Setúbal na História ou histórias de Setúbal ( 244)
sábado, 29 de outubro de 2022
quarta-feira, 27 de julho de 2022
Para quando um monumento aos antigos combatentes
das guerras coloniais erigido em Setúbal?
- É pá, tás bom? Sabes que dia é hoje?
- Quarta-feira, dia 27 de julho, respondi
- Faz hoje 52 que morreu o Salazar – Diz-me
o Ricardo.
- Queres tu dizer que faz hoje 52 anos que
partimos para a Guiné para a Guerra Colonial.
O Ricardo é melhor que os avisos do Facebook
e faz questão de me telefonar para recordar datas marcantes da nossa vida rica
em aventuras ocorridas na nossa juventude.
De facto nesta data este setubalense embarcou com centenas de outros jovens e a
bordo do navio Bragança rumo a Bissau, enquanto eu, no mesmo dia seguia o mesmo
trajeto a bordo do navio de carga “Ana Mafalda” com mais um pequeno punhado de
militares destacados para rendição individual de outros camaradas.
Com a morte do ditador ainda alimentamos
esperança de que os barcos não seguissem para aquele território africano, porém
nem isso obstou a que fosse cumprida a missão que nos destinaram e que levou a
que muitos jovens por lá ficassem mortos ou de lá viessem com sequelas mais ou
menos graves no corpo e na alma.
Passado mais de meio século ainda por cá
andam muitos desses jovens a quem o governo de então obrigou a ir combater para
terras distantes sem que volvido todo este tempo pouco ou nada a Nação tenha
reconhecido o seu esforço e sacrifício.
Erigir um monumento aos setubalenses que
foram obrigados a ir combater para terras de África, num local de destaque do
concelho, seria o mínimo que se poderia fazer para honrar a memória daqueles
que foram obrigados a deixar namoradas, esposas e mães, sendo que alguns destes
nossos conterrâneos não voltaram de lá com vida.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
A sorte perseguia-me na Feira de Santiago
Ainda criança e morando em Troino, bem perto da Avenida Luiza Todi, local
onde então se realizava a Feira de Santiago certo dia decidi ir passear até ao
popular recinto.
Ali chegado e depois de dar algumas voltas pelo espaço de terra batida abeirei-me
de uma daquelas simpáticas barracas onde a troco de alguns centavos se puxava
de um molhe, um cordelinho, de onde surgiria um número correspondente a um dos prémios
expostos.
Eu não tinha dinheiro (coisa normal para aquela época) por isso abeirei-me
de um adulto que se preparava para tentar a sorte e disse-lhe: Vai sair-lhe
aquela Nossa Senhora de Fátima, uma estatueta de barro pintado.
O homem pagou, puxou o cordel e saiu-lhe mesmo a tal estatueta e tão
estupefacto ficou que me ofereceu o prémio.
Anos mais tarde, já casado não poderia, como agora, faltar à Feira de
Santiago.
As tais barraquinhas tinham evoluído e agora os prémios eram atribuídos
onde a roleta parasse e, apontasse o número correspondente.
Por tradição, sempre que lá ia tentava a sorte comprando a rifa e todos os
anos me saía prémio.
E, acreditem ou não, foi graças a essas rifas que consegui um triciclo para
as crianças, uma caixa térmica, uma tábua de passar a ferro, um conjunto de
panelas e sei lá que mais…
Deixei de comprar as rifas na altura em que olhava para os prémios e dizia
para a minha esposa que não valia a pena porque já tínhamos aquelas coisas,
imaginem!...
Acho que isto é herança de família porque já o meu avô materno, Artur
Canas, lhe saiu numa rifa da feira um valioso relógio, uma peça comemorativa do
centenário da conceituada fábrica de cerâmica Vista Alegre, o qual guardo como
saudosa lembrança.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2022-07-27
quarta-feira, 25 de maio de 2022
Relembrando o saudoso e único Francisco Finura
De cachimbo preso ao canto da boca e barba à “Popey”, vestido com o fato-macaco azul, donde sobressaía do bolso superior um vistoso e impecável lenço, imaculadamente branco, era assim que este setubalense de múltiplos talentos geralmente se apresentava em público.
