notícias, pensamentos, fotografias e comentários de um troineiro

sábado, 13 de fevereiro de 2021

 




Setúbal entre o verde e o azul

No último meio século a cidade de Setúbal cresceu bastante e, proporcionalmente ao aumento das novas construções, verificou-se a diminuição dos espaços verdes, então ocupados por diversas quintas onde predominavam os pomares de laranjeiras.

Curiosamente as colinas a poente da cidade apresentavam-se então quase despidas de vegetação como podemos constatar por fotos da época, uma situação que gradualmente viria a mudar, apresentando-se hoje esses espaços cobertos por milhares de arvores, sobretudo pinheiros.

E os novos inquilinos que se instalaram não só pelas encostas mas também por todos os terrenos disponíveis são de tal forma numerosos que hoje podemos observá-los ao longo de largas dezenas de hectares de zona envolvente aos fortes de S. Filipe e Casalinho, descendo pela encosta até ao da Albarquel, seguindo a mancha verde para poente até ao forte do Outão.

Na sequencia dos trabalhos de contenção de terras na encosta do nosso castelo está a proceder-se a um desbaste de arvoredo em torno do mesmo, provavelmente no âmbito das medidas de proteção contra incendios, o que permite a quem está na cidade ver o Forte de São  Filipe na sua plenitude, como já não acontecia á várias dezenas de anos.

Esta ampla mancha verde a norte do Sado, combinada com o lindo azul do nosso rio e Atlantico dá um enquadramento único a Setúbal que assim beneficia de uma boa qualidade ambiental oferecida pela Natureza que tão generosamente colocou à nossa disposição a serra e o mar.

Rui Canas Gaspar

Troineiro.blogspot.com

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

 



 

Os raros bolos setubalenses

Naquele tempo, passados pouco mais de meio século,  era quase um luxo poder comprar um bolo na pastelaria, fosse ele um disco, um pastel de nata, um bolo de arroz ou qualquer outro exposto na montra. É que o dinheiro era escasso demais para poder ser esbanjado nessas coisas mais ou menos supérfluas.

Não é pois de admirar que fosse com a maior alegria e contido consumo que se degustava o bolo feito pela mãe, depois de levar uma semana a guardar as natas obtidas após a fervura do leite, que o leiteiro, portando as suas bilhas e medidas, vinha vender á porta de casa.

Claro que pelo Natal logo tínhamos tempo de comer alguma guloseima, se o menino Jesus estivesse abonado e trouxesse algo mais que um par de meias, ou então que alguma vizinha partilhasse uma daquelas broas de milho que o patrão lá da fábrica de conservas tinha mandado a casa por intermédio do operário que ao longo do ano a vinha chamar com o tradicional “peixe pra já.

E que terna lembrança ficou daquela prima moradora no nosso Bairro de Troino quando da sua janela me pedia para ir à mercearia do César comprar um pouco de açúcar para adoçar o café, fazendo logo de seguida a promessa de quando se casasse me daria um bolinho da sua boda.

O curioso é que depois de tantos recados e serviços prestados um dia a prima casou-se com um vizinho lá da nossa Rua das Oliveiras e fosse pelo entusiasmo, pelos afazeres, ou por mero esquecimento das promessas feitas o facto é que nem sequer vi a cor dos tais prometidos bolinhos…

Abençoados tempos estes que vivemos onde não temos de esperar pelo Natal, por juntar as natas do leite que ferveu, ou pelo cumprimento de promessas não cumpridas, para podermos comer em qualquer dia do ano um dos muitos deliciosos bolos que hoje se nos apresentam.

Rui Canas Gaspar

2021-fevereiro-10

Troineiro.blogspot.com

domingo, 24 de janeiro de 2021

 

 

 



Apara-lápis  o peixe esquisito que nos apareceu…


 

Estávamos no início dos anos setenta do passado século XX quando as traineiras de setubalenses se depararam com um desconhecido fenómeno.  É que ao invés da captura dos cardumes de sardinha ou carapaus começaram a recolher nas suas redes grandes quantidades de pequenos peixes de cor alaranjada e com um bico comprido.

 

Apara-lápis este peixe costeiro, também conhecido por trombeteiro ou corneta, quando juvenis vivem na coluna de água alimentando-se plâncton tal como as sardinhas.

