do empreendimento.

Independentemente de tudo o que se possa dizer, gostando ou não, criticando ou apoiando, o facto é que o empreendimento de Troia foi aquele que mais prazer me deu em toda a minha vida profissional desenvolvida ao longo de algumas décadas na construção civil.

Quando hoje peguei no velho desenho de 1973 com cerca de 3 metros de comprimento por um de largo, designado por “Plano de Sementeiras e Plantações de 1972” onde estavam assinaladas as espécies a plantar e onde igualmente se encontram assinaladas a implantação dos mais diversos edifícios a minha memória recuou até àqueles tempos de grande azáfama e entusiasmo próprio da juventude.

Hoje, Troia apresenta-se com um novo visual, diferente do plano original. Não sei se melhor ou pior, mas o que me ficou na memória naqueles anos setenta do passado século XX era uma cidade turística, onde os veículos se deveriam mover a eletricidade e onde os tufos de plantas próprias daquele magnífico local deveriam não ser só preservadas mas disseminadas um pouco por todos os espaços disponíveis, conforme se pode ver nesta velha planta do Atelier de Conceição Silva.

Rui Canas Gaspar
2015-dezembro-07

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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Bonjour, parler français?

Se é comerciante setubalense e fala francês, muito bem, se não… pode perfeitamente perder uma oportunidade de fazer negócio a não ser que os seus produtos possam falar por si.

É que se neste Verão, na época alta do turismo, a língua francesa tem sido a que mais se tem ouvido na cidade sadina, depois do português, parece que a tendência se irá manter ao longo de todo o ano.

Ao que consta serão muitas centenas de franceses que virão passar uns dias de vacances a Portugal e escolheram a região que está na moda, Setúbal naturalmente, para passar o seu período de férias.

Informações ainda não divulgadas nos órgãos de comunicação social apontam para um grande contrato celebrado entre uma empresa portuguesa com uma congénere francesa no sentido de podermos receber, na época baixa, um grande número de turistas gauleses.

Ainda que possam ficar alojados na outra margem do rio, certamente que gostarão de visitar Setúbal, uma importante localidade com outros atrativos que ali seguramente não irão encontrar.

Ora se a cidade os souber receber e se os nossos comerciantes estiverem devidamente preparados, dentro das suas possibilidades e características dos seus negócios, poderemos estar em presença de uma invulgar oportunidade.
Depois das três célebres invasões francesas, os setubalenses que se cuidem com os novos invasores, desta vez sem a participação do General Louis-Henri Loison, mais conhecido por  “O Maneta” o tal que ficou célebre pela sua apetência para a pilhagem.

Ainda hoje quando alguém fica sem os seus haveres é comum ouvir-se a frase:  “e lá foi tudo para o maneta”.

História à parte será bom que nos preparemos para outro tipo de invasão e para outro confronto com os franceses, desta feita com o objetivo de ambas as partes se saírem bem e todos ficarmos satisfeitos como mandam as boas regras de qualquer bom negócio.

Rui Canas Gaspar
2015-agosto-21

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Será que depois de Troia vamos ficar sem a Arrábida? 

Tudo foi conduzido no maior segredo, ou não fosse o negócio envolver largos milhões de euros e nele participarem tubarões da alta finança.

A comunicação social ainda nada divulgou e se não fosse a internet o povo continuaria na ignorância. Felizmente que centenas de pessoas estão já a partilhar a notícia nas suas páginas e grupos sociais.

“Parece um sonho! Nada irá ser como dantes na Arrábida, depois da transformação da desativada 7ª Bataria de Artilharia de Costa num hotel de luxo e da zona ocupada pelo refeitório dos oficiais vir a tornar-se no mais elegante restaurante da Península Ibérica”. Afirmou Maria Palas, Subsecretária de Estado para a Reconversão do Património Degradado.

Devido à crise na construção civil, que originou uma acentuada quebra de consumo de cimento, a empresa antecipou a desativação da exploração conseguindo como contrapartida a autorização da construção de um luxuoso condomínio fechado a edificar nas plataformas de exploração de inertes. Uma área que têm vindo a ser amplamente arborizada com esse objetivo no horizonte.