Não é
pois de admirar que graças à sua postura e popularidade tivesse despertado a
atenção de famosos e talentosos fotógrafos e pintores setubalenses, nomeadamente
Américo Ribeiro, Baptista, Maurício de Abreu e Rogério Chora, que tão bem
captaram a sua imagem, a qual ficaria gravada para a posteridade graças a estes
artistas.
Francisco
Finura, geralmente fazia-se transportar pelas ruas de Setúbal numa singular
bicicleta, fabricada por si, afirmando ser este o modelo mais adequado,
porquanto considerava que “o bom ciclista devia pedalar com a perna esticada”.
O
velocípede tinha um guiador alto, um travão ligado à roda traseira o que lhe
permitia com mais facilidade fazer demonstrações de perícia sobre as duas
rodas, podendo também andar para a frente e para trás, graças ao carreto preso.
De
tronco direito, peito saliente, compleição atlética, com pronúncia onde o erre
era bem vincado, a forma de falar tão característica dos setubalenses
residentes naquela zona da cidade, “Finuras” não passava despercebido onde quer
que estivesse e, entre a rapaziada daqueles bairros populares a sua figura
exercia particular atração e admiração não só devido à distinta pose mas sobretudo
às suas diversas atividades.
E que
dizer de mais de uma centena de pessoas que salvou de morrerem afogadas? Trinta
e uma delas foram oficialmente contabilizadas o que lhe valeu o reconhecimento
e condecoração do Instituto de Socorros a Náufragos. Só de uma vez conseguiu
salvar meia dúzia de pessoas ao largo da Praia de Albarquel e, com a ajuda de
um remo, içá-las para bordo de um barco. “Parecia um cacho de uvas!...”
comentou ele no início dos anos 70 do século XX, no decurso de uma entrevista
ao programa televisivo “25 milhões de portugueses”.
sábado, 7 de maio de 2022
Um valioso prémio sorteado na Feira de Santiago
Naquele ano de mil novecentos e vinte e qualquer coisa o
jovem pescador setubalense Artur Canas, quando a noite refrescava, em Agosto, saiu
de sua casa no Bairro de Troino e foi até à Feira de Santiago para se divertir um
pouco.
Naquele tempo, na feira, para além das habituais
diversões, existiam várias barracas onde os visitantes podiam comprar rifas na
esperança de lhes sair algum interessante prémio.
Artur decidiu testar a sua sorte e, para seu espanto, ao
desembrulhar o papelinho verificou que o número inscrito correspondia a um bom
prémio.
Imagine-se que, numa altura em que não seriam muitos os
pescadores que dispunham de relógio foi precisamente um que calhou em sorte a
este setubalense. Porém, não se tratava de um relógio de pulso, mas sim de uma bela
peça de cerâmica, com cerca de 15 cm de altura, em forma de casinha.
O pescador, bastante contente com a sua sorte, acabaria
por levar o relógio para bordo do barco de pesca, onde lhe fez companhia ao
longo de anos, até que os salpicos de água salgada danificaram a máquina
tornando-a inoperacional.
Mas, porque a peça era bem bonita, mesmo sem a mesma funcionar,
ficou a servir lá em casa como motivo decorativo.
Os anos passaram, Artur e sua esposa faleceram, a peça de
cerâmica passou para a filha que também viria a falecer e esta lembrança
acabaria por ficar ao seu neto Rui.
O curioso é que, bem visível, na base da peça está o
símbolo da mais prestigiada fábrica de cerâmica portuguesa, a Vista Alegre e,
como se isso não fosse suficiente ali está igualmente inscrito “centenário 1824
– 1924” ou seja uma rara peça comemorativa do primeiro centenário desta
instituição que em breve fará 200 anos.
Era assim a Feira de Santiago, naqueles tempos em que eram
colocadas para sorteio peças verdadeiramente interessantes e até valiosas ao
invés dos peluches e plásticos com que hoje nos brindam.