 

Esta espécie piscícola praticamente quase não tinha valor comercial o que representava um importante prejuízo para os pescadores. Ele acabaria por ter como destino a fábrica SADOP, uma unidade industrial sediada na periferia da cidade que transformava em farinha as toneladas dos pequenos peixes carregados em camionetas de carga desde a doca dos pescadores.

 

Conforme apareceu, também algum tempo depois desapareceu, não deixando boa memória a sua passagem por terras setubalenses, embora tenha ficado o registo sonoro conforme podemos aqui escutar  

https://www.youtube.com/watch?v=prpQDWLuvjg

 

Rui Canas Gaspar

2021-janeiro-24

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

 



MIL E UM o monstro que não conseguiu emergir das areias de Troia

Caso não tivesse ocorrido a revolução de 25 de Abril de 1974 ou mesmo se esta tivesse acontecido uns anos mais tarde, na outra margem do Sado, frente a Setúbal, poderíamos hoje observar uma cidade turística que então se anunciava como capital do turismo europeu.

Na imagem ilustrativa desta nota mostro o projeto geral da TORRALTA para aquela península de finas areias brancas que previa de entre outras a mudança de local da capela existente na zona da caldeira, a construção de um hospital e até a edificação de um “monstruoso” hotel designado por Mil e Um dado o mesmo prever a existência de 1001 quartos conforme então era voz corrente em Troia.

Para se poder ter uma ideia da volumetria do tal hotel, que não chegou a sair do papel, basta comparar aqui na planta a área do mesmo com a do Clube Hotel, aquele enorme edifício onde hoje se encontra o casino, junto à marina.

Goste-se ou não do projeto da TORRALTA, goste-se ou não do que lhe sucedeu depois da passagem para a SONAE, goste-se ou não dos resultados da revolução de 25 de Abril que acabou com a ditadura em Portugal, o facto é que se este monstro tivesse saído das areias de Troia aquela península teria uma paisagem seguramente diferente.

Rui Canas Gaspar

Troineiro.blogspot.com

2021-janeiro-12

sábado, 26 de dezembro de 2020

 



O Segredo dos Monges da Arrábida

Os frades arrábidos não só viveram da contemplação das soberbas belezas que se podem desfrutar a partir das suas instalações no coração da Serra da Arrábida, como também procederam à construção de diversas estruturas e igualmente se interessaram pelo conhecimento da flora local.

E foi a partir desse conhecimento que criaram um saboroso licor com fins digestivos, cuja fórmula foi mantida em segredo, sabendo-se que a matéria prima de base é o martunho, uma planta da família Myrtaceae que por esta altura do ano pode ser colhida na serra.

Em 1834 com a extinção das Ordens Religiosas os monges que estavam no Convento de Santa Maria da Arrábida foram forçados a partir sendo que alguns se acolheram numa quinta aqui na região, encontrando-se entre eles o frade licorista, ou seja o guardião da formula secreta.

Quando esse frade partiu para Espanha a família anfitriã herdou o conhecimento e a fórmula daquele a que viria a ser conhecido por Arrabidine, o delicioso néctar agora com muitas décadas de vida.

Este é um licor conventual de genuínas tradições. Ele é fabricado na Quinta do Anjo, pela empresa Lima Fortuna, mantendo-se a produção segundo formula original, embora possamos encontrar outros licores, sobretudo no sul de Portugal, feitos igualmente à base das pequenas bagas brancas, de cor azul-escuro ou pretas, de característico sabor agridoce, conhecidas por martunhos.

Neste frio e solarengo dia de Inverno, dediquei algum tempo a um passeio pela Serra-Mãe onde me   diverti a colher e a comer alguns martunhos, vindo-me à mente a história deste saboroso licor tão característico da nossa terra.

Rui Canas Gaspar

2020-dezembro-26

Troineiro.blogspot.com

sábado, 5 de dezembro de 2020

 



Os romanos na Arrábida

Há muito, muito tempo, um povo guerreiro e empreendedor começou a expandir a sua influência territorial vindo a ocupar boa parte do mundo até então conhecido.

E, foi á cerca de 2 000 anos que os Romanos acabariam também por chegar a esta terra localizada na parte mais ocidental do continente europeu.