As edificações a construir ficarão dissimuladas entre a frondosa vegetação e a sua arquitetura inovadora permitirá que as mesmas passem quase despercebidas até para quem olhar para a serra a partir do Sado.

O cais de atracação de navios que chegam à cimenteira para carregar será adaptado para cruzeiros que ali desembarcarão e embarcarão passageiros depois de uma curta estada.

Foi ali que ficou atracado o enorme e luxuoso  iate do patrão do Chelsea. Este teve oportunidade de sobrevoar a Arrábida, no seu helicóptero particular, fazendo um pormenorizado reconhecimento, antes de se dirigir para a reunião de negócios na capital.

A zona de parqueamento de materiais à beira do mar será transformada numa imensa praia artificial de fina areia branca, um espaço que será coberto com material translucido de forma a poder ser utilizado durante todo o ano. Ele será decorado com luxuriante vegetação, a exemplo do que já foi feito em Soporo, no Japão.

 “Do ponto de vista ambiental e económico, tudo se apresenta perfeito e vantajoso para o Estado e para os investidores particulares”, afirmou o Eng. Manuel Rasquinha, Secretário de Estado da Recuperação Paisagista, após a reunião privada que manteve com o milionário Ibramovic, dono  dos blues, aquele que se supõe seja o principal investidor e parceiro da cimenteira.

Não foi apurado se este negócio de milhões teve ou não a mão de José Moirinho, o conhecido técnico setubalense, sabido do seu amor pela Arrábida e pela terra que o viu nascer.

De notar que o projeto está calculado para que venham a ser criados cerca de 2.750 novos postos de trabalho, depois de concluído, o que se prevê venha a acontecer dois anos após o início da construção prevista para o último trimestre deste ano.

Entretanto, já começaram os trabalhos preparatórios, com a vedação de alguns espaços bem como a colocação de estranhos “postos de controle” e colocação de cancelas na estrada que passa pelo alto da serra, o que nos leva a pensar se aquele projeto turístico para a Arrábida será acessível a todos ou apenas a alguns privilegiados, temendo que venha a acontecer o mesmo que em Troia onde se deixou de ver os barcos apinhados de setubalenses que para ali iam usufruir da bela praia dos seus antepassados.

Tudo indicia para que depois de Troia os setubalenses em breve farão adeus à Arrábida, caso não tomem consciência da grave situação que parece estar já em curso.

Como já temos esse triste exemplo, o melhor mesmo é estar atentos e alertar todos os que pudermos, divulgando aquilo que a comunicação social ainda não o fez, e vamos lá nós saber porquê…

Rui Canas Gaspar
2015-04-01

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O texto acima é fruto de imaginação e foi divulgado no âmbito da tradicional mentira de primeiro de abril

sábado, 18 de outubro de 2014

Até quando teremos travessia fluvial para Troia?

A atual conjuntura económica, o assoreamento da margem norte do Sado, aumentando o volume de areia do lado de cá, as melhorias introduzidas na zona ribeirinha de Setúbal, os ventos de norte e nordeste que tornam a margem sul menos abrigada, são fatores que influenciam a população setubalense a não atravessar o rio.

A aquisição dos novos quatro barcos da Atlantic Ferries representaram um investimento substancial que, naturalmente, seria amortizado e rentabilizado se o país estivesse numa situação estável economicamente, o que não tem acontecido nos últimos anos.

O fator económico, aliado aos outros focados acima, levaram a um decréscimo acentuado no volume de viaturas e passageiros transportados, logo a uma diminuição das receitas, que naturalmente se transformaram em prejuízo para a empresa detentora da exploração da travessia do Sado.

Ora como sabemos todas as empresas são criadas para dar lucro e não prejuízo e se isso acontecer sistematicamente apenas lhes resta uma solução, aquela que passa pelo seu encerramento.

Antes dessa solução drástica acontecer certamente que os gestores tomarão todo o tipo de medidas, por vezes nem sempre as mais acertadas, porém serão aquelas que lhes parecem melhor.

E foi assim que, porque as receitas eram insuficientes, se aumentou o preço dos bilhetes, o que levou muitos automobilistas a optar por dar a volta por Alcácer do Sal, diminuindo ainda mais o volume de viaturas transportadas.