Anos mais tarde calhar-me-ia a mim herdar a tradição de
ser o feliz contemplado com diferentes prémios nas barracas de roleta na Feira
de Santiago quando esta se realizava na Avenida Luísa Todi, e raro era a vez
que comprava rifas e não me saíam prémios, mas nunca por lá vi algo de valor tão
significativo como aquele prémio com que o meu avô Artur Canas foi bafejado.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
segunda-feira, 28 de março de 2022
Evita esteve em Setúbal
Viveu apenas
33 anos, entre 1919 e 1952, odiada por uns, idolatrada por outros Evita foi uma
referência não só para os argentinos mas também um pouco para todo o mundo.
A linda canção
Don’t Cry For Me Argentina continua ainda hoje a ser um sucesso de audiências com
dezenas milhões de visualizações no YouTube (
https://www.youtube.com/watch?v=PgK-dIPMIp4 )
Maria Eva
Duarte de Perón, conhecida por Evita visitou Setúbal, conformer noas dá conta o
jornal O Setubalense de 19 de julho de 1947 com a seguinte notícia:
A Sra. Duarte
de Peron visitou Setúbal.
… esteve hoje
nesta cidade a esposa do Presidente da República da Argentina, Sra. D. Eva
Peron, acompanhada do Corpo Diplomático do seu país, de D. Fernanda de Castro,
António Ferro, Guilherme de Carvalho e António Eça de Queiróz, do Secretariado
Nacional de Informação.
Rui Canas
Gaspar
Troineiro.blogspot.com
sábado, 19 de março de 2022
Jamboree 67 – Um programa de animação destinado ao
Hospital do Outão
Naquele ano de 1967 os Caminheiros (escuteiros
maiores de 17 anos) setubalenses tiveram a ideia de instalar uma rádio local,
quando estas estavam a dar os primeiros passos de forma clandestina. Será bom
lembrar que estávamos em pleno Estado Novo, um regime ditatorial onde a polícia
política imperava.
A iniciativa nunca chegou a ir de vencida, mas,
entretanto, foi criado o “Jamboree 67”, jamboree palavra associada pelos
escuteiros a uma concentração mundial e 67 por ser o ano da iniciativa.
Pedíamos a colaboração do comercio local para a
oferta de prendas que distribuíamos nos concursos, que a par das músicas, da
poesia, e das notícias era posteriormente transmitida.
Como não tínhamos emissora de rádio, gravávamos os
programas na nossa sede da Ordem Terceira e depois seguíamos para o Hospital do
Outão onde através do sistema de som transmitíamos para todo o complexo. Os
doentes, suas visitas e quem lá trabalhava era a nossa assistência.
Na foto ilustrativa podemos ver a bondosa e muito
bonita madre superiora que ali prestava serviço a ser entrevistada. E, por ser
tão bela não deixou ela própria de ser alvo da atenção de um apaixonado, o João
da Pera, que vivia numa das grutas ali perto e, qual Romeu na esperança de
alcançar a sua Julieta chegou a trepar por uma parede vertical para chegar ao
seu quarto o que conseguiu por duas vezes, mas isso é outra história!...
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
Praça de Touros ou Praça Cultural?
Afinal no que ficamos?
O decréscimo de receitas, fruto
de um menor interesse do público pela tauromaquia, aliado à falta de manutenção
adequada levaram o espaço a uma situação de degradação que originou a sua
interdição para espetáculos sem que antes se procedesse às necessárias obras.
Em 2008 a empresa proprietária
da praça apresentou um projeto visando a transformação do espaço naquele que
teria a designação de “Praça Cultural” de forma a ficar dotado de um palco para
espetáculos musicais, dois restaurantes e três lojas. O projeto de reabilitação
nunca sairia do papel embora tivesse merecido a aprovação camarária em junho de
2009.
Em 2011 a Câmara Municipal de
Setúbal celebrou um protocolo com a Aplaudir, empresa de promoção de
espetáculos tauromáquicos e outros eventos culturais, entidade exploradora da
praça de touros Carlos Relvas, no sentido desta proceder às necessárias obras
que lhe permitiria abrir portas de acordo com as exigências do IGAP –
Inspeção-Geral das Atividades Culturais.
O acordo previa a atribuição
por parte da Autarquia de 120 mil euros, para uma obra estimada em 216 mil, verba
entregue em parcelas anuais de 20 mil euros, de forma a suportar a realização
de trabalhos urgentes e necessários.