Aqui, pelas nossas bandas,  acabariam por se instalar em ambas as margens do Sado e, neste espaço, construíram várias fábricas de salga de peixe e derivados originando que estas unidades industriais se transformassem nas maiores do seu género em todo o Império Romano.

Na Arrábida, junto ao Portinho também construíram uma dessas primitivas fábricas, bem perto de uma forte de água doce, um bem imprescindível para o seu bom funcionamento.

Muitos anos mais tarde, já sem os romanos por cá, a fonte foi debitando cada vez menos água até que chegou ao ponto de pouco mais que pingar, pelo que os seus raros utentes lhe atribuíram a designação de “Fonte da Paciência” devido ao tempo que teriam de despender para encher um pequeno recipiente do precioso líquido.

Hoje na belíssima zona do Creiro, em pleno coração do Parque Natural da Arrábida, pouco mais resta do que um memorial àquela que foi a “Fonte da Paciência” bem como as ruinas postas a descoberto da que foi uma produtiva fábrica de conservas romanas de onde o peixe e seus derivados saíam para abastecer o famoso e enorme Império  que também se haveria de finar.

E para que a nossa memória coletiva não desapareça como aconteceu com o Império Romano, penso que seria bom que fosse agendado pelo Parque Natural da Arrábida e pelo Museu de Arqueologia  as necessárias ações tendentes não só à conservação mas que também fossem prosseguidas as escavações com o objetivo de valorizar e colocar a descoberto este nosso importantíssimo património histórico.

Rui Canas Gaspar

05-dezembro-2020

Troineiro.blogspot.com

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

 


Para oferecer a si mesmo ou a um amigo

Nestes tempos esquisitos que atravessamos por vezes a melhor companhia para o confinamento será mesmo um livro.

Para quem gosta das coisas de Setúbal saiba que temos agora à disposição um excelente e muito bem documentado trabalho da autoria de Diogo Ferreira e João Pedro Santos focando nada mais nada menos que o meu querido Bairro de Troino.

Este é um livro que recomendo e que pode ser adquirido, de entre outros locais, nas livrarias da baixa de Setúbal.

Rui Canas Gaspar

Troineiro.blogspot.com

domingo, 23 de agosto de 2020

“Pau da Consolação”  ou democraticamente quem manda aqui sou eu ?

Nascido e criado nesta terra setubalense, já lá vão alguns anitos, nunca por aqui escutei o termo de “Miradouro de Albarquel” como agora alguém decidiu batizar aquele espaço, mas sim “Pau da Consolação”.

Que o espaço agora intervencionado está mais agradável, lá isso está. Que embora à volta do banco  algumas peças da brecha da Arrábida se encontrassem danificadas lá isso é verdade, embora outras pudessem ficar integradas no arranjo envolvente do pinheiro manso, ícone daquele espaço.

Porém o foco do meu comentário é mesmo a nova designação do espaço, com o qual discordo, entendendo que deveria ser mantida a terminologia por que é efetivamente conhecida entre as gentes da nossa terra.

A interpretação do termo “Pau da Consolação” cada um dará a que lhe aprouver,  sendo seguro que uns se consolaram ali namorando, outros traindo, outros bebericando, outros apreciando a paisagem, outros inspirando-se, etc. etc.

Pela minha parte dezenas de vezes ali parei para descansar de longas caminhadas quando andava por aquelas bandas da Arrábida de mochila às costas. Uma consolação!...

Era  ali à sombra do grande pinheiro manso, que o falecido chefe escuteiro Joaquim Oliveira, caixeiro viajante, muitas vezes ia redigir  a nota de encomenda dos tecidos pedidos  pelos comerciantes da baixa aproveitando esse momento para depois fazer uma reconfortante sesta.

Porque carga de água agora algum iluminado resolve mudar o nome ao espaço?  Faz-me isto lembrar a mudança do nome de outra rua da nossa baixa, a de João Galo para Mareantes. Sim porque com a mudança toponímica acabaram-se as casas de prostituição na cidade…

Em  Setúbal, terra milenar, a despeito  de poder modernizar, devemos  ter em conta o património edificado e as tradições do nosso povo, não  descaracterizando ao ponto de qualquer dia desconhecermos a terra dos nossos pais e avós, isto porque  alguns dos que aqui chegaram optaram por um conjunto de alterações baseados no  “democraticamente quem manda aqui sou eu”.