Quanto aos veraneantes, porque o dinheiro não abunda e porque as zonas balneares do lado norte estão agora mais amplas indo na maré baixa desde o cais nº1 até à Comenda, também deixaram de ir para Troia.

Porque há menos movimento na época baixa então encosta-se metade da frota e aumenta-se o espaço dos horários, com a consequente perca de qualidade. É assim como a pescadinha de rabo na boca…

Se a tudo isto juntarmos os maiores custos de combustível inerentes a uma viagem mais longa do ferrie, que viu o seu cais de atracação na margem sul ser deslocado para montante para permitir maior qualidade ambiental à desertificada zona de moradias da marina de Troia, então temos todos os ingredientes para que a coisa não dê certa.

Sendo assim, e pensando um pouco sobre o assunto, acho eu, enquanto leigo na matéria, que mais cedo ou mais tarde, apenas um ferrie estará a prestar serviços mínimos, atravessando o Sado e atracando no antigo cais, levando pessoas e viaturas, com menores custos de combustível. Isto enquanto a empresa não encerrar por falta de rentabilidade económica.

É claro que isto é o que eu acho, e de achismos está o mundo cheio, vamos ver pois até quando teremos travessia fluvial para Troia.

Rui Canas Gaspar
2014-outubro-18

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Desapareceu mais um monumento em Setúbal

No dia 8 de julho de 1886 Hans Christian Andersen o escritor dinamarquês mundialmente conhecido devido às suas célebres histórias infantis, chegou a Setúbal onde acabou por passar de um mês de férias, tendo tido então oportunidade de  conhecer a cidade e seus pitorescos arredores, tendo-lhe até sido facultada a possibilidade de conhecer os areais de Troia e a verdejante Arrábida.

O escritor teve ainda o ensejo de conhecer outros locais desta pequena mas diversificada nação e, a opinião que formulou sobre a mesma, poderá resumir-se neste pequeno verso que escreveu no livrinho da família O’Neill, sua anfitriã:

“Lá no plano Norte verdejante,
Recordando todas as impressões vividas
Para Setúbal voará o pensamento distante
Para junto de todas as pessoas queridas”.

Certo dia um açoriano de nascimento, mas setubalense de coração, Manuel Medeiros, dono da Livraria CULSETE, decidiu honrar o escritor, não com uma estátua mas com um monumento vivo, um abeto da Noruega.

E assim apareceu na Avenida Luísa Todi, quase em frente ao coreto, um bonito canteiro, com um abeto. Ali poderia ler-se numa placa: “Abeto plantado em homenagem a Hans Christian Andersen, Câmara Municipal de Setúbal, Comissões Nacionais da UNESCO de Portugal e Dinamarca, Livraria CULSETE. Outubro de 1998.

Numa outra placa: “Plantei em Setúbal um pequeno abeto nórdico. Quando crescer o vento Norte ao abaná-lo com o seu sopro ai deixará uma saudação da Escandinávia distante” H. Andersen, uma visita a Portugal em 1866 – Cap. IV

Aquando das obras de renovação da Avenida Luísa Todi, no âmbito do POLIS é construído um quiosque quase em cima do canteiro, retirando ao local toda a dignidade e quase anunciando a sua morte devido à movimentação de pessoas e coisas praticamente em cima da pequena e bela árvore.

Esta decisão de localização do quiosque, desprovida de qualquer sentido estético e denotando o maior desrespeito por este monumento vivo, constituiu o princípio do fim.

E foi o que hoje dia 9 de setembro de 2014, com tristeza e com vergonha constatei que aquele  monumento vivo, ali colocado por verdadeiros setubalenses de coração ou de nascimento tinha sucumbido, no seu lugar estava apenas o pouco que resta do seu forte tronco, capaz de suportar os ventos frios do Norte, mas não a força da ganância.

Veio-me então à mente aquela frase célebre de um velho e sábio índio Cree: “Só quando a última árvore tiver morrido, o último rio tiver sido envenenado, o último peixe tiver sido pescado é que descobriremos que não podemos comer o dinheiro”.

Rui Canas Gaspar
2014-setembro-09

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