Como contrapartida a Autarquia
teria o direito de utilizar o espaço anualmente quer por si, quer pelo
movimento associativo, por um período de
25 dias.
As obras a realizar
centraram-se sobretudo nas condições de segurança e acessibilidades, bem como
no reforço das bancadas, reparação de telhados, criação de instalações
sanitárias para pessoas portadoras de deficiência, substituição de madeiras,
instalação de nova rede elétrica com a colocação de iluminação de emergência,
para além de outras intervenções em diferentes áreas.
Graças a este protocolo o
mítico espaço de espetáculos conheceria em 2011 nova vida e ali, pelas 22 horas
do dia 10 de junho, exibir-se-iam as marchas do Núcleo dos Amigos do Bairro
Santos Nicolau; Grupo Desportivo Setubalense “Os 13”; Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense;
Núcleo Desportivo e Recreativo Ídolos da Praça e União Desportiva e Recreativa
das Pontes.
Tempo passou e parece que tudo
estagnou e nem Praça Cultural nem Praça de Touros.
Afinal no que ficamos?
Rui Canas Gaspar
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
Quando a boa apresentação não joga a favor
Benilde seria naquela época uma das poucas mulheres de
Troino que tinha completado o ensino básico, na escola da Casa dos Pescadores e,
ali mesmo, também aprendera a costurar.
Certo dia pensou ajudar financeiramente o marido,
pescador, e por isso, decidiu candidatar-se a um emprego de rececionista num
consultório médico que funcionava na baixa da cidade.
Vestiu-se a rigor com as roupas que ela mesmo habilmente costurava,
deu um jeitinho no cabelo e colocou umas cores no rosto de forma a parecer bem
na entrevista.
Azar!!! O entrevistador ao ver a agradável apresentação
da candidata nem perdeu muito tempo e logo lhe disse: - Ái menina, isto não é
emprego para si, é um trabalho muito simples…
Benilde ficou boquiaberta e desolada acabou por voltar
para casa onde continuou a ajudar a família, governando com sabedoria as parcas
finanças domésticas e tratando de costurar a roupa com que ela, o seu marido e
os seus filhos sempre envergaram e que eram alvo de atenção e reparo por parte
de vizinhos e amigos.
A setubalense Benilde até ao dia em que nos deixou sempre
manteve a mesma postura de uma mulher prendada, muito elegante e de fino bom
gosto, uma senhora que sempre soube dar muito boa conta da sua casa passando um
rico legado de valores aos seus dois filhos.
Rui Canas Gaspar
2021-dezembro-17
sábado, 20 de novembro de 2021
Recordando o bombeiro José de Sousa
Embora estivéssemos em janeiro a manhã
apresentava-se com uma amena temperatura, pelo que se tornava agradável andar
um pouco pelo meu velho Bairro de Troino, depois de ter tratado dos assuntos de
ordem profissional que me propus desenvolver nesta manhã.
Gosto de observar as gentes da minha terra, as
casas onde muitos dos meus amigos e pessoas conhecidas viveram. Enquanto ia
olhando um pouco para todo o lado dei comigo a sorrir com o pensamento que
tinha tido há muitos anos quando me dei ao trabalho de contar as pessoas que
tinha cumprimentado desde que saíra de casa até chegar à Praça do Bocage. Foram
mais de trinta…
Naquele tempo parece que toda a gente se conhecia.
Hoje, depois de mais de uma hora a andar parei junto de um dos cinco passos
existentes em Setúbal, a capelinha dedicada a São Marçal, patrono dos bombeiros
e até esse momento não tinha aparecido ninguém conhecido.
Estive a apreciar aquela capelinha, outrora sempre
limpa e bem tratada e onde na época natalícia podíamos ver um grande e bem
elaborado e tradicional presépio, que carinhosas e calejadas mãos tomavam à sua
responsabilidade.
Vi, apreciei, fotografei e fiquei desgostoso com o
ar triste a que a mesma se encontra, com vidro partido, reboco a cair, fios
elétricos pendurados e um aspeto de abandono, condizente com muitas das
habitações da zona da minha meninice.