Rui Canas Gaspar

2020-agosto-23

Troineiro.blogspot.com


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 

O saboroso peixe assado setubalense

A ilha de fogareiros e expositores de peixe que serve os três restaurantes localizados na Praça Machado dos Santos, popularmente conhecida por “Fonte Nova” não deixa de fumegar enquanto muitos setubalenses e forasteiros se deliciam com o saboroso peixe assado, debaixo das frondosas árvores daquele típico largo de Troino.

As antigas tabernas, agora transformadas em restaurantes, em meados do século passado não serviam os clientes tal como hoje, mas sim, estes, normalmente pescadores e descarregadores, traziam o seu peixe para assar e a taberna fornecia o fogareiro e o carvão e eram os próprios clientes que assavam o peixe, pagando depois ao taberneiro o “aluguer” do fogareiro, o carvão e mais aquilo que consumisse,  nomeadamente o pão e o vinho.

Horácio Cipriano, 78 anos, dono da Casa Morena, uma antiga taberna que assumiu esta designação porque o seu proprietário é natural de Grândola, localidade imortalizada por Zeca Afonso como a “Vila Morena” foi um dos pioneiros a servir o peixe assado tal como hoje conhecemos servindo-o assim há quase quatro décadas.

Mas assar peixe não é para qualquer um, nem sequer é só colocar em cima da grelha, que o diga Horácio Cipriano que estando aos comandos deste popular espaço não entra na ilha onde o peixe é assado. Ali quem domina  é  dona Fernanda, sua esposa, e segundo confidencia este nosso amigo o peixe é o mesmo, o lume é o mesmo, mas se for ele a tratar o assado nunca sai tão bom com o de sua esposa.

A antiga taberna, inaugurada em 1929, outrora local de convívio de tantos pescadores de Setúbal é hoje um espaço muito bem  frequentado sobretudo por setubalenses que sabem apreciar o bom peixe  que cada vez mais escasseia naquela que já foi a nossa  produtiva costa atlântica.

Rui Canas Gaspar

Troineiro.blogspot.com

2020-agosto-13

quinta-feira, 6 de agosto de 2020


A elevação de Setúbal à categoria de cidade

O jovem rei D. Pedro V ainda não tinha completado 23 anos quando na quinta-feira, dia 19 de abril de 1860 assinou o decreto real, no Paço das Necessidades, que elevava a “notável villa” de Setúbal à categoria de cidade.

Foram necessários deixar passar quase dois anos desde aquele dia 14 de julho de 1858 para que fosse deferido o requerimento redigido pela vereação da Câmara Municipal solicitando a Sua Majestade a graça de “aumentar o esplendor e a grandeza da povoação”.

Para além da sua História, do seu importante porto e do seu comércio com o exterior um outro motivo também invocado pelo presidente da autarquia, Aníbal Álvares da Silva e sua vereação era o facto de Setúbal rivalizar em importância e população com todas as cidades do reino, com exceção de Lisboa e Porto.

Para assinalar esta importante data junto dos seus cidadãos, Setúbal tem apenas uma pequena rua com o dia e mês, sem que a mesma faça alusão a este acontecimento histórico, comemorado com grande euforia pelos nossos antepassados.

Foram precisos deixar passar CEM ANOS para que um grupo de cidadãos tomasse a iniciativa de mandar implantar um digno monumento que nem mesmo ele publicita a data, sendo vulgarmente conhecido por “fonte luminosa” mas cuja designação oficial é “Fonte do Centenário”.

Rui Canas Gaspar

Troineiro.blogspot.com

2020-agosto-06


domingo, 2 de agosto de 2020

Sardinhada na Fonte Nova ao som de boa música

Se a sardinha está boa os carapaus não se ficam atrás e, por isso, não é de admirar que os muitos e bons restaurantes sadinos vocacionados para o peixe assado estejam nesta altura muito bem frequentados.

Que o digam aqueles que operam com as suas esplanadas sob as frondosas árvores na velhinha Fonte Nova, no coração do típico Bairro de Troino.

Não é pois de admirar que os lugares estejam todos ocupados, sobretudo ao fim de semana e com muitos clientes a  aguardar vez para se poderem sentar.

No sábado para alegrar os comensais apareceu um trio, dois violas e um baterista, que durante alguns minutos animaram aquele espaço, tendo sido aplaudidos pelo público presente que acabou por contribuir monetariamente para ajudar estes profissionais tão afetados profissionalmente pela pandemia.