Pensativo, deixo aquele local e entro na Rua
Direita de Troino, e eis que me cruzo com um homem que vem andando devagar
apoiado numa canadiana. Reconheço-o, cumprimento-o, é a primeira saudação do
dia. Ele não me conhece, são quase quinze anos de diferença que nos separam,
ele era já um homem enquanto eu não passava de um puto.
Paro e entabulo conversa com aquele homem que não
me conhecia, embora a sua imagem me tivesse ficada retida na memória ao longo
de décadas.
José de Sousa, 79 anos, nascido em Troino, na Rua
do Castelo, bombeiro, era ele que tratava daquela capelinha até 2011, a sua
saúde já não lhe permite desenvolver essa tarefa como outrora o fez com tanto
carinho e empenhamento. O mesmo empenhamento que colocou ao serviço dos seus
conterrâneos no combate a centenas de fogos na nossa terra.
Hoje o nosso amigo José de Sousa teve oportunidade
de encontrar alguém com quem conversar uns minutos sobre um assunto que tanto
lhe diz e ao referir-se àquela e à outra capelinha existente no Larga da
Veronica, que também cuidava não deixa de se manifestar de forma verbal
violenta contra um antigo presidente da Câmara que mandou arrancar os azulejos
que ele próprio colocara naqueles espaços, propriedade da Santa Casa da
Misericórdia de Setúbal.
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
As boas memórias que ficaram da “nossa” Comenda
A minha ficha de escuteiro regista o ano de 1961 como sendo
o do primeiro acampamento que fiz na Herdade da Comenda, no sítio de Almelão, a
cerca de 1 km para o interior da foz da Ribeira da Ajuda.
Desde essa data até à minha saída do ativo escutista foram
dezenas de noites de campo em acampamentos levados a cabo no interior da “nossa”
Comenda.
É bom notar que já naquele tempo, antes da revolução da
25 de abril de 1974, o espaço encontrava-se vedado em grande parte da herdade e
antes de acamparmos solicitávamos a devida autorização ao representante do
proprietário.
Não me recordo do rosto do guarda da propriedade no tempo
do Conde Armand, mas registei o nome de Chacatas ou Xacatas a quem geralmente dirigíamos
o pedido de autorização para acampar debaixo daqueles enormes eucaliptos, na
margem da ribeira e junto à mina de água.
Pouco antes da “Revolução dos Cravos” a herdade foi
vendida à TORRALTA, que acabou por a entregar como dação em pagamento ao Banco
Pinto & Sotto Mayor, que por sua vez vendeu a António Xavier de Lima. Após
o seu falecimento os herdeiros
alienariam à Seven Properties – Sociedade de Investimentos Imobiliários S.A.,
atuais detentores desta enorme propriedade, em pleno Parque Natural da
Arrábida.
Aquando na posse de António Xavier de Lima os escuteiros
continuaram a acampar naquele magnifico espaço, que permitia as mais diferentes
aventuras e a propriedade continuou a ser devidamente guardada desta vez por António Chinita cuja imagem aqui mostramos e onde também se podem ver
alguns dos belos painéis de azulejos, rapidamente furtados e vandalizados
quando este que foi o último guarda das instalações deixou de exercer a sua
atividade.
Presentemente a casa apalaçada arquitetada por Raúl Lino
encontra-se recuperada, a propriedade está a ser limpa e ordenada e, se alguns
setubalenses e demais utentes daqueles espaços estão tristes por não os poderem
agora utilizar, outros ficarão satisfeitos pela recuperação levada a cabo pelos
novos proprietários.
Quanto a mim, ficaram as memórias do tempo de juventude e
de muitos e bons momentos de salutar convívio e das histórias contadas à volta
da fogueira, naquelas noites estreladas, como só as vivi na “nossa” Comenda.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2021-outubro-29
terça-feira, 27 de julho de 2021
Há 51 anos nem a
morte de Salazar nos livrou!...
Éramos (e somos) três bons amigos que desde tenra idade
fizemos parte de um grupo de escuteiro setubalense e que nesta foto nos
apresentamos como equipa de ténis de mesa, representante local desse Movimento
Mundial..
Quando jovens, tal como uma dúzia de escuteiros do mesmo
grupo, fomos incorporados no serviço militar obrigatório e pouco depois
enviados para as três frentes de combate que Portugal travava lá longe, em
África, nas suas colónias da Guiné, Angola e Moçambique.
Naquele dia 27 de julho de 1970 o Ricardo Soromenho estava para embarcar
em Lisboa no Navio Bragança no mesmo dia eu faria o mesmo no Ana Mafalda. Foi
então que a rádio noticiou o falecimento de Oliveira Salazar e logo os rumores começaram
a circular pelo cais de embarque que os navios transportando centenas de
militares para a Guiné não largariam amarras do porto de Lisboa.
Poucos dias antes já o Mário Salgado tinha ali embarcado
no velho paquete Carvalho Araújo também ele rumo à Guiné integrado numa
companhia que foi reforçar a localidade de Pirada alvo de violentos ataques do
PAIGC de que resultou mortos, feridos e prisioneiros entre as nossas tropas.
A morte de Salazar afinal de pouco nos serviu pois pela
tardinha ambos os barcos deixavam a barra de Lisboa, rumo a Bissau e a uma
guerra que nos poupou a vida e que continuamos a recordar sem saudade a não ser
aquela dos nossos bem passados tempos de juventude.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2021-julho-27
domingo, 4 de julho de 2021
A última subida ao Alto do Formosinho
Embora
os jovens presentes naquele evento não fossem escuteiros, o tipo de atividades
que lhes proporcionamos foram idênticas ao
que os jovens deste movimento mundial levam a cabo aquando nos seus
acampamentos.
Uma
destas atividades consistia na subida ao ponto mais alto da Península de
Setúbal, o Alto do Formosinho, pelo que pedi a um experiente chefe escuteiro
que guiasse o grupo, ficando eu para trás, tipo “carro vassoura” estando no
entanto mentalmente preparado de que já não conseguiria completar o meio
quilómetro do trajeto sempre a subir.
Acontece
que passados algumas dezenas de metros andados, encosta acima, dei conta de que
um dos jovens mostrava alguma dificuldade pelo que lhe disse para descansar e
não tentar a subida até ao marco ao que o rapaz me respondeu que queria lá
chegar mesmo que fosse o último.
Bem,
como “querer é poder” embora caminhando mais devagar o moço gordinho foi
trepando pelos íngremes carreiros e eu a acompanhá-lo e
poucos minutos
depois do grupo ter chegado ao cimo da serra lá chegávamos os dois a tempo de fazer o registo fotográfico para a
posteridade e admirar a soberba paisagem que daquele ponto se desfruta desde o
Monte Abraão, até ao Atlântico, de Troia a Lisboa…
A
atitude de perseverança daquele jovem levou-me também a conseguir aquilo que já
tinha dado por impensável e não lhe tinha confessado, ficando para mim mais uma
lição daquelas que vamos aprendendo ao longo da vida , ou seja: “faz mais quem quer do que quem pode”.
Rui
Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
21-julho-04
sexta-feira, 7 de maio de 2021
Django
o atleta que tem mais vidas que um gato
É sempre com agradável prazer que converso com
o amigo Armando Cabrita, o nosso popularmente conhecido DJANGO e dele ouvir as
mais incríveis histórias vividas na primeira pessoa.
Django é uma daquelas personagens que “não
morre nem que o matem” ou não tivesse o seu falecimento já ter sido noticiado
pela oitava vez e ele a despeito dos seus 68 aninhos ainda se manter em
excelente forma física ora correndo, pedalando, ou nadando no rio e no
Atlântico, como se de um peixe se tratasse.
Agora este incrível atleta gasta boa parte do
seu tempo pedalando numa bicicleta transformada por si de forma a estar
adaptada quer à estrada quer a todo o terreno e tendo como objetivo servir os
seus intentos até aos noventa anos, diz-me rindo com a sua alegria contagiante.
Há poucas semanas pela oitava vez a morte de
Django chegou a ser anunciada nas redes sociais, porém quem de facto faleceu
foi um seu amigo, também ele excelente nadador, companheiro de aventuras nas
águas da foz do Sado que ao sentir-se mal nadou para a praia e a despeito das
manobras de reanimação prestadas já nas areias de Albarquel acabou por
sucumbir.