Se as pessoas não vão à música a música vem às pessoas!

Parabéns para os dois setubalenses e para o simpático alentejano que integra o agradável trio musical que alegrou o saboroso almoço degustado sob uma fresquinha brisa troineira.

Rui Canas Gaspar

Troineiro.blogspot.com

2020-Agosto-01


terça-feira, 28 de julho de 2020


Faz hoje 50 anos 

No dia 27 de julho de 1970, faz hoje 50 anos, era também segunda-feira e o dia apresentava-se igualmente luminoso não fosse o ar pesado que pairava sobre a família que em Lisboa olhava fixamente para o rapaz que ia  partir para a guerra. 

Ele estava prestes a embarcar no Ana Mafalda, um navio misto de passageiros e carga, rumo à Guiné, onde então se desenrolava uma das mais aguerridas frentes da Guerra Colonial. 

Subitamente uma notícia começou a correr no cais de embarque fazendo aflorar a esperança de que o barco não sairia do porto. Oliveira Salazar falecera! 

Foi “sol de pouca dura” pois o barco apitou, as amarras foram largadas e ele deixou Lisboa e fez-se ao mar rumo a Bissau onde dias depois atracou no cais do Pigiguiti. 

27 longos meses haveria de passar naquela quente terra africana, onde pela primeira vez conheci um hospital graças ao terrível paludismo que por pouco não acabou comigo. 

Foi ali, naquele espaço, quando desanimado e quase sem me poder mexer que perguntei a um jovem enfermeiro se os meus dias estavam a chegar ao fim, ao que este respondeu: “Estamos à espera de uma injeção que vem da Metrópole. Se chegar a tempo safas-te. Se não chegar lerpas!”. 

A injeção chegou a tempo e eu venci o jogo da vida. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2020-julho-27

domingo, 26 de julho de 2020


Setúbal vai ficar ainda mais bonita 

Longe vão os tempos em que Setúbal era comparada a uma tela de gosto duvidoso porém ornamentada com uma moldura digna de uma verdadeira obra de arte. 

Hoje a cidade apresenta-se agradável não só para quem nos visita mas sobretudo para os que cá residem, que tem à sua disposição mais espaços verdes, mais edifícios recuperados e mais obras de arte disseminadas por diferentes espaços públicos. 

Depois da decoração da rotunda da Rodrigues Manito com motivo de agrado quase geral, em breve poderemos desfrutar da nossa joia da coroa, o vetusto Convento de Jesus e as suas zonas envolventes, agora com um aspeto muito mais agradável. 

Esta semana nova obra de arte foi colocada na Avenida Luisa Todi e hoje mesmo reparei no enorme buracão que foi feito na rotunda frente ao Hospital de São Bernardo e que pela armação em ferro que está no seu interior indicia uma sólida base que irá provavelmente suster uma obra de grande envergadura. 

Os bairros populares, situados a poente e a nascente têm sofrido profundas intervenções e algumas zonas da cidade não tem ficado esquecidas, como é o caso do Liceu. 

Certamente que muito há para fazer a vários níveis. Se calhar até poderíamos ter ido mais longe, mas que a cidade está diferente para melhor disso não temos a menos dúvida e só não verá quem não quiser. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2020-julho-26

terça-feira, 7 de julho de 2020


Setúbal na História ou histórias de Setúbal (128)
Um dos mais valiosos tesouros setubalenses 

Um dos tesouros setubalenses que em breve certamente poderemos apreciar no Museu da Cidade, encontrou-se em tempos a decorar a Igreja de Jesus. 

Não deixa de ser curioso notar que há mais de 170 anos estas obras de arte já eram apreciadas não só por nacionais como por estrangeiros. 

Conforme escreveu o conde Raczynski em 1844, Os quadros em número de 17 são atribuídos ao pintor Grão-Vasco embora não se conheça nenhum documento que o prove; porém o citado conde, por alguns anos ministro da Prussia junto à corte de Lisboa, e que foi examinar a Setúbal, embora se não julgasse habilitado para tal, aponta, no entanto , esta coleção como uma das mais preciosas que ele viu em Portugal. 

1.       S. Francisco recebendo as chagas
2.       Anunciação de Nossa Senhora
3.       O nascimento de Cristo
4.       A Circuncisão
5.       A adoração dos Reis
6.       A santa Verónica
7.       Jesus crucificado 8º Calcário
8.       O Calvário
9.       Assunção de Nossa Senhora
10.   O santo Sepulcro
11.   A Ressureição
12.   Santas religiosas
13.   Santos Mártires
14.   Santo António
15.   A Ascensão
E mais dois quadrinhos representando a Prisão de Cristo e a Flagelação. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2010-julho-07

segunda-feira, 4 de maio de 2020



A Milenar e quase ignorada Setúbal 

Quando em 1158 D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, conquistou Palmela aos mouros, meia dúzia de quilómetros abaixo da colina onde se encontra o seu castelo, Setúbal pouco mais seria que um pequeno povoado sem grande importância, ocupado por pescadores e salineiros. 

Porém, um milhar de anos antes deste evento, a mesma Setúbal provavelmente teria um destaque bem maior do que a altaneira Palmela, isto a fazer fé nas descobertas arqueológicas que têm aparecido à luz do dia e que nos mostram um espaço onde a indústria dos preparados de peixe, com destaque para o garum, era de grande vitalidade. 

Para haver muito peixe teriam de ter muitos barcos e, para pescar, forçosamente haveria indústria associada, como seja a dos cabos, das redes, dos anzois, etc. etc. 

Em terra, teria também de haver as “fábricas” conserveiras de que é exemplo aquela que ainda podemos observar sob o pavimento envidraçado do edifício do turismo na Travessa Frei Gaspar, junto ao Largo da Misericórdia, idêntica a outras postas a descoberto em plena Praça de Bocage. 

As grandes olarias produtoras de ânforas da região teriam de as mandar para armazéns antes de serem enviadas para o destino final e um desses armazéns encontrava-se precisamente perto dessas cetárias, nas traseiras da nossa Biblioteca Publica Municipal, mais precisamente na travesse João Galo. 

Mas, como tudo muda com o tempo, não deixa de ser curioso que aí mesmo, onde funcionou o armazém de ânforas haveria de surgir um monumental edifício romano, provavelmente destruído por qualquer violento sismo. Dele restou uma enorme cornija que hoje se encontra na Avenida Luisa Todi, junto ao Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal. 

Esta enorme pedra de calcário tem o comprimento de 3,60 metros e uma largura de 0,72 por 0,34 de espessura. 

Mas, porque onde existe indústria circula mais dinheiro, também os romanos nos deixaram uma pequena amostra do muito que por aqui abundava e, alguém escondeu sem ter tido oportunidade de recuperar uns largos milhares de moedas, colocadas em duas grandes ânforas, que vieram a ser descobertas na antiga Rua Direita de Troino. 

Setúbal é uma localidade milenar e certamente serão muitos os setubalenses e muito mais os forasteiros que nos visitam que disso não tem noção, atendendo a que a nossa rica história pouco tem sido divulgada e o que resta do nosso património edificado não tem tido a devida valorização e divulgação, pelo que urge fazê-lo. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2020-maio-04

sexta-feira, 1 de maio de 2020


Será bom sinal se a Proteção Civil não vier a necessitar dela 

Está praticamente concluída a nova capela de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias localizada no extremo norte do futuro Parque Urbano da Várzea, em Setúbal. 

Construída num amplo terreno, propriedade da Igreja, as novas instalações ocupam cerca de metade do mesmo tendo cedido o restante à autarquia sadina para construção de arruamentos e integração no  próprio parque verde. 

Quando estas instalações começarem a funcionar para ali serão transferidas as congregações sediadas na Avenida General Daniel de Sousa e também a da zona da Camarinha. 

A nova capela segue o padrão internacional e a exemplo das muitas milhares de outras construídas ultimamente em Portugal e no estrangeiro a sua arquitetura está adaptada não só ao culto como também a atividades sociais e a eventualmente poder ser transformada num polo de apoio à Proteção Civil em caso de emergência. 