A primeira vez que pensaram que Django tinha
morrido foi quando tinha 15 anos e caiu de um 5º andar de uma obra em
construção, tendo recuperado rapidamente depois de levar duas bofetadas e ter
de carregar com uns sacos de cimento às costas, mas isso é outra história…
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
domingo, 11 de abril de 2021
“Terra de muitas e desvairadas gentes”
Quando
há mais de dois milénios os Fenícios chegaram ao nosso Rio Sado já por aqui
encontraram gente disposta a comercializar os seus produtos, tendo para o
efeito estabelecido feitorias, uma
espécie de armazém comercial, ou seja os hipermercados daquele tempo.
Algumas
centenas de anos depois outros imigrantes descobriram que esta era uma terra
onde poderiam estabelecer fábricas de conserva dado a abundância de peixe e de
boa água, por isso os Romanos por cá ficaram e ganharam bom dinheiro.
Como
na sua terra a água e boas terras agrícolas eram escassas os muçulmanos, vindos
do Norte de África trataram também de aqui se estabelecer e por cá ficar por
quase oitocentos anos.
Fenícios,
Romanos e Muçulmanos, são dos primeiros imigrantes a chegar a Setúbal, embora
outros povos viessem até cá e por aqui se estivessem estabelecido ao longo de
centenas de anos.
Mais
recentemente, por volta do século XVIII, as migrações internas fizeram para
aqui deslocar pessoas da zona de Aveiro, popularmente conhecidas por varinos,
corruptela de ovarinos, ou seja aqueles nascidos em Ovar e outros oriundos do
Algarve, sobretudo da zona de Olhão e Fuzeta.
Nos
anos 60 do século XX as fábricas de montagem de automóveis, a indústria
papeleira e a naval, a par do desenvolvimento turístico, sobretudo em Troia,
fizeram afluir a Setúbal, imigrantes vindos das Beiras e do Alentejo.
Apos
1974 com a descolonização e o êxodo da população das ex-colónias cerca de meio
milhão de pessoas viriam de África para Portugal e milhares delas radicar-se-iam
em Setúbal.
Mais
recentemente, são povos do Leste da Europa, Franceses e sobretudo Brasileiros
os que mais procuram esta cidade à beira Sado plantada para viver e trabalhar.
Setúbal
é por isso uma terra de “muitas e desvairadas gentes”, uma terra de imigrantes,
que procuram conviver pacificamente pese embora as suas naturais diferenças sociais
e culturais.
Hoje,
dia 11 de abril de 2021 tivemos oportunidade de verificar essa
multiculturalidade, característica dos atuais setubalenses, aquando da abertura
ao culto da nova capela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos
Dias, um espaço que veio substituir os outros dois locais de reunião até então
existentes na cidade.
Rui
Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
domingo, 14 de março de 2021
E que tal mudar a linda e escondida fonte para outro local?
A indústria do turismo é uma poderosa
ferramenta de progresso ao dispor das nações porquanto faz desenvolver um vasto
conjunto de atividades produtivas que vão da agricultura aos transportes
passando pelos serviços, sendo naturalmente fonte de empregos e
consequentemente geradora de riqueza e bem-estar dos povos.
Mas para que uma terra seja atrativa para
os turistas ela deverá ter algo apelativo e diferente e não aquilo que o forasteiro
poderá observar no próprio local onde reside, sejam as paisagens seja a
gastronomia ou os seus monumentos.
Setúbal é uma agradável cidade, com uma
gastronomia muito apetecível, cercada por uma invejável moldura natural, porém com
poucos monumentos ou obras de arte que possa atrair o turismo cultural.
Mas, se já temos pouco ainda por cima somos
mal aproveitados. Exemplo do que afirmo é o Forte São Luis Gonzaga, um dos
melhores miradouros da cidade, abandonado no meio do mato. O mirante da Quinta
da Azeda à espera que caia e, a linda fonte seiscentista escondida atrás do
auditório José Afonso.
Se queremos visitantes na nossa cidade mais
do que a limpar e embonecar a urbe temos de valorizar o nosso património e, por
isso, teremos de não perder o que temos.