A título de exemplo é bom saber que em várias partes do mundo, com especial destaque para o Brasil, várias capelas SUD estão já a apoiar os diferentes hospitais que se encontram sobrelotados.
Em Portugal a  Igreja já doou vário equipamento médico e de proteção para os hospitais e diversas das suas capelas estão colocadas como unidades de reserva pela Proteção Civil sendo que em Setúbal é a capela localizada na zona do Bairro da Camarinha aquela que pelas suas características ficou integrada nesta listagem para uma eventual situação de emergência devido ao COVID 19 
.
Devido à situação gravosa que o Mundo em geral atravessa as ações de culto nas capelas estão suspensas e ainda não há data assinalada para as “portas abertas” desta nova unidade que irá servir os cristão SUD setubalenses. 

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com
2020-maio-01

segunda-feira, 6 de abril de 2020



Figueirinha a praia construída pelos setubalenses

Muitos daqueles que se deslocam hoje à Figueirinha, a maior praia setubalense, em pleno Parque Natural da Arrábida desconhecem ou estarão esquecidos, que este espaço de eleição foi conquistado ao mar, inicialmente mais por necessidade do que a pensar no lazer. 

Em 1929 o Estado aprovou uma verba de 100 mil contos destinada às primeiras obras portuárias onde também se inseria o Porto de Setúbal cujos trabalhos teriam o seu início no dia 28 de julho de 1930 com o lançamento da primeira pedra. 

Mas a primeira pedra seria apenas o início da colocação de milhões de outras destinadas à edificação de cerca de 4 quilómetros de muralhas e de três docas na baía de Setúbal. 

As pedras seriam retiradas da falésia frente à Figueirinha que por se encontrar praticamente em cima do mar tornariam o trabalho de transporte a bordo de grande e possantes barcaças muito mais fácil e rápido. E foi o que aconteceu. 

Com a conclusão da obra e terminados os trabalhos de extração verificou-se que a falésia tinha recuado e consequentemente haveria agora mais espaço disponível na sua base do que a diminuta faixa de areal até então se verificara. 

O tempo e as marés encarregaram-se de dotar a praia com mais algum espaço, porém nada comparável ao que hoje observamos. 

Foi a construção do espigão a montante da praia e copiosas injeções de areias obtidas com as dragagens do leito do Sado que a praia tal como a conhecemos começou a tomar forma, facto a que não é alheio a natural movimentação de areia devido às correntes submarinas. 

Nos últimos anos foi construído o parque de estacionamento e o mesmo foi posteriormente melhorado e revestido com adequado pavimento, ocupando um espaço que até há poucos anos era banhado pelas águas do Atlântico e que agora se apresenta bem longe do mesmo. 

Podemos assim concluir que a Praia da Figueirinha é o resultado da engenharia, do trabalho árduo e do desenvolvimento da nossa terra, onde a mão humana se sobrepôs à da mãe Natureza. 

Rui Canas Gaspar
202-abril-06


sábado, 4 de abril de 2020



O “crime” dos namorados troineiros

Os jovens namorados Benilde com os seus 16 verdes anos e Francisco em plena juventude contando agora com os seus vigorosos 18 decidiram um dia gravar para a posteridade o seu amor. 

No início daqueles idos anos 40 do passado século XX as máquinas fotográficas constituíam um bem raro e como tal os fotógrafos profissionais eram as pessoas que se encarregavam da tarefa de gravar esses bons momentos. 

Os jovens setubalenses, nascidos e criados no popular Bairro de Troino, num belo dia vestiram as suas melhores roupas e sorrateiramente foram ao retratista para que este gravasse para a posteridade aquele momento de felicidade. 

E, foi o retratista que disse que naquele cenário do estúdio, como se estivessem à janela, que a mão do rapaz por cima do ombro da rapariga ficaria melhor. E assim foram fotografados. 

Passados uns dias Francisco estava no mar, onde era camarada num barco da pesca da sardinha quando a Benilde foi buscar os retratos que já estavam prontos. 

Encantada com a imagem a moçoila foi fazer a surpresa à mãe mostrando a bela foto. Esta olhou para a fotografia e ato contínuo levantou a mão e deu uma bofetada na filha, guardando as fotos e exclamando “não tens vergonha!”.
A mãe, não devolvendo, escondeu as fotos e a Benilde ao longo de muitos meses procurou-as por todos os cantos da casa sem as encontrar, não podendo assim mostrar ao namorado. 

Era o que mais faltava uma moça tão prendada que até aprendera a bordar e costurar na Casa dos Pescadores poder vir a ser falada por todo o Bairro de Troino, deixando ficar mal os Canas! Isto no caso do Francisco não se casar com ela, agora que até tinha um retrato com a mãozinha marota por cima da sua filha… 

O tempo passou e, em 1947, o casalinho deu o nó na Igreja da Anunciada e foi nesse dia que Benilde recebeu da mão de sua mãe o retrato captado dois anos antes, qual prova do “crime” e só nesse dia Francisco teve oportunidade de apreciar a imagem de um ternurento momento. 

Durante muitos e muitos anos, Benilde e Francisco viveram uma intensa vida a dois, passando bons e maus momentos até que um dia partiram deixando para além da saudade a bela imagem de um jovem e feliz casal setubalense.
Outros tempos, outras realidades!... 

Rui Canas Gaspar
2020-abril-04


quarta-feira, 1 de abril de 2020


Depois das placas “propriedade privada” na Comenda temos agora mais na Arrábida 

Devido à pandemia a C.M.S. interdita o acesso ao Parque Urbano de Albarquel e à Arrábida e para agravar a situação mais placas com indicação de “propriedade privada” foram colocadas em torno da desativada Bataria do Outão .

Depois de cerca de dois anos de intensas discussões que envolveram diferentes intervenientes as negociações foram dadas por concluídas no final de dezembro passado e o multimilionário chinês  Jin Chang, dono da cadeia de hotéis de luxo  Xanadu, acabou por se tornar o novo dono desta importante parcela da Arrábida.

Conforme notícias anteriormente divulgadas na imprensa já era sabido que no local iria nascer um hotel de 6 estrelas.  A confirmação chega-nos agora e Setúbal irá ficar dotada de uma unidade hoteleira de arquitetura ímpar que será inspirada nas fortificações marítimas portuguesas.

Os postos de trabalho diretos e indiretos calculados para poderem fazer funcionar esta unidade, vocacionada para o turismo de luxo, serão de três centenas de pessoas as quais  começarão a ser recrutadas a partir de janeiro.

Até ao final do corrente ano os trabalhos estarão centralizados nos espaços exteriores e infraestruturas de apoio de forma a que em 2021 avance a construção da unidade hoteleira que segundo o investidor deverá ser inaugurada na passagem do ano de 2021/2022 .

A parte menos agradável da informação é que a estrada no alto da serra (onde normalmente se realiza a Rampa da Arrábida) passará ser acessível apenas no sentido poente/nascente exceção feita para viaturas que tenham como destino a unidade hoteleira as quais poderão transitar entre o entroncamento da Rasca e a antiga bataria.

Rui Canas Gaspar
Troineiro.blogspot.com

segunda-feira, 30 de março de 2020



O polícia Sinaleiro que ficou na memória

O açoreano que se veio radicar em Setúbal e aqui criou a sua família, ficou na memória de muitos setubalenses como um homem elegante, simpático, íntegro, cujo profissionalismo impressionava os pequenos e graúdos.

Porte atlético, tronco muito direito, na sua atividade de polícia sinaleiro os movimentos eram bem vincados e precisos, por isso não é de admirar que fossem muitos os setubalenses, crianças, jovens ou adultos, que ficavam alguns minutos no passeio para admirar a forma impecável como este polícia sinaleiro dirigia o trânsito, normalmente na Avenida 22 de Dezembro.

O Sr. Jacinto era pessoa de uma delicadeza extrema e quantas vezes não mandou ele parar o trânsito para dar o braço a uma senhora idosa ajudando-a a atravessar a rua. Mas o seu profissionalismo era de tal ordem que muitas vezes mesmo sem estar de serviço e notando que havia qualquer problema na fluidez automóvel ia para o meio da via e desbloqueava a situação.

A revolução de 25 de abril de 1974 estava no auge quando as maiores manifestações de jubilo que alguma vez ocorreram em Portugal foram vividas em Setúbal.

Naquele 1º dia de Maio de 1974 uma mulher setubalense foi junto do Sr. Jacinto, que como sempre cumpria a sua atividade ao serviço do trânsito na cidade e colocou-lhe um cravo vermelho na lapela, símbolo da revolução de abril.

No dia seguinte o Sr. Jacinto apresentou-se ao serviço, dirigindo o trânsito, impecavelmente fardado e de sapato a brilhar, mas com dito cravo na lapela.

Rui Canas Gaspar
2020-março-30