Porque não gosto de extremismos e como tal
não advogar a hipótese de derrubar o auditório José Afonso, atrevo-me a sugerir
a mudança da bonita fonte para a Avenida 22 de Dezembro, frente ao convento de
onde a mesma saiu. Quanto ao mirante da Quinta da Azeda que o mesmo fosse
recuperado e como tal destapado das lonas publicitárias que o envolvem. Já o Forte
S. Luís Gonzaga que se começasse de vez a recuperar esta peça do nosso património
militar e histórico, iniciando-se com a desmatação e limpeza do espaço
envolvente.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2021-março-14
quinta-feira, 11 de março de 2021
A Escola Conde de Ferreira
A exemplo de algumas dezenas de
localidades, sedes de concelho, em Setúbal podemos ainda admirar uma singular e
simples construção, localizada a meio do lado norte da Avenida Luísa Todi, nº 357
de onde se destaca um pequeno frontão que lembra um campanário.
Na base deste frontão está inscrita a data
de 26 de março de 1866 e sob a porta principal a inscrição “Conde de Ferreira”
o benemérito que doou a verba para a sua construção e respetivo equipamento e a
quem o ensino público em Portugal muito deve.
A data poderá sugerir o dia em que a escola
foi inaugurada, como é comum aparecer em tantos outros edifícios. Mas não,
neste caso a mesma aparecia em todas os 91 estabelecimentos escolares, dos 120
que o testamento de Joaquim Ferreira dos Santos, agraciado com o título de
Conde de Ferreira, preconizou erigir e lembra a data de falecimento daquele
mecenas.
Esta é uma das escolas edificada de acordo
com planta única, para evitar custos maiores com elaboração de diferentes
projetos, a qual contemplava alojamento para o professor, para além das salas
de aulas destinadas a alunos de ambos os sexos e que deveria ser erigida num
espaço não inferior a 600 M2 além da área ocupada pelo edifício.
No seu diversificado testamento o Conde de
Ferreira escreveu:
“
Convencido de que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da
Sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e
vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que forem
cabeças de concelho sendo todas por uma mesma planta e com acomodações para
vivenda do professor, não excedendo o custo de cada casa e mobília a quantia de
1200 reis e pronta que esteja não mandarão construir mais de duas casas em cada
cabeça de concelho e preferirão aquelas terras que bem entenderem.”
Depois de terem servido o ensino ao longo
de décadas quer sob o regime monárquico quer sobre o republicano alguns destes
imóveis ainda cumpriam o fim para que foram edificados.
A escola de Setúbal onde muitos dos nossos conterrâneos
aprenderam as primeiras letras e outros se submeteram a exames oficiais está
desativada como estabelecimento de ensino.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2021-março-11
domingo, 7 de março de 2021
O primeiro secretário-geral do PCP foi
um setubalense
O Partido Comunista Português, nasceu em 1921 e entre os
seus fundadores encontrava-se um setubalense profissionalmente ligado ás coisas
do mar e da indústria conserveira, um homem que viria a tornar-se no primeiro
secretário-geral do partido.
José Carlos Rates, nascido em Setúbal no ano de 1879
viria a falecer em 1945. Ele foi um dedicado dirigente sindical, grande propagandista
e dinâmico militante tendo organizado
sindicatos quer no continente quer na Madeira, para além de colaborar com
artigos de opinião na imprensa operária.
Este dinâmico comunista visitaria também a Rússia revolucionária
para ali beber os ensinamentos comunistas de forma a melhor poder exercer a sua
ação em território nacional.
A polícia política estava atenta e por isso a sua ação
revolucionária valeu-lhe ter sofrido penas de prisão, tendo também sido sentenciado
ao degredo para terras de África.
Curiosamente este revolucionário setubalense acabaria por
vir a ser expulso do partido que ajudou a fundar, em maio de 1926, aquando do
2º Congresso do PCP alegadamente devido a desvios das diretivas emanadas pela
Internacional Comunista.
Em 1931, dez anos depois de ter fundado o Partido
Comunista Português o multifacetado setubalense que também foi escritor, fadista
e membro da maçonaria passou para o lado oposto da barricada, filiando-se á
União Nacional, o partido único salazarista.
Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2021-março-07












